
{"id":23873,"date":"2013-11-26T17:12:38","date_gmt":"2013-11-26T19:12:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=23873"},"modified":"2013-12-26T10:52:40","modified_gmt":"2013-12-26T12:52:40","slug":"primeira-exortacao-apostolica-de-papa-francisco-texto-na-integra-de-evangelii-gaudium","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/primeira-exortacao-apostolica-de-papa-francisco-texto-na-integra-de-evangelii-gaudium\/","title":{"rendered":"Publicada 1\u00aa Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica do Papa Francisco"},"content":{"rendered":"<p>O Vaticano publicou na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira, 26, a primeira exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica do Papa Francisco, &#8220;Evangelii Gaudium&#8221; (&#8220;A alegria do Evangelho&#8221;). Fruto da 13\u00aa Assembleia Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, realizada no Vaticano de 7 a 28 de outubro de 2012, com o tema &#8220;A Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o da f\u00e9&#8221;, a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica foi apresentada a jornalistas pelos arcebispos dom Rino Fisichella, presidente do Pontif\u00edcio Conselho para a Promo\u00e7\u00e3o da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o; dom Cl\u00e1udio Maria Celli, presidente do Pontif\u00edcio Conselho para a Comunica\u00e7\u00e3o Social; e dom Lorenzo Baldisseri, secret\u00e1rio geral do S\u00ednodo dos Bispos.<\/p>\n<p>O documento, que come\u00e7a afirmando que &#8220;a alegria do Evangelho enche o cora\u00e7\u00e3o e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus&#8221;, est\u00e1 dividido em cinco cap\u00edtulos. No in\u00edcio do texto, o Papa Francisco explica que com a exorta\u00e7\u00e3o quer &#8220;convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos pr\u00f3ximos anos&#8221;.<\/p>\n<p>Segue a \u00edntegra da primeira exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica para leitura e arquivo em PDF para download.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">EXORTA\u00c7\u00c3O APOST\u00d3LICA<br \/>\n<strong><em>EVANGELII GAUDIUM<br \/>\n<\/em><\/strong><br \/>\nDE<br \/>\n<strong>PAPA FRANCISCO<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">AO EPISCOPADO, AO CLERO<br \/>\n\u00c0S PESSOAS CONSAGRADAS<br \/>\nE AOS FI\u00c9IS LEIGOS<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">SOBRE O AN\u00daNCIO DO EVANGELHO<br \/>\nNO MUNDO ATUAL<br \/>\n<em>Evangelii Gaudium<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">1.\tA ALEGRIA DO EVANGELHO enche o cora\u00e7\u00e3o e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos se deixam salvar por Ele s\u00e3o libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria. Quero, com esta Exorta\u00e7\u00e3o, dirigir-me aos fi\u00e9is crist\u00e3os a fim de os convidar para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Alegria que se renova e comunica<br \/>\n<\/strong><br \/>\n2.\tO grande risco do mundo actual, com sua m\u00faltipla e avassaladora oferta de consumo, \u00e9 uma tristeza individualista que brota do cora\u00e7\u00e3o comodista e mesquinho, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consci\u00eancia isolada. Quando a vida interior se fecha nos pr\u00f3prios interesses, deixa de haver espa\u00e7o para os outros, j\u00e1 n\u00e3o entram os pobres, j\u00e1 n\u00e3o se ouve a voz de Deus, j\u00e1 n\u00e3o se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem. Este \u00e9 um risco, certo e permanente, que correm tamb\u00e9m os crentes. Muitos caem nele, transformando-se em pessoas ressentidas, queixosas, sem vida. Esta n\u00e3o \u00e9 a escolha duma vida digna e plena, este n\u00e3o \u00e9 o des\u00edgnio que Deus tem para n\u00f3s, esta n\u00e3o \u00e9 a vida no Esp\u00edrito que jorra do cora\u00e7\u00e3o de Cristo ressuscitado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">3.\tConvido todo o crist\u00e3o, em qualquer lugar e situa\u00e7\u00e3o que se encontre, a renovar hoje mesmo o seu encontro pessoal com Jesus Cristo ou, pelo menos, a tomar a decis\u00e3o de se deixar encontrar por Ele, de O procurar dia a dia sem cessar. N\u00e3o h\u00e1 motivo para algu\u00e9m poder pensar que este convite n\u00e3o lhe diz respeito, j\u00e1 que \u00abda alegria trazida pelo Senhor ningu\u00e9m \u00e9 exclu\u00eddo\u00bb. Quem arrisca, o Senhor n\u00e3o o desilude; e, quando algu\u00e9m d\u00e1 um pequeno passo em direc\u00e7\u00e3o a Jesus, descobre que Ele j\u00e1 aguardava de bra\u00e7os abertos a sua chegada. Este \u00e9 o momento para dizer a Jesus Cristo: \u00abSenhor, deixei-me enganar, de mil maneiras fugi do vosso amor, mas aqui estou novamente para renovar a minha alian\u00e7a convosco. Preciso de V\u00f3s. Resgatai-me de novo, Senhor; aceitai-me mais uma vez nos vossos bra\u00e7os redentores\u00bb. Como nos faz bem voltar para Ele, quando nos perdemos! Insisto uma vez mais: Deus nunca Se cansa de perdoar, somos n\u00f3s que nos cansamos de pedir a sua miseric\u00f3rdia. Aquele que nos convidou a perdoar \u00absetenta vezes sete\u00bb (<em>Mt<\/em> 18, 22) d\u00e1-nos o exemplo: Ele perdoa setenta vezes sete. Volta uma vez e outra a carregar-nos aos seus ombros. Ningu\u00e9m nos pode tirar a dignidade que este amor infinito e inabal\u00e1vel nos confere. Ele permite-nos levantar a cabe\u00e7a e recome\u00e7ar, com uma ternura que nunca nos defrauda e sempre nos pode restituir a alegria. N\u00e3o fujamos da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus; nunca nos demos por mortos, suceda o que suceder. Que nada possa mais do que a sua vida que nos impele para diante!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">4.\tOs livros do Antigo Testamento preanunciaram a alegria da salva\u00e7\u00e3o, que havia de tornar-se superabundante nos tempos messi\u00e2nicos. O profeta Isa\u00edas dirige-se ao Messias esperado, saudando-O com regozijo: \u00abMultiplicaste a alegria, aumentaste o j\u00fabilo\u00bb (9, 2). E anima os habitantes de Si\u00e3o a receb\u00ea-Lo com c\u00e2nticos: \u00abExultai de alegria!\u00bb (12, 6). A quem j\u00e1 O avistara no horizonte, o profeta convida-o a tornar-se mensageiro para os outros: \u00abSobe a um alto monte, arauto de Si\u00e3o! Grita com voz forte, arauto de Jerusal\u00e9m\u00bb (40, 9). A cria\u00e7\u00e3o inteira participa nesta alegria da salva\u00e7\u00e3o: \u00abCantai, \u00f3 c\u00e9us! Exulta de alegria, \u00f3 terra! Rompei em exclama\u00e7\u00f5es, \u00f3 montes! Na verdade, o Senhor consola o seu povo e se compadece dos desamparados\u00bb (49, 13).<br \/>\nZacarias, vendo o dia do Senhor, convida a vitoriar o Rei que chega \u00abhumilde, montado num jumento\u00bb: \u00abExulta de alegria, filha de Si\u00e3o! Solta gritos de j\u00fabilo, filha de Jerusal\u00e9m! Eis que o teu rei vem a ti. Ele \u00e9 justo e vitorioso\u00bb (9, 9). Mas o convite mais tocante talvez seja o do profeta Sofonias, que nos mostra o pr\u00f3prio Deus como um centro irradiante de festa e de alegria, que quer comunicar ao seu povo este j\u00fabilo salv\u00edfico. Enche-me de vida reler este texto: \u00abO Senhor, teu Deus, est\u00e1 no meio de ti como poderoso salvador! Ele exulta de alegria por tua causa, pelo seu amor te renovar\u00e1. Ele dan\u00e7a e grita de alegria por tua causa\u00bb (3, 17).<br \/>\n\u00c9 a alegria que se vive no meio das pequenas coisas da vida quotidiana, como resposta ao amoroso convite de Deus nosso Pai: \u00abMeu filho, se tens com qu\u00ea, trata-te bem (&#8230;). N\u00e3o te prives da felicidade presente\u00bb (<em>Sir<\/em> 14, 11.14). Quanta ternura paterna se vislumbra por detr\u00e1s destas palavras!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">5.\tO Evangelho, onde resplandece gloriosa a Cruz de Cristo, convida insistentemente \u00e0 alegria. Apenas alguns exemplos: \u00abAlegra-te\u00bb \u00e9 a sauda\u00e7\u00e3o do anjo a Maria (<em>Lc<\/em> 1, 28). A visita de Maria a Isabel faz com que Jo\u00e3o salte de alegria no ventre de sua m\u00e3e (cf.\u00a0<em>Lc<\/em> 1, 41). No seu c\u00e2ntico, Maria proclama: \u00abO meu esp\u00edrito se alegra em Deus, meu Salvador\u00bb (<em>Lc<\/em> 1, 47). E, quando Jesus come\u00e7a o seu minist\u00e9rio, Jo\u00e3o exclama: \u00abEsta \u00e9 a minha alegria! E tornou-se completa!\u00bb (<em>Jo<\/em> 3, 29). O pr\u00f3prio Jesus \u00abestremeceu de alegria sob a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo\u00bb (<em>Lc<\/em> 10, 21). A sua mensagem \u00e9 fonte de alegria: \u00abManifestei-vos estas coisas, para que esteja em v\u00f3s a minha alegria, e a vossa alegria seja completa\u00bb (<em>Jo<\/em> 15, 11). A nossa alegria crist\u00e3 brota da fonte do seu cora\u00e7\u00e3o transbordante. Ele promete aos seus disc\u00edpulos: \u00abV\u00f3s haveis de estar tristes, mas a vossa tristeza h\u00e1-de converter-se em alegria\u00bb (<em>Jo<\/em> 16, 20). E insiste: \u00abEu hei-de ver-vos de novo! Ent\u00e3o, o vosso cora\u00e7\u00e3o h\u00e1-de alegrar-se e ningu\u00e9m vos poder\u00e1 tirar a vossa alegria\u00bb (<em>Jo<\/em> 16, 22). Depois, ao verem-No ressuscitado, \u00abencheram-se de alegria\u00bb (<em>Jo<\/em> 20, 20). O livro dos Actos dos Ap\u00f3stolos conta que, na primitiva comunidade, \u00abtomavam o alimento com alegria\u00bb (2, 46). Por onde passaram os disc\u00edpulos, \u00abhouve grande alegria\u00bb (8, 8); e eles, no meio da persegui\u00e7\u00e3o, \u00abestavam cheios de alegria\u00bb (13, 52). Um eunuco, rec\u00e9m-baptizado, \u00abseguiu o seu caminho cheio de alegria\u00bb (8, 39); e o carcereiro \u00abentregou-se, com a fam\u00edlia, \u00e0 alegria de ter acreditado em Deus\u00bb (16, 34). Porque n\u00e3o havemos de entrar, tamb\u00e9m n\u00f3s, nesta torrente de alegria?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">6.\tH\u00e1 crist\u00e3os que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem P\u00e1scoa. Reconhe\u00e7o, por\u00e9m, que a alegria n\u00e3o se vive da mesma maneira em todas as etapas e circunst\u00e2ncias da vida, por vezes muito duras. Adapta-se e transforma-se, mas sempre permanece pelo menos como um feixe de luz que nasce da certeza pessoal de, n\u00e3o obstante o contr\u00e1rio, sermos infinitamente amados. Compreendo as pessoas que se vergam \u00e0 tristeza por causa das graves dificuldades que t\u00eam de suportar, mas aos poucos \u00e9 preciso permitir que a alegria da f\u00e9 comece a despertar, como uma secreta mas firme confian\u00e7a, mesmo no meio das piores ang\u00fastias: \u00abA paz foi desterrada da minha alma, j\u00e1 nem sei o que \u00e9 a felicidade (\u2026). Isto, por\u00e9m, guardo no meu cora\u00e7\u00e3o; por isso, mantenho a esperan\u00e7a. \u00c9 que a miseric\u00f3rdia do Senhor n\u00e3o acaba, n\u00e3o se esgota a sua compaix\u00e3o. Cada manh\u00e3 ela se renova; \u00e9 grande a tua fidelidade. (&#8230;) Bom \u00e9 esperar em sil\u00eancio a salva\u00e7\u00e3o do Senhor\u00bb (<em>Lm<\/em> 3, 17.21-23.26).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">7.\tA tenta\u00e7\u00e3o apresenta-se, frequentemente, sob forma de desculpas e queixas, como se tivesse de haver in\u00fameras condi\u00e7\u00f5es para ser poss\u00edvel a alegria. Habitualmente isto acontece, porque \u00aba sociedade t\u00e9cnica teve a possibilidade de multiplicar as ocasi\u00f5es de prazer; no entanto ela encontra dificuldades grandes no engendrar tamb\u00e9m a alegria\u00bb. Posso dizer que as alegrias mais belas e espont\u00e2neas, que vi ao longo da minha vida, s\u00e3o as alegrias de pessoas muito pobres que t\u00eam pouco a que se agarrar. Recordo tamb\u00e9m a alegria genu\u00edna daqueles que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um cora\u00e7\u00e3o crente, generoso e simples. De v\u00e1rias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que \u00e9 o de Deus, a n\u00f3s manifestado em Jesus Cristo. N\u00e3o me cansarei de repetir estas palavras de Bento XVI que nos levam ao centro do Evangelho: \u00abAo in\u00edcio do ser crist\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 uma decis\u00e3o \u00e9tica ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">8.\tSomente gra\u00e7as a este encontro \u2013 ou reencontro \u2013 com o amor de Deus, que se converte em amizade feliz, \u00e9 que somos resgatados da nossa consci\u00eancia isolada e da auto-referencialidade. Chegamos a ser plenamente humanos, quando somos mais do que humanos, quando permitimos a Deus que nos conduza para al\u00e9m de n\u00f3s mesmos a fim de alcan\u00e7armos o nosso ser mais verdadeiro. Aqui est\u00e1 a fonte da ac\u00e7\u00e3o evangelizadora. Porque, se algu\u00e9m acolheu este amor que lhe devolve o sentido da vida, como \u00e9 que pode conter o desejo de o comunicar aos outros?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>2. A doce e reconfortante alegria de evangelizar<br \/>\n<\/strong><br \/>\n9.\tO bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experi\u00eancia aut\u00eantica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expans\u00e3o; e qualquer pessoa que viva uma liberta\u00e7\u00e3o profunda adquire maior sensibilidade face \u00e0s necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, n\u00e3o tem outro caminho sen\u00e3o reconhecer o outro e buscar o seu bem. Assim, n\u00e3o nos deveriam surpreender frases de S\u00e3o Paulo como estas: \u00abO amor de Cristo nos absorve completamente\u00bb (<em>2 Cor<\/em> 5, 14); \u00abai de mim, se eu n\u00e3o evangelizar!\u00bb (<em>1 Cor<\/em> 9, 16).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">10.\tA proposta \u00e9 viver a um n\u00edvel superior, mas n\u00e3o com menor intensidade: \u00abNa doa\u00e7\u00e3o, a vida se fortalece; e se enfraquece no comodismo e no isolamento. De facto, os que mais desfrutam da vida s\u00e3o os que deixam a seguran\u00e7a da margem e se apaixonam pela miss\u00e3o de comunicar a vida aos demais\u00bb. Quando a Igreja faz apelo ao compromisso evangelizador, n\u00e3o faz mais do que indicar aos crist\u00e3os o verdadeiro dinamismo da realiza\u00e7\u00e3o pessoal: \u00abAqui descobrimos outra profunda lei da realidade: \u201cA vida se alcan\u00e7a e amadurece \u00e0 medida que \u00e9 entregue para dar vida aos outros\u201d. Isto \u00e9, definitivamente, a miss\u00e3o\u00bb. Consequentemente, um evangelizador n\u00e3o deveria ter constantemente uma cara de funeral. Recuperemos e aumentemos o fervor de esp\u00edrito, \u00aba suave e reconfortante alegria de evangelizar, mesmo quando for preciso semear com l\u00e1grimas! (&#8230;) E que o mundo do nosso tempo, que procura ora na ang\u00fastia ora com esperan\u00e7a, possa receber a Boa Nova dos l\u00e1bios, n\u00e3o de evangelizadores tristes e descoro\u00e7oados, impacientes ou ansiosos, mas sim de ministros do Evangelho cuja vida irradie fervor, pois foram quem recebeu primeiro em si a alegria de Cristo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Uma eterna novidade<br \/>\n<\/em><br \/>\n11.\tUm an\u00fancio renovado proporciona aos crentes, mesmo t\u00edbios ou n\u00e3o praticantes, uma nova alegria na f\u00e9 e uma fecundidade evangelizadora. Na realidade, o seu centro e a sua ess\u00eancia s\u00e3o sempre o mesmo: o Deus que manifestou o seu amor imenso em Cristo morto e ressuscitado. Ele torna os seus fi\u00e9is sempre novos; ainda que sejam idosos, \u00abrenovam as suas for\u00e7as. T\u00eam asas como a \u00e1guia, correm sem se cansar, marcham sem desfalecer\u00bb (<em>Is<\/em> 40, 31). Cristo \u00e9 a \u00abBoa-Nova de valor eterno\u00bb (<em>Ap<\/em> 14, 6), sendo \u00abo mesmo ontem, hoje e pelos s\u00e9culos\u00bb (<em>Heb<\/em> 13, 8), mas a sua riqueza e a sua beleza s\u00e3o inesgot\u00e1veis. Ele \u00e9 sempre jovem, e fonte de constante novidade. A Igreja n\u00e3o cessa de se maravilhar com a \u00abprofundidade de riqueza, de sabedoria e de ci\u00eancia de Deus\u00bb (<em>Rm<\/em> 11, 33). S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz dizia: \u00abEsta espessura de sabedoria e ci\u00eancia de Deus \u00e9 t\u00e3o profunda e imensa, que, por mais que a alma saiba dela, sempre pode penetr\u00e1-la mais profundamente\u00bb. Ou ainda, como afirmava Santo Ireneu: \u00abNa sua vinda, [Cristo] trouxe consigo toda a novidade\u00bb. Com a sua novidade, Ele pode sempre renovar a nossa vida e a nossa comunidade, e a proposta crist\u00e3, ainda que atravesse per\u00edodos obscuros e fraquezas eclesiais, nunca envelhece. Jesus Cristo pode romper tamb\u00e9m os esquemas enfadonhos em que pretendemos aprision\u00e1-Lo, e surpreende-nos com a sua constante criatividade divina. Sempre que procuramos voltar \u00e0 fonte e recuperar o frescor original do Evangelho, despontam novas estradas, m\u00e9todos criativos, outras formas de express\u00e3o, sinais mais eloquentes, palavras cheias de renovado significado para o mundo actual. Na realidade, toda a ac\u00e7\u00e3o evangelizadora aut\u00eantica \u00e9 sempre \u00abnova\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">12.\tEmbora esta miss\u00e3o nos exija uma entrega generosa, seria um erro consider\u00e1-la como uma her\u00f3ica tarefa pessoal, dado que ela \u00e9, primariamente e acima de tudo o que possamos sondar e compreender, obra de Deus. Jesus \u00e9 \u00abo primeiro e o maior evangelizador\u00bb. Em qualquer forma de evangeliza\u00e7\u00e3o, o primado \u00e9 sempre de Deus, que quis chamar-nos para cooperar com Ele e impelir-nos com a for\u00e7a do seu Esp\u00edrito. A verdadeira novidade \u00e9 aquela que o pr\u00f3prio Deus misteriosamente quer produzir, aquela que Ele inspira, aquela que Ele provoca, aquela que Ele orienta e acompanha de mil e uma maneiras. Em toda a vida da Igreja, deve-se sempre manifestar que a iniciativa pertence a Deus, \u00abporque Ele nos amou primeiro\u00bb (<em>1 Jo<\/em> 4, 19) e \u00e9 \u00abs\u00f3 Deus que faz crescer\u00bb (<em>1 Cor<\/em> 3, 7). Esta convic\u00e7\u00e3o permite-nos manter a alegria no meio duma tarefa t\u00e3o exigente e desafiadora que ocupa inteiramente a nossa vida. Pede-nos tudo, mas ao mesmo tempo d\u00e1-nos tudo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">13.\tE tamb\u00e9m n\u00e3o deveremos entender a novidade desta miss\u00e3o como um desenraizamento, como um esquecimento da hist\u00f3ria viva que nos acolhe e impele para diante. A mem\u00f3ria \u00e9 uma dimens\u00e3o da nossa f\u00e9, que, por analogia com a mem\u00f3ria de Israel, poder\u00edamos chamar \u00abdeuteron\u00f3mica\u00bb. Jesus deixa-nos a Eucaristia como mem\u00f3ria quotidiana da Igreja, que nos introduz cada vez mais na P\u00e1scoa (cf.\u00a0<em>Lc<\/em> 22, 19). A alegria evangelizadora refulge sempre sobre o horizonte da mem\u00f3ria agradecida: \u00e9 uma gra\u00e7a que precisamos de pedir. Os Ap\u00f3stolos nunca mais esqueceram o momento em que Jesus lhes tocou o cora\u00e7\u00e3o: \u00abEram as quatro horas da tarde\u00bb (<em>Jo<\/em> 1, 39). A mem\u00f3ria faz-nos presente, juntamente com Jesus, uma verdadeira \u00abnuvem de testemunhas\u00bb (<em>Heb<\/em> 12, 1). De entre elas, distinguem-se algumas pessoas que incidiram de maneira especial para fazer germinar a nossa alegria crente: \u00abRecordai-vos dos vossos guias, que vos pregaram a palavra de Deus\u00bb (<em>Heb<\/em> 13, 7). \u00c0s vezes, trata-se de pessoas simples e pr\u00f3ximas de n\u00f3s, que nos iniciaram na vida da f\u00e9: \u00abTrago \u00e0 mem\u00f3ria a tua f\u00e9 sem fingimento, que se encontrava j\u00e1 na tua av\u00f3 L\u00f3ide e na tua m\u00e3e Eunice\u00bb (<em>2 Tm<\/em> 1, 5). O crente \u00e9, fundamentalmente, \u00abuma pessoa que faz mem\u00f3ria\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>3. A nova evangeliza\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o da f\u00e9<br \/>\n<\/strong><br \/>\n14. \u00c0 escuta do Esp\u00edrito, que nos ajuda a reconhecer comunitariamente os sinais dos tempos, celebrou-se de 7 a 28 de Outubro de 2012 a XIII Assembleia Geral Ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, sobre o tema\u00a0<em>A nova evangeliza\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3<\/em>. L\u00e1 foi recordado que a nova evangeliza\u00e7\u00e3o interpela a todos, realizando-se fundamentalmente em tr\u00eas \u00e2mbitos. Em primeiro lugar, mencionamos o \u00e2mbito da\u00a0<em>pastoral ordin\u00e1ria<\/em>, \u00abanimada pelo fogo do Esp\u00edrito a fim de incendiar os cora\u00e7\u00f5es dos fi\u00e9is que frequentam regularmente a comunidade, reunindo-se no dia do Senhor, para se alimentarem da sua Palavra e do P\u00e3o de vida eterna\u00bb. Devem ser inclu\u00eddos tamb\u00e9m neste \u00e2mbito os fi\u00e9is que conservam uma f\u00e9 cat\u00f3lica intensa e sincera, exprimindo-a de diversos modos, embora n\u00e3o participem frequentemente no culto. Esta pastoral est\u00e1 orientada para o crescimento dos crentes, a fim de corresponderem cada vez melhor e com toda a sua vida ao amor de Deus.<br \/>\nEm segundo lugar, lembramos o \u00e2mbito das \u00ab<em>pessoas baptizadas que<\/em>, por\u00e9m,\u00a0<em>n\u00e3o vivem as exig\u00eancias do Baptismo<\/em>\u00bb, n\u00e3o sentem uma perten\u00e7a cordial \u00e0 Igreja e j\u00e1 n\u00e3o experimentam a consola\u00e7\u00e3o da f\u00e9. M\u00e3e sempre sol\u00edcita, a Igreja esfor\u00e7a-se para que elas vivam uma convers\u00e3o que lhes restitua a alegria da f\u00e9 e o desejo de se comprometerem com o Evangelho.