
{"id":1421,"date":"2009-01-15T10:11:42","date_gmt":"2009-01-15T12:11:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=1421"},"modified":"2009-01-15T10:16:33","modified_gmt":"2009-01-15T12:16:33","slug":"dom-helder-acusacoes-e-defesas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/dom-helder-acusacoes-e-defesas\/","title":{"rendered":"Dom Helder: Acusa\u00e7\u00f5es e defesas"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e1rcio de Souza Porto *<\/p>\n<p>Em 1970, um boletim interno, mimeografado, do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB, presidido por Dom Jos\u00e9 de Medeiros Delgado, sob o t\u00edtulo de \u2018Dom Helder Camara: acusa\u00e7\u00f5es e defesas\u2019 fez um apanhado de not\u00edcias e artigos publicados nos grandes jornais do Brasil, a respeito de Dom Helder, desde maio daquele ano. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s acusa\u00e7\u00f5es, logo no in\u00edcio do boletim, vem assinalado que:<\/p>\n<p>A imprensa brasileira vem desencadeando uma intensa campanha contra a pessoa de D. Helder Camara, Arcebispo de Olinda e Recife. Fatos comprobat\u00f3rios estamos a encontrar diariamente nas p\u00e1ginas dos grandes jornais do pa\u00eds, numa prova concreta de que o Arcebispo estaria sendo tolhido nas suas manifesta\u00e7\u00f5es. (1)<\/p>\n<p>A primeira not\u00edcia reproduzida pelo citado boletim foi publicada no jornal &#8220;O Estado de S\u00e3o Paulo&#8221;, em 30 de maio de 1970 e \u00e9 assinada por Gustavo Cor\u00e7\u00e3o. O articulista ironiza a homenagem recebida por Dom Helder na Universidade de Louvain, na Fran\u00e7a, ao ser agraciado com o t\u00edtulo de doutor honoris causa daquela institui\u00e7\u00e3o de ensino superior de origem cat\u00f3lica. Em linguagem r\u00edspida, Cor\u00e7\u00e3o busca desqualificar todo e qualquer apoio recebido por Dom Helder em solo franc\u00eas e diz textualmente:<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 perigo. O Sr. C\u00e2mara n\u00e3o completou ainda a rede de viagens que sonhou, e ainda n\u00e3o percorreu todas as prostitu\u00eddas Universidades ex-cat\u00f3licas que lhe trar\u00e3o uma bandeja, para ser cuspido, o t\u00edtulo de doutor &#8220;honoris causa&#8221;. (2)<\/p>\n<p>Gustavo Cor\u00e7\u00e3o sentia-se incomodado por Dom Helder ter sido recebido no &#8220;Palais des Sports&#8221;, sob aplausos de 15 mil pessoas, a convite do ent\u00e3o bispo de Lyon, Dom Alexandre Renard, onde fizera confer\u00eancia inclusive com a participa\u00e7\u00e3o de representantes das Igrejas Reformada, Apost\u00f3lica da Arm\u00eania, Ortodoxa Grega e Luterana. Dom Helder era combatido tamb\u00e9m por jornalistas franceses, como no caso de Jean Marc Kalfleche, do peri\u00f3dico Combat, em artigo reproduzido pelo &#8220;Estado de S\u00e3o Paulo&#8221; em 3 de julho de 1970. Na abertura do artigo, depois de dizer que seu intuito era reduzir Dom Helder \u00e0s suas verdadeiras propor\u00e7\u00f5es, ataca fortemente o ent\u00e3o Arcebispo de Olinda e Recife, dizendo:<\/p>\n<p>Dom Helder C\u00e2mara desapontou um pouco seus admiradores franceses, com exce\u00e7\u00e3o daqueles que possuem a f\u00e9 do carvoeiro, isto \u00e9 uma f\u00e9 simples e ing\u00eanua. O fato \u00e9 que o Arcebispo de Recife mostra-se bastante diferente de sua caricatura fraudulenta divulgada pela