
{"id":10589,"date":"2018-08-19T00:09:15","date_gmt":"2018-08-19T03:09:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=10589"},"modified":"2018-06-25T08:14:10","modified_gmt":"2018-06-25T11:14:10","slug":"sao-joao-eudes-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/sao-joao-eudes-2\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Jo\u00e3o Eudes"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.eudistes.org\/brasil\/site%20eudista\/imagens\/cjm_ht6.jpg\" alt=\"\" width=\"326\" height=\"503\" \/><\/p>\n<p>19 de Agosto<\/p>\n<p>Fundou a Congrega\u00e7\u00e3o de Jesus e Maria e a Congrega\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor<br \/>\n&#8220;Irm\u00e3s do Bom Pastor&#8221;<\/p>\n<p><strong>Um Homem que arriscou na miseric\u00f3rdia.<\/strong><\/p>\n<p>Jo\u00e3o Eudes nasceu em Ri (Fran\u00e7a), a 14 de novembro de 1601.<br \/>\nFilho de um casal de bons normandos e fervorosos crist\u00e3os, recebeu desde crian\u00e7a a forma\u00e7\u00e3o que um lar com esse grau de excel\u00eancia podia dar ent\u00e3o. Uma inf\u00e2ncia muito normal, uma etapa de estudos bem completa no col\u00e9gio dos Jesu\u00edtas, e um processo de discernimento espiritual que o levar\u00e1 a optar pelo sacerd\u00f3cio na recentemente fundada Congrega\u00e7\u00e3o do Orat\u00f3rio, do Cardeal\u00a0 de B\u00e9rulle. A partir da\u00ed se iniciou uma fecunda vida de mission\u00e1rio que o levar\u00e1 por muitos caminhos da Fran\u00e7a, fazendo-o entrar em contato com a dolorosa realidade de um pa\u00eds crist\u00e3o em crise de f\u00e9 e permitindo-lhe se converter em mission\u00e1rio e profeta da miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Eudes, disc\u00edpulo tanto de B\u00e9rulle como de Francisco de Sales, abebera seu esp\u00edrito em ambas correntes teol\u00f3gicas, e delas alimentou a coerente espiritualidade que dar\u00e1 sentido a sua vida inteira e nutrir\u00e1 sua veia de escritor popular. Dessa dupla fonte se alimentou o riacho que come\u00e7ava a notar-se no jovem sacerdote oratoriano, que em breve se converter\u00e1 em uma poderosa torrente espiritual. Ambas fundar\u00e3o e estimular\u00e3o seu esp\u00edrito mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>Pe. Eudes parte de um princ\u00edpio unificador: o cuidado e ocupa\u00e7\u00e3o principal de todo batizado consiste em formar e estabelecer Jesus em n\u00f3s, e fazer que a\u00ed Ele viva e reine. Porque ser crist\u00e3o e ser santo \u00e9 uma mesma coisa. Mas coloca sempre, mesmo de modo latente, este &#8220;leitmotiv&#8221; espiritual sobre a tela de fundo de uma miseric\u00f3rdia comprometida e eficaz. Encontramos aqui uma coer\u00eancia radical entre vida concreta e doutrina espiritual, uma engrenagem perfeito entre a pr\u00f3pria experi\u00eancia existencial, o apostolado mission\u00e1rio, as funda\u00e7\u00f5es, a doutrina da miseric\u00f3rdia e a espiritualidade do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus e Maria.<\/p>\n<p>Por isso, n\u00e3o \u00e9 exagero afirmar que o eixo de todo seu projeto espiritual foi o conceito de miseric\u00f3rdia. Mesmo se explicitando de forma relativamente tardia em seus escritos, podemos dizer que ela marcou sua vida toda. Desde os in\u00edcios de seu minist\u00e9rio Jo\u00e3o Eudes sente, recebe e cumpre \u2013afetiva, mas real e comprometidamente- esta miseric\u00f3rdia em sua pr\u00f3pria vida e na dos demais. Ela d\u00e1 unidade a sua a\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica, impulsiona-o constantemente para ir al\u00e9m da mera sensibilidade diante da desgra\u00e7a e o encoraja a promover determinadas a\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias e funda\u00e7\u00f5es religiosas.<\/p>\n<p><strong>Evangelizado e evangelizador<\/strong><\/p>\n<p>Tinha aprendido a reconhecer em todas as partes a presen\u00e7a de Deus, inclusive na experi\u00eancia concreta e em todos os acontecimento. Nessa \u00e9poca n\u00e3o se falava de sinais dos tempos, mas Jo\u00e3o Eudes os entendia e vivia plenamente. Para ele um desses sinais foi sem duvida aquela peste de S\u00faez, em 1627. Ent\u00e3o, o jovem sacerdote, que apenas acabava de superar uma longa e dolorosa enfermidade que praticamente o tinha inutilizado, decidiu ir em aux\u00edlio de quem mais o necessitava -os empestados, abandonados de todo recurso espiritual- para levar-lhes os sacramentos, sinais da miseric\u00f3rdia de Deus. Foi este seu primeiro encontro com os pobres, os pequenos, os abandonados. Tr\u00eas anos mais tarde, em Caen, repetir-se-\u00e1 t\u00e3o dif\u00edcil experi\u00eancia. Ser\u00e3o ent\u00e3o mais fortes a caridade e o compromisso para com os irm\u00e3os sofredores que as raz\u00f5es de quem tentava dissuadi-lo do que parecia uma perigosa doidice.