<br \/>\nPor fim, frisamos que a evangeliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 essencialmente relacionada com a proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho\u00a0<em>\u00e0queles que n\u00e3o conhecem Jesus Cristo ou que sempre O recusaram<\/em>. Muitos deles buscam secretamente a Deus, movidos pela nostalgia do seu rosto, mesmo em pa\u00edses de antiga tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Todos t\u00eam o direito de receber o Evangelho. Os crist\u00e3os t\u00eam o dever de o anunciar, sem excluir ningu\u00e9m, e n\u00e3o como quem imp\u00f5e uma nova obriga\u00e7\u00e3o, mas como quem partilha uma alegria, indica um horizonte estupendo, oferece um banquete apetec\u00edvel. A Igreja n\u00e3o cresce por proselitismo, mas \u00abpor atrac\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">15.\tJo\u00e3o Paulo II convidou-nos a reconhecer que \u00abn\u00e3o se pode perder a tens\u00e3o para o an\u00fancio\u00bb \u00e0queles que est\u00e3o longe de Cristo, \u00abporque esta \u00e9\u00a0<em>a tarefa prim\u00e1ria<\/em> da Igreja\u00bb. A actividade mission\u00e1ria \u00abainda hoje representa\u00a0<em>o m\u00e1ximo desafio<\/em> para a Igreja\u00bb e \u00aba causa mission\u00e1ria\u00a0<em>deve ser<\/em> (\u2026)\u00a0<em>a primeira<\/em> de todas as causas\u00bb. Que sucederia se tom\u00e1ssemos realmente a s\u00e9rio estas palavras? Simplesmente reconhecer\u00edamos que a ac\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria \u00e9\u00a0<em>o paradigma de toda a obra da Igreja<\/em>. Nesta linha, os Bispos latino-americanos afirmaram que \u00abn\u00e3o podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos\u00bb, sendo necess\u00e1rio passar \u00abde uma pastoral de mera conserva\u00e7\u00e3o para uma pastoral decididamente mission\u00e1ria\u00bb. Esta tarefa continua a ser a fonte das maiores alegrias para a Igreja: \u00abHaver\u00e1 mais alegria no C\u00e9u por um s\u00f3 pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que n\u00e3o necessitam de convers\u00e3o\u00bb (<em>Lc<\/em> 15, 7).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A proposta desta Exorta\u00e7\u00e3o e seus contornos<br \/>\n<\/em><br \/>\n16.\tCom prazer, aceitei o convite dos Padres sinodais para redigir esta Exorta\u00e7\u00e3o. Para o efeito, recolho a riqueza dos trabalhos do S\u00ednodo; consultei tamb\u00e9m v\u00e1rias pessoas e pretendo, al\u00e9m disso, exprimir as preocupa\u00e7\u00f5es que me movem neste momento concreto da obra evangelizadora da Igreja. Os temas relacionados com a evangeliza\u00e7\u00e3o no mundo actual, que se poderiam desenvolver aqui, s\u00e3o inumer\u00e1veis. Mas renunciei a tratar detalhadamente esta multiplicidade de quest\u00f5es que devem ser objecto de estudo e aprofundamento cuidadoso. Penso, ali\u00e1s, que n\u00e3o se deve esperar do magist\u00e9rio papal uma palavra definitiva ou completa sobre todas as quest\u00f5es que dizem respeito \u00e0 Igreja e ao mundo. N\u00e3o conv\u00e9m que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problem\u00e1ticas que sobressaem nos seus territ\u00f3rios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar \u00abdescentraliza\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">17.\tAqui escolhi propor algumas directrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo. Neste quadro e com base na doutrina da Constitui\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica\u00a0<em>Lumen gentium<\/em>, decidi, entre outros temas, de me deter amplamente sobre as seguintes quest\u00f5es:<br \/>\na) A reforma da Igreja em sa\u00edda mission\u00e1ria.<br \/>\nb) As tenta\u00e7\u00f5es dos agentes pastorais.<br \/>\nc) A Igreja vista como a totalidade do povo de Deus que evangeliza.<br \/>\nd) A homilia e a sua prepara\u00e7\u00e3o.<br \/>\ne) A inclus\u00e3o social dos pobres.<br \/>\nf) A paz e o di\u00e1logo social.<br \/>\ng) As motiva\u00e7\u00f5es espirituais para o compromisso mission\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">18.\tDemorei-me nestes temas, desenvolvendo-os dum modo que talvez possa parecer excessivo. Mas n\u00e3o o fiz com a inten\u00e7\u00e3o de oferecer um tratado, mas s\u00f3 para mostrar a relevante incid\u00eancia pr\u00e1tica destes assuntos na miss\u00e3o actual da Igreja. De facto, todos eles ajudam a delinear um preciso estilo evangelizador, que convido a assumir\u00a0<em>em qualquer actividade que se realize<\/em>. E, desta forma, podemos assumir, no meio do nosso trabalho di\u00e1rio, esta exorta\u00e7\u00e3o da Palavra de Deus: \u00abAlegrai-vos sempre no Senhor! De novo vos digo: alegrai-vos!\u00bb (<em>Fl<\/em> 4, 4).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo I<br \/>\nA TRANSFORMA\u00c7\u00c3O MISSION\u00c1RIA DA IGREJA<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">19.\tA evangeliza\u00e7\u00e3o obedece ao mandato mission\u00e1rio de Jesus: \u00abIde, pois, fazei disc\u00edpulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado\u00bb (<em>Mt<\/em> 28, 19-20). Nestes vers\u00edculos, aparece o momento em que o Ressuscitado envia os seus a pregar o Evangelho em todos os tempos e lugares, para que a f\u00e9 n\u2019Ele se estenda a todos os cantos da terra.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Uma Igreja \u00abem sa\u00edda\u00bb<br \/>\n<\/strong><br \/>\n20.\tNa Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de \u00absa\u00edda\u00bb, que Deus quer provocar nos crentes. Abra\u00e3o aceitou a chamada para partir rumo a uma nova terra (cf.\u00a0<em>Gn<\/em> 12, 1-3). Mois\u00e9s ouviu a chamada de Deus: \u00abVai; Eu te envio\u00bb (<em>Ex<\/em> 3, 10), e fez sair o povo para a terra prometida (cf.\u00a0<em>Ex<\/em> 3, 17). A Jeremias disse: \u00abIr\u00e1s aonde Eu te enviar\u00bb (<em>Jr<\/em> 1, 7). Naquele \u00abide\u00bb de Jesus, est\u00e3o presentes os cen\u00e1rios e os desafios sempre novos da miss\u00e3o evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova \u00absa\u00edda\u00bb mission\u00e1ria. Cada crist\u00e3o e cada comunidade h\u00e1-de discernir qual \u00e9 o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da pr\u00f3pria comodidade e ter a coragem de alcan\u00e7ar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">21.\t A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos disc\u00edpulos, \u00e9 uma alegria mission\u00e1ria. Experimentam-na os setenta e dois disc\u00edpulos, que voltam da miss\u00e3o cheios de alegria (cf.\u00a0<em>Lc<\/em> 10, 17). Vive-a Jesus, que exulta de alegria no Esp\u00edrito Santo e louva o Pai, porque a sua revela\u00e7\u00e3o chega aos pobres e aos pequeninos (cf.\u00a0<em>Lc<\/em> 10, 21). Sentem-na, cheios de admira\u00e7\u00e3o, os primeiros que se convertem no Pentecostes, ao ouvir \u00abcada um na sua pr\u00f3pria l\u00edngua\u00bb (<em>Act<\/em> 2, 6) a prega\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos. Esta alegria \u00e9 um sinal de que o Evangelho foi anunciado e est\u00e1 a frutificar. Mas cont\u00e9m sempre a din\u00e2mica do \u00eaxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e de semear sempre de novo, sempre mais al\u00e9m. O Senhor diz: \u00abVamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar a\u00ed, pois foi para isso que Eu vim\u00bb (<em>Mc<\/em> 1, 38). Ele, depois de lan\u00e7ar a semente num lugar, n\u00e3o se demora l\u00e1 a explicar melhor ou a cumprir novos sinais, mas o Esp\u00edrito leva-O a partir para outras aldeias.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">22.\tA Palavra possui, em si mesma, uma tal potencialidade, que n\u00e3o a podemos prever. O Evangelho fala da semente que, uma vez lan\u00e7ada \u00e0 terra, cresce por si mesma, inclusive quando o agricultor dorme (cf.\u00a0<em>Mc<\/em> 4, 26-29). A Igreja deve aceitar esta liberdade incontrol\u00e1vel da Palavra, que \u00e9 eficaz a seu modo e sob formas t\u00e3o variadas que muitas vezes nos escapam, superando as nossas previs\u00f5es e quebrando os nossos esquemas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">23.\tA intimidade da Igreja com Jesus \u00e9 uma intimidade itinerante, e a comunh\u00e3o \u00abreveste essencialmente a forma de comunh\u00e3o mission\u00e1ria\u00bb. Fiel ao modelo do Mestre, \u00e9 vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasi\u00f5es, sem demora, sem repugn\u00e2ncias e sem medo. A alegria do Evangelho \u00e9 para todo o povo, n\u00e3o se pode excluir ningu\u00e9m; assim foi anunciada pelo anjo aos pastores de Bel\u00e9m: \u00abN\u00e3o temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o ser\u00e1 para\u00a0<em>todo o povo<\/em>\u00bb (<em>Lc<\/em> 2, 10). O Apocalipse fala de \u00abuma Boa-Nova de valor eterno para anunciar aos habitantes da terra:<em>a todas as na\u00e7\u00f5es, tribos, l\u00ednguas e povos<\/em>\u00bb (<em>Ap<\/em> 14, 6).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>\u00abPrimeirear\u00bb, envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar<br \/>\n<\/em><br \/>\n24.\tA Igreja \u00abem sa\u00edda\u00bb \u00e9 a comunidade de disc\u00edpulos mission\u00e1rios que \u00abprimeireiam\u00bb, que se envolvem, que acompanham, que frutificam e festejam.\u00a0<em>Primeireiam<\/em> \u2013 desculpai o neologismo \u2013, tomam a iniciativa! A comunidade mission\u00e1ria experimenta que o Senhor tomou a iniciativa, precedeu-a no amor (cf.\u00a0<em>1 Jo<\/em> 4, 10), e, por isso, ela sabe ir \u00e0 frente, sabe tomar a iniciativa sem medo, ir ao encontro, procurar os afastados e chegar \u00e0s encruzilhadas dos caminhos para convidar os exclu\u00eddos. Vive um desejo inexaur\u00edvel de oferecer miseric\u00f3rdia, fruto de ter experimentado a miseric\u00f3rdia infinita do Pai e a sua for\u00e7a difusiva. Ousemos um pouco mais no tomar a iniciativa! Como consequ\u00eancia, a Igreja sabe \u00abenvolver-se\u00bb. Jesus lavou os p\u00e9s aos seus disc\u00edpulos. O Senhor envolve-Se e envolve os seus, pondo-Se de joelhos diante dos outros para os lavar; mas, logo a seguir, diz aos disc\u00edpulos: \u00abSereis felizes se o puserdes em pr\u00e1tica\u00bb (<em>Jo<\/em> 13, 17). Com obras e gestos, a comunidade mission\u00e1ria entra na vida di\u00e1ria dos outros, encurta as dist\u00e2ncias, abaixa-se \u2013 se for necess\u00e1rio \u2013 at\u00e9 \u00e0 humilha\u00e7\u00e3o e assume a vida humana, tocando a carne sofredora de Cristo no povo. Os evangelizadores contraem assim o \u00abcheiro de ovelha\u00bb, e estas escutam a sua voz. Em seguida, a comunidade evangelizadora disp\u00f5e-se a \u00abacompanhar\u00bb. Acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a suporta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. A evangeliza\u00e7\u00e3o patenteia muita paci\u00eancia, e evita deter-se a considerar as limita\u00e7\u00f5es. Fiel ao dom do Senhor, sabe tamb\u00e9m \u00abfrutificar\u00bb. A comunidade evangelizadora mant\u00e9m-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e n\u00e3o perde a paz por causa do joio. O semeador, quando v\u00ea surgir o joio no meio do trigo, n\u00e3o tem reac\u00e7\u00f5es lastimosas ou alarmistas. Encontra o modo para fazer com que a Palavra se encarne numa situa\u00e7\u00e3o concreta e d\u00ea frutos de vida nova, apesar de serem aparentemente imperfeitos ou defeituosos. O disc\u00edpulo sabe oferecer a vida inteira e jog\u00e1-la at\u00e9 ao mart\u00edrio como testemunho de Jesus Cristo, mas o seu sonho n\u00e3o \u00e9 estar cheio de inimigos, mas antes que a Palavra seja acolhida e manifeste a sua for\u00e7a libertadora e renovadora. Por fim, a comunidade evangelizadora jubilosa sabe sempre \u00abfestejar\u00bb: celebra e festeja cada pequena vit\u00f3ria, cada passo em frente na evangeliza\u00e7\u00e3o. No meio desta exig\u00eancia di\u00e1ria de fazer avan\u00e7ar o bem, a evangeliza\u00e7\u00e3o jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que \u00e9 tamb\u00e9m celebra\u00e7\u00e3o da actividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>2. Pastoral em convers\u00e3o<br \/>\n<\/strong><br \/>\n25.\tN\u00e3o ignoro que hoje os documentos n\u00e3o suscitam o mesmo interesse que noutras \u00e9pocas, acabando rapidamente esquecidos. Apesar disso sublinho que, aquilo que pretendo deixar expresso aqui, possui um significado program\u00e1tico e tem consequ\u00eancias importantes. Espero que todas as comunidades se esforcem por actuar os meios necess\u00e1rios para avan\u00e7ar no caminho duma convers\u00e3o pastoral e mission\u00e1ria, que n\u00e3o pode deixar as coisas como est\u00e3o. Neste momento, n\u00e3o nos serve uma \u00absimples administra\u00e7\u00e3o\u00bb. Constituamo-nos em \u00abestado permanente de miss\u00e3o\u00bb, em todas as regi\u00f5es da terra.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">26.\tPaulo VI convidou a alargar o apelo \u00e0 renova\u00e7\u00e3o de modo que ressalte, com for\u00e7a, que n\u00e3o se dirige apenas aos indiv\u00edduos, mas \u00e0 Igreja inteira. Lembremos este texto memor\u00e1vel, que n\u00e3o perdeu a sua for\u00e7a interpeladora: \u00abA Igreja deve aprofundar a consci\u00eancia de si mesma, meditar sobre o seu pr\u00f3prio mist\u00e9rio (&#8230;). Desta consci\u00eancia esclarecida e operante deriva espontaneamente um desejo de comparar a imagem ideal da Igreja, tal como Cristo a viu, quis e amou, ou seja, como sua Esposa santa e imaculada (<em>Ef<\/em> 5, 27), com o rosto real que a Igreja apresenta hoje. (\u2026) Em consequ\u00eancia disso, surge uma necessidade generosa e quase impaciente de renova\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, de emenda dos defeitos, que aquela consci\u00eancia denuncia e rejeita, como se fosse um exame interior ao espelho do modelo que Cristo nos deixou de Si mesmo\u00bb.<br \/>\nO Conc\u00edlio Vaticano II apresentou a convers\u00e3o eclesial como a abertura a uma reforma permanente de si mesma por fidelidade a Jesus Cristo: \u00abToda a renova\u00e7\u00e3o da Igreja consiste essencialmente numa maior fidelidade \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. (\u2026) A Igreja peregrina \u00e9 chamada por Cristo a esta reforma perene. Como institui\u00e7\u00e3o humana e terrena, a Igreja necessita perpetuamente desta reforma\u00bb.<br \/>\nH\u00e1 estruturas eclesiais que podem chegar a condicionar um dinamismo evangelizador; de igual modo, as boas estruturas servem quando h\u00e1 uma vida que as anima, sustenta e avalia. Sem vida nova e esp\u00edrito evang\u00e9lico aut\u00eantico, sem \u00abfidelidade da Igreja \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o\u00bb, toda e qualquer nova estrutura se corrompe em pouco tempo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Uma renova\u00e7\u00e3o eclesial inadi\u00e1vel<br \/>\n<\/em><br \/>\n27.\tSonho com uma op\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os hor\u00e1rios, a linguagem e toda a estrutura eclesial se tornem um canal proporcionado mais \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o do mundo actual que \u00e0 auto-preserva\u00e7\u00e3o. A reforma das estruturas, que a convers\u00e3o pastoral exige, s\u00f3 se pode entender neste sentido: fazer com que todas elas se tornem mais mission\u00e1rias, que a pastoral ordin\u00e1ria em todas as suas inst\u00e2ncias seja mais comunicativa e aberta, que coloque os agentes pastorais em atitude constante de \u00absa\u00edda\u00bb e, assim, favore\u00e7a a resposta positiva de todos aqueles a quem Jesus oferece a sua amizade. Como dizia Jo\u00e3o Paulo II aos Bispos da Oce\u00e2nia, \u00abtoda a renova\u00e7\u00e3o na Igreja h\u00e1-de ter como alvo a miss\u00e3o, para n\u00e3o cair v\u00edtima duma esp\u00e9cie de introvers\u00e3o eclesial\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">28.\tA par\u00f3quia n\u00e3o \u00e9 uma estrutura caduca; precisamente porque possui uma grande plasticidade, pode assumir formas muito diferentes que requerem a docilidade e a criatividade mission\u00e1ria do Pastor e da comunidade. Embora n\u00e3o seja certamente a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o evangelizadora, se for capaz de se reformar e adaptar constantemente, continuar\u00e1 a ser \u00aba pr\u00f3pria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas\u00bb. Isto sup\u00f5e que esteja realmente em contacto com as fam\u00edlias e com a vida do povo, e n\u00e3o se torne uma estrutura complicada, separada das pessoas, nem um grupo de eleitos que olham para si mesmos. A par\u00f3quia \u00e9 presen\u00e7a eclesial no territ\u00f3rio, \u00e2mbito para a escuta da Palavra, o crescimento da vida crist\u00e3, o di\u00e1logo, o an\u00fancio, a caridade generosa, a adora\u00e7\u00e3o e a celebra\u00e7\u00e3o. Atrav\u00e9s de todas as suas actividades, a par\u00f3quia incentiva e forma os seus membros para serem agentes da evangeliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 comunidade de comunidades, santu\u00e1rio onde os sedentos v\u00e3o beber para continuarem a caminhar, e centro de constante envio mission\u00e1rio. Temos, por\u00e9m, de reconhecer que o apelo \u00e0 revis\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o das par\u00f3quias ainda n\u00e3o deu suficientemente fruto, tornando-se ainda mais pr\u00f3ximas das pessoas, sendo \u00e2mbitos de viva comunh\u00e3o e participa\u00e7\u00e3o e orientando-se completamente para a miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">29.\tAs outras institui\u00e7\u00f5es eclesiais, comunidades de base e pequenas comunidades, movimentos e outras formas de associa\u00e7\u00e3o s\u00e3o uma riqueza da Igreja que o Esp\u00edrito suscita para evangelizar todos os ambientes e sectores. Frequentemente trazem um novo ardor evangelizador e uma capacidade de di\u00e1logo com o mundo que renovam a Igreja. Mas \u00e9 muito salutar que n\u00e3o percam o contacto com esta realidade muito rica da par\u00f3quia local e que se integrem de bom grado na pastoral org\u00e2nica da Igreja particular. Esta integra\u00e7\u00e3o evitar\u00e1 que fiquem s\u00f3 com uma parte do Evangelho e da Igreja, ou que se transformem em n\u00f3mades sem ra\u00edzes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">30.\tCada Igreja particular, por\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica sob a guia do seu Bispo, est\u00e1, tamb\u00e9m ela, chamada \u00e0 convers\u00e3o mission\u00e1ria. Ela \u00e9 o sujeito prim\u00e1rio da evangeliza\u00e7\u00e3o, enquanto \u00e9 a manifesta\u00e7\u00e3o concreta da \u00fanica Igreja num lugar da terra e, nela, \u00abest\u00e1 verdadeiramente presente e opera a Igreja de Cristo, una, santa, cat\u00f3lica e apost\u00f3lica\u00bb. \u00c9 a Igreja encarnada num espa\u00e7o concreto, dotada de todos os meios de salva\u00e7\u00e3o dados por Cristo, mas com um rosto local. A sua alegria de comunicar Jesus Cristo exprime-se tanto na sua preocupa\u00e7\u00e3o por anunci\u00e1-Lo noutros lugares mais necessitados, como numa constante sa\u00edda para as periferias do seu territ\u00f3rio ou para os novos \u00e2mbitos socioculturais. Procura estar sempre onde fazem mais falta a luz e a vida do Ressuscitado. Para que este impulso mission\u00e1rio seja cada vez mais intenso, generoso e fecundo, exorto tamb\u00e9m cada uma das Igrejas particulares a entrar decididamente num processo de discernimento, purifica\u00e7\u00e3o e reforma.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">31.\tO Bispo deve favorecer sempre a comunh\u00e3o mission\u00e1ria na sua Igreja diocesana, seguindo o ideal das primeiras comunidades crist\u00e3s, em que os crentes tinham um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma (cf.\u00a0<em>Act<\/em> 4, 32) . Para isso, \u00e0s vezes p\u00f4r-se-\u00e1 \u00e0 frente para indicar a estrada e sustentar a esperan\u00e7a do povo, outras vezes manter-se-\u00e1 simplesmente no meio de todos com a sua proximidade simples e misericordiosa e, em certas circunst\u00e2ncias, dever\u00e1 caminhar atr\u00e1s do povo, para ajudar aqueles que se atrasaram e sobretudo porque o pr\u00f3prio rebanho possui o olfacto para encontrar novas estradas. Na sua miss\u00e3o de promover uma comunh\u00e3o din\u00e2mica, aberta e mission\u00e1ria, dever\u00e1 estimular e procurar o amadurecimento dos organismos de participa\u00e7\u00e3o propostos pelo\u00a0<em>C\u00f3digo de Direito Can\u00f3nico<\/em> e de outras formas de di\u00e1logo pastoral, com o desejo de ouvir a todos, e n\u00e3o apenas alguns sempre prontos a lisonje\u00e1-lo. Mas o objectivo destes processos participativos n\u00e3o h\u00e1-de ser principalmente a organiza\u00e7\u00e3o eclesial, mas o sonho mission\u00e1rio de chegar a todos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">32.\tDado que sou chamado a viver aquilo que pe\u00e7o aos outros, devo pensar tamb\u00e9m numa convers\u00e3o do papado. Compete-me, como Bispo de Roma, permanecer aberto \u00e0s sugest\u00f5es tendentes a um exerc\u00edcio do meu minist\u00e9rio que o torne mais fiel ao significado que Jesus Cristo pretendeu dar-lhe e \u00e0s necessidades actuais da evangeliza\u00e7\u00e3o. O Papa Jo\u00e3o Paulo II pediu que o ajudassem a encontrar \u00abuma forma de exerc\u00edcio do primado que, sem renunciar de modo algum ao que \u00e9 essencial da sua miss\u00e3o, se abra a uma situa\u00e7\u00e3o nova\u00bb. Pouco temos avan\u00e7ado neste sentido. Tamb\u00e9m o papado e as estruturas centrais da Igreja universal precisam de ouvir este apelo a uma convers\u00e3o pastoral. O Conc\u00edlio Vaticano II afirmou que, \u00e0 semelhan\u00e7a das antigas Igrejas patriarcais, as confer\u00eancias episcopais podem \u00abaportar uma contribui\u00e7\u00e3o m\u00faltipla e fecunda, para que o sentimento colegial leve a aplica\u00e7\u00f5es concretas\u00bb. Mas este desejo n\u00e3o se realizou plenamente, porque ainda n\u00e3o foi suficientemente explicitado um estatuto das confer\u00eancias episcopais que as considere como sujeitos de atribui\u00e7\u00f5es concretas, incluindo alguma aut\u00eantica autoridade doutrinal. Uma centraliza\u00e7\u00e3o excessiva, em vez de ajudar, complica a vida da Igreja e a sua din\u00e2mica mission\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">33.