boa imprensa. O que \u00e9 esse rato de Igreja, pretensamente vermelho, que n\u00e3o canta a gl\u00f3ria de S. Camilo Torres, nem o mart\u00edrio dos \u00edndios assados no espeto? Dom Helder n\u00e3o consegue iludir com seu simplismo que s\u00f3 produz boas manchetes. (3)<\/p>\n<p>O jornal &#8220;O Globo&#8221; de 11 de julho de 1970 reproduziu os principais momentos de uma confer\u00eancia pronunciada por Gustavo Cor\u00e7\u00e3o no Conselho T\u00e9cnico da Confer\u00eancia Nacional do Com\u00e9rcio em que afirmava que o Brasil estava em guerra. Numa guerra cujas fontes, origens e causas poderiam ser encontradas na Fran\u00e7a, no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930. Sendo Paris o centro de uma disputa entre um humanismo e um desumanismo e que os meios de comunica\u00e7\u00e3o e publicidade estavam nas m\u00e3os daqueles que defendiam a guerra revolucion\u00e1ria, concluindo que n\u00e3o era de admirar a exist\u00eancia de uma propaganda tendenciosa de correntes que tentavam denegrir a imagem do governo brasileiro no exterior. Diz ainda que ao contr\u00e1rio do que se pensava n\u00e3o fora Dom Helder o primeiro a se levantar contra o Brasil no exterior, mas os provinciais dominicanos que publicaram na &#8220;Documenta\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica&#8221; uma carta lamentando o que estava acontecendo no pa\u00eds e ao mesmo tempo se solidarizando com os sacerdotes correligion\u00e1rios presos pelo Governo brasileiro.<\/p>\n<p>Dom Helder era atacado por padres, bispos, deputados, jornalistas nacionais e estrangeiros e Arcebispos, como no caso de dom Vicente Scherer, de Porto Alegre que, em entrevista ao &#8220;Jornal do Brasil&#8221; de 30 de julho de 1970, diz que ele deveria usar o prest\u00edgio que possu\u00eda em alguns c\u00edrculos europeus, para desmentir cal\u00fanias contra o Brasil e a Igreja brasileira. Dom Geraldo Proen\u00e7a Sigaud, ent\u00e3o bispo de Diamantina (MG), declarou ao jornal  &#8220;Estado de S\u00e3o Paulo&#8221;, em 05 de julho de 1970, antes de embarcar para Roma, que a realidade religiosa, pol\u00edtica e social do Brasil se apresentava com uma imagem deformada na Europa, como resultado de uma campanha desenvolvida com este objetivo, acrescentando que a ideologia esquerdista dominava largos setores dos meios de informa\u00e7\u00e3o, inclusive no campo cat\u00f3lico. Ap\u00f3s manter contatos na Santa S\u00e9, Dom Geraldo dizia que seguiria para a Alemanha para proferir palestras na Baviera e em Wurtemberg, com o objetivo de alertar sobre a exist\u00eancia da campanha difamat\u00f3ria contra o Brasil, retificar o notici\u00e1rio que se desenvolvia na Europa sobre o Brasil e refutar a imagem que Dom Helder havia espalhado sobre o Pa\u00eds em cidades europ\u00e9ias.<\/p>\n<p>O  &#8220;Correio do Cear\u00e1&#8221; (4) transcreveu artigo escrito por David Nasser construindo suspeitas sobre Dom Helder, indagando quem seria o financiador de suas viagens que denominava de &#8220;peregrina\u00e7\u00f5es do pior dos \u00f3dios&#8221;. O &#8220;Jornal do Brasil&#8221; de 31 de julho de 1970 trazia declara\u00e7\u00f5es do Deputado Federal Clovis Stenzel, da ARENA do Rio Grande do Sul, acusando o Arcebispo de Olinda e Recife de  &#8220;conspurcar a imagem do nosso Pa\u00eds e, mais do que isso, continua a dizer