
{"id":15528,"date":"2011-08-27T12:25:16","date_gmt":"2011-08-27T15:25:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=15528"},"modified":"2011-08-27T12:25:16","modified_gmt":"2011-08-27T15:25:16","slug":"tres-vezes-orfas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/tres-vezes-orfas\/","title":{"rendered":"Tr\u00eas vezes \u00f3rf\u00e3s"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, CS<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Refiro-me \u00e0 chamada \u201cgangue das meninas\u201d que, h\u00e1 algum tempo, vem aterrorizando os moradores da regi\u00e3o da Vila Mariana, zona sul de S\u00e3o Paulo &#8211; SP. Aparentemente s\u00e3o crian\u00e7as e, segundo elas pr\u00f3prias, est\u00e3o abaixo dos 12 anos. Realizam furtos a estabelecimentos comerciais de toda ordem, com tamb\u00e9m a transeuntes desprevenidos. De acordo com os representantes de tais estabelecimentos e de outras testemunhas, s\u00e3o cerca de 10 a 12, e costumam agir com surpreendente irrever\u00eancia e agressividade, mesmo diante dos policiais. Com frequ\u00eancia, usam material de limpeza (solventes, por exemplo) para drogar-se. Quase todas j\u00e1 passaram mais de uma dezena de vezes pela delegacia, por abrigos para menores, pelo Conselho Tutelar ou por casas de corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o, acima de tudo, \u00f3rf\u00e3s de pai e m\u00e3e. \u00d3rf\u00e3s de um ambiente familiar sadio e equipado com as m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia. Trata-se, portanto, de um punhado de meninas abandonadas, filhas de pais pobres e igualmente abandonados: ao desemprego e subemprego, \u00e0 pobreza \u00e0 mis\u00e9ria pura e simples, quando n\u00e3o ao mundo da droga. Seus familiares perderam completamente o controle sobre elas e n\u00e3o mais as conseguem mant\u00ea-las em casa. A pol\u00edcia prende em flagrante, leva-as at\u00e9 algum abrigo, mas o Estatuto da Crian\u00e7a e do Adolescente (ECA), impede a deten\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as com idade inferior a 12 anos. Raramente algu\u00e9m da fam\u00edlia aparece para reivindicar qualquer parentesco, e menos ainda qualquer tipo de responsabilidade. O resultado \u00e9 a volta inevit\u00e1vel \u00e0s ruas e \u00e0 pr\u00e1tica do furto, um novo confronto com a pol\u00edcia, a impossibilidade legal de pris\u00e3o, novamente a rua&#8230; E assim sucessivamente, sem sinais vis\u00edveis de revers\u00e3o positiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o \u00f3rf\u00e3s do Estado e de uma cidadania digna. Sem casa e sem p\u00e1tria! Se a fam\u00edlia se revela incapaz de cuidar e zelar pelo futuro dessas meninas, semelhante tarefa deveria recair sobre as inst\u00e2ncias de defesa das crian\u00e7as e adolescentes, como reza o ECA ou como garante a pr\u00f3pria Constitui\u00e7\u00e3o brasileira. Ou ainda, de acordo com a Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos Humanos: \u201cA maternidade e a inf\u00e2ncia t\u00eam direito a cuidados e assist\u00eancia especiais. Todas as crian\u00e7as, nascidas dentro ou fora do matrim\u00f4nio, gozar\u00e3o da mesma prote\u00e7\u00e3o social\u201d (Artigo XXV, n\u00ba 2). Com o pretenso amparo dessas leis, por um lado, e de fatos t\u00e3o desoladores e rotineiros, por outro, uma s\u00e9rie de perguntas se levanta. Quem est\u00e1 por tr\u00e1s desse grupo de menores, usando-as para os trabalhos sujos do crime? Onde est\u00e3o as pol\u00edticas p\u00fablicas de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia? Como garantir a essas meninas, entre tantas outras, alimento, vestu\u00e1rio, carinho, moradia, escola, lazer e perspectiva de futuro&#8230; Entre outros direitos b\u00e1sicos? Por outro lado, como garantir a paz para os pequenos e m\u00e9dios comerciantes que precisam trabalhar para sustentar suas fam\u00edlias? Enfim, e pior que tudo, como preserv\u00e1-las de uma depend\u00eancia t\u00f3xica inevit\u00e1vel, bem como de uma delinq\u00fc\u00eancia precoce? Sem fam\u00edlia e sem a presen\u00e7a dos \u00f3rg\u00e3os do Estado, at\u00e9 quando elas permanecer\u00e3o vivas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata de transferir o problema para o \u00e2mbito da seguran\u00e7a p\u00fablica. Embora seja a pol\u00edcia e o poder judici\u00e1rio que, frequentemente, lida com elas, n\u00e3o se trata de reduzir a quest\u00e3o a \u201cum caso de pol\u00edcia\u201d. O contexto socioecon\u00f4mico, que as fez crescer como \u201cerva daninha\u201d em meio \u00e0 chamada \u201csociedade de bem\u201d, desde cedo atirou-as \u00e0 beira da vida e da hist\u00f3ria.