
{"id":16992,"date":"2011-12-30T18:00:34","date_gmt":"2011-12-30T20:00:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=16992"},"modified":"2011-12-28T18:05:34","modified_gmt":"2011-12-28T20:05:34","slug":"mensagem-do-papa-bento-16-para-o-dia-mundial-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/mensagem-do-papa-bento-16-para-o-dia-mundial-da-paz\/","title":{"rendered":"Mensagem do Papa Bento 16 para o Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p>Educar os jovens para a Justi\u00e7a e a Paz<\/p>\n<p>1. O IN\u00cdCIO DE UM NOVO ANO, dom de Deus \u00e0 humanidade, induz-me a desejar a todos, com grande confian\u00e7a e estima, de modo especial que este tempo, que se abre diante de n\u00f3s, fique marcado concretamente pela justi\u00e7a e a paz. Com qual atitude devemos olhar para o novo ano? No salmo 130, encontramos uma imagem muito bela. O salmista diz que o homem de f\u00e9 aguarda pelo Senhor &#8220;mais do que a sentinela pela aurora&#8221;(v. 6), aguarda por Ele com firme esperan\u00e7a, porque sabe que trar\u00e1 luz, miseric\u00f3rdia, salva\u00e7\u00e3o. Esta expectativa nasce da experi\u00eancia do povo eleito, que reconhece ter sido educado por Deus a olhar o mundo na sua verdade sem se deixar abater pelas tribula\u00e7\u00f5es. Convido-vos a olhar o ano de 2012 com esta atitude confiante. \u00c9 verdade que, no ano que termina, cresceu o sentido de frustra\u00e7\u00e3o por causa da crise que aflige a sociedade, o mundo do trabalho e a economia; uma crise cujas ra\u00edzes s\u00e3o primariamente culturais e antropol\u00f3gicas. Quase parece que um manto de escurid\u00e3o teria descido sobre o nosso tempo, impedindo de ver com clareza a luz do dia. Mas, nesta escurid\u00e3o, o cora\u00e7\u00e3o do homem n\u00e3o cessa de aguardar pela aurora de que fala o salmista. Esta expectativa mostra-se particularmente viva e vis\u00edvel nos jovens; e \u00e9 por isso que o meu pensamento se volta para eles, considerando o contributo que podem e devem oferecer \u00e0 sociedade. Queria, pois, revestir a Mensagem para o XLV Dia Mundial da Paz duma perspectiva educativa: &#8220;Educar os jovens para a justi\u00e7a e a paz&#8221;, convencido de que eles podem, com o seu entusiasmo e idealismo, oferecer uma nova esperan\u00e7a ao mundo.<\/p>\n<p>A minha Mensagem dirige-se tamb\u00e9m aos pais, \u00e0s fam\u00edlias, a todas as componentes educativas, formadoras, bem como aos respons\u00e1veis nos diversos \u00e2mbitos da vida religiosa, social, pol\u00edtica, econ\u00f3mica, cultural e medi\u00e1tica. Prestar aten\u00e7\u00e3o ao mundo juvenil, saber escut\u00e1-lo e valoriz\u00e1-lo para a constru\u00e7\u00e3o dum futuro de justi\u00e7a e de paz n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma oportunidade mas um dever prim\u00e1rio de toda a sociedade.<\/p>\n<p>Trata-se de comunicar aos jovens o apre\u00e7o pelo valor positivo da vida, suscitando neles o desejo de consum\u00e1-la ao servi\u00e7o do Bem. Esta \u00e9 uma tarefa, na qual todos n\u00f3s estamos, pessoalmente, comprometidos.<\/p>\n<p>As preocupa\u00e7\u00f5es manifestadas por muitos jovens nestes \u00faltimos tempos, em v\u00e1rias regi\u00f5es do mundo, exprimem o desejo de poder olhar para o futuro com fundada esperan\u00e7a. Na hora actual, muitos s\u00e3o os aspectos que os trazem apreensivos: o desejo de receber uma forma\u00e7\u00e3o que os prepare de maneira mais profunda para enfrentar a realidade, a dificuldade de formar uma fam\u00edlia e encontrar um emprego est\u00e1vel, a capacidade efectiva de intervir no mundo da pol\u00edtica, da cultura e da economia contribuindo para a constru\u00e7\u00e3o duma sociedade de rosto mais humano e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p>\u00c9 importante que estes fermentos e o idealismo que encerram encontrem a devida aten\u00e7\u00e3o em todas  as componentes da sociedade. A Igreja olha para os jovens com esperan\u00e7a, tem confian\u00e7a neles e encoraja-os a procurarem a verdade, a defenderem o bem comum, a possu\u00edrem perspectivas abertas sobre o mundo e olhos capazes de ver &#8220;coisas novas&#8221;(Is 42, 9; 48, 6).