inverdades a respeito do que se passa em nossa P\u00e1tria&#8221;. (5)<\/p>\n<p>Gustavo Cor\u00e7\u00e3o, n\u00e3o satisfeito com os ataques desferidos contra Dom Helder Camara, escreveu no jornal &#8220;o Globo&#8221; de 9 de julho de 1970, um artigo no qual Dom Helder \u00e9  identificado como partid\u00e1rio do terrorismo. Come\u00e7a dizendo que o Brasil havia iniciado em 1969 uma luta cruel contra o desmantelamento da quadrilha de Marighella e o desmascaramento dos &#8220;maus religiosos&#8221; que desonravam a ordem dominicana. Aqueles que denominava de &#8220;agentes da guerra revolucion\u00e1ria&#8221; estavam a servi\u00e7o de Havana, Pequim ou de Paris, realizando assaltos a bancos e seq\u00fcestros de embaixadores, conseguindo inquietar a opini\u00e3o p\u00fablica. Por outro lado, os rapazes assaltantes de bancos recebiam de Dom Helder, sem a menor hesita\u00e7\u00e3o, afeto e admira\u00e7\u00e3o, como ficava patente na entrevista dada por Dom Helder ao L\u2019Express.<\/p>\n<p>O Boletim do Regional Nordeste I reproduz, tamb\u00e9m, todas as defesas feitas em favor de Dom Helder na imprensa nacional e estrangeira, al\u00e9m de declara\u00e7\u00f5es pessoais do Arcebispo de Olinda e Recife, esclarecendo as acusa\u00e7\u00f5es que lhe eram feitas de ser a favor da viol\u00eancia, sobre quem financiava as suas viagens, suas posi\u00e7\u00f5es em face do marxismo e do socialismo. No final do documento, Dom Delgado fez publicar a &#8220;Voz de Um Bispo&#8221;, sobre Dom Helder C\u00e2mara, escrito pelo ent\u00e3o Bispo de Crate\u00fas, Dom Ant\u00f4nio Batista Fragoso. Mais do que uma pe\u00e7a de defesa de Dom Helder, o escrito de Dom Fragoso \u00e9 um desabafo contra a campanha de difama\u00e7\u00e3o da Igreja que se colocava ao lado dos pobres e oprimidos. Dom Fragoso identifica os difamadores, entre eles a 10\u00aa Regi\u00e3o Militar, que atrav\u00e9s de um informativo que se dizia &#8220;estritamente confidencial&#8221; sobre as atividades pol\u00edticas, sociais e religiosas de Dom Helder, no final recomendava a divulga\u00e7\u00e3o a v\u00e1rios bispos, padres e institui\u00e7\u00f5es religiosas, com o \u00fanico objetivo de desacredit\u00e1-lo moralmente dentro da Igreja, para que Dom Helder fosse mais facilmente preso, condenado e expatriado.<\/p>\n<p>Para Moreira Alves (6), Dom Helder decidiu denunciar as torturas cometidas pelo regime militar contra presos pol\u00edticos, ap\u00f3s o assassinato, em 27 de maio de 1969, do padre Ant\u00f4nio Henrique Pereira da Silva Neto, o primeiro padre a perder a vida sob o terror da ditadura, seu assistente para o meio estudantil, pelo Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas, em Recife. De acordo com o Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife &#8211; CNBB (7), o Padre Ant\u00f4nio Henrique Pereira Neto tinha 29 anos, era natural de Recife e tinha feito seus estudos eclesi\u00e1sticos, nos Semin\u00e1rios de Olinda e de Jo\u00e3o Pessoa, na Am\u00e9rica do Norte e no Semin\u00e1rio Regional do Nordeste. Foi ordenado sacerdote, pelo Arcebispo Dom Helder Camara, aos 25 de dezembro de 1965, na Matriz de Nossa Senhora do Ros\u00e1rio da Torre, onde havia sido batizado.