
{"id":15278,"date":"2011-08-04T08:48:10","date_gmt":"2011-08-04T11:48:10","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=15278"},"modified":"2011-08-03T22:49:55","modified_gmt":"2011-08-04T01:49:55","slug":"vocacao-de-natanael","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/vocacao-de-natanael\/","title":{"rendered":"Voca\u00e7\u00e3o de Natanael"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves<\/p>\n<p>Natanael permanece uma figura um tanto quanto obscura nas p\u00e1ginas no Novo Testamento. No cap\u00edtulo primeiro do Evangelho de Jo\u00e3o, al\u00e9m do mais, ele se revela meio desconfiado, descrente quanto \u00e0 possibilidade de &#8220;sair coisa boa de Nazar\u00e9\u201d. Assim mesmo, ele segue Felipe que o pretende apresentar a Jesus. Esta curiosidade aparente revela o contexto religioso e cultural do Povo de Israel em sua longa espera pelo Messias. \u00c9 um povo que h\u00e1 s\u00e9culos espera pelo salvador, que depositou sua esperan\u00e7a nos reis e foi por eles desenganado, tra\u00eddo. Transferiu ent\u00e3o sua expectativa para um enviado de Deus, o qual, conforme as Escrituras, haveria de nascer da descend\u00eancia de David e ser o verdadeiro Messias.<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Batista, \u00faltimo profeta da antiga alian\u00e7a e primeiro da alian\u00e7a nova, indica o Cordeiro de Deus que &#8220;haver\u00e1 de tirar o pecado do mundo\u201d. \u00c9 o profeta da transi\u00e7\u00e3o, na encruzilhada entre o passado e o futuro de Israel. Reuniu um punhado de disc\u00edpulos, mas, ap\u00f3s sua pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o, alguns deles deixam-no para seguir a Jesus. De fato, &#8220;era necess\u00e1rio que eu diminu\u00edsse para que ele crescesse\u201d, pois, &#8220;eu sou apenas a voz que clama no deserto\u201d. E mais, &#8220;n\u00e3o sou digno de desamarrar a correia de suas sand\u00e1lias\u201d. Natanael pode muito bem ser um dos disc\u00edpulos do precursor que passa a seguir o novo Mestre: instigado pelos relatos dos companheiros, vai ao encontro desse ilustre desconhecido.<\/p>\n<p><strong>1.Jesus e Natanael<\/strong><\/p>\n<p>Retomando o Quarto Evangelho, vendo Natanael aproximar-se, Jesus comenta: &#8220;Eis a\u00ed um israelita verdadeiro, sem falsidade\u201d. Qual n\u00e3o ter\u00e1 sido a rea\u00e7\u00e3o do desconfiado Natanael! Nunca havia visto aquele estranho. Como podia falar desse modo? N\u00e3o lhe havia autorizado semelhante intimidade. Por isso a pergunta intrigada e instigante: &#8220;De onde me conheces\u201d? E a resposta de Jesus, igualmente surpreendente, chega a ser espantosa. Talvez n\u00e3o para n\u00f3s hoje, que j\u00e1 estamos familiarizados com as frases taxativas do Evangelho, mas com certeza para o pobre Natanael: &#8220;Antes que Felipe te chamasse, eu te vi debaixo da figueira!\u201d<\/p>\n<p>Vale uma pausa para especular o sentido da figueira para Natanael. N\u00e3o seria ela o lugar oculto onde ele se escondia de tudo e de todos, particularmente nos momentos duros e dif\u00edceis, nas tribula\u00e7\u00f5es mais pesadas da exist\u00eancia? N\u00e3o seria o recanto obscuro onde se refugiava nas horas de raiva, de tristeza, de ang\u00fastia ou de revolta? Quem sabe ali derramava suas l\u00e1grimas mais ardentes, curtia seus medos e d\u00favidas mais pungentes, arrancava os cabelos diante da impot\u00eancia! N\u00e3o ser\u00e1 a figueira o lugar simb\u00f3lico do retiro, onde, a s\u00f3s com a pr\u00f3pria turbul\u00eancia, Natanael engolia em seco os solu\u00e7os amargos de suas situa\u00e7\u00f5es-limite? E \u00e9 justamente ali que o Senhor afirma t\u00ea-lo visto! Tantas coisas e momentos de sua vida podiam e mereciam ser mencionadas com maior raz\u00e3o, mas aquele olhar, ao mesmo tempo estranho e penetrante, vai descobri-lo logo debaixo da figueira!