<\/p>\n<p>Estas primeiras atividades que realizou como sacerdote e como mission\u00e1rio eram gestos que falavam da miseric\u00f3rdia e faziam a miseric\u00f3rdia. Gestos significativos que j\u00e1 eram miss\u00e3o, uma prega\u00e7\u00e3o silenciosa daquelas que louvava Paulo VI na EN8. Gestos que o marcaram e o colocaram para sempre no caminho que desce de Jerusal\u00e9m a Jeric\u00f3. Dai em diante sua presen\u00e7a mission\u00e1ria ao lado de qualquer Jesus que sofre ir\u00e1 preenchendo de realismo sua espiritualidade e seu minist\u00e9rio.<\/p>\n<p>Todos os seus compromissos apost\u00f3licos ter\u00e3o rela\u00e7\u00e3o profunda com essa experi\u00eancia. O abismo de minhas mis\u00e9rias chama o abismo de suas miseric\u00f3rdias, exclama em seu Magnificat pessoal. Tendo experimentado, ele mesmo, a miseric\u00f3rdia de Deus em sua pr\u00f3pria vida, quis agradecer por ela dedicando-se a preg\u00e1-la e transmiti-la. Os caminhos mission\u00e1rios da Fran\u00e7a conservam ainda a lembran\u00e7a de seus passos. Desse fervor evangelizador, dessa paix\u00e3o pelo Reino, surgiria aquele outro elemento chave de sua espiritualidade que foi a devo\u00e7\u00e3o ao Cora\u00e7\u00e3o de Cristo, unido indissoluvelmente ao Cora\u00e7\u00e3o de Maria. Como algu\u00e9m tem escrito, Jo\u00e3o Eudes foi um homem de cora\u00e7\u00e3o e um homem do Cora\u00e7\u00e3o: nisto consiste sua m\u00e1xima contribui\u00e7\u00e3o ao cristocentrismo da escola beruliana.<\/p>\n<p><strong>O caminho <\/strong><strong>da miseric\u00f3rdia<\/strong><\/p>\n<p>Porque a hist\u00f3ria n\u00e3o fica na anedota. Apresentado-se um momento cr\u00edtico em pr\u00f3pria vida e hist\u00f3ria, Jo\u00e3o Eudes saberia arriscar definitivamente no caminho da miseric\u00f3rdia; e ao fazer assim, arriscaria pela santidade verdadeira. Pode ser dito que a miseric\u00f3rdia o fez mission\u00e1rio e o motivou a entregar sua vida inteira a um empenho que constituiu como que a coluna vertebral de seu minist\u00e9rio: desde 1627 a 1680, ano de sua morte, jamais soube o que \u00e9 descanso. Jo\u00e3o Eudes seria, antes de tudo e por cima de tudo, um sacerdote mission\u00e1rio, como gostava de assinar suas cartas.<\/p>\n<p>Esse incans\u00e1vel caminhar mission\u00e1rio -o an\u00fancio da Boa not\u00edcia que \u00e9 a presen\u00e7a da miseric\u00f3rdia na hist\u00f3ria dos homens-, n\u00e3o era se n\u00e3o uma verbaliza\u00e7\u00e3o daquela experi\u00eancia \u00edntima, inicial e continuada, da m\u00e1xima miseric\u00f3rdia divina: evangelizar -reitera a seus eudistas- \u00e9 anunciar ao homem, especialmente ao mais cheio de mis\u00e9rias -miser\u00e1vel- a boa not\u00edcia de que Deus o ama, que o leva em seu cora\u00e7\u00e3o de Pai e est\u00e1 disposto a jogar tudo para salv\u00e1-lo..<\/p>\n<p>O trato com as pessoas lhe tinha permitido conhecer bem de perto n\u00e3o s\u00f3 os v\u00edcios morais que pululavam em todos os recantos da sociedade sen\u00e3o tamb\u00e9m os profundos males que abatiam o Povo de Deus. Ele sabia bem quais eram as mis\u00e9rias dos miser\u00e1veis. Tinha sentido a dolorosa mis\u00e9ria humana e social das multid\u00f5es, a ignor\u00e2ncia religiosa dos que se diziam crentes e seu afastamento do aut\u00eantico compromisso crist\u00e3o; tinha experimentado tamb\u00e9m a situa\u00e7\u00e3o do clero, abatido pela ignor\u00e2ncia, a pobreza material e sua falta de esp\u00edrito apost\u00f3lico. Agu\u00e7ado por esta realidade, Pe. Eudes foi descobrindo seu pr\u00f3prio caminho &#8220;de Jerusal\u00e9m a Jeric\u00f3&#8221;. A paix\u00e3o pelo homem &#8211; &#8220;as almas&#8221;, diz ele, com a linguagem de sua \u00e9poca- o devora:<\/p>\n<p>&#8220;Se dependesse de mim, iria a Paris a gritar na Sorbone e demais col\u00e9gios: &#8220;\u00a1fogo, fogo!. Sim, o fogo do inferno est\u00e1 consumindo o universo. Venham senhores doutores, venham senhores bachar\u00e9is, venham senhores abades, venham todos os senhores eclesi\u00e1sticos e ajudem a apag\u00e1-lo&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Quando o zelo aperta<\/strong><\/p>\n<p>A partir desta perspectiva se entende melhor suas numerosas funda\u00e7\u00f5es. Porque ao estudar sua vida e sua obra descobrimos, cada vez melhor, como estas funda\u00e7\u00f5es constitu\u00edram, em quanto evangeliza\u00e7\u00e3o, aut\u00eanticas obras de miseric\u00f3rdia, ou seja, maneiras concretas de expressar sua op\u00e7\u00e3o definitiva pela miseric\u00f3rdia divina.