<\/p>\n<p>Na tarde do dia 26 de maio, como sempre fazia, recebeu v\u00e1rios jovens, no Juvenato Dom Vital, onde permaneceu at\u00e9 pouco depois das 19 horas. Da\u00ed saindo, esteve no bairro do D\u00e9rbi, na casa da fam\u00edlia de um estudante, reunido com outros jovens recifenses. Saindo do D\u00e9rbi, dois estudantes levaram-no em condu\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria ao Bairro do Parnamirim, onde participou de uma reuni\u00e3o de pais e filhos. Daquele local saiu por volta de 22:30 horas. Uma fam\u00edlia que saiu da casa da reuni\u00e3o um pouco depois observou que o padre Ant\u00f4nio Henrique conversava no largo do Parnamirim com algumas pessoas que estavam em uma caminhoneta e com as quais parecia estar partindo.<\/p>\n<p>No dia seguinte, a pol\u00edcia recebeu a den\u00fancia de que havia uma pessoa morta, em lugar ermo da Cidade Universit\u00e1ria. Um pouco antes das 14 horas, as autoridades eclesi\u00e1sticas foram avisadas do ocorrido, tendo sido identificado o corpo, definitivamente, no Necrot\u00e9rio P\u00fablico. Desde que teve not\u00edcia do ocorrido, Dom Helder, acompanhado do Bispo Auxiliar, Dom Jos\u00e9 Lamartine, do Abade do Mosteiro de S\u00e3o Bento, dos Vig\u00e1rios Episcopais e de v\u00e1rios sacerdotes e leigos, dirigiram-se ao necrot\u00e9rio at\u00e9 a conclus\u00e3o da aut\u00f3psia.<\/p>\n<p>O sacerdote foi amarrado, arrastado, recebeu tr\u00eas tiros na cabe\u00e7a e torturas. Dom Bas\u00edlio Penido, Abade do Mosteiro de S\u00e3o Bento, e m\u00e9dico, acompanhou toda a necropsia. Todos os golpes atingiram a cabe\u00e7a e o pesco\u00e7o.<\/p>\n<p>Por volta das 20 horas do dia 27 de maio, o corpo foi conduzido para a Matriz do Espinheiro, onde houve concelebra\u00e7\u00e3o \u00e0s 21 horas, com a participa\u00e7\u00e3o de quarenta sacerdotes e centenas de jovens. Na quarta-feira, dia 28 de maio, houve nova concelebra\u00e7\u00e3o de quarenta sacerdotes  com Dom Helder. O Arcebispo de Olinda e Recife garantiu aos grupos de jovens que n\u00e3o ficariam \u00f3rf\u00e3os. Ap\u00f3s as \u00faltimas ora\u00e7\u00f5es dos funerais, na Igreja, o corpo foi conduzido, para o sepultamento por milhares de pessoas a p\u00e9. No cruzamento da rua Visconde de Iraj\u00e1 com a rua Visconde de Albuquerque, o cortejo foi interceptado por um pelot\u00e3o da Pol\u00edcia Militar. Houve um in\u00edcio de p\u00e2nico, mas logo se restabeleceu a calma. O Pe. Isnaldo Fonseca dirigiu-se ao comandante que o atendeu e explicou n\u00e3o se tratar de qualquer a\u00e7\u00e3o contra o enterro. Por\u00e9m, n\u00e3o seria permitida a condu\u00e7\u00e3o de v\u00e1rias faixas com dizeres que denunciavam o b\u00e1rbaro assassinato do pe. Ant\u00f4nio Henrique. Os policiais militares recolheram rapidamente todas as faixas que continham protestos contra o brutal assassinato do pe. Ant\u00f4nio Henrique Pereira Neto. O cortejo prosseguiu at\u00e9 a Matriz da Torre, onde houve uma parada. Neste templo, o Pe. Ant\u00f4nio Henrique fora batizado, havia feito a primeira comunh\u00e3o e fora ordenado sacerdote. Dom Helder lembrou estes acontecimentos. O povo foi consultado se o corpo poderia ser conduzido dali para o cemit\u00e9rio da V\u00e1rzea, em carro, pois ainda faltavam cerca de seis quil\u00f4metros para o local do enterramento. A multid\u00e3o resolveu continuar a p\u00e9 at\u00e9 o final, ocupando a Avenida Caxang\u00e1, passando pela Cidade Universit\u00e1ria at\u00e9 o cemit\u00e9rio. Foi como que um trajeto de repara\u00e7\u00e3o, cobrindo possivelmente a trilha do crime, pelo menos em parte. O corpo baixou \u00e1 sepultura por volta das 13:30 Hs. Dom Helder proferiu algumas palavras e ap\u00f3s alguns minutos de sil\u00eancio foi rezado um &#8220;Pai Nosso&#8221;, seguido do hino &#8220;Prova de amor maior n\u00e3o h\u00e1, que doar a vida pelo irm\u00e3o&#8221;, da Campanha da Fraternidade.