<\/p>\n<p><strong>Os respons\u00e1veis da educa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>2. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a aventura mais fascinante e dif\u00edcil da vida. Educar \u2013 na sua etimologia latina educere \u2013 significa conduzir para fora de si mesmo ao encontro da realidade, rumo a uma plenitude que faz crescer a pessoa. Este processo alimenta-se do encontro de duas liberdades: a do adulto e a do jovem. Isto exige a responsabilidade do disc\u00edpulo, que deve estar dispon\u00edvel para se deixar guiar no conhecimento da realidade, e a do educador, que deve estar disposto a dar-se a si mesmo. Mas, para isso, n\u00e3o bastam meros dispensadores de regras e informa\u00e7\u00f5es; s\u00e3o necess\u00e1rias testemunhas aut\u00eanticas, ou seja, testemunhas que saibam ver mais longe do que os outros, porque a sua vida abra\u00e7a espa\u00e7os mais amplos. A testemunha \u00e9 algu\u00e9m que vive, primeiro, o caminho que prop\u00f5e.<\/p>\n<p>E quais s\u00e3o os lugares onde amadurece uma verdadeira educa\u00e7\u00e3o para a paz e a justi\u00e7a? Antes de mais nada, a fam\u00edlia, j\u00e1 que os pais s\u00e3o os primeiros educadores. A fam\u00edlia \u00e9 c\u00e9lula origin\u00e1ria da sociedade. &#8220;\u00c9 na fam\u00edlia que os filhos aprendem os valores humanos e crist\u00e3os que permitem uma conviv\u00eancia construtiva e pac\u00edfica. \u00c9 na fam\u00edlia que aprendem a solidariedade entre as gera\u00e7\u00f5es, o respeito pelas regras, o perd\u00e3o e o acolhimento do outro&#8221;.[1] Esta \u00e9 a primeira escola, onde se educa para a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p>Vivemos num mundo em que a fam\u00edlia e at\u00e9 a pr\u00f3pria vida se v\u00eaem constantemente amea\u00e7adas e, n\u00e3o raro, destro\u00e7adas. Condi\u00e7\u00f5es de trabalho frequentemente pouco compat\u00edveis com as responsabilidades familiares, preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro, ritmos fren\u00e9ticos de vida, emigra\u00e7\u00e3o \u00e0 procura dum adequado sustentamento se n\u00e3o mesmo da pura sobreviv\u00eancia, acabam por tornar dif\u00edcil a possibilidade de assegurar aos filhos um dos bens mais preciosos: a presen\u00e7a dos pais; uma presen\u00e7a, que permita compartilhar de forma cada vez mais profunda o caminho para se poder transmitir a experi\u00eancia e as certezas adquiridas com os anos \u2013 o que s\u00f3 se torna vi\u00e1vel com o tempo passado juntos. Queria aqui dizer aos pais para n\u00e3o desanimarem! Com o exemplo da sua vida, induzam os filhos a colocar a esperan\u00e7a antes de tudo em Deus, o \u00fanico de quem surgem justi\u00e7a e paz aut\u00eanticas.<\/p>\n<p>Quero dirigir-me tamb\u00e9m aos respons\u00e1veis das institui\u00e7\u00f5es com tarefas educativas: Velem, com grande sentido de responsabilidade, por que seja respeitada e valorizada em todas as circunst\u00e2ncias a dignidade de cada pessoa. Tenham a peito que cada jovem possa descobrir a sua pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o, acompanhando-o para fazer frutificar os dons que o Senhor lhe concedeu. Assegurem \u00e0s fam\u00edlias que os seus filhos n\u00e3o ter\u00e3o um caminho formativo em contraste com a sua consci\u00eancia e os seus princ\u00edpios religiosos.