<\/p>\n<p>Apelando a uma categoria moderna, podemos dizer que Jo\u00e3o Eudes tamb\u00e9m se deixou evangelizar &#8220;pelos pobres&#8221;, vale dizer, pelas prostitutas e os incont\u00e1veis homens e mulheres que vegetavam na morte devido a ningu\u00e9m lhes ter falado da Vida. Foi essa experi\u00eancia\u00a0 que ativou seu carisma de fundador. Bastaria recordar aquele epis\u00f3dio citado pelo Pe. Emile Georges, que opera nas ra\u00edzes da ordem de N.S. da Caridade.<\/p>\n<p>Pe. Eudes n\u00e3o era um fundador &#8220;profissional&#8221; mas um homem de Deus que ia respondendo, na medida de seus recursos, aos clamores da miseric\u00f3rdia, \u00e0s necessidades concretas de sua \u00e9poca, que para ele representavam aut\u00eanticas mensagens do Esp\u00edrito. Era um homem que sabia ler a a\u00e7\u00e3o de Deus inclusive nos fracassos, que se deixava interpelar seriamente pelos sinais de seu tempo, e cujo maior desejo era fazer eficaz a miseric\u00f3rdia. N\u00e3o existia em seus projetos nenhuma inten\u00e7\u00e3o moralizante: tinha de realiz\u00e1-los, simplesmente, porque Deus misericordioso assim queria; eram uma conseq\u00fc\u00eancia normal de seu seguimento de Cristo, e de sua aten\u00e7\u00e3o \u00e0 miseric\u00f3rdia do Pai: para ele se tratava s\u00f3 de cristificar o ser humano, sobre tudo aqueles cuja imagem de Deus estava mais deteriorada pelo pecado ou pela mis\u00e9ria.<\/p>\n<p>\u00c9 precisamente em 1644, ano em que se consolidava na Fran\u00e7a o rigorismo jansenista, quando Jo\u00e3o Eudes funda a Ordem de N.S. da Caridade, coincidindo com uma tomada de consci\u00eancia cada vez mais viva do que \u00e9 essa miseric\u00f3rdia divina. Tem feito a descoberta, de uma maneira concreta, que Deus ama e, porque ama, salva\u00a0 perdoa. Sente-se chamado a ser pessoalmente instrumento desse amor salvador em um dos campos mais dramaticamente esquecidos da pastoral da \u00e9poca: a prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m no nascimento da Congrega\u00e7\u00e3o de Jesus e Maria (Eudistas) h\u00e1 uma experi\u00eancia de miseric\u00f3rdia; lhe do\u00eda intensamente a Igreja, lhe do\u00edam as pessoas que andavam &#8220;como ovelhas sem pastor&#8221;; e se deixou interpelar pelo amor de Deus que, em Jesus, vem &#8220;salvar o que estava perdido&#8221;. Express\u00e3o \u00faltima e acabada da miseric\u00f3rdia do Pai. Se &#8220;uma pessoa vale mais que mil mundos&#8221;, \u00e9 necess\u00e1rio que algu\u00e9m se dedique de tempo completo a formar a quem deve salv\u00e1-la. Urgido por t\u00e3o angustiantes convic\u00e7\u00f5es, decide abandonar o Orat\u00f3rio para fundar sua pequena congrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Formar o clero era s\u00f3 uma maneira de colocar-se no caminho da miseric\u00f3rdia que salva e que necessita de canais dignos dessa tarefa. Em uma carta ao Pe. Manoury, primeiro formador dos novos eudistas, Pe. Eudes se expressava:<\/p>\n<p>&#8220;Cuide de form\u00e1-los no Esp\u00edrito de Nosso Senhor, que \u00e9 esp\u00edrito de desprendimento e de ren\u00fancia a tudo e a si mesmo; esp\u00edrito de submiss\u00e3o e abandono \u00e0 divina vontade manifestada pelo evangelho e pelas regras da congrega\u00e7\u00e3o&#8230;, esp\u00edrito de puro amor a Deus&#8230;, esp\u00edrito de devo\u00e7\u00e3o singular a Jesus e Maria&#8230;, esp\u00edrito de amor \u00e0 cruz de Jesus ou seja ao desprezo, \u00e0 pobreza e ao sofrimento&#8230;, esp\u00edrito de \u00f3dio e horror a todo pecado&#8230;, esp\u00edrito de caridade fraterna e cordial ao pr\u00f3ximo, aos da congrega\u00e7\u00e3o, aos pobres&#8230;, esp\u00edrito de amor, respeito e estima pela Igreja&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Mestre <\/strong><strong>da miseric\u00f3rdia<\/strong>Porque nosso santo n\u00e3o se contenta com ser, ele mesmo, coerente; seu desejo \u00e9 que todos os crist\u00e3os se deixem preencher por esse esp\u00edrito da miseric\u00f3rdia divina, seu anseio \u00e9 que todos os batizados, especialmente os sacerdotes, sejam tamb\u00e9m &#8220;mission\u00e1rios da miseric\u00f3rdia&#8221;. A paix\u00e3o pelo reinado de Jesus nos cora\u00e7\u00f5es dos homens, realmente o devora. Conhecendo bem a penosa situa\u00e7\u00e3o, moral e espiritual, do clero e do povo crist\u00e3o da \u00e9poca, percebe e sente em todo seu ser a urg\u00eancia da evangeliza\u00e7\u00e3o e da forma\u00e7\u00e3o de bons oper\u00e1rios para levar adiante um servi\u00e7o eficaz do evangelho. A essa dupla tarefa dedica o melhor de seus esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>Naquele