\u00a0 Nasceram e se criaram, em geral, \u00e0 margem de qualquer oportunidade de estudo e trabalho e, por consequ\u00eancia, sem horizontes mais amplos. Pois n\u00e3o raro as \u201cpessoas do bem\u201d s\u00e3o confundidas com as \u201cpessoas de bens\u201d, n\u00e3o importando a forma como esses foram adquiridos. Tampouco se trata de jogar o fardo inteiro sobre os ombros dos pais (sem desconhecer que em alguns casos, e pelos motivos mais variados, estes contribuem para agravar a situa\u00e7\u00e3o). No fundo, deparamo-nos com um modelo pol\u00edtico e econ\u00f4mico que, impulsionado pelo motor do lucro e da acumula\u00e7\u00e3o de capital, abandona ao desd\u00e9m e \u00e0 pr\u00f3pria sorte boa parcela da popula\u00e7\u00e3o. Como lembram os bispos da Am\u00e9rica Latina e Caribe no Documento de Aparecida, \u201cj\u00e1 n\u00e3o se trata simplesmente do fen\u00f4meno da explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, mas de algo novo: a exclus\u00e3o social. Com ela, a perten\u00e7a \u00e0 sociedade na qual se vive fica afetada na raiz, pois j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 abaixo, na periferia ou sem poder, mas est\u00e1 fora. Os exclu\u00eddos n\u00e3o s\u00e3o somente \u2018explorados\u2019, mas \u2018sup\u00e9rfluos\u2019 e \u2018descart\u00e1veis\u2019\u201d (DA, n\u00ba 65).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas, pior que tudo, s\u00e3o \u00f3rf\u00e3s de uma liberdade f\u00e1cil, trai\u00e7oeira e ilus\u00f3ria. De fato, em nossa sociedade do espet\u00e1culo e do sensacionalismo, o conceito de liberdade est\u00e1 completamente desvirtuado. Os palcos iluminados das ruas e da m\u00eddia em geral difundem a no\u00e7\u00e3o de que a liberdade est\u00e1 ligada \u00e0 capacidade de produzir ou ao poder de ter, consumir, fazer, aparentar&#8230; N\u00e3o necessitamos de muitas pesquisas para constatar que a liberdade sem limites e sem qualquer esp\u00e9cie de regra \u00e9 terreno amb\u00edguo que pode levar ao abismo. A porta larga de \u201cfazer aquilo que se quer\u201d conduz, n\u00e3o raro, aos becos sem sa\u00edda da droga e do roubo, da prostitui\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia, do crime e da morte. Semelhante modo de entender a liberdade torna as crian\u00e7as v\u00edtimas de sua pr\u00f3pria vontade, da mesma maneira que torna a sociedade ref\u00e9m de seus filhos menores. Se, por uma parte, a sociedade retirou da fam\u00edlia o direito e o dever de impor limites no processo de forma\u00e7\u00e3o e crescimento de seus descendentes, por outra, nenhuma institui\u00e7\u00e3o social, assistencial ou religiosa assume hoje tal encargo. Resulta que, num terreno t\u00e3o minado por apelos estridentes e permissivos, especialmente no universo urbano, as crian\u00e7as caminham \u00e0 deriva. Fr\u00e1geis e facilmente vulner\u00e1veis \u00e0s gangues de pessoas experimentadas no crime organizado, as quais, explorando sua inoc\u00eancia e imunidade, as condenam ao v\u00edcio e \u00e0 morte antes dos 15, 20 ou 30 anos. Muitas vezes adquirem precocemente os v\u00edcios dos adultos, sem dar-se conta da responsabilidade que isso comporta. Da\u00ed a dificuldade de responder por seus pr\u00f3prios delitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A verdadeira liberdade, aquela que cria alicerces s\u00f3lidos e educa para o futuro, sup\u00f5e um duplo acompanhamento. Primeiramente, uma aten\u00e7\u00e3o paterna, materna e familiar, amorosa sem d\u00favida, mas respons\u00e1vel por delimitar o contexto b\u00e1sico dos direitos e deveres. Uns e outros se complementam e retroalimentam. Em segundo lugar, a capacita\u00e7\u00e3o para uma conviv\u00eancia pac\u00edfica e para defender-se em sociedade. O que inclui educa\u00e7\u00e3o, capacidade de escolha profissional e senso de responsabilidade frente a si mesmo, aos outros e \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma cidadania. Desnecess\u00e1rio lembrar o quanto, no Brasil, estamos longe disso! E quantas crian\u00e7as, adultas antes da inf\u00e2ncia, prosseguem por mares bravios, sem qualquer esperan\u00e7a de vislumbrar o farol de um porto seguro!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais artigos do Pe. Alfredinho em www.provinciasaopaulo.com<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&nbsp;<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-15528\" data-postid=\"15528\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-15528 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, CS Refiro-me \u00e0 chamada \u201cgangue das meninas\u201d que, h\u00e1 algum tempo, vem aterrorizando os moradores da regi\u00e3o da Vila Mariana, zona sul de S\u00e3o Paulo &#8211; SP. Aparentemente s\u00e3o crian\u00e7as e, segundo elas pr\u00f3prias, est\u00e3o abaixo dos 12 anos. 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