\tA pastoral em chave mission\u00e1ria exige o abandono deste c\u00f3modo crit\u00e9rio pastoral: \u00abfez-se sempre assim\u00bb. Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objectivos, as estruturas, o estilo e os m\u00e9todos evangelizadores das respectivas comunidades. Uma identifica\u00e7\u00e3o dos fins, sem uma condigna busca comunit\u00e1ria dos meios para os alcan\u00e7ar, est\u00e1 condenada a traduzir-se em mera fantasia. A todos exorto a aplicarem, com generosidade e coragem, as orienta\u00e7\u00f5es deste documento, sem impedimentos nem receios. Importante \u00e9 n\u00e3o caminhar sozinho, mas ter sempre em conta os irm\u00e3os e, de modo especial, a guia dos Bispos, num discernimento pastoral s\u00e1bio e realista.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>3. A partir do cora\u00e7\u00e3o do Evangelho<br \/>\n<\/strong><br \/>\n34.\tSe pretendemos colocar tudo em chave mission\u00e1ria, isso aplica-se tamb\u00e9m \u00e0 maneira de comunicar a mensagem. No mundo actual, com a velocidade das comunica\u00e7\u00f5es e a selec\u00e7\u00e3o interessada dos conte\u00fados feita pelos\u00a0<em>mass-media<\/em>, a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns dos seus aspectos secund\u00e1rios. Consequentemente, algumas quest\u00f5es que fazem parte da doutrina moral da Igreja ficam fora do contexto que lhes d\u00e1 sentido. O problema maior ocorre quando a mensagem que anunciamos parece ent\u00e3o identificada com tais aspectos secund\u00e1rios, que, apesar de serem relevantes, por si sozinhos n\u00e3o manifestam o cora\u00e7\u00e3o da mensagem de Jesus Cristo. Portanto, conv\u00e9m ser realistas e n\u00e3o dar por suposto que os nossos interlocutores conhecem o horizonte completo daquilo que dizemos ou que eles podem relacionar o nosso discurso com o n\u00facleo essencial do Evangelho que lhe confere sentido, beleza e fasc\u00ednio.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">35.\tUma pastoral em chave mission\u00e1ria n\u00e3o est\u00e1 obsessionada pela transmiss\u00e3o desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor \u00e0 for\u00e7a de insistir. Quando se assume um objectivo pastoral e um estilo mission\u00e1rio, que chegue realmente a todos sem excep\u00e7\u00f5es nem exclus\u00f5es, o an\u00fancio concentra-se no essencial, no que \u00e9 mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necess\u00e1rio. A proposta acaba simplificada, sem com isso perder profundidade e verdade, e assim se torna mais convincente e radiosa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">36.\tTodas as verdades reveladas procedem da mesma fonte divina e s\u00e3o acreditadas com a mesma f\u00e9, mas algumas delas s\u00e3o mais importantes por exprimir mais directamente o cora\u00e7\u00e3o do Evangelho. Neste n\u00facleo fundamental, o que sobressai \u00e9\u00a0<em>a beleza do amor salv\u00edfico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado<\/em>. Neste sentido, o Conc\u00edlio Vaticano II afirmou que \u00abexiste uma ordem ou \u201chierarquia\u201d das verdades da doutrina cat\u00f3lica, j\u00e1 que o nexo delas com o fundamento da f\u00e9 crist\u00e3 \u00e9 diferente\u00bb. Isto \u00e9 v\u00e1lido tanto para os dogmas da f\u00e9 como para o conjunto dos ensinamentos da Igreja, incluindo a doutrina moral.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">37.\tS\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino ensinava que, tamb\u00e9m na mensagem moral da Igreja, h\u00e1 uma\u00a0<em>hierarquia<\/em> nas virtudes e ac\u00e7\u00f5es que delas procedem. Aqui o que conta \u00e9, antes de mais nada, \u00aba f\u00e9 que actua pelo amor\u00bb (<em>Gal<\/em> 5, 6). As obras de amor ao pr\u00f3ximo s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o externa mais perfeita da gra\u00e7a interior do Esp\u00edrito: \u00abO elemento principal da Nova Lei \u00e9 a gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, que se manifesta atrav\u00e9s da f\u00e9 que opera pelo amor\u00bb. Por isso afirma que, relativamente ao agir exterior, a miseric\u00f3rdia \u00e9 a maior de todas as virtudes: \u00abEm si mesma, a miseric\u00f3rdia \u00e9 a maior das virtudes; na realidade, compete-lhe debru\u00e7ar-se sobre os outros e \u2013 o que mais conta \u2013 remediar as mis\u00e9rias alheias. Ora, isto \u00e9 tarefa especialmente de quem \u00e9 superior; \u00e9 por isso que se diz que \u00e9 pr\u00f3prio de Deus usar de miseric\u00f3rdia e \u00e9, sobretudo nisto, que se manifesta a sua omnipot\u00eancia\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">38.\t\u00c9 importante tirar as consequ\u00eancias pastorais desta doutrina conciliar, que recolhe uma antiga convic\u00e7\u00e3o da Igreja. Antes de mais nada, deve-se dizer que, no an\u00fancio do Evangelho, \u00e9 necess\u00e1rio que haja uma propor\u00e7\u00e3o adequada. Esta reconhece-se na frequ\u00eancia com que se mencionam alguns temas e nas acentua\u00e7\u00f5es postas na prega\u00e7\u00e3o. Por exemplo, se um p\u00e1roco, durante um ano lit\u00fargico, fala dez vezes sobre a temperan\u00e7a e apenas duas ou tr\u00eas vezes sobre a caridade ou sobre a justi\u00e7a, gera-se uma despropor\u00e7\u00e3o, acabando obscurecidas precisamente aquelas virtudes que deveriam estar mais presentes na prega\u00e7\u00e3o e na catequese. E o mesmo acontece quando se fala mais da lei que da gra\u00e7a, mais da Igreja que de Jesus Cristo, mais do Papa que da Palavra de Deus.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">39.\tTal como existe uma unidade org\u00e2nica entre as virtudes que impede de excluir qualquer uma delas do ideal crist\u00e3o, assim tamb\u00e9m nenhuma verdade \u00e9 negada. N\u00e3o \u00e9 preciso mutilar a integridade da mensagem do Evangelho. Al\u00e9m disso, cada verdade entende-se melhor se a colocarmos em rela\u00e7\u00e3o com a totalidade harmoniosa da mensagem crist\u00e3: e, neste contexto, todas as verdades t\u00eam a sua pr\u00f3pria import\u00e2ncia e iluminam-se reciprocamente. Quando a prega\u00e7\u00e3o \u00e9 fiel ao Evangelho, manifesta-se com clareza a centralidade de algumas verdades e fica claro que a prega\u00e7\u00e3o moral crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 uma \u00e9tica est\u00f3ica, \u00e9 mais do que uma ascese, n\u00e3o \u00e9 uma mera filosofia pr\u00e1tica nem um cat\u00e1logo de pecados e erros. O Evangelho convida, antes de tudo, a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-O nos outros e saindo de n\u00f3s mesmos para procurar o bem de todos. Este convite n\u00e3o h\u00e1-de ser obscurecido em nenhuma circunst\u00e2ncia! Todas as virtudes est\u00e3o ao servi\u00e7o desta resposta de amor. Se tal convite n\u00e3o refulge com vigor e fasc\u00ednio, o edif\u00edcio moral da Igreja corre o risco de se tornar um castelo de cartas, sendo este o nosso pior perigo; \u00e9 que, ent\u00e3o, n\u00e3o estaremos propriamente a anunciar o Evangelho, mas algumas acentua\u00e7\u00f5es doutrinais ou morais, que derivam de certas op\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas. A mensagem correr\u00e1 o risco de perder o seu frescor e j\u00e1 n\u00e3o ter \u00abo perfume do Evangelho\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>4. A miss\u00e3o que se encarna nas limita\u00e7\u00f5es humanas<br \/>\n<\/strong><br \/>\n40.\tA Igreja, que \u00e9 disc\u00edpula mission\u00e1ria, tem necessidade de crescer na sua interpreta\u00e7\u00e3o da Palavra revelada e na sua compreens\u00e3o da verdade. A tarefa dos exegetas e te\u00f3logos ajuda a \u00abamadurecer o ju\u00edzo da Igreja\u00bb. Embora de modo diferente, fazem-no tamb\u00e9m as outras ci\u00eancias. Referindo-se \u00e0s ci\u00eancias sociais, por exemplo, Jo\u00e3o Paulo II disse que a Igreja presta aten\u00e7\u00e3o \u00e0s suas contribui\u00e7\u00f5es \u00abpara obter indica\u00e7\u00f5es concretas que a ajudem no cumprimento da sua miss\u00e3o de Magist\u00e9rio\u00bb. Al\u00e9m disso, dentro da Igreja, h\u00e1 in\u00fameras quest\u00f5es \u00e0 volta das quais se indaga e reflecte com grande liberdade. As diversas linhas de pensamento filos\u00f3fico, teol\u00f3gico e pastoral, se se deixam harmonizar pelo Esp\u00edrito no respeito e no amor, podem fazer crescer a Igreja, enquanto ajudam a explicitar melhor o tesouro riqu\u00edssimo da Palavra. A quantos sonham com uma doutrina monol\u00edtica defendida sem nuances por todos, isto poder\u00e1 parecer uma dispers\u00e3o imperfeita; mas a realidade \u00e9 que tal variedade ajuda a manifestar e desenvolver melhor os diversos aspectos da riqueza inesgot\u00e1vel do Evangelho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">41.\tAo mesmo tempo, as enormes e r\u00e1pidas mudan\u00e7as culturais exigem que prestemos constante aten\u00e7\u00e3o ao tentar exprimir as verdades de sempre numa linguagem que permita reconhecer a sua permanente novidade; \u00e9 que, no dep\u00f3sito da doutrina crist\u00e3, \u00abuma coisa \u00e9 a subst\u00e2ncia (&#8230;) e outra \u00e9 a formula\u00e7\u00e3o que a reveste\u00bb. Por vezes, mesmo ouvindo uma linguagem totalmente ortodoxa, aquilo que os fi\u00e9is recebem, devido \u00e0 linguagem que eles mesmos utilizam e compreendem, \u00e9 algo que n\u00e3o corresponde ao verdadeiro Evangelho de Jesus Cristo. Com a santa inten\u00e7\u00e3o de lhes comunicar a verdade sobre Deus e o ser humano, nalgumas ocasi\u00f5es, damos-lhes um falso deus ou um ideal humano que n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente crist\u00e3o. Deste modo, somos fi\u00e9is a uma formula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o transmitimos a subst\u00e2ncia. Este \u00e9 o risco mais grave. Lembremo-nos de que \u00aba express\u00e3o da verdade pode ser multiforme. E a renova\u00e7\u00e3o das formas de express\u00e3o torna-se necess\u00e1ria para transmitir ao homem de hoje a mensagem evang\u00e9lica no seu significado imut\u00e1vel\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">42.\tIsto possui uma grande relev\u00e2ncia no an\u00fancio do Evangelho, se temos verdadeiramente a peito fazer perceber melhor a sua beleza e faz\u00ea-la acolher por todos. Em todo o caso, n\u00e3o poderemos jamais tornar os ensinamentos da Igreja uma realidade facilmente compreens\u00edvel e felizmente apreciada por todos; a f\u00e9 conserva sempre um aspecto de cruz, certa obscuridade que n\u00e3o tira firmeza \u00e0 sua ades\u00e3o. H\u00e1 coisas que se compreendem e apreciam s\u00f3 a partir desta ades\u00e3o que \u00e9 irm\u00e3 do amor, para al\u00e9m da clareza com que se possam compreender as raz\u00f5es e os argumentos. Por isso, \u00e9 preciso recordar-se de que cada ensinamento da doutrina deve situar-se na atitude evangelizadora que desperte a ades\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o com a proximidade, o amor e o testemunho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">43.\tNo seu constante discernimento, a Igreja pode chegar tamb\u00e9m a reconhecer costumes pr\u00f3prios n\u00e3o directamente ligados ao n\u00facleo do Evangelho, alguns muito radicados no curso da hist\u00f3ria, que hoje j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o interpretados da mesma maneira e cuja mensagem habitualmente n\u00e3o \u00e9 percebida de modo adequado. Podem at\u00e9 ser belos, mas agora n\u00e3o prestam o mesmo servi\u00e7o \u00e0 transmiss\u00e3o do Evangelho. N\u00e3o tenhamos medo de os rever! Da mesma forma, h\u00e1 normas ou preceitos eclesiais que podem ter sido muito eficazes noutras \u00e9pocas, mas j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam a mesma for\u00e7a educativa como canais de vida. S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino sublinhava que os preceitos dados por Cristo e pelos Ap\u00f3stolos ao povo de Deus \u00abs\u00e3o pouqu\u00edssimos\u00bb. E, citando Santo Agostinho, observava que os preceitos adicionados posteriormente pela Igreja se devem exigir com modera\u00e7\u00e3o, \u00abpara n\u00e3o tornar pesada a vida aos fi\u00e9is\u00bb nem transformar a nossa religi\u00e3o numa escravid\u00e3o, quando \u00aba miseric\u00f3rdia de Deus quis que fosse livre\u00bb. Esta advert\u00eancia, feita h\u00e1 v\u00e1rios s\u00e9culos, tem uma actualidade tremenda. Deveria ser um dos crit\u00e9rios a considerar, quando se pensa numa reforma da Igreja e da sua prega\u00e7\u00e3o que permita realmente chegar a todos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">44.\t Ali\u00e1s, tanto os Pastores como todos os fi\u00e9is que acompanham os seus irm\u00e3os na f\u00e9 ou num caminho de abertura a Deus n\u00e3o podem esquecer aquilo que ensina, com muita clareza, o\u00a0<em>Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica<\/em>: \u00abA imputabilidade e responsabilidade dum acto podem ser diminu\u00eddas, e at\u00e9 anuladas, pela ignor\u00e2ncia, a inadvert\u00eancia, a viol\u00eancia, o medo, os h\u00e1bitos, as afei\u00e7\u00f5es desordenadas e outros factores ps\u00edquicos ou sociais\u00bb.<br \/>\nPortanto, sem diminuir o valor do ideal evang\u00e9lico, \u00e9 preciso acompanhar, com miseric\u00f3rdia e paci\u00eancia, as poss\u00edveis etapas de crescimento das pessoas, que se v\u00e3o construindo dia ap\u00f3s dia. Aos sacerdotes, lembro que o confession\u00e1rio n\u00e3o deve ser uma c\u00e2mara de tortura, mas o lugar da miseric\u00f3rdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem poss\u00edvel. Um pequeno passo, no meio de grandes limita\u00e7\u00f5es humanas, pode ser mais agrad\u00e1vel a Deus do que a vida externamente correcta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar s\u00e9rias dificuldades. A todos deve chegar a consola\u00e7\u00e3o e o est\u00edmulo do amor salv\u00edfico de Deus, que opera misteriosamente em cada pessoa, para al\u00e9m dos seus defeitos e das suas quedas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">45.\tVemos assim que o compromisso evangelizador se move por entre as limita\u00e7\u00f5es da linguagem e das circunst\u00e2ncias. Procura comunicar cada vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado, sem renunciar \u00e0 verdade, ao bem e \u00e0 luz que pode dar quando a perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel. Um cora\u00e7\u00e3o mission\u00e1rio est\u00e1 consciente destas limita\u00e7\u00f5es, fazendo-se \u00abfraco com os fracos (&#8230;) e tudo para todos\u00bb (<em>1 Cor<\/em> 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia nas pr\u00f3prias seguran\u00e7as, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na compreens\u00e3o do Evangelho e no discernimento das sendas do Esp\u00edrito, e assim n\u00e3o renuncia ao bem poss\u00edvel, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>5. Uma m\u00e3e de cora\u00e7\u00e3o aberto<br \/>\n<\/strong><br \/>\n46.\tA Igreja \u00abem sa\u00edda\u00bb \u00e9 uma Igreja com as portas abertas. Sair em direc\u00e7\u00e3o aos outros para chegar \u00e0s periferias humanas n\u00e3o significa correr pelo mundo sem direc\u00e7\u00e3o nem sentido. Muitas vezes \u00e9 melhor diminuir o ritmo, p\u00f4r de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar \u00e0s urg\u00eancias para acompanhar quem ficou ca\u00eddo \u00e0 beira do caminho. \u00c0s vezes, \u00e9 como o pai do filho pr\u00f3digo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder entrar sem dificuldade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">47.\tA Igreja \u00e9 chamada a ser sempre a casa aberta do Pai. Um dos sinais concretos desta abertura \u00e9 ter, por todo o lado, igrejas com as portas abertas. Assim, se algu\u00e9m quiser seguir uma mo\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito e se aproximar \u00e0 procura de Deus, n\u00e3o esbarrar\u00e1 com a frieza duma porta fechada. Mas h\u00e1 outras portas que tamb\u00e9m n\u00e3o se devem fechar: todos podem participar de alguma forma na vida eclesial, todos podem fazer parte da comunidade, e nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma raz\u00e3o qualquer. Isto vale sobretudo quando se trata daquele sacramento que \u00e9 a \u00abporta\u00bb: o Baptismo. A Eucaristia, embora constitua a plenitude da vida sacramental, n\u00e3o \u00e9 um pr\u00e9mio para os perfeitos, mas um rem\u00e9dio generoso e um alimento para os fracos. Estas convic\u00e7\u00f5es t\u00eam tamb\u00e9m consequ\u00eancias pastorais, que somos chamados a considerar com prud\u00eancia e aud\u00e1cia. Muitas vezes agimos como controladores da gra\u00e7a e n\u00e3o como facilitadores. Mas a Igreja n\u00e3o \u00e9 uma alf\u00e2ndega; \u00e9 a casa paterna, onde h\u00e1 lugar para todos com a sua vida fadigosa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">48.\tSe a Igreja inteira assume este dinamismo mission\u00e1rio, h\u00e1-de chegar a todos, sem excep\u00e7\u00e3o. Mas, a quem deveria privilegiar? Quando se l\u00ea o Evangelho, encontramos uma orienta\u00e7\u00e3o muito clara: n\u00e3o tanto aos amigos e vizinhos ricos, mas sobretudo aos pobres e aos doentes, \u00e0queles que muitas vezes s\u00e3o desprezados e esquecidos, \u00ab\u00e0queles que n\u00e3o t\u00eam com que te retribuir\u00bb (<em>Lc<\/em> 14, 14). N\u00e3o devem subsistir d\u00favidas nem explica\u00e7\u00f5es que debilitem esta mensagem clar\u00edssima. Hoje e sempre, \u00abos pobres s\u00e3o os destinat\u00e1rios privilegiados do Evangelho\u00bb, e a evangeliza\u00e7\u00e3o dirigida gratuitamente a eles \u00e9 sinal do Reino que Jesus veio trazer. H\u00e1 que afirmar sem rodeios que existe um v\u00ednculo indissol\u00favel entre a nossa f\u00e9 e os pobres. N\u00e3o os deixemos jamais sozinhos!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">49.\tSaiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter sa\u00eddo pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar \u00e0s pr\u00f3prias seguran\u00e7as. N\u00e3o quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsess\u00f5es e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consci\u00eancia \u00e9 que haja tantos irm\u00e3os nossos que vivem sem a for\u00e7a, a luz e a consola\u00e7\u00e3o da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de f\u00e9 que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos d\u00e3o uma falsa protec\u00e7\u00e3o, nas normas que nos transformam em ju\u00edzes implac\u00e1veis, nos h\u00e1bitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto l\u00e1 fora h\u00e1 uma multid\u00e3o faminta e Jesus repete-nos sem cessar: \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (<em>Mc<\/em> 6, 37).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo II<br \/>\nNA CRISE DO COMPROMISSO COMUNIT\u00c1RIO<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">50.\tAntes de falar de algumas quest\u00f5es fundamentais relativas \u00e0 ac\u00e7\u00e3o evangelizadora, conv\u00e9m recordar brevemente o contexto em que temos de viver e agir. \u00c9 habitual hoje falar-se dum \u00abexcesso de diagn\u00f3stico\u00bb, que nem sempre \u00e9 acompanhado por propostas resolutivas e realmente aplic\u00e1veis. Por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o nos seria de grande proveito um olhar puramente sociol\u00f3gico, que tivesse a pretens\u00e3o, com a sua metodologia, de abra\u00e7ar toda a realidade de maneira supostamente neutra e ass\u00e9ptica. O que quero oferecer situa-se mais na linha dum\u00a0<em>discernimento evang\u00e9lico<\/em>. \u00c9 o olhar do disc\u00edpulo mission\u00e1rio que \u00abse nutre da luz e da for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">51.\tN\u00e3o \u00e9 fun\u00e7\u00e3o do Papa oferecer uma an\u00e1lise detalhada e completa da realidade contempor\u00e2nea, mas animo todas as comunidades a \u00abuma capacidade sempre vigilante de estudar os sinais dos tempos\u00bb. Trata-se duma responsabilidade grave, pois algumas realidades hodiernas, se n\u00e3o encontrarem boas solu\u00e7\u00f5es, podem desencadear processos de desumaniza\u00e7\u00e3o tais que ser\u00e1 dif\u00edcil depois retroceder. \u00c9 preciso esclarecer o que pode ser um fruto do Reino e tamb\u00e9m o que atenta contra o projecto de Deus. Isto implica n\u00e3o s\u00f3 reconhecer e interpretar as mo\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito bom e do esp\u00edrito mau, mas tamb\u00e9m \u2013 e aqui est\u00e1 o ponto decisivo \u2013 escolher as do esp\u00edrito bom e rejeitar as do esp\u00edrito mau. Pressuponho as v\u00e1rias an\u00e1lises que ofereceram os outros documentos do Magist\u00e9rio universal, bem como as propostas pelos episcopados regionais e nacionais. Nesta Exorta\u00e7\u00e3o, pretendo debru\u00e7ar-me, brevemente e numa perspectiva pastoral, apenas sobre alguns aspectos da realidade que podem deter ou enfraquecer os dinamismos de renova\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria da Igreja, seja porque afectam a vida e a dignidade do povo de Deus, seja porque incidem sobre os sujeitos que mais directamente participam nas institui\u00e7\u00f5es eclesiais e nas tarefas de evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Alguns desafios do mundo actual<br \/>\n<\/strong><br \/>\n52.