mesmo ano de 1644, quando, por um lado, se consolida o jansenismo e, por outro, ele funda N. S. de a Caridade, Pe. Eudes conclui seus Conselhos aos confessores; trata-se de um curto escrito que resume aquele delicado sentido de caridade pastoral que o Vaticano II e, mais recentemente, Jo\u00e3o Paulo II, retomando uma densa heran\u00e7a patr\u00edstica, tem apresentado como nota constitutiva do verdadeiro pastor segundo o Cora\u00e7\u00e3o de Cristo. Ali Jo\u00e3o Eudes nos deixa uma de suas escassas confid\u00eancias pessoais:<\/p>\n<p>&#8220;Conhe\u00e7o muito bem algu\u00e9m que tem sido escolhido pela divina miseric\u00f3rdia para trabalhar na convers\u00e3o dos pecadores; encontrando-se perplexo sobre como devia conduzir-se com eles, se usar de bondade ou de rigor, se misturar os dois&#8230;, recorreu na ora\u00e7\u00e3o \u00e0 Sant\u00edssima Virgem, seu habitual ref\u00fagio. Antes que tivesse comunicado a algu\u00e9m suas inquieta\u00e7\u00f5es, a M\u00e3e das Miseric\u00f3rdias lhe inspirou atrav\u00e9s de um mensageiro: quando pregares usa as armas poderosas e terr\u00edveis da Palavra de Deus para combater, destruir e esmagar o pecado nas pessoas, mas quando te encontrares com o pecador, fala-lhe com bondade, benignidade, paci\u00eancia e caridade&#8221;.<\/p>\n<p>Por isso, recomenda aos confessores acolher e tratar o penitente &#8220;com um cora\u00e7\u00e3o verdadeiramente paternal, quer dizer, com uma grande cordialidade, benignidade e compaix\u00e3o&#8221;, e incit\u00e1-lo \u00e0 confian\u00e7a. E explica:<\/p>\n<p>&#8220;com entranhas de miseric\u00f3rdia e com o cora\u00e7\u00e3o cheio de amor a quantos se apresentarem para a confiss\u00e3o, sem fazer acep\u00e7\u00e3o de pessoas nem agir com prefer\u00eancias, salvo quando se tratar de enfermos ou inv\u00e1lidos, de mulheres gr\u00e1vidas ou que est\u00e3o criando seus filhos, daqueles que v\u00eam de longe&#8230;&#8221;. &#8220;Se aparecer temeroso e com alguma desconfian\u00e7a de obter o perd\u00e3o de seus pecados, deve levantar-lhe o \u00e2nimo e fortalec\u00ea-lo, fazendo-lhe ver que Deus tem um grande desejo de perdo\u00e1-lo; que se alegra muito com a penit\u00eancia dos grandes pecadores; que quanto maior \u00e9 nossa mis\u00e9ria, mais glorificada \u00e9 em n\u00f3s a miseric\u00f3rdia de Deus; que Nosso Senhor tem orado a seu Pai pelos que o tem crucificado, para ensinar-nos que, mesmo sendo crucificado com nossas pr\u00f3prias m\u00e3os, perdoaria-nos muito espontaneamente se lhe ped\u00edssemos&#8221;.<\/p>\n<p>Neste ponto a gente se sente bem longe do rigorismo agostiniano e jansenista. Apelando a um lugar comum podemos afirmar que o &#8220;zelo pela salva\u00e7\u00e3o das almas&#8221; realmente o devorava. Esta express\u00e3o -que hoje \u00e9 pouco aceita pois se entende melhor que o ser humano n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 alma e que Deus salva a pessoa toda- traduz bem a qualidade apost\u00f3lica de santos como Jo\u00e3o Eudes. Sem considerar que a import\u00e2ncia dada por ele ao compromisso concreto nos permite captar em seu pensamento uma intui\u00e7\u00e3o do que na linguagem b\u00edblica significava a &#8220;alma&#8221;: n\u00e3o a parte espiritual em confronto com o corpo -o material- mas a identidade total do homem, mat\u00e9ria e esp\u00edrito, tal como tem sa\u00eddo das m\u00e3os de Deus.<\/p>\n<p><strong>Encarnados<\/strong><strong> com o Encarnado<\/strong>Est\u00e1 claro que existe uma significativa dist\u00e2ncia cultural entre o s\u00e9culo XVII franc\u00eas e nossa \u00e9poca, em quanto ao sentido da palavra miseric\u00f3rdia. Conv\u00e9m precisar esta diferen\u00e7a na hora de apresentar a mensagem eudiana se queremos que seja captada a plenitude pelos homens de nosso tempo. Hoje o seu significado se tem empobrecido at\u00e9 tal ponto que parece ser um simples sin\u00f4nimo de pena ou de piedade para com o culp\u00e1vel.