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00f3s passamos por desertos est\u00e9reis, por noites escuras, por becos sem sa\u00edda. S\u00e3o os momentos em que n\u00e3o queremos ver nada e ningu\u00e9m. \u00c9 quando o desespero bate \u00e0 porta e gememos: at\u00e9 aqui eu caminhei s\u00f3, agora me carrega, Senhor, porque n\u00e3o ag\u00fcento mais! Por isso, queremos ficar a s\u00f3s conosco mesmos, para n\u00e3o expor em pra\u00e7a p\u00fablica a dor, o pranto ou a tormenta que inunda todo nosso ser. Ou seja, tamb\u00e9m n\u00f3s temos nossa pr\u00f3pria figueira, ou nossos momentos de figueira \u2013 ref\u00fagios para onde fugimos com uma tempestade no cora\u00e7\u00e3o e na mente, \u00e0 procura de alguma resposta. Quem j\u00e1 n\u00e3o passou por tais momentos de sofrimento sem rem\u00e9dio!<\/p>\n<p>Numa palavra, a figueira \u00e9 simbolicamente o lugar da nudez. Lugar em que Natanael se encontra consigo mesmo, com suas fraquezas e debilidades, com sua condi\u00e7\u00e3o humana mais mesquinha e impotente. \u00c9 a partir dessa experi\u00eancia que Jesus o chama. Tendo passado pela figueira e tido a coragem de encarar-se a si mesmo, ele est\u00e1 preparado para identificar e compreender as dificuldades dos outros. A figueira alarga o leque de nossa compaix\u00e3o para com as dores e situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis dos outros. Ao revelar nossa debilidade, relava igualmente a debilidade de cada ser humano, junto com a necessidade de miseric\u00f3rdia para com as fraquezas alheias. Por isso Natanael est\u00e1 preparado para ser disc\u00edpulo mission\u00e1rio. Tendo encontrado e si mesmo e ao Mestre, pode partir em busca dos que se sentem \u00f3rf\u00e3os e s\u00f3s, abandonados e perdidos.<\/p>\n<p>Conhecendo-se a si pr\u00f3prio, possui elementos para conhecer os demais. Vendo-se no espelho da figueira, aprende a enxergar de maneira distinta as quedas de cada ser humano. Afinal, a exemplo do vaso, \u00e9 na queda que o homem revela sua resist\u00eancia. A figueira como espelho do autoconhecimento e da pr\u00f3pria nudez \u00e9 tamb\u00e9m uma janela aberta para conhecer a trajet\u00f3ria e a nudez das daqueles que nos cercam. Natanael aprendeu a desconfiar de si mesmo e de suas pr\u00f3prias for\u00e7as, de sua auto-sufici\u00eancia, arrog\u00e2ncia e prepot\u00eancia. Por outro lado, aprendeu a confiar naqueles que, de alguma forma, o ajudaram a sair da figueira. E mais ainda, a confiar no Deus oculto que, com fios invis\u00edveis, vai tecendo o pano de fundo onde se fortalece o futuro ap\u00f3stolo. Em s\u00edntese, a figueira desnuda, mas tamb\u00e9m nutre e enriquece o germe da voca\u00e7\u00e3o. Torna-a sempre mais adulta.<\/p>\n<p><strong>2.Trajet\u00f3ria vocacional<\/strong><\/p>\n<p>Um olhar retrospectivo \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o pode nos ajudar a identificar os momentos de figueira e a forma como dele sa\u00edmos. Podemos identificar tamb\u00e9m quem esteve ao nosso lado e nos ajudou a retomar a estrada. Entende-se voca\u00e7\u00e3o n\u00e3o como um ato isolado da vida, mas como uma atitude que nos acompanha ao longo de toda a exist\u00eancia; n\u00e3o como um evento fugas e m\u00e1gico, e sim um processo de aprendizado e amadurecimento. Voca\u00e7\u00e3o \u00e9 dom, mas \u00e9 tamb\u00e9m busca; \u00e9 chamado, mas \u00e9 tamb\u00e9m resposta; \u00e9 intui\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 tamb\u00e9m constru\u00e7\u00e3o lenta e laboriosa.