\tA humanidade vive, neste momento, uma viragem hist\u00f3rica, que podemos constatar nos progressos que se verificam em v\u00e1rios campos. S\u00e3o louv\u00e1veis os sucessos que contribuem para o bem-estar das pessoas, por exemplo, no \u00e2mbito da sa\u00fade, da educa\u00e7\u00e3o e da comunica\u00e7\u00e3o. Todavia n\u00e3o podemos esquecer que a maior parte dos homens e mulheres do nosso tempo vive o seu dia a dia precariamente, com funestas consequ\u00eancias. Aumentam algumas doen\u00e7as. O medo e o desespero apoderam-se do cora\u00e7\u00e3o de in\u00fameras pessoas, mesmo nos chamados pa\u00edses ricos. A alegria de viver frequentemente se desvanece; crescem a falta de respeito e a viol\u00eancia, a desigualdade social torna-se cada vez mais patente. \u00c9 preciso lutar para viver, e muitas vezes viver com pouca dignidade. Esta mudan\u00e7a de \u00e9poca foi causada pelos enormes saltos qualitativos, quantitativos, velozes e acumulados que se verificam no progresso cient\u00edfico, nas inova\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e nas suas r\u00e1pidas aplica\u00e7\u00f5es em diversos \u00e2mbitos da natureza e da vida. Estamos na era do conhecimento e da informa\u00e7\u00e3o, fonte de novas formas dum poder muitas vezes an\u00f3nimo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o a uma economia da exclus\u00e3o<br \/>\n<\/em>53.\tAssim como o mandamento \u00abn\u00e3o matar\u00bb p\u00f5e um limite claro para assegurar o valor da vida humana, assim tamb\u00e9m hoje devemos dizer \u00abn\u00e3o a uma economia da exclus\u00e3o e da desigualdade social\u00bb. Esta economia mata. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que a morte por enregelamento dum idoso sem abrigo n\u00e3o seja not\u00edcia, enquanto o \u00e9 a descida de dois pontos na Bolsa. Isto \u00e9 exclus\u00e3o. N\u00e3o se pode tolerar mais o facto de se lan\u00e7ar comida no lixo, quando h\u00e1 pessoas que passam fome. Isto \u00e9 desigualdade social. Hoje, tudo entra no jogo da competitividade e da lei do mais forte, onde o poderoso engole o mais fraco. Em consequ\u00eancia desta situa\u00e7\u00e3o, grandes massas da popula\u00e7\u00e3o v\u00eaem-se exclu\u00eddas e marginalizadas: sem trabalho, sem perspectivas, num beco sem sa\u00edda. O ser humano \u00e9 considerado, em si mesmo, como um bem de consumo que se pode usar e depois lan\u00e7ar fora. Assim teve in\u00edcio a cultura do \u00abdescart\u00e1vel\u00bb, que ali\u00e1s chega a ser promovida. J\u00e1 n\u00e3o se trata simplesmente do fen\u00f3meno de explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o, mas duma realidade nova: com a exclus\u00e3o, fere-se, na pr\u00f3pria raiz, a perten\u00e7a \u00e0 sociedade onde se vive, pois quem vive nas favelas, na periferia ou sem poder j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 nela, mas fora. Os exclu\u00eddos n\u00e3o s\u00e3o \u00abexplorados\u00bb, mas res\u00edduos, \u00absobras\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">54.\tNeste contexto, alguns defendem ainda as teorias da \u00abreca\u00edda favor\u00e1vel\u00bb que pressup\u00f5em que todo o crescimento econ\u00f3mico, favorecido pelo livre mercado, consegue por si mesmo produzir maior equidade e inclus\u00e3o social no mundo. Esta opini\u00e3o, que nunca foi confirmada pelos factos, exprime uma confian\u00e7a vaga e ing\u00e9nua na bondade daqueles que det\u00eam o poder econ\u00f3mico e nos mecanismos sacralizados do sistema econ\u00f3mico reinante. Entretanto, os exclu\u00eddos continuam a esperar. Para se poder apoiar um estilo de vida que exclui os outros ou mesmo entusiasmar-se com este ideal ego\u00edsta, desenvolveu-se uma globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a. Quase sem nos dar conta, tornamo-nos incapazes de nos compadecer ao ouvir os clamores alheios, j\u00e1 n\u00e3o choramos \u00e0 vista do drama dos outros, nem nos interessamos por cuidar deles, como se tudo fosse uma responsabilidade de outrem, que n\u00e3o nos incumbe. A cultura do bem-estar anestesia-nos, a ponto de perdermos a serenidade se o mercado oferece algo que ainda n\u00e3o compramos, enquanto todas estas vidas ceifadas por falta de possibilidades nos parecem um mero espect\u00e1culo que n\u00e3o nos incomoda de forma alguma.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o \u00e0 nova idolatria do dinheiro<br \/>\n<\/em><br \/>\n55.\tUma das causas desta situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 na rela\u00e7\u00e3o estabelecida com o dinheiro, porque aceitamos pacificamente o seu dom\u00ednio sobre n\u00f3s e as nossas sociedades. A crise financeira que atravessamos faz-nos esquecer que, na sua origem, h\u00e1 uma crise antropol\u00f3gica profunda: a nega\u00e7\u00e3o da primazia do ser humano. Cri\u00e1mos novos \u00eddolos. A adora\u00e7\u00e3o do antigo bezerro de ouro (cf.\u00a0<em>Ex<\/em> 32, 1-35) encontrou uma nova e cruel vers\u00e3o no fetichismo do dinheiro e na ditadura duma economia sem rosto e sem um objectivo verdadeiramente humano. A crise mundial, que investe as finan\u00e7as e a economia, p\u00f5e a descoberto os seus pr\u00f3prios desequil\u00edbrios e sobretudo a grave car\u00eancia duma orienta\u00e7\u00e3o antropol\u00f3gica que reduz o ser humano apenas a uma das suas necessidades: o consumo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">56.\tEnquanto os lucros de poucos crescem exponencialmente, os da maioria situam-se cada vez mais longe do bem-estar daquela minoria feliz. Tal desequil\u00edbrio prov\u00e9m de ideologias que defendem a autonomia absoluta dos mercados e a especula\u00e7\u00e3o financeira. Por isso, negam o direito de controle dos Estados, encarregados de velar pela tutela do bem comum. Instaura-se uma nova tirania invis\u00edvel, \u00e0s vezes virtual, que imp\u00f5e, de forma unilateral e implac\u00e1vel, as suas leis e as suas regras. Al\u00e9m disso, a d\u00edvida e os respectivos juros afastam os pa\u00edses das possibilidades vi\u00e1veis da sua economia, e os cidad\u00e3os do seu real poder de compra. A tudo isto vem juntar-se uma corrup\u00e7\u00e3o ramificada e uma evas\u00e3o fiscal ego\u00edsta, que assumiram dimens\u00f5es mundiais. A ambi\u00e7\u00e3o do poder e do ter n\u00e3o conhece limites. Neste sistema que tende a fagocitar tudo para aumentar os benef\u00edcios, qualquer realidade que seja fr\u00e1gil, como o meio ambiente, fica indefesa face aos interesses do mercado divinizado, transformados em regra absoluta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o a um dinheiro que governa em vez de servir<br \/>\n<\/em><br \/>\n57.\tPor detr\u00e1s desta atitude, escondem-se a rejei\u00e7\u00e3o da \u00e9tica e a recusa de Deus. Para a \u00e9tica, olha-se habitualmente com um certo desprezo sarc\u00e1stico; \u00e9 considerada contraproducente, demasiado humana, porque relativiza o dinheiro e o poder. \u00c9 sentida como uma amea\u00e7a, porque condena a manipula\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o da pessoa. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a \u00e9tica leva a Deus que espera uma resposta comprometida que est\u00e1 fora das categorias do mercado. Para estas, se absolutizadas, Deus \u00e9 incontrol\u00e1vel, n\u00e3o manipul\u00e1vel e at\u00e9 mesmo perigoso, na medida em que chama o ser humano \u00e0 sua plena realiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 independ\u00eancia de qualquer tipo de escravid\u00e3o. A \u00e9tica \u2013 uma \u00e9tica n\u00e3o ideologizada \u2013 permite criar um equil\u00edbrio e uma ordem social mais humana. Neste sentido, animo os peritos financeiros e os governantes dos v\u00e1rios pa\u00edses a considerarem as palavras dum s\u00e1bio da antiguidade: \u00abN\u00e3o fazer os pobres participar dos seus pr\u00f3prios bens \u00e9 roub\u00e1-los e tirar-lhes a vida. N\u00e3o s\u00e3o nossos, mas deles, os bens que aferrolhamos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">58.\tUma reforma financeira que tivesse em conta a \u00e9tica exigiria uma vigorosa mudan\u00e7a de atitudes por parte dos dirigentes pol\u00edticos, a quem exorto a enfrentar este desafio com determina\u00e7\u00e3o e clarivid\u00eancia, sem esquecer naturalmente a especificidade de cada contexto. O dinheiro deve servir, e n\u00e3o governar! O Papa ama a todos, ricos e pobres, mas tem a obriga\u00e7\u00e3o, em nome de Cristo, de lembrar que os ricos devem ajudar os pobres, respeit\u00e1-los e promov\u00ea-los. Exorto-vos a uma solidariedade desinteressada e a um regresso da economia e das finan\u00e7as a uma \u00e9tica prop\u00edcia ao ser humano.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o \u00e0 desigualdade social que gera viol\u00eancia<br \/>\n<\/em><br \/>\n59.\tHoje, em muitas partes, reclama-se maior seguran\u00e7a. Mas, enquanto n\u00e3o se eliminar a exclus\u00e3o e a desigualdade dentro da sociedade e entre os v\u00e1rios povos ser\u00e1 imposs\u00edvel desarreigar a viol\u00eancia. Acusam-se da viol\u00eancia os pobres e as popula\u00e7\u00f5es mais pobres, mas, sem igualdade de oportunidades, as v\u00e1rias formas de agress\u00e3o e de guerra encontrar\u00e3o um terreno f\u00e9rtil que, mais cedo ou mais tarde, h\u00e1-de provocar a explos\u00e3o. Quando a sociedade \u2013 local, nacional ou mundial \u2013 abandona na periferia uma parte de si mesma, n\u00e3o h\u00e1 programas pol\u00edticos, nem for\u00e7as da ordem ou servi\u00e7os secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade. Isto n\u00e3o acontece apenas porque a desigualdade social provoca a reac\u00e7\u00e3o violenta de quantos s\u00e3o exclu\u00eddos do sistema, mas porque o sistema social e econ\u00f3mico \u00e9 injusto na sua raiz. Assim como o bem tende a difundir-se, assim tamb\u00e9m o mal consentido, que \u00e9 a injusti\u00e7a, tende a expandir a sua for\u00e7a nociva e a minar, silenciosamente, as bases de qualquer sistema pol\u00edtico e social, por mais s\u00f3lido que pare\u00e7a. Se cada ac\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias, um mal embrenhado nas estruturas duma sociedade sempre cont\u00e9m um potencial de dissolu\u00e7\u00e3o e de morte. \u00c9 o mal cristalizado nas estruturas sociais injustas, a partir do qual n\u00e3o podemos esperar um futuro melhor. Estamos longe do chamado \u00abfim da hist\u00f3ria\u00bb, j\u00e1 que as condi\u00e7\u00f5es dum desenvolvimento sustent\u00e1vel e pac\u00edfico ainda n\u00e3o est\u00e3o adequadamente implantadas e realizadas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">60.\tOs mecanismos da economia actual promovem uma exacerba\u00e7\u00e3o do consumo, mas sabe-se que o consumismo desenfreado, aliado \u00e0 desigualdade social, \u00e9 duplamente daninho para o tecido social. Assim, mais cedo ou mais tarde, a desigualdade social gera uma viol\u00eancia que as corridas armamentistas n\u00e3o resolvem nem poder\u00e3o resolver jamais. Servem apenas para tentar enganar aqueles que reclamam maior seguran\u00e7a, como se hoje n\u00e3o se soubesse que as armas e a repress\u00e3o violenta, mais do que dar solu\u00e7\u00e3o, criam novos e piores conflitos. Alguns comprazem-se simplesmente em culpar, dos pr\u00f3prios males, os pobres e os pa\u00edses pobres, com generaliza\u00e7\u00f5es indevidas, e pretendem encontrar a solu\u00e7\u00e3o numa \u00abeduca\u00e7\u00e3o\u00bb que os tranquilize e transforme em seres domesticados e inofensivos. Isto torna-se ainda mais irritante, quando os exclu\u00eddos v\u00eaem crescer este c\u00e2ncer social que \u00e9 a corrup\u00e7\u00e3o profundamente radicada em muitos pa\u00edses \u2013 nos seus Governos, empres\u00e1rios e institui\u00e7\u00f5es \u2013 seja qual for a ideologia pol\u00edtica dos governantes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Alguns desafios culturais<br \/>\n<\/em><br \/>\n61.\tEvangelizamos tamb\u00e9m procurando enfrentar os diferentes desafios que se nos podem apresentar. \u00c0s vezes, estes manifestam-se em verdadeiros ataques \u00e0 liberdade religiosa ou em novas situa\u00e7\u00f5es de persegui\u00e7\u00e3o aos crist\u00e3os, que, nalguns pa\u00edses, atingiram n\u00edveis alarmantes de \u00f3dio e viol\u00eancia. Em muitos lugares, trata-se mais de uma generalizada indiferen\u00e7a relativista, relacionada com a desilus\u00e3o e a crise das ideologias que se verificou como reac\u00e7\u00e3o a tudo o que pare\u00e7a totalit\u00e1rio. Isto n\u00e3o prejudica s\u00f3 a Igreja, mas a vida social em geral. Reconhecemos que, numa cultura onde cada um pretende ser portador duma verdade subjectiva pr\u00f3pria, torna-se dif\u00edcil que os cidad\u00e3os queiram inserir-se num projecto comum que vai al\u00e9m dos benef\u00edcios e desejos pessoais.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">62.\tNa cultura dominante, ocupa o primeiro lugar aquilo que \u00e9 exterior, imediato, vis\u00edvel, r\u00e1pido, superficial, provis\u00f3rio. O real cede o lugar \u00e0 apar\u00eancia. Em muitos pa\u00edses, a globaliza\u00e7\u00e3o comportou uma acelerada deteriora\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes culturais com a invas\u00e3o de tend\u00eancias pertencentes a outras culturas, economicamente desenvolvidas mas eticamente debilitadas. Assim se exprimiram, em distintos S\u00ednodos, os Bispos de v\u00e1rios continentes. H\u00e1 alguns anos, os Bispos da \u00c1frica, por exemplo, retomando a Enc\u00edclica\u00a0<em>Sollicitudo rei socialis<\/em>, assinalaram que muitas vezes se quer transformar os pa\u00edses africanos em meras \u00abpe\u00e7as de um mecanismo, partes de uma engrenagem gigantesca. Isto verifica-se com frequ\u00eancia tamb\u00e9m no dom\u00ednio dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, os quais, sendo na sua maior parte geridos por centros situados na parte norte do mundo, nem sempre t\u00eam na devida conta as prioridades e os problemas pr\u00f3prios desses pa\u00edses e n\u00e3o respeitam a sua fisionomia cultural\u00bb. De igual modo, os Bispos da \u00c1sia sublinharam \u00abas influ\u00eancias externas que est\u00e3o a penetrar nas culturas asi\u00e1ticas. V\u00e3o surgindo formas novas de comportamento resultantes da orienta\u00e7\u00e3o dos\u00a0<em>mass-media<\/em> (\u2026). Em consequ\u00eancia disso, os aspectos negativos dos<em>mass-media<\/em> e espect\u00e1culos est\u00e3o a amea\u00e7ar os valores tradicionais\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">63.\tA f\u00e9 cat\u00f3lica de muitos povos encontra-se hoje perante o desafio da prolifera\u00e7\u00e3o de novos movimentos religiosos, alguns tendentes ao fundamentalismo e outros que parecem propor uma espiritualidade sem Deus. Isto, por um lado, \u00e9 o resultado duma reac\u00e7\u00e3o humana contra a sociedade materialista, consumista e individualista e, por outro, um aproveitamento das car\u00eancias da popula\u00e7\u00e3o que vive nas periferias e zonas pobres, sobrevive no meio de grandes preocupa\u00e7\u00f5es humanas e procura solu\u00e7\u00f5es imediatas para as suas necessidades. Estes movimentos religiosos, que se caracterizam pela sua penetra\u00e7\u00e3o subtil, v\u00eam colmar, dentro do individualismo reinante, um vazio deixado pelo racionalismo secularista. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer que, se uma parte do nosso povo baptizado n\u00e3o sente a sua perten\u00e7a \u00e0 Igreja, isso deve-se tamb\u00e9m \u00e0 exist\u00eancia de estruturas com clima pouco acolhedor nalgumas das nossas par\u00f3quias e comunidades, ou \u00e0 atitude burocr\u00e1tica com que se d\u00e1 resposta aos problemas, simples ou complexos, da vida dos nossos povos. Em muitas partes, predomina o aspecto administrativo sobre o pastoral, bem como uma sacramentaliza\u00e7\u00e3o sem outras formas de evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">64.\tO processo de seculariza\u00e7\u00e3o tende a reduzir a f\u00e9 e a Igreja ao \u00e2mbito privado e \u00edntimo. Al\u00e9m disso, com a nega\u00e7\u00e3o de toda a transcend\u00eancia, produziu-se uma crescente deforma\u00e7\u00e3o \u00e9tica, um enfraquecimento do sentido do pecado pessoal e social e um aumento progressivo do relativismo; e tudo isso provoca uma desorienta\u00e7\u00e3o generalizada, especialmente na fase t\u00e3o vulner\u00e1vel \u00e0s mudan\u00e7as da adolesc\u00eancia e juventude. Como justamente observam os Bispos dos Estados Unidos da Am\u00e9rica, enquanto a Igreja insiste na exist\u00eancia de normas morais objectivas, v\u00e1lidas para todos, \u00abh\u00e1 aqueles que apresentam esta doutrina como injusta, ou seja, contr\u00e1ria aos direitos humanos b\u00e1sicos. Tais alega\u00e7\u00f5es brotam habitualmente de uma forma de relativismo moral, que se une consistentemente a uma confian\u00e7a nos direitos absolutos dos indiv\u00edduos. Nesta perspectiva, a Igreja \u00e9 sentida como se estivesse promovendo um convencionalismo particular e interferisse com a liberdade individual\u00bb. Vivemos numa sociedade da informa\u00e7\u00e3o que nos satura indiscriminadamente de dados, todos postos ao mesmo n\u00edvel, e acaba por nos conduzir a uma tremenda superficialidade no momento de enquadrar as quest\u00f5es morais. Por conseguinte, torna-se necess\u00e1ria uma educa\u00e7\u00e3o que ensine a pensar criticamente e ofere\u00e7a um caminho de amadurecimento nos valores.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">65.\tApesar de toda a corrente secularista que invade a sociedade, em muitos pa\u00edses \u2013 mesmo onde o cristianismo est\u00e1 em minoria \u2013 a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o cred\u00edvel perante a opini\u00e3o p\u00fablica, fi\u00e1vel no que diz respeito ao \u00e2mbito da solidariedade e preocupa\u00e7\u00e3o pelos mais indigentes. Em repetidas ocasi\u00f5es, ela serviu de medianeira na solu\u00e7\u00e3o de problemas que afectam a paz, a conc\u00f3rdia, o meio ambiente, a defesa da vida, os direitos humanos e civis, etc. E como \u00e9 grande a contribui\u00e7\u00e3o das escolas e das universidades cat\u00f3licas no mundo inteiro! E \u00e9 muito bom que assim seja. Mas, quando levantamos outras quest\u00f5es que suscitam menor acolhimento p\u00fablico, custa-nos a demonstrar que o fazemos por fidelidade \u00e0s mesmas convic\u00e7\u00f5es sobre a dignidade da pessoa humana e do bem comum.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">66.\tA fam\u00edlia atravessa uma crise cultural profunda, como todas as comunidades e v\u00ednculos sociais. No caso da fam\u00edlia, a fragilidade dos v\u00ednculos reveste-se de especial gravidade, porque se trata da c\u00e9lula b\u00e1sica da sociedade, o espa\u00e7o onde se aprende a conviver na diferen\u00e7a e a pertencer aos outros e onde os pais transmitem a f\u00e9 aos seus filhos. O matrim\u00f3nio tende a ser visto como mera forma de gratifica\u00e7\u00e3o afectiva, que se pode constituir de qualquer maneira e modificar-se de acordo com a sensibilidade de cada um. Mas a contribui\u00e7\u00e3o indispens\u00e1vel do matrim\u00f3nio \u00e0 sociedade supera o n\u00edvel da afectividade e o das necessidades ocasionais do casal. Como ensinam os Bispos franceses, n\u00e3o prov\u00e9m \u00abdo sentimento amoroso, ef\u00e9mero por defini\u00e7\u00e3o, mas da profundidade do compromisso assumido pelos esposos que aceitam entrar numa uni\u00e3o de vida total\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">67.\tO individualismo p\u00f3s-moderno e globalizado favorece um estilo de vida que debilita o desenvolvimento e a estabilidade dos v\u00ednculos entre as pessoas e distorce os v\u00ednculos familiares. A ac\u00e7\u00e3o pastoral deve mostrar ainda melhor que a rela\u00e7\u00e3o com o nosso Pai exige e incentiva uma comunh\u00e3o que cura, promove e fortalece os v\u00ednculos interpessoais. Enquanto no mundo, especialmente nalguns pa\u00edses, se reacendem v\u00e1rias formas de guerras e conflitos, n\u00f3s, crist\u00e3os, insistimos na proposta de reconhecer o outro, de curar as feridas, de construir pontes, de estreitar la\u00e7os e de nos ajudarmos \u00aba carregar as cargas uns dos outros\u00bb (<em>Gal<\/em> 6, 2). Al\u00e9m disso, vemos hoje surgir muitas formas de agrega\u00e7\u00e3o para a defesa de direitos e a consecu\u00e7\u00e3o de nobres objectivos. Deste modo se manifesta uma sede de participa\u00e7\u00e3o de numerosos cidad\u00e3os, que querem ser construtores do desenvolvimento social e cultural.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Desafios da incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9<br \/>\n<\/em><br \/>\n68.\tO substrato crist\u00e3o dalguns povos \u2013 sobretudo ocidentais \u2013 \u00e9 uma realidade viva. Aqui encontramos, especialmente nos mais necessitados, uma reserva moral que guarda valores de aut\u00eantico humanismo crist\u00e3o. Um olhar de f\u00e9 sobre a realidade n\u00e3o pode deixar de reconhecer o que semeia o Esp\u00edrito Santo. Significaria n\u00e3o ter confian\u00e7a na sua ac\u00e7\u00e3o livre e generosa pensar que n\u00e3o existem aut\u00eanticos valores crist\u00e3os, onde uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o recebeu o Baptismo e exprime de variadas maneiras a sua f\u00e9 e solidariedade fraterna. Aqui h\u00e1 que reconhecer muito mais que \u00absementes do Verbo\u00bb, visto que se trata duma aut\u00eantica f\u00e9 cat\u00f3lica com modalidades pr\u00f3prias de express\u00e3o e de perten\u00e7a \u00e0 Igreja. N\u00e3o conv\u00e9m ignorar a enorme import\u00e2ncia que tem uma cultura marcada pela f\u00e9, porque, n\u00e3o obstante os seus limites, esta cultura evangelizada tem, contra os ataques do secularismo actual, muitos mais recursos do que a mera soma dos crentes. Uma cultura popular evangelizada cont\u00e9m valores de f\u00e9 e solidariedade que podem provocar o desenvolvimento duma sociedade mais justa e crente, e possui uma sabedoria peculiar que devemos saber reconhecer com olhar agradecido.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">69.