<\/p>\n<p>Para Jo\u00e3o Eudes, de modo diferente, miseric\u00f3rdia era mansid\u00e3o, clem\u00eancia, paci\u00eancia e compreens\u00e3o frente \u00e0 falha do outro, mas sobretudo amor, piedade, generosidade. A miseric\u00f3rdia era zelo pela causa do homem, um intenso sentimento de piedade, generosidade; n\u00e3o mera comisera\u00e7\u00e3o ante o sofrimento do outro, mas express\u00e3o plena e comprometida de um amor que trata de levar a todos uma salva\u00e7\u00e3o eficaz, concreta, mas ao estilo de Deus. Assim o expressaria em um texto c\u00e9lebre, sobre o qual voltamos reiteradamente:<\/p>\n<p>&#8220;Tr\u00eas coisas se requerem para que haja miseric\u00f3rdia. A primeira \u00e9 ter compaix\u00e3o da mis\u00e9ria do outro, pois misericordioso \u00e9 quem leva em seu cora\u00e7\u00e3o as mis\u00e9rias dos miser\u00e1veis. A segunda consiste em ter uma vontade decidida de socorr\u00ea-los em suas mis\u00e9rias. A terceira \u00e9 passar da vontade \u00e0 a\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Como veremos em detalhe depois, Jo\u00e3o Eudes ap\u00f3ia sua doutrina sobre a miseric\u00f3rdia naquele profundo sentido da encarna\u00e7\u00e3o de Deus t\u00e3o caro aos mestres da espiritualidade beruliana. Exclama: &#8220;nosso Redentor se encarnou para exercer deste modo sua miseric\u00f3rdia conosco&#8221;, quer dizer, para passar da miseric\u00f3rdia do Cora\u00e7\u00e3o de Deus \u00e0 miseric\u00f3rdia das a\u00e7\u00f5es salvadoras.<\/p>\n<p>A mensagem resulta evidente: Jesus personifica a miseric\u00f3rdia divina, a miseric\u00f3rdia ativa e viva de um Deus que vem salvar os mal-feridos do caminho a Jeric\u00f3. Na pessoa de Jesus, Deus se aproxima gratuitamente de quem est\u00e1 em desgra\u00e7a e \u00e9 incapaz de libertar-se a si mesmo. Jesus \u00e9 o Cora\u00e7\u00e3o humano de Deus &#8211; belo achado teol\u00f3gico eudiano &#8211; que tem assumido todas as nossas mis\u00e9rias para libertar-nos delas.<\/p>\n<p>\u00c9 essa mesma atitude &#8211; &#8220;levar no cora\u00e7\u00e3o&#8221; &#8211; que Deus nos pede diante do pr\u00f3ximo. Jo\u00e3o Eudes reitera, sob diversas formas, ao longo de suas obras: n\u00e3o h\u00e1 outra forma de viver o amor misericordioso de Jesus. Ela traduz e resume uma experi\u00eancia fundamental que testemunha tudo mais: ser crist\u00e3o \u00e9 ser capaz de abrir-se suficientemente, desde o mais profundo, para acolher na pr\u00f3pria vida o &#8220;outro&#8221;: Deus, pr\u00f3ximo, e, particularmente, quem experimenta qualquer tipo de mis\u00e9ria. Um cora\u00e7\u00e3o autenticamente crist\u00e3o \u00e9 aquele que, sobretudo, sabe receber e acolher um Deus essencialmente gratuito, mas que, com Deus e como Deus, sabe acolher tamb\u00e9m as mis\u00e9rias dos demais de tal modo que o impressionem, o habitem no mais profundo de seu ser, e o dinamizem para uma a\u00e7\u00e3o comprometida e coerente.<\/p>\n<p><strong>Nas m\u00e3os<\/strong><strong> da Gra\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Por isso, a n\u00edvel de meios, longe de todo del\u00edrio prometeico e de toda pretens\u00e3o voluntarista, Jo\u00e3o Eudes entende que nessa tarefa, inc\u00f4moda e dif\u00edcil, o primeiro \u00e9 a gra\u00e7a de Deus, pois tudo depende dele que \u00e9 quem age em n\u00f3s:<\/p>\n<p>&#8220;O que somos n\u00f3s, meus irm\u00e3os, para que Deus nos empregue em t\u00e3o sublimes minist\u00e9rios? Para se dignar a escolher a n\u00f3s, miser\u00e1veis pecadores como instrumentos de suas divinas miseric\u00f3rdias?&#8221;.<\/p>\n<p>Da\u00ed sua insist\u00eancia na ora\u00e7\u00e3o constante. Por\u00e9m, longe de qualquer del\u00edrio pietista, sublinha tamb\u00e9m a necessidade de &#8220;p\u00f4r sempre toda a carne na grelha&#8221;: \u00e9 necess\u00e1rio entregar-se \u00e0 tarefa, trabalhando como se tudo dependesse de n\u00f3s, trabalhando de todo cora\u00e7\u00e3o, pelo exemplo -testemunho- e pela efic\u00e1cia da a\u00e7\u00e3o. Temos de deixar que, diante dos problemas que abatem o pr\u00f3ximo, nosso cora\u00e7\u00e3o se estreme\u00e7a de amor at\u00e9 o ponto de n\u00e3o restar outro rem\u00e9dio que passar \u00e0 a\u00e7\u00e3o em busca de al\u00edvio. Trata-se de amar at\u00e9 a dor. Porque o dar da verdadeira miseric\u00f3rdia n\u00e3o \u00e9 assunto de simples quantidade, mas de qualidade, de uma atitude vital com a qual partilha com os demais. O importante n\u00e3o \u00e9 dar coisas mas dar a si mesmo.<\/p>\n<p>Para nosso homem esta \u00e9 a forma privilegiada de glorificar a Deus. Como mission\u00e1rio, como formador de sacerdotes e como fundador de Institutos religiosos, soube sublinhar a uni\u00e3o estreita que existe entre a miseric\u00f3rdia de Deus, nosso compromisso crist\u00e3o e a virtude de religi\u00e3o: o aut\u00eantico culto deriva em zelo apost\u00f3lico e este se expressa com sinais de miseric\u00f3rdia porque -afirma- anunciar o evangelho \u00e9 simplesmente anunciar a miseric\u00f3rdia de Deus, e este an\u00fancio tem de faz\u00ea-lo com palavras claras e obras coerentes. Evangelizar \u00e9 anunciar aos &#8220;miser\u00e1veis&#8221; a boa not\u00edcia de que Deus os ama, que os &#8220;leva em seu cora\u00e7\u00e3o&#8221;; para isto o mission\u00e1rio s\u00f3 tem um caminho: lev\u00e1-los em seu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Deste modo o Pai \u00e9 glorificado. Por isso se atreve a exclamar:<\/p>\n<p>&#8220;Nada desejo pessoalmente, mas se Deus me exigisse expressar meu querer, escolheria seguir vivendo indefinidamente, para ajudar a salvar as almas&#8221;.