<\/p>\n<p>Possa cada ambiente educativo ser lugar de abertura ao transcendente e aos outros; lugar de di\u00e1logo, coes\u00e3o e escuta, onde o jovem se sinta valorizado nas suas capacidades e riquezas interiores e aprenda a apreciar os irm\u00e3os. Possa ensinar a saborear a alegria que deriva de viver dia ap\u00f3s dia a caridade e a compaix\u00e3o para com o pr\u00f3ximo e de participar activamente na constru\u00e7\u00e3o duma sociedade mais humana e fraterna.<\/p>\n<p>Dirijo-me, depois, aos respons\u00e1veis pol\u00edticos, pedindo-lhes que ajudem concretamente as fam\u00edlias e as institui\u00e7\u00f5es educativas a exercerem o seu direito-dever de educar. N\u00e3o deve jamais faltar um adequado apoio \u00e0 maternidade e \u00e0 paternidade. Actuem de modo que a ningu\u00e9m seja negado o acesso \u00e0 instru\u00e7\u00e3o e que as fam\u00edlias possam escolher livremente as estruturas educativas consideradas mais id\u00f3neas para o bem dos seus filhos. Esforcem-se por favorecer a reunifica\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias que est\u00e3o separadas devido \u00e0 necessidade de encontrar meios de subsist\u00eancia. Proporcionem aos jovens uma imagem transparente da pol\u00edtica, como verdadeiro servi\u00e7o para o bem de todos.<\/p>\n<p>N\u00e3o posso deixar de fazer apelo ainda ao mundo dos media para que prestem a sua contribui\u00e7\u00e3o educativa. Na sociedade actual, os meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o particular: n\u00e3o s\u00f3 informam, mas tamb\u00e9m formam o esp\u00edrito dos seus destinat\u00e1rios e, consequentemente, podem concorrer notavelmente para a educa\u00e7\u00e3o dos jovens. \u00c9 importante ter presente a liga\u00e7\u00e3o estreit\u00edssima que existe entre educa\u00e7\u00e3o e comunica\u00e7\u00e3o: de facto, a educa\u00e7\u00e3o realiza-se por meio da comunica\u00e7\u00e3o, que influi positiva ou negativamente na forma\u00e7\u00e3o da pessoa.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m os jovens devem ter a coragem de come\u00e7ar, eles mesmos, a viver aquilo que pedem a quantos os rodeiam. Que tenham a for\u00e7a de fazer um uso bom e consciente da liberdade, pois cabe-lhes em tudo isto uma grande responsabilidade: s\u00e3o respons\u00e1veis pela sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o para a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p><strong>Educar para a verdade e a liberdade<\/strong><\/p>\n<p>3. Santo Agostinho perguntava-se: &#8220;Quid enim fortius desiderat anima quam veritatem \u2013 que deseja o homem mais intensamente do que a verdade?&#8221;.[2] O rosto humano duma sociedade depende muito da contribui\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o para manter viva esta quest\u00e3o inevit\u00e1vel. De facto, a educa\u00e7\u00e3o diz respeito \u00e0 forma\u00e7\u00e3o integral da pessoa, incluindo a dimens\u00e3o moral e espiritual do seu ser, tendo em vista o seu fim \u00faltimo e o bem da sociedade a que pertence. Por isso, a fim de educar para a verdade, \u00e9 preciso antes de mais nada saber que \u00e9 a pessoa humana, conhecer a sua natureza. Olhando a realidade que o rodeava, o salmista p\u00f4s-se a pensar: &#8220;Quando contemplo os c\u00e9us, obra das vossas m\u00e3os, a lua e as estrelas que V\u00f3s criastes: que \u00e9 o homem para Vos lembrardes dele, o filho do homem para com ele Vos preocupardes?&#8221;(Sal 8, 4-5).