<\/p>\n<p>Na entrada da Cidade Universit\u00e1ria, foi preso o deputado federal cassado, Osvaldo Lima Filho, que acompanhava o enterro e, na Avenida Caxang\u00e1, foi registrada tamb\u00e9m a pris\u00e3o de um soldado do Corpo de Bombeiros, amigo da fam\u00edlia do pe. Ant\u00f4nio Henrique, que ajudava a conduzir o caix\u00e3o.<\/p>\n<p>No jornal &#8220;Di\u00e1rio de Pernambuco&#8221;, de 6 de julho de 1969, foi publicada a not\u00edcia de que o enfermeiro Ives Jos\u00e9 Siqueira, que trabalhava e residia em Parnamirim, em depoimento prestado \u00e0 Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica, afirmou ter visto Rog\u00e9rio Matos do Nascimento, \u00e0 noite, \u00e0s v\u00e9speras do crime, dentro de uma Rural com um rev\u00f3lver na m\u00e3o, juntamente com um comparsa. Embora a Comiss\u00e3o Judici\u00e1ria, encarregada do Inqu\u00e9rito, nomeada pelo Governador de Pernambuco, j\u00e1 tivesse encerrado seus trabalhos, em raz\u00e3o da import\u00e2ncia da testemunha, seus membros assistiram ao depoimento do enfermeiro durante uma hora.<\/p>\n<p>Em 9 de julho de 1969, o Promotor de Justi\u00e7a da 7a. Vara Criminal, Massilon Ten\u00f3rio Medeiros, denunciou Rog\u00e9rio Matos do nascimento, de 26 anos, ex-estudante e sem profiss\u00e3o, pelo assassinato do Pe. Ant\u00f4nio Henrique Pereira Neto.<\/p>\n<p>Logo que circulou a tr\u00e1gica not\u00edcia do trucidamento do Pe. Ant\u00f4nio Henrique, Dom Helder recebeu in\u00fameras mensagens de solidariedade e de pesar, por telegramas e cartas do Brasil e de diversas partes do mundo, entre as quais a do Papa Paulo VI, do Secret\u00e1rio de Estado do Vaticano, da Presid\u00eancia do CELAM, da CNBB, de Bispos, Arcebispos, sacerdotes, religiosas e leigos.<\/p>\n<p>A imprensa de Paris divulgou, em 9 de junho de 1969, um apelo em favor do Brasil, com o seguinte texto:<\/p>\n<p>O assassinato do Pe. Ant\u00f4nio Henrique Pereira Neto, assistente da  Juventude Cat\u00f3lica de Recife, revela brutalmente \u00e0 opini\u00e3o mundial a viol\u00eancia dos grupos ocultos que, pelo terror, procuram matar no povo brasileiro toda esperan\u00e7a de liberta\u00e7\u00e3o. Bispos e padres s\u00e3o os \u00faltimos sob o regime militar e \u2018cat\u00f3lico\u2019, em vigor a poder falar aos pobres. Um a um, estes \u00faltimos defensores s\u00e3o reduzidos ao sil\u00eancio. Proclamando nossa solidariedade com os 30 padres e leigos cujos nomes se encontram na mesma lista negra do Pe. Pereira Neto, assassinado; &#8211; Dom Helder C\u00e2mara, Arcebispo de Olinda e Recife, cuja casa j\u00e1 foi metralhada; &#8211; o Pe. Geraldo Bonfim, condenado no dia 15 de maio, a um ano de pris\u00e3o pela Justi\u00e7a Militar de Fortaleza; &#8211; os padres. Antonio Alberto Soligo e Jo\u00e3o Talpes, presos em S\u00e3o Paulo; &#8211; M\u00e1rio Carvalho de Jesus, o advogado dos trabalhadores de S\u00e3o Paulo, preso de 25 de abril a 