\tH\u00e1 uma necessidade imperiosa de evangelizar as culturas para inculturar o Evangelho. Nos pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, tratar-se-\u00e1 de acompanhar, cuidar e fortalecer a riqueza que j\u00e1 existe e, nos pa\u00edses de outras tradi\u00e7\u00f5es religiosas ou profundamente secularizados, h\u00e1 que procurar novos processos de evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura, ainda que suponham projectos a longo prazo. Entretanto n\u00e3o podemos ignorar que h\u00e1 sempre uma chamada ao crescimento: toda a cultura e todo o grupo social necessitam de purifica\u00e7\u00e3o e amadurecimento. No caso das culturas populares de povos cat\u00f3licos, podemos reconhecer algumas fragilidades que precisam ainda de ser curadas pelo Evangelho: o machismo, o alcoolismo, a viol\u00eancia dom\u00e9stica, uma escassa participa\u00e7\u00e3o na Eucaristia, cren\u00e7as fatalistas ou supersticiosas que levam a recorrer \u00e0 bruxaria, etc. Mas o melhor ponto de partida para curar e ver-se livre de tais fragilidades \u00e9 precisamente a piedade popular.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">70.\tCerto \u00e9 tamb\u00e9m que, \u00e0s vezes, se d\u00e1 maior realce a formas exteriores das tradi\u00e7\u00f5es de grupos concretos ou a supostas revela\u00e7\u00f5es privadas, que se absolutizam, do que ao impulso da piedade crist\u00e3. H\u00e1 certo cristianismo feito de devo\u00e7\u00f5es \u2013 pr\u00f3prio duma viv\u00eancia individual e sentimental da f\u00e9 \u2013 que, na realidade, n\u00e3o corresponde a uma aut\u00eantica \u00abpiedade popular\u00bb. Alguns promovem estas express\u00f5es sem se preocupar com a promo\u00e7\u00e3o social e a forma\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is, fazendo-o nalguns casos para obter benef\u00edcios econ\u00f3micos ou algum poder sobre os outros. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos ignorar que, nas \u00faltimas d\u00e9cadas, se produziu uma ruptura na transmiss\u00e3o geracional da f\u00e9 crist\u00e3 no povo cat\u00f3lico. \u00c9 ineg\u00e1vel que muitos se sentem desiludidos e deixam de se identificar com a tradi\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, que cresceu o n\u00famero de pais que n\u00e3o baptizam os seus filhos nem os ensinam a rezar, e que h\u00e1 um certo \u00eaxodo para outras comunidades de f\u00e9. Algumas causas desta ruptura s\u00e3o a falta de espa\u00e7os de di\u00e1logo familiar, a influ\u00eancia dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, o subjectivismo relativista, o consumismo desenfreado que o mercado incentiva, a falta de cuidado pastoral pelos mais pobres, a inexist\u00eancia dum acolhimento cordial nas nossas institui\u00e7\u00f5es, e a dificuldade que sentimos em recriar a ades\u00e3o m\u00edstica da f\u00e9 num cen\u00e1rio religioso pluralista.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Desafios das culturas urbanas<br \/>\n<\/em><br \/>\n71.\tA nova Jerusal\u00e9m, a cidade santa (cf.\u00a0<em>Ap<\/em> 21, 2-4), \u00e9 a meta para onde peregrina toda a humanidade. \u00c9 interessante que a revela\u00e7\u00e3o nos diga que a plenitude da humanidade e da hist\u00f3ria se realiza numa cidade. Precisamos de identificar a cidade a partir dum olhar contemplativo, isto \u00e9, um olhar de f\u00e9 que descubra Deus que habita nas suas casas, nas suas ruas, nas suas pra\u00e7as. A presen\u00e7a de Deus acompanha a busca sincera que indiv\u00edduos e grupos efectuam para encontrar apoio e sentido para a sua vida. Ele vive entre os citadinos promovendo a solidariedade, a fraternidade, o desejo de bem, de verdade, de justi\u00e7a. Esta presen\u00e7a n\u00e3o precisa de ser criada, mas descoberta, desvendada. Deus n\u00e3o Se esconde de quantos O buscam com cora\u00e7\u00e3o sincero, ainda que o fa\u00e7am tacteando, de maneira imprecisa e incerta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">72.\tNa cidade, o elemento religioso \u00e9 mediado por diferentes estilos de vida, por costumes ligados a um sentido do tempo, do territ\u00f3rio e das rela\u00e7\u00f5es que difere do estilo das popula\u00e7\u00f5es rurais. Na vida quotidiana, muitas vezes os citadinos lutam para sobreviver e, nesta luta, esconde-se um sentido profundo da exist\u00eancia que habitualmente comporta tamb\u00e9m um profundo sentido religioso. Precisamos de o contemplar para conseguirmos um di\u00e1logo parecido com o que o Senhor teve com a Samaritana, junto do po\u00e7o onde ela procurava saciar a sua sede (cf.\u00a0<em>Jo<\/em> 4, 7-26).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">73.\tNovas culturas continuam a formar-se nestas enormes geografias humanas onde o crist\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o costuma ser promotor ou gerador de sentido, mas recebe delas outras linguagens, s\u00edmbolos, mensagens e paradigmas que oferecem novas orienta\u00e7\u00f5es de vida, muitas vezes em contraste com o Evangelho de Jesus. Uma cultura in\u00e9dita palpita e est\u00e1 em elabora\u00e7\u00e3o na cidade. O S\u00ednodo constatou que as transforma\u00e7\u00f5es destas grandes \u00e1reas e a cultura que exprimem s\u00e3o, hoje, um lugar privilegiado da nova evangeliza\u00e7\u00e3o. Isto requer imaginar espa\u00e7os de ora\u00e7\u00e3o e de comunh\u00e3o com caracter\u00edsticas inovadoras, mais atraentes e significativas para as popula\u00e7\u00f5es urbanas. Os ambientes rurais, devido \u00e0 influ\u00eancia dos\u00a0<em>mass-media<\/em>, n\u00e3o est\u00e3o imunes destas transforma\u00e7\u00f5es culturais que tamb\u00e9m operam mudan\u00e7as significativas nas suas formas de vida.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">74.\tTorna-se necess\u00e1ria uma evangeliza\u00e7\u00e3o que ilumine os novos modos de se relacionar com Deus, com os outros e com o ambiente, e que suscite os valores fundamentais. \u00c9 necess\u00e1rio chegar aonde s\u00e3o concebidas as novas hist\u00f3rias e paradigmas, alcan\u00e7ar com a Palavra de Jesus os n\u00facleos mais profundos da alma das cidades. N\u00e3o se deve esquecer que a cidade \u00e9 um \u00e2mbito multicultural. Nas grandes cidades, pode observar-se uma trama em que grupos de pessoas compartilham as mesmas formas de sonhar a vida e ilus\u00f5es semelhantes, constituindo-se em novos sectores humanos, em territ\u00f3rios culturais, em cidades invis\u00edveis. Na realidade, convivem variadas formas culturais, mas exercem muitas vezes pr\u00e1ticas de segrega\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. A Igreja \u00e9 chamada a ser servidora dum di\u00e1logo dif\u00edcil. Enquanto h\u00e1 citadinos que conseguem os meios adequados para o desenvolvimento da vida pessoal e familiar, muit\u00edssimos s\u00e3o tamb\u00e9m os \u00abn\u00e3o-citadinos\u00bb, os \u00abmeio-citadinos\u00bb ou os \u00abres\u00edduos urbanos\u00bb. A cidade d\u00e1 origem a uma esp\u00e9cie de ambival\u00eancia permanente, porque, ao mesmo tempo que oferece aos seus habitantes infinitas possibilidades, interp\u00f5e tamb\u00e9m numerosas dificuldades ao pleno desenvolvimento da vida de muitos. Esta contradi\u00e7\u00e3o provoca sofrimentos lancinantes. Em muitas partes do mundo, as cidades s\u00e3o cen\u00e1rio de protestos em massa, onde milhares de habitantes reclamam liberdade, participa\u00e7\u00e3o, justi\u00e7a e v\u00e1rias reivindica\u00e7\u00f5es que, se n\u00e3o forem adequadamente interpretadas, nem pela for\u00e7a poder\u00e3o ser silenciadas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">75.\tN\u00e3o podemos ignorar que, nas cidades, facilmente se desenvolve o tr\u00e1fico de drogas e de pessoas, o abuso e a explora\u00e7\u00e3o de menores, o abandono de idosos e doentes, v\u00e1rias formas de corrup\u00e7\u00e3o e crime. Ao mesmo tempo, o que poderia ser um precioso espa\u00e7o de encontro e solidariedade, transforma-se muitas vezes num lugar de retraimento e desconfian\u00e7a m\u00fatua. As casas e os bairros constroem-se mais para isolar e proteger do que para unir e integrar. A proclama\u00e7\u00e3o do Evangelho ser\u00e1 uma base para restabelecer a dignidade da vida humana nestes contextos, porque Jesus quer derramar nas cidades vida em abund\u00e2ncia (cf.<em>Jo<\/em> 10, 10). O sentido unit\u00e1rio e completo da vida humana proposto pelo Evangelho \u00e9 o melhor rem\u00e9dio para os males urbanos, embora devamos reparar que um programa e um estilo uniformes e r\u00edgidos de evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o adequados para esta realidade. Mas viver a fundo a realidade humana e inserir-se no cora\u00e7\u00e3o dos desafios como fermento de testemunho, em qualquer cultura, em qualquer cidade, melhora o crist\u00e3o e fecunda a cidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>2. Tenta\u00e7\u00f5es dos agentes pastorais<br \/>\n<\/strong><br \/>\n76.\tSinto uma enorme gratid\u00e3o pela tarefa de quantos trabalham na Igreja. N\u00e3o quero agora deter-me na exposi\u00e7\u00e3o das actividades dos v\u00e1rios agentes pastorais, desde os Bispos at\u00e9 ao mais simples e ignorado dos servi\u00e7os eclesiais. Prefiro reflectir sobre os desafios que todos eles enfrentam no meio da cultura globalizada actual. Mas, antes de tudo e como dever de justi\u00e7a, tenho a dizer que \u00e9 enorme a contribui\u00e7\u00e3o da Igreja no mundo actual. A nossa tristeza e vergonha pelos pecados de alguns membros da Igreja, e pelos pr\u00f3prios, n\u00e3o devem fazer esquecer os in\u00fameros crist\u00e3os que d\u00e3o a vida por amor: ajudam tantas pessoas seja a curar-se seja a morrer em paz em hospitais prec\u00e1rios, acompanham as pessoas que ca\u00edram escravas de diversos v\u00edcios nos lugares mais pobres da terra, prodigalizam-se na educa\u00e7\u00e3o de crian\u00e7as e jovens, cuidam de idosos abandonados por todos, procuram comunicar valores em ambientes hostis, e dedicam-se de muitas outras maneiras que mostram o imenso amor \u00e0 humanidade inspirado por Deus feito homem. Agrade\u00e7o o belo exemplo que me d\u00e3o tantos crist\u00e3os que oferecem a sua vida e o seu tempo com alegria. Este testemunho faz-me muito bem e me apoia na minha aspira\u00e7\u00e3o pessoal de superar o ego\u00edsmo para uma dedica\u00e7\u00e3o maior.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">77.\tApesar disso, como filhos desta \u00e9poca, todos estamos de algum modo sob o influxo da cultura globalizada actual, que, sem deixar de apresentar valores e novas possibilidades, pode tamb\u00e9m limitar-nos, condicionar-nos e at\u00e9 mesmo combalir-nos. Reconhe\u00e7o que precisamos de criar espa\u00e7os apropriados para motivar e sanar os agentes pastorais, \u00ablugares onde regenerar a sua f\u00e9 em Jesus crucificado e ressuscitado, onde compartilhar as pr\u00f3prias quest\u00f5es mais profundas e as preocupa\u00e7\u00f5es quotidianas, onde discernir em profundidade e com crit\u00e9rios evang\u00e9licos sobre a pr\u00f3pria exist\u00eancia e experi\u00eancia, com o objectivo de orientar para o bem e a beleza as pr\u00f3prias op\u00e7\u00f5es individuais e sociais\u00bb. Ao mesmo tempo, quero chamar a aten\u00e7\u00e3o para algumas tenta\u00e7\u00f5es que afectam, particularmente nos nossos dias, os agentes pastorais.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Sim ao desafio duma espiritualidade mission\u00e1ria<br \/>\n<\/em><br \/>\n78.\tHoje nota-se em muitos agentes pastorais, mesmo pessoas consagradas, uma preocupa\u00e7\u00e3o exacerbada pelos espa\u00e7os pessoais de autonomia e relaxamento, que leva a viver os pr\u00f3prios deveres como mero ap\u00eandice da vida, como se n\u00e3o fizessem parte da pr\u00f3pria identidade. Ao mesmo tempo, a vida espiritual confunde-se com alguns momentos religiosos que proporcionam algum al\u00edvio, mas n\u00e3o alimentam o encontro com os outros, o compromisso no mundo, a paix\u00e3o pela evangeliza\u00e7\u00e3o. Assim, \u00e9 poss\u00edvel notar em muitos agentes evangelizadores \u2013 n\u00e3o obstante rezem \u2013 uma acentua\u00e7\u00e3o do\u00a0<em>individualismo<\/em>, uma\u00a0<em>crise de identidade<\/em> e um\u00a0<em>decl\u00ednio do fervor<\/em>. S\u00e3o tr\u00eas males que se alimentam entre si.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">79.\tA cultura medi\u00e1tica e alguns ambientes intelectuais transmitem, \u00e0s vezes, uma acentuada desconfian\u00e7a quanto \u00e0 mensagem da Igreja, e um certo desencanto. Em consequ\u00eancia disso, embora rezando, muitos agentes pastorais desenvolvem uma esp\u00e9cie de complexo de inferioridade que os leva a relativizar ou esconder a sua identidade crist\u00e3 e as suas convic\u00e7\u00f5es. Gera-se ent\u00e3o um c\u00edrculo vicioso, porque assim n\u00e3o se sentem felizes com o que s\u00e3o nem com o que fazem, n\u00e3o se sentem identificados com a miss\u00e3o evangelizadora, e isto debilita a entrega. Acabam assim por sufocar a alegria da miss\u00e3o numa esp\u00e9cie de obsess\u00e3o por serem como todos os outros e terem o que possuem os demais. Deste modo, a tarefa da evangeliza\u00e7\u00e3o torna-se for\u00e7ada e dedica-se-lhe pouco esfor\u00e7o e um tempo muito limitado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">80.\tNos agentes pastorais, independentemente do estilo espiritual ou da linha de pensamento que possam ter, desenvolve-se um relativismo ainda mais perigoso que o doutrinal. Tem a ver com as op\u00e7\u00f5es mais profundas e sinceras que determinam uma forma de vida concreta. Este relativismo pr\u00e1tico \u00e9 agir como se Deus n\u00e3o existisse, decidir como se os pobres n\u00e3o existissem, sonhar como se os outros n\u00e3o existissem, trabalhar como se aqueles que n\u00e3o receberam o an\u00fancio n\u00e3o existissem. \u00c9 impressionante como at\u00e9 aqueles que aparentemente disp\u00f5em de s\u00f3lidas convic\u00e7\u00f5es doutrinais e espirituais acabam, muitas vezes, por cair num estilo de vida que os leva a agarrarem-se a seguran\u00e7as econ\u00f3micas ou a espa\u00e7os de poder e de gl\u00f3ria humana que se buscam por qualquer meio, em vez de dar a vida pelos outros na miss\u00e3o. N\u00e3o nos deixemos roubar o entusiasmo mission\u00e1rio!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o \u00e0 ac\u00e9dia ego\u00edsta<br \/>\n<\/em><br \/>\n81.\tQuando mais precisamos dum dinamismo mission\u00e1rio que leve sal e luz ao mundo, muitos leigos temem que algu\u00e9m os convide a realizar alguma tarefa apost\u00f3lica e procuram fugir de qualquer compromisso que lhes possa roubar o tempo livre. Hoje, por exemplo, tornou-se muito dif\u00edcil nas par\u00f3quias conseguir catequistas que estejam preparados e perseverem no seu dever por v\u00e1rios anos. Mas algo parecido acontece com os sacerdotes que se preocupam obsessivamente com o seu tempo pessoal. Isto, muitas vezes, fica-se a dever a que as pessoas sentem imperiosamente necessidade de preservar os seus espa\u00e7os de autonomia, como se uma tarefa de evangeliza\u00e7\u00e3o fosse um veneno perigoso e n\u00e3o uma resposta alegre ao amor de Deus que nos convoca para a miss\u00e3o e nos torna completos e fecundos. Alguns resistem a provar at\u00e9 ao fundo o gosto da miss\u00e3o e acabam mergulhados numa ac\u00e9dia paralisadora.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">82.\tO problema n\u00e3o est\u00e1 sempre no excesso de actividades, mas sobretudo nas actividades mal vividas, sem as motiva\u00e7\u00f5es adequadas, sem uma espiritualidade que impregne a ac\u00e7\u00e3o e a torne desej\u00e1vel. Da\u00ed que as obriga\u00e7\u00f5es cansem mais do que \u00e9 razo\u00e1vel, e \u00e0s vezes fa\u00e7am adoecer. N\u00e3o se trata duma fadiga feliz, mas tensa, gravosa, desagrad\u00e1vel e, em definitivo, n\u00e3o assumida. Esta ac\u00e9dia pastoral pode ter origens diversas: alguns caem nela por sustentarem projectos irrealiz\u00e1veis e n\u00e3o viverem de bom grado o que poderiam razoavelmente fazer; outros, por n\u00e3o aceitarem a custosa evolu\u00e7\u00e3o dos processos e querem que tudo caia do C\u00e9u; outros, por se apegarem a alguns projectos ou a sonhos de sucesso cultivados pela sua vaidade; outros, por terem perdido o contacto real com o povo, numa despersonaliza\u00e7\u00e3o da pastoral que leva a prestar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o do que \u00e0s pessoas, acabando assim por se entusiasmarem mais com a \u00abtabela de marcha\u00bb do que com a pr\u00f3pria marcha; outros ainda caem na ac\u00e9dia, por n\u00e3o saberem esperar e quererem dominar o ritmo da vida. A \u00e2nsia hodierna de chegar a resultados imediatos faz com que os agentes pastorais n\u00e3o tolerem facilmente tudo o que signifique alguma contradi\u00e7\u00e3o, um aparente fracasso, uma cr\u00edtica, uma cruz.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">83.\tAssim se gera a maior amea\u00e7a, que \u00ab\u00e9 o pragmatismo cinzento da vida quotidiana da Igreja, no qual aparentemente tudo procede dentro da normalidade, mas na realidade a f\u00e9 vai-se deteriorando e degenerando na mesquinhez\u00bb. Desenvolve-se a psicologia do t\u00famulo, que pouco a pouco transforma os crist\u00e3os em m\u00famias de museu. Desiludidos com a realidade, com a Igreja ou consigo mesmos, vivem constantemente tentados a apegar-se a uma tristeza melosa, sem esperan\u00e7a, que se apodera do cora\u00e7\u00e3o como \u00abo mais precioso elixir do dem\u00f3nio\u00bb. Chamados para iluminar e comunicar vida, acabam por se deixar cativar por coisas que s\u00f3 geram escurid\u00e3o e cansa\u00e7o interior e corroem o dinamismo apost\u00f3lico. Por tudo isto, permiti que insista: N\u00e3o deixemos que nos roubem a alegria da evangeliza\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o ao pessimismo est\u00e9ril<br \/>\n<\/em>84.\tA alegria do Evangelho \u00e9 tal que nada e ningu\u00e9m no-la poder\u00e1 tirar (cf.\u00a0<em>Jo<\/em> 16, 22). Os males do nosso mundo \u2013 e os da Igreja \u2013 n\u00e3o deveriam servir como desculpa para reduzir a nossa entrega e o nosso ardor. Vejamo-los como desafios para crescer. Al\u00e9m disso, o olhar crente \u00e9 capaz de reconhecer a luz que o Esp\u00edrito Santo sempre irradia no meio da escurid\u00e3o, sem esquecer que, \u00abonde abundou o pecado, superabundou a gra\u00e7a\u00bb (<em>Rm<\/em> 5, 20). A nossa f\u00e9 \u00e9 desafiada a entrever o vinho em que a \u00e1gua pode ser transformada, e a descobrir o trigo que cresce no meio do joio. Cinquenta anos depois do Conc\u00edlio Vaticano II, apesar de nos entristecerem as mis\u00e9rias do nosso tempo e estarmos longe de optimismos ing\u00e9nuos, um maior realismo n\u00e3o deve significar menor confian\u00e7a no Esp\u00edrito nem menor generosidade. Neste sentido, podemos voltar a ouvir as palavras pronunciadas pelo Beato Jo\u00e3o XXIII naquele memor\u00e1vel 11 de Outubro de 1962: \u00abChegam-nos aos ouvidos insinua\u00e7\u00f5es de almas, ardorosas sem d\u00favida no zelo, mas n\u00e3o dotadas de grande sentido de discri\u00e7\u00e3o e modera\u00e7\u00e3o. Nos tempos actuais, n\u00e3o v\u00eaem sen\u00e3o prevarica\u00e7\u00f5es e ru\u00ednas. [&#8230;] Mas a n\u00f3s parece-nos que devemos discordar desses profetas de desgra\u00e7as, que anunciam acontecimentos sempre infaustos, como se estivesse iminente o fim do mundo. Na ordem presente das coisas, a misericordiosa Provid\u00eancia est\u00e1-nos levantando para uma ordem de rela\u00e7\u00f5es humanas que, por obra dos homens e a maior parte das vezes para al\u00e9m do que eles esperam, se encaminham para o cumprimento dos seus des\u00edgnios superiores e inesperados, e tudo, mesmo as adversidades humanas, converge para o bem da Igreja\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">85.\tUma das tenta\u00e7\u00f5es mais s\u00e9rias que sufoca o fervor e a ousadia \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de derrota que nos transforma em pessimistas lamurientos e desencantados com cara de vinagre. Ningu\u00e9m pode empreender uma luta, se de antem\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 plenamente confiado no triunfo. Quem come\u00e7a sem confian\u00e7a, perdeu de antem\u00e3o metade da batalha e enterra os seus talentos. Embora com a dolorosa consci\u00eancia das pr\u00f3prias fraquezas, h\u00e1 que seguir em frente, sem se dar por vencido, e recordar o que disse o Senhor a S\u00e3o Paulo: \u00abBasta-te a minha gra\u00e7a, porque a for\u00e7a manifesta-se na fraqueza\u00bb (<em>2 Cor<\/em> 12, 9). O triunfo crist\u00e3o \u00e9 sempre uma cruz, mas cruz que \u00e9, simultaneamente, estandarte de vit\u00f3ria, que se empunha com ternura batalhadora contra as investidas do mal. O mau esp\u00edrito da derrota \u00e9 irm\u00e3o da tenta\u00e7\u00e3o de separar prematuramente o trigo do joio, resultado de uma desconfian\u00e7a ansiosa e egoc\u00eantrica.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">86.\t\u00c9 verdade que, nalguns lugares, se produziu uma \u00abdesertifica\u00e7\u00e3o\u00bb espiritual, fruto do projecto de sociedades que querem construir sem Deus ou que destroem as suas ra\u00edzes crist\u00e3s. L\u00e1, \u00abo mundo crist\u00e3o est\u00e1 a tornar-se est\u00e9ril e se esgota como uma terra excessivamente desfrutada que se transforma em poeira\u00bb. Noutros pa\u00edses, a resist\u00eancia violenta ao cristianismo obriga os crist\u00e3os a viverem a sua f\u00e9 \u00e0s escondidas no pa\u00eds que amam. Esta \u00e9 outra forma muito triste de deserto. E a pr\u00f3pria fam\u00edlia ou o lugar de trabalho podem ser tamb\u00e9m o tal ambiente \u00e1rido, onde h\u00e1 que conservar a f\u00e9 e procurar irradi\u00e1-la. Mas \u00ab\u00e9 precisamente a partir da experi\u00eancia deste deserto, deste vazio, que podemos redescobrir a alegria de crer, a sua import\u00e2ncia vital para n\u00f3s, homens e mulheres. No deserto, \u00e9 poss\u00edvel redescobrir o valor daquilo que \u00e9 essencial para a vida; assim sendo, no mundo de hoje, h\u00e1 in\u00fameros sinais da sede de Deus, do sentido \u00faltimo da vida, ainda que muitas vezes expressos impl\u00edcita ou negativamente. E, no deserto, existe sobretudo a necessidade de pessoas de f\u00e9 que, com suas pr\u00f3prias vidas, indiquem o caminho para a Terra Prometida, mantendo assim viva a esperan\u00e7a\u00bb. Em todo o caso, l\u00e1 somos chamados a ser pessoas-c\u00e2ntaro para dar de beber aos outros. \u00c0s vezes o c\u00e2ntaro transforma-se numa pesada cruz, mas foi precisamente na Cruz que o Senhor, trespassado, Se nos entregou como fonte de \u00e1gua viva. N\u00e3o deixemos que nos roubem a esperan\u00e7a!