<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a pergunta fundamental que nos devemos colocar: Que \u00e9 o homem? O homem \u00e9 um ser que traz no cora\u00e7\u00e3o uma sede de infinito, uma sede de verdade \u2013 n\u00e3o uma verdade parcial, mas capaz de explicar o sentido da vida \u2013, porque foi criado \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. Assim, o facto de reconhecer com gratid\u00e3o a vida como dom inestim\u00e1vel leva a descobrir a dignidade profunda e a inviolabilidade pr\u00f3pria de cada pessoa. Por isso, a primeira educa\u00e7\u00e3o consiste em aprender a reconhecer no homem a imagem do Criador e, consequentemente, a ter um profundo respeito por cada ser humano e ajudar os outros a realizarem uma vida conforme a esta sublime dignidade. \u00c9 preciso n\u00e3o esquecer jamais que &#8220;o aut\u00eantico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente \u00e0 totalidade da pessoa em todas as suas dimens\u00f5es&#8221;,[3] incluindo a transcendente, e que n\u00e3o se pode sacrificar a pessoa para alcan\u00e7ar um bem particular, seja ele econ\u00f3mico ou social, individual ou colectivo.<\/p>\n<p>S\u00f3 na rela\u00e7\u00e3o com Deus \u00e9 que o homem compreende o significado da sua liberdade, sendo tarefa da educa\u00e7\u00e3o formar para a liberdade aut\u00eantica. Esta n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de v\u00ednculos, nem o imp\u00e9rio do livre arb\u00edtrio; n\u00e3o \u00e9 o absolutismo do eu. Quando o homem se cr\u00ea um ser absoluto, que n\u00e3o depende de nada nem de ningu\u00e9m e pode fazer tudo o que lhe apetece, acaba por contradizer a verdade do seu ser e perder a sua liberdade. De facto, o homem \u00e9 precisamente o contr\u00e1rio: um ser relacional, que vive em rela\u00e7\u00e3o com os outros e sobretudo com Deus. A liberdade aut\u00eantica n\u00e3o pode jamais ser alcan\u00e7ada, afastando-se d\u2019Ele.<\/p>\n<p>A liberdade \u00e9 um valor precioso, mas delicado: pode ser mal entendida e usada mal. &#8220;Hoje um obst\u00e1culo particularmente insidioso \u00e0 ac\u00e7\u00e3o educativa \u00e9 constitu\u00eddo pela presen\u00e7a maci\u00e7a, na nossa sociedade e cultura, daquele relativismo que, nada reconhecendo como definitivo, deixa como \u00faltima medida somente o pr\u00f3prio eu com os seus desejos e, sob a apar\u00eancia da liberdade, torna-se para cada pessoa uma pris\u00e3o, porque separa uns dos outros, reduzindo cada um a permanecer fechado dentro do pr\u00f3prio \u201ceu\u201d. Dentro de um horizonte relativista como este, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, portanto, uma verdadeira educa\u00e7\u00e3o: sem a luz da verdade, mais cedo ou mais tarde cada pessoa est\u00e1, de facto, condenada a duvidar da bondade da sua pr\u00f3pria vida e das rela\u00e7\u00f5es que a constituem, da validez do seu compromisso para construir com os outros algo em comum&#8221;.[4]<\/p>\n<p>Por conseguinte o homem, para exercer a sua liberdade, deve superar o horizonte relativista e conhecer a verdade sobre si pr\u00f3prio e a verdade acerca do que \u00e9 bem e do que \u00e9 mal. No \u00edntimo da consci\u00eancia, o homem descobre uma lei que n\u00e3o se imp\u00f4s a si mesmo, mas \u00e0 qual deve obedecer e cuja voz o chama a amar e fazer o bem e a fugir do mal, a assumir a responsabilidade do bem cumprido e do mal praticado.[5] Por isso o exerc\u00edcio da liberdade est\u00e1 intimamente ligado com a lei moral natural, que tem car\u00e1cter universal, exprime a dignidade de cada pessoa, coloca a base dos seus direitos e deveres fundamentais e, consequentemente, da conviv\u00eancia justa e pac\u00edfica entre as pessoas.<\/p>\n<p>Assim o recto uso da liberdade \u00e9 um ponto central na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da paz, que exigem a cada um o respeito por si pr\u00f3prio e pelo outro, mesmo possuindo um modo de ser e viver distante do meu. Desta atitude derivam os elementos sem os quais paz e justi\u00e7a permanecem palavras desprovidas de conte\u00fado: a confian\u00e7a rec\u00edproca, a capacidade de encetar um di\u00e1logo construtivo, a possibilidade do perd\u00e3o, que muitas vezes se quereria obter mas sente-se dificuldade em conceder, a caridade m\u00fatua, a compaix\u00e3o para com os mais