10 de maio \u00faltimo; &#8211; os padres franceses e americanos expulsos ou acusados nestes \u00faltimos meses; &#8211; e tantos outros bispos, padres e leigos expostos \u00e0s amea\u00e7as dos terroristas ou \u00e0 inquisi\u00e7\u00e3o policial; &#8211; n\u00f3s pedimos, com eles, justi\u00e7a para todos os brasileiros privados de seus direitos pol\u00edticos, expulsos das universidades, entregues sem defesa \u00e0 explora\u00e7\u00e3o capitalista, privados das mais elementares garantias jur\u00eddicas, &#8211; O governo brasileiro disp\u00f5e de um poder absoluto; n\u00f3s lhe dirigimos um apelo em nome dos princ\u00edpios que ele se atribui a fim de que use deste poder n\u00e3o somente para impedir a periculosidade dos comandos que multiplicam impunemente os atentados, mas ainda para restabelecer o pleno exerc\u00edcio dos Direitos do Homem. N\u00f3s dirigimos um apelo, igualmente, \u00e0 opini\u00e3o francesa e internacional, a fim de que ela empreste sua voz ao grito abafado de um povo oprimido (8)<\/p>\n<p>No documento, constavam as assinaturas de Jean et Odile Bass\u00e9; Jos\u00e9 de Broucker, des Informations Catholiques Internationales; Robert Buron; Michel de Certeau S. J.; Jacques Chantagner de Temps Pr\u00e9sent; Marie-Dominique Chenu O.P.; Pasteur Jean Casali et Mme.; Andr\u00e9 Cruiziat de Vie Nouvelle; Vicent Cosmao O. P.; Jean Marie Domenach de la Revue Esprit; Pierre et Bernadette Drouet; Abb\u00e9 Michel Duclercq; Edouard Gueydan S.J.; Aum\u00f4ner National des Latino-Am\u00e9ricains;  Ren\u00e9 R\u00e9mond; Mme. Emmanuel Mounier; Pierre Haubtmann, Recteur de L\u2019Institute Catholique de Paris; Henri L\u00ea Duan, Pr\u00e9sident de L\u2019A.C.O.; Pasteur Lochart, de Christianisme Sociale; Dr. Jean Merilhou; La Paroisse Universitaire; Elia Perroy; H\u00e9l\u00e8ne Prouet; Guy Riob\u00e9, \u00e9v\u00eaque d&#8217; Orl\u00e9ans et Pr\u00e9sident du Comit\u00e9 Episcopal Fran\u00e7ais pour l&#8217;Amerique Latine, P\u00e9re Congar e outras 400 assinaturas.<\/p>\n<p>Dom Helder Camara, a partir da d\u00e9cada de 1970, passou a ser o Bispo da Igreja Cat\u00f3lica mais conhecido do mundo, por seu engajamento social e enfrentamento do regime militar no Brasil. Nos anos 60, embora muito mais cauteloso que os membros da Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica (JUC), nunca deixou de apoiar seus militantes e de assumir posi\u00e7\u00f5es reformadoras dentro do catolicismo, o que j\u00e1 o colocava \u00e0 frente da maioria do clero brasileiro ainda bastante conservador. Os confrontos entre a Igreja e o Estado se acirraram, quando, em 1970, Dom Helder denunciou a tortura no Brasil, durante uma palestra em Paris (9). A repres\u00e1lia da ditadura n\u00e3o tardou, e em 1972, em plena Semana Santa, o Pe. Jos\u00e9 Comblin, assistente de Dom Helder, Coordenador dos Estudos Teol\u00f3gicos do Instituto de Teologia de Recife (ITER), ao tentar desembarcar na capital pernambucana, foi impedido de faz\u00ea-lo, obrigado a seguir viagem at\u00e9 o Rio de Janeiro. Nesta capital passou todo o dia 24 de mar\u00e7o de 1972 e, no final da tarde, foi embarcado para Bruxelas. Antes do embarque for\u00e7ado, o Pe. Comblin foi comunicado de que havia um Decreto proibindo-o de desembarcar em qualquer parte do territ\u00f3rio nacional. Durante o interrogat\u00f3rio, os agentes