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Sim \u00e0s rela\u00e7\u00f5es novas geradas por Jesus Cristo<br \/>\n<\/em><br \/>\n87.\tNeste tempo em que as redes e demais instrumentos da comunica\u00e7\u00e3o humana alcan\u00e7aram progressos inauditos, sentimos o desafio de descobrir e transmitir a \u00abm\u00edstica\u00bb de viver juntos, misturar-nos, encontrar-nos, dar o bra\u00e7o, apoiar-nos, participar nesta mar\u00e9 um pouco ca\u00f3tica que pode transformar-se numa verdadeira experi\u00eancia de fraternidade, numa caravana solid\u00e1ria, numa peregrina\u00e7\u00e3o sagrada. Assim, as maiores possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o traduzir-se-\u00e3o em novas oportunidades de encontro e solidariedade entre todos. Como seria bom, salutar, libertador, esperan\u00e7oso, se pud\u00e9ssemos trilhar este caminho! Sair de si mesmo para se unir aos outros faz bem. Fechar-se em si mesmo \u00e9 provar o veneno amargo da iman\u00eancia, e a humanidade perder\u00e1 com cada op\u00e7\u00e3o ego\u00edsta que fizermos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">88.\tO ideal crist\u00e3o convidar\u00e1 sempre a superar a suspeita, a desconfian\u00e7a permanente, o medo de sermos invadidos, as atitudes defensivas que nos imp\u00f5e o mundo actual. Muitos tentam escapar dos outros fechando-se na sua privacidade confort\u00e1vel ou no c\u00edrculo reduzido dos mais \u00edntimos, e renunciam ao realismo da dimens\u00e3o social do Evangelho. Porque, assim como alguns quiseram um Cristo puramente espiritual, sem carne nem cruz, tamb\u00e9m se pretendem rela\u00e7\u00f5es interpessoais mediadas apenas por sofisticados aparatos, por ecr\u00e3s e sistemas que se podem acender e apagar \u00e0 vontade. Entretanto o Evangelho convida-nos sempre a abra\u00e7ar o risco do encontro com o rosto do outro, com a sua presen\u00e7a f\u00edsica que interpela, com o seu sofrimentos e suas reivindica\u00e7\u00f5es, com a sua alegria contagiosa permanecendo lado a lado. A verdadeira f\u00e9 no Filho de Deus feito carne \u00e9 insepar\u00e1vel do dom de si mesmo, da perten\u00e7a \u00e0 comunidade, do servi\u00e7o, da reconcilia\u00e7\u00e3o com a carne dos outros. Na sua encarna\u00e7\u00e3o, o Filho de Deus convidou-nos \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o da ternura.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">89.\tO isolamento, que \u00e9 uma concretiza\u00e7\u00e3o do imanentismo, pode exprimir-se numa falsa autonomia que exclui Deus, mas pode tamb\u00e9m encontrar na religi\u00e3o uma forma de consumismo espiritual \u00e0 medida do pr\u00f3prio individualismo doentio. O regresso ao sagrado e a busca espiritual, que caracterizam a nossa \u00e9poca. s\u00e3o fen\u00f3menos amb\u00edguos. Mais do que o ate\u00edsmo, o desafio que hoje se nos apresenta \u00e9 responder adequadamente \u00e0 sede de Deus de muitas pessoas, para que n\u00e3o tenham de ir apag\u00e1-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro. Se n\u00e3o encontram na Igreja uma espiritualidade que os cure, liberte, encha de vida e de paz, ao mesmo tempo que os chame \u00e0 comunh\u00e3o solid\u00e1ria e \u00e0 fecundidade mission\u00e1ria, acabar\u00e3o enganados por propostas que n\u00e3o humanizam nem d\u00e3o gl\u00f3ria a Deus.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">90.\tAs formas pr\u00f3prias da religiosidade popular s\u00e3o encarnadas, porque brotaram da encarna\u00e7\u00e3o da f\u00e9 crist\u00e3 numa cultura popular. Por isso mesmo, incluem uma rela\u00e7\u00e3o pessoal, n\u00e3o com energias harmonizadoras, mas com Deus, Jesus Cristo, Maria, um Santo. T\u00eam carne, t\u00eam rostos. Est\u00e3o aptas para alimentar potencialidades relacionais e n\u00e3o tanto fugas individualistas. Noutros sectores da nossa sociedade, cresce o apre\u00e7o por v\u00e1rias formas de \u00abespiritualidade do bem-estar\u00bb sem comunidade, por uma \u00abteologia da prosperidade\u00bb sem compromissos fraternos ou por experi\u00eancias subjectivas sem rostos, que se reduzem a uma busca interior imanentista.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">91.\tUm desafio importante \u00e9 mostrar que a solu\u00e7\u00e3o nunca consistir\u00e1 em escapar de uma rela\u00e7\u00e3o pessoal e comprometida com Deus, que ao mesmo tempo nos comprometa com os outros. Isto \u00e9 o que se verifica hoje quando os crentes procuram esconder-se e livrar-se dos outros, e quando subtilmente escapam de um lugar para outro ou de uma tarefa para outra, sem criar v\u00ednculos profundos e est\u00e1veis: \u00abA imagina\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a de lugares enganou a muitos\u00bb. \u00c9 um rem\u00e9dio falso que faz adoecer o cora\u00e7\u00e3o e, \u00e0s vezes, o corpo. Faz falta ajudar a reconhecer que o \u00fanico caminho \u00e9 aprender a encontrar os demais com a atitude adequada, que \u00e9 valoriz\u00e1-los e aceit\u00e1-los como companheiros de estrada, sem resist\u00eancias interiores. Melhor ainda, trata-se de aprender a descobrir Jesus no rosto dos outros, na sua voz, nas suas reivindica\u00e7\u00f5es; e aprender tamb\u00e9m a sofrer, num abra\u00e7o com Jesus crucificado, quando recebemos agress\u00f5es injustas ou ingratid\u00f5es, sem nos cansarmos jamais de optar pela fraternidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">92.\tNisto est\u00e1 a verdadeira cura: de facto, o modo de nos relacionarmos com os outros que, em vez de nos adoecer, nos cura \u00e9 uma fraternidade\u00a0<em>m\u00edstica<\/em>, contemplativa, que sabe ver a grandeza sagrada do pr\u00f3ximo, que sabe descobrir Deus em cada ser humano, que sabe tolerar as mol\u00e9stias da conviv\u00eancia agarrando-se ao amor de Deus, que sabe abrir o cora\u00e7\u00e3o ao amor divino para procurar a felicidade dos outros como a procura o seu Pai bom. Precisamente nesta \u00e9poca, inclusive onde s\u00e3o um \u00abpequenino rebanho\u00bb (<em>Lc<\/em> 12, 32), os disc\u00edpulos do Senhor s\u00e3o chamados a viver como comunidade que seja sal da terra e luz do mundo (cf.<em>Mt<\/em> 5, 13-16). S\u00e3o chamados a testemunhar, de forma sempre nova, uma perten\u00e7a evangelizadora. N\u00e3o deixemos que nos roubem a comunidade!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o ao mundanismo espiritual<br \/>\n<\/em><br \/>\n93.\tO mundanismo espiritual, que se esconde por detr\u00e1s de apar\u00eancias de religiosidade e at\u00e9 mesmo de amor \u00e0 Igreja, \u00e9 buscar, em vez da gl\u00f3ria do Senhor, a gl\u00f3ria humana e o bem-estar pessoal. \u00c9 aquilo que o Senhor censurava aos fariseus: \u00abComo vos \u00e9 poss\u00edvel acreditar, se andais \u00e0 procura da gl\u00f3ria uns dos outros, e n\u00e3o procurais a gl\u00f3ria que vem do Deus \u00fanico?\u00bb (<em>Jo<\/em> 5, 44). \u00c9 uma maneira subtil de procurar \u00abos pr\u00f3prios interesses, n\u00e3o os interesses de Jesus Cristo\u00bb (<em>Fl<\/em> 2, 21). Reveste-se de muitas formas, de acordo com o tipo de pessoas e situa\u00e7\u00f5es em que penetra. Por cultivar o cuidado da apar\u00eancia, nem sempre suscita pecados de dom\u00ednio p\u00fablico, pelo que externamente tudo parece correcto. Mas, se invadisse a Igreja, \u00abseria infinitamente mais desastroso do que qualquer outro mundanismo meramente moral\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">94.\tEste mundanismo pode alimentar-se sobretudo de duas maneiras profundamente relacionadas. Uma delas \u00e9 o fasc\u00ednio do gnosticismo, uma f\u00e9 fechada no subjectivismo, onde apenas interessa uma determinada experi\u00eancia ou uma s\u00e9rie de racioc\u00ednios e conhecimentos que supostamente confortam e iluminam, mas, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a pessoa fica enclausurada na iman\u00eancia da sua pr\u00f3pria raz\u00e3o ou dos seus sentimentos. A outra maneira \u00e9 o neopelagianismo auto-referencial e prometeuco de quem, no fundo, s\u00f3 confia nas suas pr\u00f3prias for\u00e7as e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo cat\u00f3lico pr\u00f3prio do passado. \u00c9 uma suposta seguran\u00e7a doutrinal ou disciplinar que d\u00e1 lugar a um elitismo narcisista e autorit\u00e1rio, onde, em vez de evangelizar, se analisam e classificam os demais e, em vez de facilitar o acesso \u00e0 gra\u00e7a, consomem-se as energias a controlar. Em ambos os casos, nem Jesus Cristo nem os outros interessam verdadeiramente. S\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es dum imanentismo antropoc\u00eantrico. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel imaginar que, destas formas desvirtuadas do cristianismo, possa brotar um aut\u00eantico dinamismo evangelizador.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">95.\tEste obscuro mundanismo manifesta-se em muitas atitudes, aparentemente opostas mas com a mesma pretens\u00e3o de \u00abdominar o espa\u00e7o da Igreja\u00bb. Nalguns, h\u00e1 um cuidado exibicionista da liturgia, da doutrina e do prest\u00edgio da Igreja, mas n\u00e3o se preocupam que o Evangelho adquira uma real inser\u00e7\u00e3o no povo fiel de Deus e nas necessidades concretas da hist\u00f3ria. Assim, a vida da Igreja transforma-se numa pe\u00e7a de museu ou numa possess\u00e3o de poucos. Noutros, o pr\u00f3prio mundanismo espiritual esconde-se por detr\u00e1s do fasc\u00ednio de poder mostrar conquistas sociais e pol\u00edticas, ou numa vangl\u00f3ria ligada \u00e0 gest\u00e3o de assuntos pr\u00e1ticos, ou numa atrac\u00e7\u00e3o pelas din\u00e2micas de auto-estima e de realiza\u00e7\u00e3o autoreferencial. Tamb\u00e9m se pode traduzir em v\u00e1rias formas de se apresentar a si mesmo envolvido numa densa vida social cheia de viagens, reuni\u00f5es, jantares, recep\u00e7\u00f5es. Ou ent\u00e3o desdobra-se num funcionalismo empresarial, carregado de estat\u00edsticas, planifica\u00e7\u00f5es e avalia\u00e7\u00f5es, onde o principal benefici\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 o povo de Deus mas a Igreja como organiza\u00e7\u00e3o. Em qualquer um dos casos, n\u00e3o traz o selo de Cristo encarnado, crucificado e ressuscitado, encerra-se em grupos de elite, n\u00e3o sai realmente \u00e0 procura dos que andam perdidos nem das imensas multid\u00f5es sedentas de Cristo. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 ardor evang\u00e9lico, mas o gozo esp\u00fario duma autocomplac\u00eancia egoc\u00eantrica.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">96.\tNeste contexto, alimenta-se a vangl\u00f3ria de quantos se contentam com ter algum poder e preferem ser generais de ex\u00e9rcitos derrotados antes que simples soldados dum batalh\u00e3o que continua a lutar. Quantas vezes sonhamos planos apost\u00f3licos expansionistas, meticulosos e bem tra\u00e7ados, t\u00edpicos de generais derrotados! Assim negamos a nossa hist\u00f3ria de Igreja, que \u00e9 gloriosa por ser hist\u00f3ria de sacrif\u00edcios, de esperan\u00e7a, de luta di\u00e1ria, de vida gasta no servi\u00e7o, de const\u00e2ncia no trabalho fadigoso, porque todo o trabalho \u00e9 \u00absuor do nosso rosto\u00bb. Em vez disso, entretemo-nos vaidosos a falar sobre \u00abo que se deveria fazer\u00bb \u2013 o pecado do \u00abdeveriaque\u00edsmo\u00bb \u2013 como mestres espirituais e peritos de pastoral que d\u00e3o instru\u00e7\u00f5es ficando de fora. Cultivamos a nossa imagina\u00e7\u00e3o sem limites e perdemos o contacto com a dolorosa realidade do nosso povo fiel.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">97.\tQuem caiu neste mundanismo olha de cima e de longe, rejeita a profecia dos irm\u00e3os, desqualifica quem o questiona, faz ressaltar constantemente os erros alheios e vive obcecado pela apar\u00eancia. Circunscreveu os pontos de refer\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o ao horizonte fechado da sua iman\u00eancia e dos seus interesses e, consequentemente, n\u00e3o aprende com os seus pecados nem est\u00e1 verdadeiramente aberto ao perd\u00e3o. \u00c9 uma tremenda corrup\u00e7\u00e3o, com apar\u00eancias de bem. Devemos evit\u00e1-lo, pondo a Igreja em movimento de sa\u00edda de si mesma, de miss\u00e3o centrada em Jesus Cristo, de entrega aos pobres. Deus nos livre de uma Igreja mundana sob vestes espirituais ou pastorais! Este mundanismo asfixiante cura-se saboreando o ar puro do Esp\u00edrito Santo, que nos liberta de estarmos centrados em n\u00f3s mesmos, escondidos numa apar\u00eancia religiosa vazia de Deus. N\u00e3o deixemos que nos roubem o Evangelho!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>N\u00e3o \u00e0 guerra entre n\u00f3s<br \/>\n<\/em><br \/>\n98.\tDentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades, quantas guerras! No bairro, no local de trabalho, quantas guerras por invejas e ci\u00fames, mesmo entre crist\u00e3os! O mundanismo espiritual leva alguns crist\u00e3os a estar em guerra com outros crist\u00e3os que se interp\u00f5em na sua busca pelo poder, prest\u00edgio, prazer ou seguran\u00e7a econ\u00f3mica. Al\u00e9m disso, alguns deixam de viver uma ades\u00e3o cordial \u00e0 Igreja por alimentar um esp\u00edrito de contenda. Mais do que pertencer \u00e0 Igreja inteira, com a sua rica diversidade, pertencem a este ou \u00e0quele grupo que se sente diferente ou especial.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">99.\tO mundo est\u00e1 dilacerado pelas guerras e a viol\u00eancia, ou ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e p\u00f5e-nos uns contra os outros visando o pr\u00f3prio bem-estar. Em v\u00e1rios pa\u00edses, ressurgem conflitos e antigas divis\u00f5es que se pensavam em parte superados. Aos crist\u00e3os de todas as comunidades do mundo, quero pedir-lhes de modo especial um testemunho de comunh\u00e3o fraterna, que se torne fascinante e resplandecente. Que todos possam admirar como vos preocupais uns pelos outros, como mutuamente vos encorajais animais e ajudais: \u00abPor isto \u00e9 que todos conhecer\u00e3o que sois meus disc\u00edpulos: se vos amardes uns aos outros\u00bb (<em>Jo<\/em> 13, 35). Foi o que Jesus, com uma intensa ora\u00e7\u00e3o, Jesus pediu ao Pai: \u00abQue todos sejam um s\u00f3 (\u2026) em n\u00f3s [para que] o mundo creia\u00bb (<em>Jo<\/em> 17, 21). Cuidado com a tenta\u00e7\u00e3o da inveja! Estamos no mesmo barco e vamos para o mesmo porto! Pe\u00e7amos a gra\u00e7a de nos alegrarmos com os frutos alheios, que s\u00e3o de todos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">100.\tPara quantos est\u00e3o feridos por antigas divis\u00f5es, resulta dif\u00edcil aceitar que os exortemos ao perd\u00e3o e \u00e0 reconcilia\u00e7\u00e3o, porque pensam que ignoramos a sua dor ou pretendemos fazer-lhes perder a mem\u00f3ria e os ideais. Mas, se virem o testemunho de comunidades autenticamente fraternas e reconciliadas, isso \u00e9 sempre uma luz que atrai. Por isso me d\u00f3i muito comprovar como nalgumas comunidades crist\u00e3s, e mesmo entre pessoas consagradas, se d\u00e1 espa\u00e7o a v\u00e1rias formas de \u00f3dio, divis\u00e3o, cal\u00fania, difama\u00e7\u00e3o, vingan\u00e7a, ci\u00fame, a desejos de impor as pr\u00f3prias ideias a todo o custo, e at\u00e9 persegui\u00e7\u00f5es que parecem uma implac\u00e1vel ca\u00e7a \u00e0s bruxas. Quem queremos evangelizar com estes comportamentos?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">101.\tPe\u00e7amos ao Senhor que nos fa\u00e7a compreender a lei do amor. Que bom \u00e9 termos esta lei! Como nos faz bem, apesar de tudo amar-nos uns aos outros! Sim, apesar de tudo! A cada um de n\u00f3s \u00e9 dirigida a exorta\u00e7\u00e3o de Paulo: \u00abN\u00e3o te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem\u00bb (<em>Rm<\/em> 12, 21). E ainda: \u00abN\u00e3o nos cansemos de fazer o bem\u00bb (<em>Gal<\/em> 6, 9). Todos n\u00f3s provamos simpatias e antipatias, e talvez neste momento estejamos chateados com algu\u00e9m. Pelo menos digamos ao Senhor: \u00abSenhor, estou chateado com este, com aquela. Pe\u00e7o-Vos por ele e por ela\u00bb. Rezar pela pessoa com quem estamos irritados \u00e9 um belo passo rumo ao amor, e \u00e9 um acto de evangeliza\u00e7\u00e3o. Fa\u00e7amo-lo hoje mesmo. N\u00e3o deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Outros desafios eclesiais<br \/>\n<\/em><br \/>\n102.\tA imensa maioria do povo de Deus \u00e9 constitu\u00edda por leigos. Ao seu servi\u00e7o, est\u00e1 uma minoria: os ministros ordenados. Cresceu a consci\u00eancia da identidade e da miss\u00e3o dos leigos na Igreja. Embora n\u00e3o suficiente, pode-se contar com um numeroso laicado, dotado de um arreigado sentido de comunidade e uma grande fidelidade ao compromisso da caridade, da catequese, da celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Mas, a tomada de consci\u00eancia desta responsabilidade laical que nasce do Baptismo e da Confirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se manifesta de igual modo em toda a parte; nalguns casos, porque n\u00e3o se formaram para assumir responsabilidades importantes, noutros por n\u00e3o encontrar espa\u00e7o nas suas Igrejas particulares para poderem exprimir-se e agir por causa dum excessivo clericalismo que os mant\u00e9m \u00e0 margem das decis\u00f5es. Apesar de se notar uma maior participa\u00e7\u00e3o de muitos nos minist\u00e9rios laicais, este compromisso n\u00e3o se reflecte na penetra\u00e7\u00e3o dos valores crist\u00e3os no mundo social, pol\u00edtico e econ\u00f3mico; limita-se muitas vezes \u00e0s tarefas no seio da Igreja, sem um empenhamento real pela aplica\u00e7\u00e3o do Evangelho na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade. A forma\u00e7\u00e3o dos leigos e a evangeliza\u00e7\u00e3o das categorias profissionais e intelectuais constituem um importante desafio pastoral.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">103.\tA Igreja reconhece a indispens\u00e1vel contribui\u00e7\u00e3o da mulher na sociedade, com uma sensibilidade, uma intui\u00e7\u00e3o e certas capacidades peculiares, que habitualmente s\u00e3o mais pr\u00f3prias das mulheres que dos homens. Por exemplo, a especial solicitude feminina pelos outros, que se exprime de modo particular, mas n\u00e3o exclusivamente, na maternidade. Vejo, com prazer, como muitas mulheres partilham responsabilidades pastorais juntamente com os sacerdotes, contribuem para o acompanhamento de pessoas, fam\u00edlias ou grupos e prestam novas contribui\u00e7\u00f5es para a reflex\u00e3o teol\u00f3gica. Mas ainda \u00e9 preciso ampliar os espa\u00e7os para uma presen\u00e7a feminina mais incisiva na Igreja. Porque \u00abo g\u00e9nio feminino \u00e9 necess\u00e1rio em todas as express\u00f5es da vida social; por isso deve ser garantida a presen\u00e7a das mulheres tamb\u00e9m no \u00e2mbito do trabalho\u00bb e nos v\u00e1rios lugares onde se tomam as decis\u00f5es importantes, tanto na Igreja como nas estruturas sociais.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">104.\tAs reivindica\u00e7\u00f5es dos leg\u00edtimos direitos das mulheres, a partir da firme convic\u00e7\u00e3o de que homens e mulheres t\u00eam a mesma dignidade, colocam \u00e0 Igreja quest\u00f5es profundas que a desafiam e n\u00e3o se podem iludir superficialmente. O sacerd\u00f3cio reservado aos homens, como sinal de Cristo Esposo que Se entrega na Eucaristia, \u00e9 uma quest\u00e3o que n\u00e3o se p\u00f5e em discuss\u00e3o, mas pode tornar-se particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade sacramental com o poder. N\u00e3o se esque\u00e7a que, quando falamos da potestade sacerdotal, \u00abestamos na esfera da\u00a0<em>fun\u00e7\u00e3o<\/em> e n\u00e3o na da\u00a0<em>dignidade<\/em> e da santidade\u00bb. O sacerd\u00f3cio ministerial \u00e9 um dos meios que Jesus utiliza ao servi\u00e7o do seu povo, mas a grande dignidade vem do Baptismo, que \u00e9 acess\u00edvel a todos. A configura\u00e7\u00e3o do sacerdote com Cristo Cabe\u00e7a \u2013 isto \u00e9, como fonte principal da gra\u00e7a \u2013 n\u00e3o comporta uma exalta\u00e7\u00e3o que o coloque por cima dos demais. Na Igreja, as fun\u00e7\u00f5es \u00ab<em>n\u00e3o d\u00e3o justifica\u00e7\u00e3o \u00e0 superioridade<\/em> de uns sobre os outros\u00bb. Com efeito, uma mulher, Maria, \u00e9 mais importante do que os Bispos. Mesmo quando a fun\u00e7\u00e3o do sacerd\u00f3cio ministerial \u00e9 considerada \u00abhier\u00e1rquica\u00bb, h\u00e1 que ter bem presente que \u00abse ordena\u00a0<em>integralmente<\/em> \u00e0 santidade dos membros do corpo m\u00edstico de Cristo\u00bb. A sua pedra de fecho e o seu fulcro n\u00e3o s\u00e3o o poder entendido como dom\u00ednio, mas a potestade de administrar o sacramento da Eucaristia; daqui deriva a sua autoridade, que \u00e9 sempre um servi\u00e7o ao povo. Aqui est\u00e1 um grande desafio para os Pastores e para os te\u00f3logos, que poderiam ajudar a reconhecer melhor o que isto implica no que se refere ao poss\u00edvel lugar das mulheres onde se tomam decis\u00f5es importantes, nos diferentes \u00e2mbitos da Igreja.