<\/p>\n<p>Aqui n\u00e3o h\u00e1 magia, nem uma voz estranha que chama no meio na noite: &#8220;Samuel, Samuel!\u201d. Isso \u00e9 poesia, uma forma liter\u00e1ria de descrever a voca\u00e7\u00e3o. Esta nasce em meio a circunst\u00e2ncias bem precisas, sejam elas pessoais e familiares ou socioculturais e hist\u00f3ricas. \u00c0s vezes tem at\u00e9 mesmo um in\u00edcio prosaico, folcl\u00f3rico, como o caso do padre que entrou no semin\u00e1rio porque odiava as formigas na ro\u00e7a da fam\u00edlia, ou daquela irm\u00e3 atra\u00edda mais pela forma e cor do h\u00e1bito do que pelo servi\u00e7o sacerdotal ou o carisma da Congrega\u00e7\u00e3o; e ainda, daquele padre que entrou no semin\u00e1rio porque alguma enfermidade o tornou inadequado para o trabalho pesado na terra. S\u00e3o muitas e muito variadas as hist\u00f3rias semelhantes. Deus recorre a meios bem circunstanciais para impulsionar uma pessoa ao entusiasmo por sua obra.<\/p>\n<p>O dom, o chamado e a intui\u00e7\u00e3o, posteriormente, v\u00e3o amadurecendo mediante incertezas e interroga\u00e7\u00f5es constantes. Ali\u00e1s, a f\u00e9 nasce e cresce no terreno \u00e1rido, escuro e in\u00f3spito da d\u00favida. \u00c9 ent\u00e3o que come\u00e7am a ocorrer os momentos de figueira na trajet\u00f3ria de nossa voca\u00e7\u00e3o. Crises que semeiam receios e interroga\u00e7\u00f5es. Perguntas se levantam com a for\u00e7a de \u00e1guas represadas, faz-se noite escura, desconfiamos de n\u00f3s mesmos e do caminho iniciado, recorremos ao isolamento, n\u00e3o queremos encontrar ningu\u00e9m. Impl\u00edcita ou explicitamente, o sil\u00eancio e a reflex\u00e3o tomam conta de nosso interior. \u00c9 hora do encontro consigo mesmo, do espelho, da coragem de enfrentar-se. O embri\u00e3o vocacionado, fr\u00e1gil e delicado, v\u00ea-se batido pelo sol, pela chuva e pelo vento de todas as formas de intemp\u00e9ries.<\/p>\n<p>Tais momentos cr\u00edticos podem fazer-nos recair no ber\u00e7o. Como toda crise, a da figueira tamb\u00e9m \u00e9 amb\u00edgua: pode prostrar-nos num saudosismo est\u00e9ril e ineficaz, mas, por outro lado, pode conduzir-nos aos novos desafios da fronteira. Todos, por mais crescidos que sejamos, nutrimos uma saudade inconsciente pelo colo da m\u00e3e, pelo para\u00edso perdido. Mas essa mesma saudade, quando amadurecida pela experi\u00eancia, pode projetar-nos para diante, na conquista da terra prometida. Melhor dizendo, em geral a crise, num primeiro momento, leva-nos ao ber\u00e7o, deixando a\u00ed os fracos; num segundo momento, por\u00e9m lan\u00e7a os fortes \u00e0 encruzilhada. Esta simboliza o lado positivo da crise. \u00c9 quando a fuga se converte em nova busca, pois encruzilhada pressup\u00f5e bifurca\u00e7\u00e3o de caminhos e a necessidade de fazer escolhas. E toda escolha implica uma ren\u00fancia. Neste caso, a crise \u00e9 dolorosa, sim, mas extremamente fecunda. No GrandeSert\u00e3o de nosso destino desconhecido, Deus irrompe e nos chama a abrir novas Veredas, diria o grande escritor Guimar\u00e3es Rosa.