fr\u00e1geis, e tamb\u00e9m a prontid\u00e3o ao sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p><strong>Educar para a justi\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>4. No nosso mundo, onde o valor da pessoa, da sua dignidade e dos seus direitos, n\u00e3o obstante as proclama\u00e7\u00f5es de intentos, est\u00e1 seriamente amea\u00e7ado pela tend\u00eancia generalizada de recorrer exclusivamente aos crit\u00e9rios da utilidade, do lucro e do ter, \u00e9 importante n\u00e3o separar das suas ra\u00edzes transcendentes o conceito de justi\u00e7a. De facto, a justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 uma simples conven\u00e7\u00e3o humana, pois o que \u00e9 justo determina-se originariamente n\u00e3o pela lei positiva, mas pela identidade profunda do ser humano. \u00c9 a vis\u00e3o integral do homem que impede de cair numa concep\u00e7\u00e3o contratualista da justi\u00e7a e permite abrir tamb\u00e9m para ela o horizonte da solidariedade e do amor.[6]<\/p>\n<p>N\u00e3o podemos ignorar que certas correntes da cultura moderna, apoiadas em princ\u00edpios econ\u00f3micos racionalistas e individualistas, alienaram das suas ra\u00edzes transcendentes o conceito de justi\u00e7a, separando-o da caridade e da solidariedade. Ora &#8220;a \u201ccidade do homem\u201d n\u00e3o se move apenas por rela\u00e7\u00f5es feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por rela\u00e7\u00f5es de gratuidade, miseric\u00f3rdia e comunh\u00e3o. A caridade manifesta sempre, mesmo nas rela\u00e7\u00f5es humanas, o amor de Deus; d\u00e1 valor teologal e salv\u00edfico a todo o empenho de justi\u00e7a no mundo&#8221;.[7]<\/p>\n<p>&#8220;Felizes os que t\u00eam fome e sede de justi\u00e7a, porque ser\u00e3o saciados&#8221;(Mt 5, 6). Ser\u00e3o saciados, porque t\u00eam fome e sede de rela\u00e7\u00f5es justas com Deus, consigo mesmo, com os seus irm\u00e3os e irm\u00e3s, com a cria\u00e7\u00e3o inteira.<\/p>\n<p><strong>Educar para a paz<\/strong><\/p>\n<p>5. &#8220;A paz n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 aus\u00eancia de guerra, nem se limita a assegurar o equil\u00edbrio das for\u00e7as adversas. A paz n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel na terra sem a salvaguarda dos bens das pessoas, a livre comunica\u00e7\u00e3o entre os seres humanos, o respeito pela dignidade das pessoas e dos povos e a pr\u00e1tica ass\u00eddua da fraternidade&#8221;.[8] A paz \u00e9 fruto da justi\u00e7a e efeito da caridade. \u00c9, antes de mais nada, dom de Deus. N\u00f3s, os crist\u00e3os, acreditamos que a nossa verdadeira paz \u00e9 Cristo: n\u2019Ele, na sua Cruz, Deus reconciliou consigo o mundo e destruiu as barreiras que nos separavam uns dos outros (cf. Ef 2, 14-18); n\u2019Ele, h\u00e1 uma \u00fanica fam\u00edlia reconciliada no amor.<\/p>\n<p>A paz, por\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 apenas dom a ser recebido, mas obra a ser constru\u00edda. Para sermos verdadeiramente art\u00edfices de paz, devemos educar-nos para a compaix\u00e3o, a solidariedade, a colabora\u00e7\u00e3o, a fraternidade, ser activos dentro da comunidade e sol\u00edcitos em despertar as consci\u00eancias para as quest\u00f5es nacionais e internacionais e para a import\u00e2ncia de procurar adequadas modalidades de redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza, de promo\u00e7\u00e3o do crescimento, de coopera\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento e de resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos. &#8220;Felizes os pacificadores, porque ser\u00e3o chamados filhos de Deus&#8221;\u2013 diz Jesus no serm\u00e3o da montanha (Mt 5, 9).