<\/p>\n<p>A partir desta convic\u00e7\u00e3o, Jo\u00e3o Eudes o m\u00edstico se faz ativo, o contemplativo se converte em mission\u00e1rio, testemunha e fundador. Porque se trata de &#8220;passar da vontade ao fato&#8221;. N\u00e3o bastam os belos sentimentos e as formosas palavras. Deve-se passar do &#8216;levar as mis\u00e9rias alheias no cora\u00e7\u00e3o&#8221;, aos efeitos concretos da miseric\u00f3rdia. Escutando-o evocamos Tiago: uma f\u00e9 sem obras \u00e9 uma f\u00e9 morta. Ele entendia bem que estamos radicalmente a servi\u00e7o da miseric\u00f3rdia de Deus, que somos os verdadeiros anjos de Deus: somos as m\u00e3os, os p\u00e9s, o cora\u00e7\u00e3o do Deus salvador, porque &#8220;Deus n\u00e3o tem mais m\u00e3os que as nossas&#8221;, como falara lindamente Teresa d\u2019\u00c1vila.<\/p>\n<p>Em resumo, evangeliza\u00e7\u00e3o, zelo e miseric\u00f3rdia, s\u00e3o as tr\u00eas dimens\u00f5es, fundamentais e inter-relacionadas, de seu pensamento e de sua a\u00e7\u00e3o ministerial inteira. Nesta perspectiva orienta o minist\u00e9rio do mission\u00e1rio.<\/p>\n<p><strong>Espiritualidad<\/strong><strong>e da encarna\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Para tanto, n\u00e3o podemos acusar o pensamento eudiano de espiritualista, como se n\u00e3o lhe importassem sen\u00e3o as coisas espirituais, esquecendo as necessidades materiais do povo. De fato ele estava muito consciente destas mis\u00e9rias humanas e sociais, mas as via como uma express\u00e3o, um sintoma e uma conseq\u00fc\u00eancia da mis\u00e9ria mais profunda e radical e a raiz de todas as demais mis\u00e9rias, que \u00e9 o pecado. Por isso, a &#8220;mais divina de todas as coisas divinas \u00e9 salva\u00e7\u00e3o das almas&#8221;.<\/p>\n<p>Como normando sens\u00edvel, pr\u00e1tico e eficiente, ensina que \u00e9 a trav\u00e9s de n\u00f3s que o Cristo quer realizar sua miseric\u00f3rdia salvadora. Mesmo vivendo em um denso mundo espiritual, entendia que a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o \u00e9 uma no\u00e7\u00e3o abstrata, mas a presen\u00e7a real, muito real, de Deus encarnado no mundo dos homens, nos acontecimentos cotidianos.<\/p>\n<p>Andr\u00e9 Pioger sublinha como seus contempor\u00e2neos se sentiam comovidos por esta atitude testemunhal do pequeno grande santo:<\/p>\n<p>&#8220;Inclusive fora de Caen, Jo\u00e3o Eudes se interessa vivamente pelos enfermos. Quando realiza a miss\u00e3o nas grandes cidades estabelece casas de ref\u00fagio para os pobres e os enfermos; acomoda os idosos e os que est\u00e3o em m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o&#8230; Em Autun, em 1647, faz reparar o hospital Dos Transeuntes e decide aa constru\u00e7\u00e3o de um novo para os enfermos e para alojar ali os pobres m\u00e9dicos&#8230; Onde n\u00e3o cria hospitais visita sempre os que j\u00e1 existiam&#8230; Porque n\u00e3o quer s\u00f3 socorrer materialmente mas dedicar-se a cultivar as almas&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Obviamente, Jo\u00e3o Eudes vive as id\u00e9ias de sua \u00e9poca. Por isso sua concep\u00e7\u00e3o da miss\u00e3o, que obedecia a uma mentalidade de nova cristandade, difere de outras mais modernas, nas que se enfatiza mais o compromisso estrutural que as &#8220;obras de miseric\u00f3rdia&#8221;. N\u00e3o podemos pedir a um homem do s. XVII, por mais santo que fosse, que tivesse as id\u00e9ias de um mission\u00e1rio post-Vaticano II. O importante \u00e9 ver como ele, ao seu modo, n\u00e3o separava jamais aquelas quatro dimens\u00f5es da miss\u00e3o, que citava Paulo VI na Evangelii Nuntiandi: o compromisso, o an\u00fancio, o testemunho e a den\u00fancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o fazia do trabalho pelos pobres um simples compromisso social, porque o dele era servir ao Reinado de Jesus nos homens, tamb\u00e9m n\u00e3o convertia sua prega\u00e7\u00e3o em um desencarnado an\u00fancio de verdades abstratas ou de &#8220;eslogans&#8221; ideol\u00f3gicos. Por outra parte, aparece clara sua convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o se tratava de mais um trabalho social, que podia favorecer a evangeliza\u00e7\u00e3o, de uma pre-evangeliza\u00e7\u00e3o como se diz \u00e0s vezes, mas de uma verdadeira evangeliza\u00e7\u00e3o dado que sua finalidade era a convers\u00e3o a Cristo. E