<\/p>\n<p>Em seu momento negativo, por\u00e9m, a crise cont\u00e9m revolta, choro, incompreens\u00e3o e medo. \u00c9 o caso de Elias que, cansado de tudo, deita e dorme um sono profundo para escapar da pr\u00f3pria miss\u00e3o; ou ent\u00e3o Jeremias que, diante de tantas adversidades, maldiz o dia em que veio \u00e0 luz; e ainda Jonas, o qual, ao ser chamado a profetizar em N\u00ednive, foge de Deus e de todos, at\u00e9 ser engolido por um grande peixe, o que na linguagem simb\u00f3lica quer dizer regressar ao ventre materno. Em meio \u00e0 tormenta da d\u00favida e da incerteza, impera a tenta\u00e7\u00e3o de anular-se. O melhor mesmo seria nem ter nascido! S\u00e3o momentos cruciais que nos levam \u00e0 beira de um precip\u00edcio. Mas \u00e9 justamente a\u00ed, onde a indig\u00eancia \u00e9 mais severa e aguda, que se torna mais significativa a presen\u00e7a de Deus. Presen\u00e7a ausente, jamais indiferente. &#8220;Onde abundou o pecado, maior se manifestou a gra\u00e7a\u201d, diz o ap\u00f3stolo Paulo (Rm 5,12).<\/p>\n<p>Em outras palavras, no fundo do po\u00e7o e da desesperan\u00e7a, Deus se revela e deixa, no caminho de nossa hist\u00f3ria, suas pegadas misteriosas. Envia um de seus anjos: ao profeta Elias, o anjo oferece p\u00e3o e \u00e1gua, porque &#8220;o caminho \u00e9 longo\u201d; ao lamento de Jeremias, d\u00e1-lhe for\u00e7as para seguir profetizando mesmo contra os que o perseguem; quanto a Jonas, lhe reconduz a N\u00ednive para exercer sua tarefa negada e interrompida. E a Natanael, o olhar retrospectivo de Jesus lhe confere a certeza de ter achado quem procurava e coragem para seguir adiante. Um toque de Deus, um anjo estranho e peregrino, sobrevoa a nuvem sombria da crise, e aponta novos horizontes. Tal como a estrela de Bel\u00e9m, o anjo indica o caminho para o seguimento de Jesus Cristo, e para a divulga\u00e7\u00e3o de sua Boa Nova. Conclui-se que o fundo do po\u00e7o, se n\u00e3o significar o fim, ser\u00e1 necessariamente o come\u00e7o de uma nova subida.<\/p>\n<p>O mesmo ocorre com nossa pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. Estamos todos em idade suficiente para termos vivenciado algum tipo de crise. N\u00e3o pequenas pedras no meio do caminho, mas um abismo que nos tira o ch\u00e3o debaixo dos p\u00e9s. Parafraseando Simone de Beauvoir, \u00e9 como se as estrelas se tivessem apagado no c\u00e9u e os marcos desaparecido da estrada. Sabemos o que significa o momento dif\u00edcil da figueira. Bastar\u00e1, entretanto, um resgate da trajet\u00f3ria vocacional de cada um, para dar-se conta que algum anjo de Deus apareceu, e nos ajudou a sair da encruzilhada para seguir adiante. Esse anjo pode ser um familiar, um amigo, um superior, uma situa\u00e7\u00e3o extrema de pobreza, um momento pessoal de fracasso, at\u00e9 mesmo um desconhecido&#8230; Trata-se, enfim, de um alerta \u00e0 lei da in\u00e9rcia, que nos acomoda num torpor inativo. Um alerta provocado, normalmente, pelas pessoas e circunst\u00e2ncias mais variadas e inesperadas. E que nos sacode, enxuga as l\u00e1grimas, levanta-nos o \u00e2nimo e nos p\u00f5e novamente em marcha.<\/p>\n<p><strong>3.Beber do pr\u00f3prio po\u00e7o<\/strong><\/p>\n<p>Tomar nas m\u00e3os a hist\u00f3ria da pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o \u00e9 dar-se conta que ela foi visitada muitas vezes pela m\u00e3o invis\u00edvel de Deus. M\u00e3o invis\u00edvel que se faz vis\u00edvel atrav\u00e9s de uma palavra ou de um olhar de encorajamento, de uma visita ou um toque de algum companheiro, de uma realidade gritante e clamorosa. Refaz-se, assim, o chamado e este requer uma nova resposta. O dom de Deus se mant\u00e9m sempre presente, mas exige busca renovada, dados os desafios que a realidade nos apresenta a cada momento. A intui\u00e7\u00e3o primordial reluz como uma estrela em meio \u00e0s trevas, mas dever\u00e1 ser complementada por um trabalho cont\u00ednuo. A voca\u00e7\u00e3o, tal como a semente lan\u00e7ada \u00e0 terra, necessita de um cultivo permanente. Como bem sabemos, trigo e ciz\u00e2nia nem sempre andam separados. O mais comum \u00e9 crescerem juntos. &#8220;Tudo \u00e9 muito misturado\u201d, constata Riobaldo Tartarana, personagem de Grande Sert\u00e3o, Veredas.