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">105.\tA pastoral juvenil, tal como est\u00e1vamos habituados a desenvolv\u00ea-la, sofreu o impacto das mudan\u00e7as sociais. Nas estruturas ordin\u00e1rias, os jovens habitualmente n\u00e3o encontram respostas para as suas preocupa\u00e7\u00f5es, necessidades, problemas e feridas. A n\u00f3s, adultos, custa-nos ouvi-los com paci\u00eancia, compreender as suas preocupa\u00e7\u00f5es ou as suas reivindica\u00e7\u00f5es, e aprender a falar-lhes na linguagem que eles entendem. Pela mesma raz\u00e3o, as propostas educacionais n\u00e3o produzem os frutos esperados. A prolifera\u00e7\u00e3o e o crescimento de associa\u00e7\u00f5es e movimentos predominantemente juvenis podem ser interpretados como uma ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito que abre caminhos novos em sintonia com as suas expectativas e a busca de espiritualidade profunda e dum sentido mais concreto de perten\u00e7a. Todavia \u00e9 necess\u00e1rio tornar mais est\u00e1vel a participa\u00e7\u00e3o destas agrega\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito da pastoral de conjunto da Igreja.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">106.\tEmbora nem sempre seja f\u00e1cil abordar os jovens, houve crescimento em dois aspectos: a consci\u00eancia de que toda a comunidade os evangeliza e educa, e a urg\u00eancia de que eles tenham um protagonismo maior. Deve-se reconhecer que, no actual contexto de crise do compromisso e dos la\u00e7os comunit\u00e1rios, s\u00e3o muitos os jovens que se solidarizam contra os males do mundo, aderindo a v\u00e1rias formas de milit\u00e2ncia e voluntariado. Alguns participam na vida da Igreja, integram grupos de servi\u00e7o e diferentes iniciativas mission\u00e1rias nas suas pr\u00f3prias dioceses ou noutros lugares. Como \u00e9 bom que os jovens sejam \u00abcaminheiros da f\u00e9\u00bb, felizes por levarem Jesus Cristo a cada esquina, a cada pra\u00e7a, a cada canto da terra!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">107.\tEm muitos lugares, h\u00e1 escassez de voca\u00e7\u00f5es ao sacerd\u00f3cio e \u00e0 vida consagrada. Frequentemente isso fica-se a dever \u00e0 falta de ardor apost\u00f3lico contagioso nas comunidades, pelo que estas n\u00e3o entusiasmam nem fascinam. Onde h\u00e1 vida, fervor, paix\u00e3o de levar Cristo aos outros, surgem voca\u00e7\u00f5es genu\u00ednas. Mesmo em par\u00f3quias onde os sacerdotes n\u00e3o s\u00e3o muito dispon\u00edveis nem alegres, \u00e9 a vida fraterna e fervorosa da comunidade que desperta o desejo de se consagrar inteiramente a Deus e \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o, especialmente se essa comunidade vivente reza insistentemente pelas voca\u00e7\u00f5es e tem a coragem de propor aos seus jovens um caminho de especial consagra\u00e7\u00e3o. Por outro lado, apesar da escassez vocacional, hoje temos no\u00e7\u00e3o mais clara da necessidade de melhor selec\u00e7\u00e3o dos candidatos ao sacerd\u00f3cio. N\u00e3o se podem encher os semin\u00e1rios com qualquer tipo de motiva\u00e7\u00f5es, e menos ainda se estas est\u00e3o relacionadas com inseguran\u00e7a afectiva, busca de formas de poder, gl\u00f3ria humana ou bem-estar econ\u00f3mico.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">108.\tComo j\u00e1 disse, n\u00e3o pretendi oferecer um diagn\u00f3stico completo, mas convido as comunidades a completarem e a enriquecerem estas perspectivas a partir da consci\u00eancia dos desafios pr\u00f3prios e das comunidades vizinhas. Espero que, ao faz\u00ea-lo, tenham em conta que, todas as vezes que intentamos ler os sinais dos tempos na realidade actual, \u00e9 conveniente ouvir os jovens e os idosos. Tanto uns como outros s\u00e3o a esperan\u00e7a dos povos. Os idosos fornecem a mem\u00f3ria e a sabedoria da experi\u00eancia, que convida a n\u00e3o repetir tontamente os mesmos erros do passado. Os jovens chamam-nos a despertar e a aumentar a esperan\u00e7a, porque trazem consigo as novas tend\u00eancias da humanidade e abrem-nos ao futuro, de modo que n\u00e3o fiquemos encalhados na nostalgia de estruturas e costumes que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o fonte de vida no mundo actual.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">109.\tOs desafios existem para ser superados. Sejamos realistas, mas sem perder a alegria, a aud\u00e1cia e a dedica\u00e7\u00e3o cheia de esperan\u00e7a. N\u00e3o deixemos que nos roubem a for\u00e7a mission\u00e1ria!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo III<br \/>\nO AN\u00daNCIO DO EVANGELHO<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">110.\tDepois de considerar alguns desafios da realidade actual, quero agora recordar o dever que incumbe sobre n\u00f3s em toda e qualquer \u00e9poca e lugar, porque \u00abn\u00e3o pode haver verdadeira evangeliza\u00e7\u00e3o sem o\u00a0<em>an\u00fancio expl\u00edcito<\/em> de Jesus como Senhor\u00bb e sem existir uma \u00abprimazia do an\u00fancio de Jesus Cristo em qualquer trabalho de evangeliza\u00e7\u00e3o\u00bb. Recolhendo as preocupa\u00e7\u00f5es dos Bispos asi\u00e1ticos, Jo\u00e3o Paulo II afirmou que, se a Igreja \u00abdeve realizar o seu destino providencial, ent\u00e3o uma evangeliza\u00e7\u00e3o entendida como o jubiloso, paciente e progressivo an\u00fancio da Morte salv\u00edfica e Ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo h\u00e1-de ser a vossa prioridade absoluta\u00bb. Isto \u00e9 v\u00e1lido para todos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Todo o povo de Deus anuncia o Evangelho<br \/>\n<\/strong><br \/>\n111.\tA evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 dever da Igreja. Este sujeito da evangeliza\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 mais do que uma institui\u00e7\u00e3o org\u00e2nica e hier\u00e1rquica; \u00e9, antes de tudo, um povo que peregrina para Deus. Trata-se certamente de um\u00a0<em>mist\u00e9rio<\/em> que mergulha as ra\u00edzes na Trindade, mas tem a sua concretiza\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica num povo peregrino e evangelizador, que sempre transcende toda a necess\u00e1ria express\u00e3o institucional. Proponho que nos detenhamos um pouco nesta forma de compreender a Igreja, que tem o seu fundamento \u00faltimo na iniciativa livre e gratuita de Deus.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Um povo para todos<br \/>\n<\/em><br \/>\n112.\tA salva\u00e7\u00e3o, que Deus nos oferece, \u00e9 obra da sua miseric\u00f3rdia. N\u00e3o h\u00e1 ac\u00e7\u00e3o humana, por melhor que seja, que nos fa\u00e7a merecer t\u00e3o grande dom. Por pura gra\u00e7a, Deus atrai-nos para nos unir a Si. Envia o seu Esp\u00edrito aos nossos cora\u00e7\u00f5es, para nos fazer seus filhos, para nos transformar e tornar capazes de responder com a nossa vida ao seu amor. A Igreja \u00e9 enviada por Jesus Cristo como sacramento da salva\u00e7\u00e3o oferecida por Deus. Atrav\u00e9s da sua ac\u00e7\u00e3o evangelizadora, ela colabora como instrumento da gra\u00e7a divina, que opera incessantemente para al\u00e9m de toda e qualquer poss\u00edvel supervis\u00e3o. Bem o exprimiu Bento XVI, ao abrir as reflex\u00f5es do S\u00ednodo: \u00ab\u00c9 sempre importante saber que a primeira palavra, a iniciativa verdadeira, a actividade verdadeira vem de Deus e s\u00f3 inserindo-nos nesta iniciativa divina, s\u00f3 implorando esta iniciativa divina, nos podemos tornar tamb\u00e9m \u2013 com Ele e n&#8217;Ele \u2013 evangelizadores\u00bb. O princ\u00edpio da\u00a0<em>primazia da gra\u00e7a<\/em> deve ser um farol que ilumine constantemente as nossas reflex\u00f5es sobre a evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">113.\tEsta salva\u00e7\u00e3o, que Deus realiza e a Igreja jubilosamente anuncia, \u00e9 para todos, e Deus criou um caminho para Se unir a cada um dos seres humanos de todos os tempos. Escolheu convoc\u00e1-los como povo, e n\u00e3o como seres isolados. Ningu\u00e9m se salva sozinho, isto \u00e9, nem como indiv\u00edduo isolado, nem por suas pr\u00f3prias for\u00e7as. Deus atrai-nos, no respeito da complexa trama de rela\u00e7\u00f5es interpessoais que a vida numa comunidade humana sup\u00f5e. Este povo, que Deus escolheu para Si e convocou, \u00e9 a Igreja. Jesus n\u00e3o diz aos Ap\u00f3stolos para formarem um grupo exclusivo, um grupo de elite. Jesus diz: \u00abIde, pois, fazei disc\u00edpulos de todos os povos\u00bb (<em>Mt<\/em> 28, 19). S\u00e3o Paulo afirma que no povo de Deus, na Igreja, \u00abn\u00e3o h\u00e1 judeu nem grego (&#8230;), porque todos sois um s\u00f3 em Cristo Jesus\u00bb (<em>Gal<\/em> 3, 28). Eu gostaria de dizer \u00e0queles que se sentem longe de Deus e da Igreja, aos que t\u00eam medo ou aos indiferentes: o Senhor tamb\u00e9m te chama para seres parte do seu povo, e f\u00e1-lo com grande respeito e amor!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">114.\tSer Igreja significa ser povo de Deus, de acordo com o grande projecto de amor do Pai. Isto implica ser o fermento de Deus no meio da humanidade; quer dizer anunciar e levar a salva\u00e7\u00e3o de Deus a este nosso mundo, que muitas vezes se sente perdido, necessitado de ter respostas que encorajem, d\u00eaem esperan\u00e7a e novo vigor para o caminho. A Igreja deve ser o lugar da miseric\u00f3rdia gratuita, onde todos possam sentir-se acolhidos, amados, perdoados e animados a viverem segundo a vida boa do Evangelho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Um povo com muitos rostos<br \/>\n<\/em><br \/>\n115.\tEste Povo de Deus encarna-se nos povos da Terra, cada um dos quais tem a sua cultura pr\u00f3pria. A no\u00e7\u00e3o de cultura \u00e9 um instrumento precioso para compreender as diversas express\u00f5es da vida crist\u00e3 que existem no povo de Deus. Trata-se do estilo de vida que uma determinada sociedade possui, da forma peculiar que t\u00eam os seus membros de se relacionar entre si, com as outras criaturas e com Deus. Assim entendida, a cultura abrange a totalidade da vida dum povo. Cada povo, na sua evolu\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, desenvolve a pr\u00f3pria cultura com leg\u00edtima autonomia. Isso fica-se a dever ao facto de que a pessoa humana, \u00abpor sua natureza, necessita absolutamente da vida social\u00bb e mant\u00e9m cont\u00ednua refer\u00eancia \u00e0 sociedade, na qual vive uma maneira concreta de se relacionar com a realidade. O ser humano est\u00e1 sempre culturalmente situado: \u00abnatureza e cultura encontram-se intimamente ligadas\u00bb. A gra\u00e7a sup\u00f5e a cultura, e o dom de Deus encarna-se na cultura de quem o recebe.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">116.\tAo longo destes dois mil\u00e9nios de cristianismo, uma quantidade inumer\u00e1vel de povos recebeu a gra\u00e7a da f\u00e9, f\u00ea-la florir na sua vida di\u00e1ria e transmitiu-a segundo as pr\u00f3prias modalidades culturais. Quando uma comunidade acolhe o an\u00fancio da salva\u00e7\u00e3o, o Esp\u00edrito Santo fecunda a sua cultura com a for\u00e7a transformadora do Evangelho. E assim, como podemos ver na hist\u00f3ria da Igreja, o cristianismo n\u00e3o disp\u00f5e de um \u00fanico modelo cultural, mas \u00abpermanecendo o que \u00e9, na fidelidade total ao an\u00fancio evang\u00e9lico e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da Igreja, o cristianismo assumir\u00e1 tamb\u00e9m o rosto das diversas culturas e dos v\u00e1rios povos onde for acolhido e se radicar\u00bb. Nos diferentes povos, que experimentam o dom de Deus segundo a pr\u00f3pria cultura, a Igreja exprime a sua genu\u00edna catolicidade e mostra \u00aba beleza deste rosto pluriforme\u00bb. Atrav\u00e9s das manifesta\u00e7\u00f5es crist\u00e3s dum povo evangelizado, o Esp\u00edrito Santo embeleza a Igreja, mostrando-lhe novos aspectos da Revela\u00e7\u00e3o e presenteando-a com um novo rosto. Pela incultura\u00e7\u00e3o, a Igreja \u00abintroduz os povos com as suas culturas na sua pr\u00f3pria comunidade\u00bb, porque \u00abcada cultura oferece formas e valores positivos que podem enriquecer o modo como o Evangelho \u00e9 pregado, compreendido e vivido\u00bb. Assim, \u00aba Igreja, assumindo os valores das diversas culturas, torna-se\u00a0<em>sponsa ornata monilibus suis<\/em>, a noiva que se adorna com suas j\u00f3ias (cf.\u00a0<em>Is<\/em> 61, 10)\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">117.\tSe for bem entendida, a diversidade cultural n\u00e3o amea\u00e7a a unidade da Igreja. \u00c9 o Esp\u00edrito Santo, enviado pelo Pai e o Filho, que transforma os nossos cora\u00e7\u00f5es e nos torna capazes de entrar na comunh\u00e3o perfeita da Sant\u00edssima Trindade, onde tudo encontra a sua unidade. O Esp\u00edrito Santo constr\u00f3i a comunh\u00e3o e a harmonia do povo de Deus. Ele mesmo \u00e9 a harmonia, tal como \u00e9 o v\u00ednculo de amor entre o Pai e o Filho. \u00c9 Ele que suscita uma abundante e diversificada riqueza de dons e, ao mesmo tempo, constr\u00f3i uma unidade que nunca \u00e9 uniformidade, mas multiforme harmonia que atrai. A evangeliza\u00e7\u00e3o reconhece com alegria estas m\u00faltiplas riquezas que o Esp\u00edrito gera na Igreja. N\u00e3o faria justi\u00e7a \u00e0 l\u00f3gica da encarna\u00e7\u00e3o pensar num cristianismo monocultural e monoc\u00f3rdico. \u00c9 verdade que algumas culturas estiveram intimamente ligadas \u00e0 prega\u00e7\u00e3o do Evangelho e ao desenvolvimento do pensamento crist\u00e3o, mas a mensagem revelada n\u00e3o se identifica com nenhuma delas e possui um conte\u00fado transcultural. Por isso, na evangeliza\u00e7\u00e3o de novas culturas ou de culturas que n\u00e3o acolheram a prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3, n\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel impor uma determinada forma cultural, por mais bela e antiga que seja, juntamente com a proposta do Evangelho. A mensagem, que anunciamos, sempre apresenta alguma roupagem cultural, mas \u00e0s vezes, na Igreja, ca\u00edmos na vaidosa sacraliza\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria cultura, o que pode mostrar mais fanatismo do que aut\u00eantico ardor evangelizador.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">118.\tOs Bispos da Oce\u00e2nia pediram que a Igreja neste continente \u00abdesenvolva uma compreens\u00e3o e exposi\u00e7\u00e3o da verdade de Cristo partindo das tradi\u00e7\u00f5es e culturas locais\u00bb, e instaram todos os mission\u00e1rios \u00aba trabalhar de harmonia com os crist\u00e3os ind\u00edgenas para garantir que a doutrina e a vida da Igreja sejam expressas em formas leg\u00edtimas e apropriadas a cada cultura\u00bb. N\u00e3o podemos pretender que todos os povos dos v\u00e1rios continentes, ao exprimir a f\u00e9 crist\u00e3, imitem as modalidades adoptadas pelos povos europeus num determinado momento da hist\u00f3ria, porque a f\u00e9 n\u00e3o se pode confinar dentro dos limites de compreens\u00e3o e express\u00e3o duma cultura. \u00c9 indiscut\u00edvel que uma \u00fanica cultura n\u00e3o esgota o mist\u00e9rio da reden\u00e7\u00e3o de Cristo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Todos somos disc\u00edpulos mission\u00e1rios<br \/>\n<\/em><br \/>\n119.\tEm todos os baptizados, desde o primeiro ao \u00faltimo, actua a for\u00e7a santificadora do Esp\u00edrito que impele a evangelizar. O povo de Deus \u00e9 santo em virtude desta un\u00e7\u00e3o, que o torna\u00a0<em>infal\u00edvel \u00abin credendo\u00bb<\/em>, ou seja, ao crer, n\u00e3o pode enganar-se, ainda que n\u00e3o encontre palavras para explicar a sua f\u00e9. O Esp\u00edrito guia-o na verdade e condu-lo \u00e0 salva\u00e7\u00e3o. Como parte do seu mist\u00e9rio de amor pela humanidade, Deus dota a totalidade dos fi\u00e9is com um\u00a0<em>instinto da f\u00e9<\/em> \u2013 o\u00a0<em>sensus fidei<\/em> \u2013 que os ajuda a discernir o que vem realmente de Deus. A presen\u00e7a do Esp\u00edrito confere aos crist\u00e3os uma certa conaturalidade com as realidades divinas e uma sabedoria que lhes permite capt\u00e1-las intuitivamente, embora n\u00e3o possuam os meios adequados para express\u00e1-las com precis\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">120.\tEm virtude do Baptismo recebido, cada membro do povo de Deus tornou-se disc\u00edpulo mission\u00e1rio (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 28, 19). Cada um dos baptizados, independentemente da pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o na Igreja e do grau de instru\u00e7\u00e3o da sua f\u00e9, \u00e9 um sujeito activo de evangeliza\u00e7\u00e3o, e seria inapropriado pensar num esquema de evangeliza\u00e7\u00e3o realizado por agentes qualificados enquanto o resto do povo fiel seria apenas receptor das suas ac\u00e7\u00f5es. A nova evangeliza\u00e7\u00e3o deve implicar um novo protagonismo de cada um dos baptizados. Esta convic\u00e7\u00e3o transforma-se num apelo dirigido a cada crist\u00e3o para que ningu\u00e9m renuncie ao seu compromisso de evangeliza\u00e7\u00e3o, porque, se uma pessoa experimentou verdadeiramente o amor de Deus que o salva, n\u00e3o precisa de muito tempo de prepara\u00e7\u00e3o para sair a anunci\u00e1-lo, n\u00e3o pode esperar que lhe d\u00eaem muitas li\u00e7\u00f5es ou longas instru\u00e7\u00f5es. Cada crist\u00e3o \u00e9 mission\u00e1rio na medida em que se encontrou com o amor de Deus em Cristo Jesus; n\u00e3o digamos mais que somos \u00abdisc\u00edpulos\u00bb e \u00abmission\u00e1rios\u00bb, mas sempre que somos \u00abdisc\u00edpulos mission\u00e1rios\u00bb. Se n\u00e3o estivermos convencidos disto, olhemos para os primeiros disc\u00edpulos, que logo depois de terem conhecido o olhar de Jesus, sa\u00edram proclamando cheios de alegria: \u00abEncontr\u00e1mos o Messias\u00bb (<em>Jo<\/em> 1, 41). A Samaritana, logo que terminou o seu di\u00e1logo com Jesus, tornou-se mission\u00e1ria, e muitos samaritanos acreditaram em Jesus \u00abdevido \u00e0s palavras da mulher\u00bb (<em>Jo<\/em> 4, 39). Tamb\u00e9m S\u00e3o Paulo, depois do seu encontro com Jesus Cristo, \u00abcome\u00e7ou imediatamente a proclamar (\u2026) que Jesus era o Filho de Deus\u00bb (<em>Act<\/em> 9, 20). Porque esperamos n\u00f3s?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">121.\tCertamente todos somos chamados a crescer como evangelizadores. Devemos procurar simultaneamente uma melhor forma\u00e7\u00e3o, um aprofundamento do nosso amor e um testemunho mais claro do Evangelho. Neste sentido, todos devemos deixar que os outros nos evangelizem constantemente; isto n\u00e3o significa que devemos renunciar \u00e0 miss\u00e3o evangelizadora, mas encontrar o modo de comunicar Jesus que corresponda \u00e0 situa\u00e7\u00e3o em que vivemos. Seja como for, todos somos chamados a dar aos outros o testemunho expl\u00edcito do amor salv\u00edfico do Senhor, que, sem olhar \u00e0s nossas imperfei\u00e7\u00f5es, nos oferece a sua proximidade, a sua Palavra, a sua for\u00e7a, e d\u00e1 sentido \u00e0 nossa vida. O teu cora\u00e7\u00e3o sabe que a vida n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa sem Ele; pois bem, aquilo que descobriste, o que te ajuda a viver e te d\u00e1 esperan\u00e7a, isso \u00e9 o que deves comunicar aos outros. A nossa imperfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve ser desculpa; pelo contr\u00e1rio, a miss\u00e3o \u00e9 um est\u00edmulo constante para n\u00e3o nos acomodarmos na mediocridade, mas continuarmos a crescer. O testemunho de f\u00e9, que todo o crist\u00e3o \u00e9 chamado a oferecer, implica dizer como S\u00e3o Paulo: \u00abN\u00e3o que j\u00e1 o tenha alcan\u00e7ado ou j\u00e1 seja perfeito; mas corro para ver se o alcan\u00e7o, (\u2026) lan\u00e7ando-me para o que vem \u00e0 frente\u00bb (<em>Fl<\/em> 3, 12-13).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A for\u00e7a evangelizadora da piedade popular<br \/>\n<\/em><br \/>\n122.\tDa mesma forma, podemos pensar que os diferentes povos, nos quais foi inculturado o Evangelho, s\u00e3o sujeitos colectivos activos, agentes da evangeliza\u00e7\u00e3o. Assim \u00e9, porque cada povo \u00e9 o criador da sua cultura e o protagonista da sua hist\u00f3ria. A cultura \u00e9 algo de din\u00e2mico, que um povo recria constantemente, e cada gera\u00e7\u00e3o transmite \u00e0 seguinte um conjunto de atitudes relativas \u00e0s diversas situa\u00e7\u00f5es existenciais, que esta nova gera\u00e7\u00e3o deve reelaborar face aos pr\u00f3prios desafios. O ser humano \u00ab\u00e9 simultaneamente filho e pai da cultura onde est\u00e1 inserido\u00bb. Quando o Evangelho se inculturou num povo, no seu processo de transmiss\u00e3o cultural tamb\u00e9m transmite a f\u00e9 de maneira sempre nova; da\u00ed a import\u00e2ncia da evangeliza\u00e7\u00e3o entendida como incultura\u00e7\u00e3o. Cada por\u00e7\u00e3o do povo de Deus, ao traduzir na vida o dom de Deus segundo a sua \u00edndole pr\u00f3pria, d\u00e1 testemunho da f\u00e9 recebida e enriquece-a com novas express\u00f5es que falam por si. Pode dizer-se que \u00abo povo se evangeliza continuamente a si mesmo\u00bb. Aqui ganha import\u00e2ncia a piedade popular, verdadeira express\u00e3o da actividade mission\u00e1ria espont\u00e2nea do povo de Deus. Trata-se de uma realidade em permanente desenvolvimento, cujo protagonista \u00e9 o Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">123.