do aparato repressor do Estado, mostraram-lhe uma carta que ele havia escrito a Dom Fragoso, na qual fazia refer\u00eancias \u00e0 participa\u00e7\u00e3o que tivera em um curso de Pastoral, no munic\u00edpio de Crate\u00fas. O Secret\u00e1rio Geral da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), na \u00e9poca, Dom Ivo Lorscheiter, informado do que estava acontecendo no Gale\u00e3o, ali permaneceu a tarde inteira, buscando em v\u00e3o avistar-se com o Padre. As autoridades afirmavam que ningu\u00e9m estava detido no Aeroporto, muito menos, um padre.<\/p>\n<p>Dom Helder protestou, por escrito contra o banimento do Pe. Comblin, em Recife, no dia 28 de mar\u00e7o de 1972, usando as seguintes palavras:<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o percebe que o epis\u00f3dio &#8220;Comblin&#8221; \u00e9 um cap\u00edtulo do que vem acontecendo em todo o pa\u00eds com a Igreja, na medida em que ela recusa a continuar servindo de suporte a estruturas de opress\u00e3o e compromete-se, de modo pac\u00edfico, mas v\u00e1lido, com o Povo e a sua liberta\u00e7\u00e3o? O que h\u00e1 de particularmente grave no caso &#8220;Comblin&#8221; \u00e9 que ele \u00e9 mais um testemunho da marginaliza\u00e7\u00e3o da classe pensante. Ai de quem ousar ter e exercer consci\u00eancia cr\u00edtica, ao menos no tocante ao Governo e seus planos.<\/p>\n<p>Quanto ao Povo, se sabe que ele est\u00e1 banido dentro do pr\u00f3prio pa\u00eds, por mais que, em teoria, se proclame que a meta \u00e9 o homem. E tudo isso se passa em v\u00e9speras da abertura das comemora\u00e7\u00f5es oficiais do sesquicenten\u00e1rio de nossa independ\u00eancia pol\u00edtica. Patriotismo, amor ao Brasil n\u00e3o ser\u00e1 a coragem c\u00edvica de lembrar que \u00e9 b\u00e1sico para termos condi\u00e7\u00f5es morais de festejar o 7 de setembro de 1972 a aboli\u00e7\u00e3o pura e simples do Ato Institucional n\u00ba 5? (10)<\/p>\n<p>Notas:<br \/>\n(1) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB. Mimeografado, s\/d. 16 p. Arquivo da Sala de Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).<br \/>\n(2) Idem. p. 2.<br \/>\n(3) Ibid,.<br \/>\n(4) Jornal Correio do Cear\u00e1, de 23 de julho de 1970.<br \/>\n(5) Cf. Boletim do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB.<br \/>\n(6) ALVES, M\u00e1rcio Moreira. Op. Cit. p. 185-186.<br \/>\n(7) Not\u00edcia Sobre o B\u00e1rbaro Trucidamento do Padre Antonio Henrique Pereira da Silva Neto, no Recife, a 27 de maio de 1969. Boletim do Secretariado Arquidiocesano de Olinda e Recife (PE). Assessoria de Opini\u00e3o P\u00fablica. Datilografado em 18 de julho de 1969. 14 p. Arquivo da Sala de Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica da Arquidiocese de Fortaleza.<br \/>\n(8) Ibid., p. 10.<br \/>\n(9) Ver SERBIN, Kenneth P. Padres, Celibato e conflito social: uma hist\u00f3ria da Igreja cat\u00f3lica no Brasil. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2008. p 260 &#8211; 64.<br \/>\n(10)Comunicado da Arquidiocese de Olinda e Recife, datilografado e assinado por Dom Helder Camara, em 28 de mar\u00e7o de 1972, em Recife. Acervo da Sala de Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica da Arquidiocese de Fortaleza (SHEAF).