<\/p>\n<p>\u00c9 desse modo que o processo vocacional, em nossa vida, dura noventa e nove anos&#8230; Ou seja, toda uma exist\u00eancia, praticamente desde o ber\u00e7o at\u00e9 t\u00famulo! Se nossa trajet\u00f3ria vocacional foi sempre visitada por Deus, de modo particular nas horas de maior d\u00favida e ang\u00fastia, trata-se agora de revisit\u00e1-la. N\u00e3o de forma negativista como ocorre na maioria das vezes, mas positivamente. Somente desse modo nos damos conta das numerosas ocasi\u00f5es em que a presen\u00e7a de Deus marcou nosso avan\u00e7o, penoso e aos trope\u00e7os, sem d\u00favida, mas progressivo. No confronto com o epis\u00f3dio de Natanael, percebemos que, se o olhar de Jesus nos momentos de figueira esteve comigo at\u00e9 hoje, n\u00e3o ser\u00e1 a partir de agora que ir\u00e1 me abandonar. Engendra-se e cresce, assim, uma confian\u00e7a nova e inabal\u00e1vel, n\u00e3o em minhas for\u00e7as ou m\u00e9ritos, mas na gra\u00e7a de um Deus infinitamente misericordioso.<\/p>\n<p>Quando somos capazes de identificar os anjos que nos fizeram redescobrir a voca\u00e7\u00e3o e notamos que o Senhor se manifestou em nossa vida atrav\u00e9s deles, ent\u00e3o a hist\u00f3ria vocacional ganha enorme relev\u00e2ncia. Torna-se uma fonte de \u00e1gua viva para os pr\u00f3ximos passos e embates da vida. Passamos a &#8220;beber do pr\u00f3prio po\u00e7o\u201d, para utilizar a express\u00e3o de Gustavo Gutierrez. Como o exemplo da \u00e1rvore do sert\u00e3o e do agreste: quando a seca aperta, ela se alimenta dos nutrientes acumulados na pr\u00f3pria raiz. Tamb\u00e9m aqui, como no caso de Natanael, as visitas \u00e0 figueira nutrem, vivificam e fortalecem a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. Desnudam e escancaram nossa fraqueza, fragilidade e impot\u00eancia, mas, ao mesmo tempo, revelam a m\u00e3o de Deus agindo atrav\u00e9s destes &#8220;vasos de barro\u201d, como diz o ap\u00f3stolo Paulo (2 Cor 4,1-6).<\/p>\n<p>A simbologia da figueira, que aparecia como um deserto \u00e1rido, est\u00e9ril e in\u00f3spito, se descortina como um terreno fecundo e f\u00e9rtil. A luz brilha mais forte onde a noite se faz mais escura, a flor \u00e9 mais bela quando mergulha as ra\u00edzes no esterco. Tamb\u00e9m a exemplo de Natanael, abre-se o leque de nossa compreens\u00e3o frente \u00e0s crises alheias. Ao espelhar minha condi\u00e7\u00e3o de pobreza, a figueira espelha simultaneamente a condi\u00e7\u00e3o real de todo ser humano. E nos predisp\u00f5e para a compaix\u00e3o e a miseric\u00f3rdia. Vale dizer, nos predisp\u00f5e para um seguimento cada vez mais adulto dos caminhos do Mestre. Amadurece nossa voca\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulos mission\u00e1rios a servi\u00e7o da vida.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-15278\" data-postid=\"15278\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-15278 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves Natanael permanece uma figura um tanto quanto obscura nas p\u00e1ginas no Novo Testamento. No cap\u00edtulo primeiro do Evangelho de Jo\u00e3o, al\u00e9m do mais, ele se revela meio desconfiado, descrente quanto \u00e0 possibilidade de &#8220;sair coisa boa de Nazar\u00e9\u201d. Assim mesmo, ele segue Felipe que o pretende apresentar a Jesus. 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