quando tinha que enfrentar os respons\u00e1veis de qualquer sofrimento injusto, mesmo que fosse o rei ou a rainha, o fazia com clareza, valentia e miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Sua pr\u00f3pria concep\u00e7\u00e3o da grandeza do minist\u00e9rio sacerdotal n\u00e3o obedecia a crit\u00e9rios de poder ou grandeza humana -esses que hoje tanto chocam \u00e0 teologia moderna- mas \u00e0 convic\u00e7\u00e3o de que o sacerdote, enquanto tal, tem, como tarefa quase exclusiva, ser mission\u00e1rio e tesoureiro do Pai das miseric\u00f3rdias. Por isso sentia a urg\u00eancia de contagiar os irm\u00e3os sacerdotes com ardor inflamado de sua pr\u00f3pria experi\u00eancia mission\u00e1ria. Escreve, por exemplo, durante a miss\u00e3o de Vatesville:<\/p>\n<p>&#8220;S\u00e3o maravilhosos os frutos que recolhem os confessores. Mas o que nos aflige \u00e9 que nem a quarta parte se poder\u00e1 confessar. Estamos abrumados. (&#8230;) O que est\u00e3o fazendo em Paris tantos doutores e bachar\u00e9is, enquanto as almas perecem por milhares, porque ningu\u00e9m lhes estende uma m\u00e3o para retir\u00e1-las da perdi\u00e7\u00e3o?&#8221;.<\/p>\n<p>A dram\u00e1tica experi\u00eancia de sua pr\u00f3pria vida, somada \u00e0 constata\u00e7\u00e3o dos ingentes problemas que viviam o mundo e a Igreja, alimentaram sem d\u00favida seu pessimismo diante das reais possibilidades do homem. Mesmo assim, soube propor e manter uma proposta de vida crist\u00e3 sempre equilibrada e s\u00e3, ainda que exigente. Por isso, a Jo\u00e3o Eudes se pode aplicar o que ele mesmo escrevera de Maria: contemplou, amou e levou em seu cora\u00e7\u00e3o o Cora\u00e7\u00e3o de Cristo, at\u00e9 fazer-se\u00a0 um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o com ele.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m ele se deixou habitar e dinamizar pelo Cora\u00e7\u00e3o de Deus, que \u00e9 Cristo. Foi este Cora\u00e7\u00e3o que o conduziu at\u00e9 seus irm\u00e3os e irm\u00e3s necessitados; foi este Cora\u00e7\u00e3o que o lan\u00e7ou, sem descanso, pelos caminhos da miss\u00e3o; e foi este mesmo cora\u00e7\u00e3o que lhe permitiu posicionar seu carisma e sua miss\u00e3o entre a mis\u00e9ria do homem e a miseric\u00f3rdia do Deus-Amor que quer que todo homem se salve.<\/p>\n<p><strong>O pre\u00e7o<\/strong><strong> era a cruz<\/strong><\/p>\n<p>Parecia inevit\u00e1vel que por essa op\u00e7\u00e3o devesse pagar um alto pre\u00e7o em lutas dolorosas, dentro daquele contexto hist\u00f3rico t\u00e3o complexo; e o pagou com inteireza, galhardia e equanimidade:<\/p>\n<p>&#8220;Se temos de suportar alguma mol\u00e9stia ou fadiga n\u00e3o \u00e9 para desanimar-nos ou queixar-nos por t\u00e3o pouca coisa. Inclusive se tiv\u00e9ssemos de enfrentar a morte, n\u00e3o dever\u00edamos acaso considerar-nos imensamente afortunados?&#8221;.<\/p>\n<p>Seu abandono do Orat\u00f3rio lhe trouxe a censura de muitos de seus antigos irm\u00e3os, e sua luta contra o rigor desmedido do jansenismo lhe acarretou tormentas e horas muito dif\u00edceis. Mas ele n\u00e3o recusa a cruz, demonstrando assim at\u00e9 que ponto seu arriscar-se pela miseric\u00f3rdia era aut\u00eantico e comprometido:<\/p>\n<p>&#8220;A divina miseric\u00f3rdia me tem feito passar por numerosas tribula\u00e7\u00f5es, este tem sido um dos mais insignes favores que dela tenho recebido, porque me t\u00eam sido extremamente \u00fateis, e Deus me tem livrado sempre delas&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda mais, para ele essas persegui\u00e7\u00f5es n\u00e3o eram simples cruz mas o posicionavam no caminho da miseric\u00f3rdia divina:<\/p>\n<p>&#8220;Depois de uma desola\u00e7\u00e3o de seis anos, o Pai das miseric\u00f3rdias e Deus de todo consolo se tem dignado enxugar minhas l\u00e1grimas e mudar minha amargura em regozijo incr\u00edvel. Seja por isso louvado e bendito eternamente&#8221;.<\/p>\n<p>Estava consciente, assim escreveria mais tarde, de que n\u00e3o h\u00e1 reden\u00e7\u00e3o sem sangue; por isso via no mart\u00edrio &#8220;o \u00e1pice, a perfei\u00e7\u00e3o e culmin\u00e2ncia da vida crist\u00e3&#8230; o milagre mais insigne que Deus realiza nos crist\u00e3os&#8230;, o favor mais destac\u00e1vel que Cristo faz aos que ama&#8230; Nos m\u00e1rtires resplandece com prefer\u00eancia o poder admir\u00e1vel de seu divino amor&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p>Coerentemente, pediria com insist\u00eancia essa gra\u00e7a; testemunho disso \u00e9 o formoso &#8220;Voto de Mart\u00edrio&#8221; que nos legou. N\u00e3o lhe foi concedida tal gra\u00e7a, mas