<\/p>\n<p>* Mestre em Hist\u00f3ria Social &#8211; UFC. Doutorando em Sociologia &#8211; UFC<\/p>\n<p><em>(Artigo publicado originalmente na <a href=\"http:\/\/www.adital.com.br\" target=\"_blank\">Ag\u00eancia Adital<\/a>)<\/em><\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-1421\" data-postid=\"1421\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-1421 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rcio de Souza Porto * Em 1970, um boletim interno, mimeografado, do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB, presidido por Dom Jos\u00e9 de Medeiros Delgado, sob o t\u00edtulo de \u2018Dom Helder Camara: acusa\u00e7\u00f5es e defesas\u2019 fez um apanhado de not\u00edcias e artigos publicados nos grandes jornais do Brasil, a respeito de Dom Helder, desde maio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[192],"tags":[191,188,187],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Dom Helder: Acusa\u00e7\u00f5es e defesas - O Arcanjo no ar<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/dom-helder-acusacoes-e-defesas\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Dom Helder: Acusa\u00e7\u00f5es e defesas - O Arcanjo no ar\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\"M\u00e1rcio de Souza Porto * Em 1970, um boletim interno, mimeografado, do Secretariado Regional Nordeste I da CNBB, presidido por Dom Jos\u00e9 de Medeiros Delgado, sob o t\u00edtulo de \u2018Dom Helder Camara: acusa\u00e7\u00f5es e defesas\u2019 fez um apanhado de not\u00edcias e artigos publicados nos grandes jornais do Brasil, a respeito de Dom Helder, desde maio [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/dom-helder-acusacoes-e-defesas\/\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"O Arcanjo no ar\" \/>\n<meta property=\"article:publisher\" content=\"https:\/\/www.facebook.com\/OArcanjoNoAr\/\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2009-01-15T12:11:42+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2009-01-15T12:16:33+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/wp-content\/uploads\/logo-o-arcanjo-no-ar-facebook.png\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"300\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"300\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/png\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"rubens.meyer\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"rubens.meyer\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Est. tempo de leitura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"17 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\/\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/dom-helder-acusacoes-e-defesas\/#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/dom-helder-acusacoes-e-defesas\/\"},\"author\":{\"name\":\"rubens.meyer\",\"@id\":\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/#\/schema\/person\/8f702af457b0cfb4ac1a7228ee23f026\"},\"headline\":\"Dom Helder: Acusa\u00e7\u00f5es e defesas\",\"datePublished\":\"2009-01-15T12:11:42+00:00\",\"dateModified\":\"2009-01-15T12:16:33+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/dom-helder-acusacoes-e-defesas\/\"},\"wordCount\":3456,\"commentCount\":0,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/#organization\"},\"keywords\":[\"ditadura militar\",\"dom helder\",\"profeta\"],\"articleSection\":[\"D. 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