<\/p>\n<p>A paz para todos nasce da justi\u00e7a de cada um, e ningu\u00e9m pode subtrair-se a este compromisso essencial de promover a justi\u00e7a segundo as respectivas compet\u00eancias e responsabilidades. De forma particular convido os jovens, que conservam viva a tens\u00e3o pelos ideais, a procurarem com paci\u00eancia e tenacidade a justi\u00e7a e a paz e a cultivarem o gosto pelo que \u00e9 justo e verdadeiro, mesmo quando isso lhes possa exigir sacrif\u00edcios e obrigue a caminhar contracorrente.<\/p>\n<p><strong>Levantar os olhos para Deus<\/strong><\/p>\n<p>6. Perante o \u00e1rduo desafio de percorrer os caminhos da justi\u00e7a e da paz, podemos ser tentados a interrogar-nos como o salmista: &#8220;Levanto os olhos para os montes, de onde me vir\u00e1 o aux\u00edlio?&#8221;(Sal 121, 1).<\/p>\n<p>A todos, particularmente aos jovens, quero bradar: &#8220;N\u00e3o s\u00e3o as ideologias que salvam o mundo, mas unicamente o voltar-se para o Deus vivo, que \u00e9 o nosso criador, o garante da nossa liberdade, o garante do que \u00e9 deveras bom e verdadeiro (\u2026), o voltar-se sem reservas para Deus, que \u00e9 a medida do que \u00e9 justo e, ao mesmo tempo, \u00e9 o amor eterno. E que mais nos poderia salvar sen\u00e3o o amor?&#8221;.[9] O amor rejubila com a verdade, \u00e9 a for\u00e7a que torna capaz de comprometer-se pela verdade, pela justi\u00e7a, pela paz, porque tudo desculpa, tudo cr\u00ea, tudo espera, tudo suporta (cf. 1 Cor 13, 1-13).<\/p>\n<p>Queridos jovens, v\u00f3s sois um dom precioso para a sociedade. Diante das dificuldades, n\u00e3o vos deixeis invadir pelo des\u00e2nimo nem vos abandoneis a falsas solu\u00e7\u00f5es, que frequentemente se apresentam como o caminho mais f\u00e1cil para superar os problemas. N\u00e3o tenhais medo de vos empenhar, de enfrentar a fadiga e o sacrif\u00edcio, de optar por caminhos que requerem fidelidade e const\u00e2ncia, humildade e dedica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Vivei com confian\u00e7a a vossa juventude e os anseios profundos que sentis de felicidade, verdade, beleza e amor verdadeiro. Vivei intensamente esta fase da vida, t\u00e3o rica e cheia de entusiasmo.<\/p>\n<p>Sabei que v\u00f3s mesmos servis de exemplo e est\u00edmulo para os adultos, e tanto mais o sereis quanto mais vos esfor\u00e7ardes por superar as injusti\u00e7as e a corrup\u00e7\u00e3o, quanto mais desejardes um futuro melhor e vos comprometerdes a constru\u00ed-lo. Cientes das vossas potencialidades, nunca vos fecheis em v\u00f3s pr\u00f3prios, mas trabalhai por um futuro mais luminoso para todos. Nunca vos sintais sozinhos! A Igreja confia em v\u00f3s, acompanha-vos, encoraja-vos e deseja oferecer-vos o que tem de mais precioso: a possibilidade de levantar os olhos para Deus, de encontrar Jesus Cristo \u2013 Ele que \u00e9 a justi\u00e7a e a paz.<\/p>\n<p>Oh v\u00f3s todos, homens e mulheres, que tendes a peito a causa da paz! Esta n\u00e3o \u00e9 um bem j\u00e1 alcan\u00e7ado mas uma meta, \u00e0 qual todos e cada um deve aspirar. Olhemos, pois, o futuro com maior esperan\u00e7a, encorajemo-nos mutuamente ao longo do nosso caminho, trabalhemos para dar ao nosso mundo um rosto mais humano e fraterno e sintamo-nos unidos na responsabilidade que temos para com as jovens gera\u00e7\u00f5es, presentes e futuras, nomeadamente quanto \u00e0 sua educa\u00e7\u00e3o para se tornarem pac\u00edficas e pacificadoras! Apoiado em tal certeza, envio-vos estas refl ex\u00f5es que se fazem apelo: Unamos as nossas for\u00e7as espirituais, morais e materiais, a fim de &#8220;educar os jovens para a justi\u00e7a e a paz&#8221;.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-16992\" data-postid=\"16992\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-16992 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educar os jovens para a Justi\u00e7a e a Paz 1. 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