recebeu outra talvez maior: tornar-se mission\u00e1rio e profeta da miseric\u00f3rdia de Deus. Por isso, no entardecer de sua vida p\u00f4de exclamar:<\/p>\n<p>&#8220;Mesmo estando j\u00e1 velho (74 anos), prego quase todos os dias, confesso, e atendo infinidade de assuntos. Todas estas fadigas nada custam quando se tem o consolo de ver como os povos correspondem ao que se faz por sua salva\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Dessa maneira, Jo\u00e3o Eudes se revela como um aut\u00eantico profeta da miseric\u00f3rdia, em uma \u00e9poca em que se impunham tantas correntes rigoristas. A partir dessa paix\u00e3o que o devorava delineou um caminho de santidade baseado na m\u00edstica do amor comprometido. Nele, a miss\u00e3o e o minist\u00e9rio aparecem como as duas faces da exist\u00eancia crist\u00e3, um la\u00e7o concreto e vis\u00edvel entre o amor de Deus e a mis\u00e9ria humana. Isso sintetiza todo seu projeto espiritual e mission\u00e1rio.<\/p>\n<p>Coube a Jo\u00e3o Eudes a gl\u00f3ria de ter sido o precursor do culto da devo\u00e7\u00e3o dos sagrados cora\u00e7\u00f5es de Jesus e de Maria. Para isso, ele pr\u00f3prio comp\u00f4s missas e of\u00edcios, festejando, pela primeira vez, com um culto lit\u00fargico do Cora\u00e7\u00e3o de Maria em 1648, e do Cora\u00e7\u00e3o de Jesus em 1672. Hoje, essas venera\u00e7\u00f5es fazem parte do calend\u00e1rio da Igreja.<\/p>\n<p>Morreu em Caen, norte da Fran\u00e7a, no dia 19 de agosto de 1680,quando expirava repetindouma outra vez: &#8220;Jesus \u00e9 meu todo&#8221;,\u00a0deixando uma obra escrita de grande valor teol\u00f3gico pela clareza e profundidade. Foi canonizado pelo papa Pio XII em 1925. A festa de s\u00e3o Jo\u00e3o Eudes comemora-se no dia de sua morte.<\/p>\n<p><strong>Sauda\u00e7\u00e3o de s\u00e3o Jo\u00e3o Eudes ao Cora\u00e7\u00e3o de Jesus e de Maria<\/strong><strong> <\/strong><\/p>\n<h2>\u00a0<\/h2>\n<h2>Salve, Cora\u00e7\u00e3o sant\u00edssimo,<\/h2>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o manso,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o humilde,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Salve,\u00a0 Cora\u00e7\u00e3o puro,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o entregue<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o s\u00e1bio<\/strong><\/p>\n<p><strong>Salve, Cora\u00e7\u00e3o paciente,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o obediente<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o vigilante ;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Salve, Cora\u00e7\u00e3o fiel,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o feliz,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Cora\u00e7\u00e3o misericordioso ;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Salve, Cora\u00e7\u00e3o muito amoroso de Jesus e de <\/strong><\/p>\n<p><strong>Maria.<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s te adoramos,<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s te louvamos,<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s te glorificamos, <\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s te damos gra\u00e7as,<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s te amamos<\/strong><\/p>\n<p><strong>de todo o nosso cora\u00e7\u00e3o,<\/strong><\/p>\n<p><strong>de toda a nossa alma, <\/strong><\/p>\n<p><strong>com todas as nossas for\u00e7as ;<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s te oferecemos o nosso cora\u00e7\u00e3o,<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s o entregamos,<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s o consagramos,<\/strong><\/p>\n<p><strong>N\u00f3s o sacrificamos.<\/strong><\/p>\n<p><strong>Aceita-o e possui-o totalmente ;<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Purifica-o,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Ilumina-o,<\/strong><\/p>\n<p><strong>Santifica-o, <\/strong><\/p>\n<p><strong>Para que nele vivas e reines,agora, sempre e por toda a eternidade.<\/strong><\/p>\n<p><strong>AM\u00c9M<\/strong><strong>.<\/strong><\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-10589\" data-postid=\"10589\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-10589 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19 de Agosto Fundou a Congrega\u00e7\u00e3o de Jesus e Maria e a Congrega\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor &#8220;Irm\u00e3s do Bom Pastor&#8221; Um Homem que arriscou na miseric\u00f3rdia. Jo\u00e3o Eudes nasceu em Ri (Fran\u00e7a), a 14 de novembro de 1601. 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