\tNa piedade popular, pode-se captar a modalidade em que a f\u00e9 recebida se encarnou numa cultura e continua a transmitir-se. Vista por vezes com desconfian\u00e7a, a piedade popular foi objecto de revaloriza\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas posteriores ao Conc\u00edlio. Quem deu um impulso decisivo nesta direc\u00e7\u00e3o, foi Paulo VI na sua Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<em>Evangelii Nuntiandi<\/em>. Nela explica que a piedade popular \u00abtraduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar\u00bb e \u00abtorna as pessoas capazes para terem rasgos de generosidade e predisp\u00f5e-nas para o sacrif\u00edcio at\u00e9 ao hero\u00edsmo, quando se trata de manifestar a f\u00e9\u00bb. J\u00e1 mais perto dos nossos dias, Bento XVI, na Am\u00e9rica Latina, assinalou que se trata de um \u00abprecioso tesouro da Igreja Cat\u00f3lica\u00bb e que nela \u00abaparece a alma dos povos latino-americanos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">124.\tNo\u00a0<em>Documento de Aparecida<\/em>, descrevem-se as riquezas que o Esp\u00edrito Santo explicita na piedade popular por sua iniciativa gratuita. Naquele amado Continente, onde uma multid\u00e3o imensa de crist\u00e3os exprime a sua f\u00e9 atrav\u00e9s da piedade popular, os Bispos chamam-na tamb\u00e9m \u00abespiritualidade popular\u00bb ou \u00abm\u00edstica popular\u00bb. Trata-se de uma verdadeira \u00abespiritualidade encarnada na cultura dos simples\u00bb. N\u00e3o \u00e9 vazia de conte\u00fados, mas descobre-os e exprime-os mais pela via simb\u00f3lica do que pelo uso da raz\u00e3o instrumental e, no acto de f\u00e9, acentua mais o\u00a0<em>credere in Deum<\/em> que o\u00a0<em>credere Deum<\/em>. \u00c9 \u00abuma maneira leg\u00edtima de viver a f\u00e9, um modo de se sentir parte da Igreja e uma forma de ser mission\u00e1rios\u00bb; comporta a gra\u00e7a da missionariedade, do sair de si e do peregrinar: \u00abO caminhar juntos para os santu\u00e1rios e o participar em outras manifesta\u00e7\u00f5es da piedade popular, levando tamb\u00e9m os filhos ou convidando a outras pessoas, \u00e9 em si mesmo um gesto evangelizador\u00bb. N\u00e3o coarctemos nem pretendamos controlar esta for\u00e7a mission\u00e1ria!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">125.\tPara compreender esta necessidade, \u00e9 preciso abord\u00e1-la com o olhar do Bom Pastor, que n\u00e3o procura julgar mas amar. S\u00f3 a partir da conaturalidade afectiva que d\u00e1 o amor \u00e9 que podemos apreciar a vida teologal presente na piedade dos povos crist\u00e3os, especialmente nos pobres. Penso na f\u00e9 firme das m\u00e3es ao p\u00e9 da cama do filho doente, que se agarram a um ter\u00e7o ainda que n\u00e3o saibam elencar os artigos do Credo; ou na carga imensa de esperan\u00e7a contida numa vela que se acende, numa casa humilde, para pedir ajuda a Maria, ou nos olhares de profundo amor a Cristo crucificado. Quem ama o povo fiel de Deus, n\u00e3o pode ver estas ac\u00e7\u00f5es unicamente como uma busca natural da divindade; s\u00e3o a manifesta\u00e7\u00e3o duma vida teologal animada pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, que foi derramado em nossos cora\u00e7\u00f5es (cf.\u00a0<em>Rm<\/em> 5, 5).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">126.\tNa piedade popular, por ser fruto do Evangelho inculturado, subjaz uma for\u00e7a activamente evangelizadora que n\u00e3o podemos subestimar: seria ignorar a obra do Esp\u00edrito Santo. Ao contr\u00e1rio, somos chamados a encoraj\u00e1-la e fortalec\u00ea-la para aprofundar o processo de incultura\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma realidade nunca acabada. As express\u00f5es da piedade popular t\u00eam muito que nos ensinar e, para quem as sabe ler, s\u00e3o um\u00a0<em>lugar teol\u00f3gico<\/em> a que devemos prestar aten\u00e7\u00e3o particularmente na hora de pensar a nova evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>De pessoa a pessoa<br \/>\n<\/em><br \/>\n127.\tHoje que a Igreja deseja viver uma profunda renova\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria, h\u00e1 uma forma de prega\u00e7\u00e3o que nos compete a todos como tarefa di\u00e1ria: \u00e9 cada um levar o Evangelho \u00e0s pessoas com quem se encontra, tanto aos mais \u00edntimos como aos desconhecidos. \u00c9 a prega\u00e7\u00e3o informal que se pode realizar durante uma conversa, e \u00e9 tamb\u00e9m a que realiza um mission\u00e1rio quando visita um lar. Ser disc\u00edpulo significa ter a disposi\u00e7\u00e3o permanente de levar aos outros o amor de Jesus; e isto sucede espontaneamente em qualquer lugar: na rua, na pra\u00e7a, no trabalho, num caminho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">128.\tNesta prega\u00e7\u00e3o, sempre respeitosa e am\u00e1vel, o primeiro momento \u00e9 um di\u00e1logo pessoal, no qual a outra pessoa se exprime e partilha as suas alegrias, as suas esperan\u00e7as, as preocupa\u00e7\u00f5es com os seus entes queridos e muitas coisas que enchem o cora\u00e7\u00e3o. S\u00f3 depois desta conversa \u00e9 que se pode apresentar-lhe a Palavra, seja pela leitura de algum vers\u00edculo ou de modo narrativo, mas sempre recordando o an\u00fancio fundamental: o amor pessoal de Deus que Se fez homem, entregou-Se a Si mesmo por n\u00f3s e, vivo, oferece a sua salva\u00e7\u00e3o e a sua amizade. \u00c9 o an\u00fancio que se partilha com uma atitude humilde e testemunhal de quem sempre sabe aprender, com a consci\u00eancia de que esta mensagem \u00e9 t\u00e3o rica e profunda que sempre nos ultrapassa. Umas vezes exprime-se de maneira mais directa, outras atrav\u00e9s dum testemunho pessoal, uma hist\u00f3ria, um gesto, ou outra forma que o pr\u00f3prio Esp\u00edrito Santo possa suscitar numa circunst\u00e2ncia concreta. Se parecer prudente e houver condi\u00e7\u00f5es, \u00e9 bom que este encontro fraterno e mission\u00e1rio conclua com uma breve ora\u00e7\u00e3o que se relacione com as preocupa\u00e7\u00f5es que a pessoa manifestou. Assim ela sentir\u00e1 mais claramente que foi ouvida e interpretada, que a sua situa\u00e7\u00e3o foi posta nas m\u00e3os de Deus, e reconhecer\u00e1 que a Palavra de Deus fala realmente \u00e0 sua pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">129.\tContudo n\u00e3o se deve pensar que o an\u00fancio evang\u00e9lico tenha de ser transmitido sempre com determinadas f\u00f3rmulas pr\u00e9-estabelecidas ou com palavras concretas que exprimam um conte\u00fado absolutamente invari\u00e1vel. Transmite-se com formas t\u00e3o diversas que seria imposs\u00edvel descrev\u00ea-las ou catalog\u00e1-las, e cujo sujeito colectivo \u00e9 o povo de Deus com seus gestos e sinais inumer\u00e1veis. Por conseguinte, se o Evangelho se encarnou numa cultura, j\u00e1 n\u00e3o se comunica apenas atrav\u00e9s do an\u00fancio de pessoa a pessoa. Isto deve fazer-nos pensar que, nos pa\u00edses onde o cristianismo \u00e9 minoria, para al\u00e9m de animar cada baptizado a anunciar o Evangelho, as Igrejas particulares h\u00e3o-de promover activamente formas, pelo menos incipientes, de incultura\u00e7\u00e3o. Enfim, o que se deve procurar \u00e9 que a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho, expressa com categorias pr\u00f3prias da cultura onde \u00e9 anunciado, provoque uma nova s\u00edntese com essa cultura. Embora estes processos sejam sempre lentos, \u00e0s vezes o medo paralisa-nos demasiado. Se deixamos que as d\u00favidas e os medos sufoquem toda a ousadia, \u00e9 poss\u00edvel que, em vez de sermos criativos, nos deixemos simplesmente ficar c\u00f3modos sem provocar qualquer avan\u00e7o e, neste caso, n\u00e3o seremos participantes dos processos hist\u00f3ricos com a nossa coopera\u00e7\u00e3o, mas simplesmente espectadores duma estagna\u00e7\u00e3o est\u00e9ril da Igreja.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Carismas ao servi\u00e7o da comunh\u00e3o evangelizadora<br \/>\n<\/em><br \/>\n130.\tO Esp\u00edrito Santo enriquece toda a Igreja evangelizadora tamb\u00e9m com diferentes carismas. S\u00e3o dons para renovar e edificar a Igreja. N\u00e3o se trata de um patrim\u00f3nio fechado, entregue a um grupo para que o guarde; mas s\u00e3o presentes do Esp\u00edrito integrados no corpo eclesial, atra\u00eddos para o centro que \u00e9 Cristo, donde s\u00e3o canalizados num impulso evangelizador. Um sinal claro da autenticidade dum carisma \u00e9 a sua eclesialidade, a sua capacidade de se integrar harmoniosamente na vida do povo santo de Deus para o bem de todos. Uma verdadeira novidade suscitada pelo Esp\u00edrito n\u00e3o precisa de fazer sombra sobre outras espiritualidades e dons para se afirmar a si mesma. Quanto mais um carisma dirigir o seu olhar para o cora\u00e7\u00e3o do Evangelho, tanto mais eclesial ser\u00e1 o seu exerc\u00edcio. \u00c9 na comunh\u00e3o, mesmo que seja fadigosa, que um carisma se revela aut\u00eantica e misteriosamente fecundo. Se vive este desafio, a Igreja pode ser um modelo para a paz no mundo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">131.\tAs diferen\u00e7as entre as pessoas e as comunidades por vezes s\u00e3o inc\u00f3modas, mas o Esp\u00edrito Santo, que suscita esta diversidade, de tudo pode tirar algo de bom e transform\u00e1-lo em dinamismo evangelizador que actua por atrac\u00e7\u00e3o. A diversidade deve ser sempre conciliada com a ajuda do Esp\u00edrito Santo; s\u00f3 Ele pode suscitar a diversidade, a pluralidade, a multiplicidade e, ao mesmo tempo, realizar a unidade. Ao inv\u00e9s, quando somos n\u00f3s que pretendemos a diversidade e nos fechamos em nossos particularismos, em nossos exclusivismos, provocamos a divis\u00e3o; e, por outro lado, quando somos n\u00f3s que queremos construir a unidade com os nossos planos humanos, acabamos por impor a uniformidade, a homologa\u00e7\u00e3o. Isto n\u00e3o ajuda a miss\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Cultura, pensamento e educa\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/em><br \/>\n132.\tO an\u00fancio \u00e0s culturas implica tamb\u00e9m um an\u00fancio \u00e0s culturas profissionais, cient\u00edficas e acad\u00e9micas. \u00c9 o encontro entre a f\u00e9, a raz\u00e3o e as ci\u00eancias, que visa desenvolver um novo discurso sobre a credibilidade, uma apolog\u00e9tica original que ajude a criar as predisposi\u00e7\u00f5es para que o Evangelho seja escutado por todos. Quando algumas categorias da raz\u00e3o e das ci\u00eancias s\u00e3o acolhidas no an\u00fancio da mensagem, tais categorias tornam-se instrumentos de evangeliza\u00e7\u00e3o; \u00e9 a \u00e1gua transformada em vinho. \u00c9 aquilo que, uma vez assumido, n\u00e3o s\u00f3 \u00e9 redimido, mas torna-se instrumento do Esp\u00edrito para iluminar e renovar o mundo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">133.\tUma vez que n\u00e3o basta a preocupa\u00e7\u00e3o do evangelizador por chegar a cada pessoa, mas o Evangelho tamb\u00e9m se anuncia \u00e0s culturas no seu conjunto, a teologia \u2013 e n\u00e3o s\u00f3 a teologia pastoral \u2013 em di\u00e1logo com outras ci\u00eancias e experi\u00eancias humanas tem grande import\u00e2ncia para pensar como fazer chegar a proposta do Evangelho \u00e0 variedade dos contextos culturais e dos destinat\u00e1rios. A Igreja, comprometida na evangeliza\u00e7\u00e3o, aprecia e encoraja o carisma dos te\u00f3logos e o seu esfor\u00e7o na investiga\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, que promove o di\u00e1logo com o mundo da cultura e da ci\u00eancia. Fa\u00e7o apelo aos te\u00f3logos para que cumpram este servi\u00e7o como parte da miss\u00e3o salv\u00edfica da Igreja. Mas, para isso, \u00e9 necess\u00e1rio que tenham a peito a finalidade evangelizadora da Igreja e da pr\u00f3pria teologia, e n\u00e3o se contentem com uma teologia de gabinete.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">134.\tAs universidades s\u00e3o um \u00e2mbito privilegiado para pensar e desenvolver este compromisso de evangeliza\u00e7\u00e3o de modo interdisciplinar e inclusivo. As escolas cat\u00f3licas, que sempre procuram conjugar a tarefa educacional com o an\u00fancio expl\u00edcito do Evangelho, constituem uma contribui\u00e7\u00e3o muito v\u00e1lida para a evangeliza\u00e7\u00e3o da cultura, mesmo em pa\u00edses e cidades onde uma situa\u00e7\u00e3o adversa nos incentiva a usar a nossa criatividade para se encontrar os caminhos adequados.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>2. A homilia<br \/>\n<\/strong><br \/>\n135.\tConsideremos agora a prega\u00e7\u00e3o dentro da Liturgia, que requer uma s\u00e9ria avalia\u00e7\u00e3o por parte dos Pastores. Deter-me-ei particularmente, e at\u00e9 com certa meticulosidade, na homilia e sua prepara\u00e7\u00e3o, porque s\u00e3o muitas as reclama\u00e7\u00f5es relacionadas com este minist\u00e9rio importante, e n\u00e3o podemos fechar os ouvidos. A homilia \u00e9 o ponto de compara\u00e7\u00e3o para avaliar a proximidade e a capacidade de encontro de um Pastor com o seu povo. De facto, sabemos que os fi\u00e9is lhe d\u00e3o muita import\u00e2ncia; e, muitas vezes, tanto eles como os pr\u00f3prios ministros ordenados sofrem: uns a ouvir e os outros a pregar. \u00c9 triste que assim seja. A homilia pode ser, realmente, uma experi\u00eancia intensa e feliz do Esp\u00edrito, um consolador encontro com a Palavra, uma fonte constante de renova\u00e7\u00e3o e crescimento.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">136.\tRenovemos a nossa confian\u00e7a na prega\u00e7\u00e3o, que se funda na convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 Deus que deseja alcan\u00e7ar os outros atrav\u00e9s do pregador e de que Ele mostra o seu poder atrav\u00e9s da palavra humana. S\u00e3o Paulo fala vigorosamente sobre a necessidade de pregar, porque o Senhor quis chegar aos outros por meio tamb\u00e9m da nossa palavra (cf.\u00a0<em>Rm<\/em> 10, 14-17). Com a palavra, Nosso Senhor conquistou o cora\u00e7\u00e3o da gente. De todas as partes, vinham para O ouvir (cf.\u00a0<em>Mc<\/em> 1, 45). Ficavam maravilhados, \u00abbebendo\u00bb os seus ensinamentos (cf.\u00a0<em>Mc<\/em> 6, 2). Sentiam que lhes falava como quem tem autoridade (cf.\u00a0<em>Mc<\/em> 1, 27). E os Ap\u00f3stolos, que Jesus estabelecera \u00abpara estarem com Ele e para os enviar a pregar\u00bb (<em>Mc<\/em> 3, 14), atra\u00edram para o seio da Igreja todos os povos com a palavra (cf.\u00a0<em>Mc<\/em> 16, 15.20).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O contexto lit\u00fargico<br \/>\n<\/em><br \/>\n137.\tAgora \u00e9 oportuno recordar que \u00aba proclama\u00e7\u00e3o lit\u00fargica da Palavra de Deus, principalmente no contexto da assembleia eucar\u00edstica, n\u00e3o \u00e9 tanto um momento de medita\u00e7\u00e3o e de catequese, como sobretudo o di\u00e1logo de Deus com o seu povo, no qual se proclamam as maravilhas da salva\u00e7\u00e3o e se prop\u00f5em continuamente as exig\u00eancias da Alian\u00e7a\u00bb. Reveste-se de um valor especial a homilia, derivado do seu contexto eucar\u00edstico, que supera toda a catequese por ser o momento mais alto do di\u00e1logo entre Deus e o seu povo, antes da comunh\u00e3o sacramental. A homilia \u00e9 um retomar este di\u00e1logo que j\u00e1 est\u00e1 estabelecido entre o Senhor e o seu povo. Aquele que prega deve conhecer o cora\u00e7\u00e3o da sua comunidade para identificar onde est\u00e1 vivo e ardente o desejo de Deus e tamb\u00e9m onde \u00e9 que este di\u00e1logo de amor foi sufocado ou n\u00e3o p\u00f4de dar fruto.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">138.\tA homilia n\u00e3o pode ser um espect\u00e1culo de divertimento, n\u00e3o corresponde \u00e0 l\u00f3gica dos recursos medi\u00e1ticos, mas deve dar fervor e significado \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o. \u00c9 um g\u00e9nero peculiar, j\u00e1 que se trata de uma prega\u00e7\u00e3o no quadro duma celebra\u00e7\u00e3o\u00a0<em>lit\u00fargica<\/em>; por conseguinte, deve ser breve e evitar que se pare\u00e7a com uma confer\u00eancia ou uma li\u00e7\u00e3o. O pregador pode at\u00e9 ser capaz de manter vivo o interesse das pessoas por uma hora, mas assim a sua palavra torna-se mais importante que a celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Se a homilia se prolonga demasiado, lesa duas caracter\u00edsticas da celebra\u00e7\u00e3o lit\u00fargica: a harmonia entre as suas partes e o seu ritmo. Quando a prega\u00e7\u00e3o se realiza no contexto da Liturgia, incorpora-se como parte da oferenda que se entrega ao Pai e como media\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a que Cristo derrama na celebra\u00e7\u00e3o. Este mesmo contexto exige que a prega\u00e7\u00e3o oriente a assembleia, e tamb\u00e9m o pregador, para uma comunh\u00e3o com Cristo na Eucaristia, que transforme a vida. Isto requer que a palavra do pregador n\u00e3o ocupe um lugar excessivo, para que o Senhor brilhe mais que o ministro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A conversa da m\u00e3e<br \/>\n<\/em><br \/>\n139.\tDissemos que o povo de Deus, pela ac\u00e7\u00e3o constante do Esp\u00edrito nele, se evangeliza continuamente a si mesmo. Que implica\u00e7\u00f5es tem esta convic\u00e7\u00e3o para o pregador? Lembra-nos que a Igreja \u00e9 m\u00e3e e prega ao povo como uma m\u00e3e fala ao seu filho, sabendo que o filho tem confian\u00e7a de que tudo o que se lhe ensina \u00e9 para seu bem, porque se sente amado. Al\u00e9m disso, a boa m\u00e3e sabe reconhecer tudo o que Deus semeou no seu filho, escuta as suas preocupa\u00e7\u00f5es e aprende com ele. O esp\u00edrito de amor que reina numa fam\u00edlia guia tanto a m\u00e3e como o filho nos seus di\u00e1logos, nos quais se ensina e aprende, se corrige e valoriza o que \u00e9 bom; assim deve acontecer tamb\u00e9m na homilia. O Esp\u00edrito que inspirou os Evangelhos e actua no povo de Deus, inspira tamb\u00e9m como se deve escutar a f\u00e9 do povo e como se deve pregar em cada Eucaristia. Portanto a prega\u00e7\u00e3o crist\u00e3 encontra, no cora\u00e7\u00e3o da cultura do povo, um manancial de \u00e1gua viva tanto para saber o que se deve dizer como para encontrar o modo mais apropriado para o dizer. Assim como todos gostamos que nos falem na nossa l\u00edngua materna, assim tamb\u00e9m, na f\u00e9, gostamos que nos falem em termos da \u00abcultura materna\u00bb, em termos do idioma materno (cf.\u00a0<em>2 Mac<\/em> 7, 21.27), e o cora\u00e7\u00e3o disp\u00f5e-se a ouvir melhor. Esta linguagem \u00e9 uma tonalidade que transmite coragem, inspira\u00e7\u00e3o, for\u00e7a, impulso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">140.\tEste \u00e2mbito materno-eclesial, onde se desenrola o di\u00e1logo do Senhor com o seu povo, deve ser encarecido e cultivado atrav\u00e9s da proximidade cordial do pregador, do tom caloroso da sua voz, da mansid\u00e3o do estilo das suas frases, da alegria dos seus gestos. Mesmo que \u00e0s vezes a homilia seja um pouco ma\u00e7ante, se houver este esp\u00edrito materno-eclesial, ser\u00e1 sempre fecunda, tal como os conselhos ma\u00e7antes duma m\u00e3e, com o passar do tempo, d\u00e3o fruto no cora\u00e7\u00e3o dos filhos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">141.\tFicamos admirados com os recursos empregues pelo Senhor para dialogar com o seu povo, revelar o seu mist\u00e9rio a todos, cativar a gente comum com ensinamentos t\u00e3o elevados e exigentes. Creio que o segredo de Jesus esteja escondido naquele seu olhar o povo mais al\u00e9m das suas fraquezas e quedas: \u00abN\u00e3o temais, pequenino rebanho, porque aprouve ao vosso Pai dar-vos o Reino\u00bb (<em>Lc<\/em> 12, 32); Jesus prega com este esp\u00edrito. Transbordando de alegria no Esp\u00edrito, bendiz o Pai por Lhe atrair os pequeninos: \u00abBendigo-Te, \u00f3 Pai, Senhor do C\u00e9u e da Terra, porque escondeste estas coisas aos s\u00e1bios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos\u00bb (<em>Lc<\/em> 10, 21). O Senhor compraz-Se verdadeiramente em dialogar com o seu povo, e compete ao pregador fazer sentir este gosto do Senhor ao seu povo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Palavras que abrasam os cora\u00e7\u00f5es<br \/>\n<\/em><br \/>\n142.\tUm di\u00e1logo \u00e9 muito mais do que a comunica\u00e7\u00e3o duma verdade. Realiza-se pelo prazer de falar e pelo bem concreto que se comunica atrav\u00e9s das palavras entre aqueles que se amam. \u00c9 um bem que n\u00e3o consiste em coisas, mas nas pr\u00f3prias pessoas que mutuamente se d\u00e3o no di\u00e1logo. A prega\u00e7\u00e3o puramente moralista ou doutrinadora e tamb\u00e9m a que se transforma numa li\u00e7\u00e3o de exegese reduzem esta comunica\u00e7\u00e3o entre os cora\u00e7\u00f5es que se verifica na homilia e que deve ter um car\u00e1cter quase sacramental: \u00abA f\u00e9 surge da prega\u00e7\u00e3o, e a prega\u00e7\u00e3o surge pela palavra de Cristo\u00bb (<em>Rm<\/em> 10, 17). Na homilia, a verdade anda de m\u00e3os dadas com a beleza e o bem. N\u00e3o se trata de verdades abstractas ou de silogismos frios, porque se comunica tamb\u00e9m a beleza das imagens que o Senhor utilizava para incentivar a pr\u00e1tica do bem. A mem\u00f3ria do povo fiel, como a de Maria, deve ficar transbordante das maravilhas de Deus. O seu cora\u00e7\u00e3o, esperan\u00e7ado na pr\u00e1tica alegre e poss\u00edvel do amor que lhe foi anunciado, sente que toda a palavra na Escritura, antes de ser exig\u00eancia, \u00e9 dom.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">143.\tO desafio duma prega\u00e7\u00e3o inculturada consiste em transmitir a s\u00edntese da mensagem evang\u00e9lica, e n\u00e3o ideias ou valores soltos. Onde est\u00e1 a tua s\u00edntese, ali est\u00e1 o teu cora\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a entre fazer luz com s\u00ednteses e o faz\u00ea-lo com ideias soltas \u00e9 a mesma que h\u00e1 entre o ardor do cora\u00e7\u00e3o e o t\u00e9dio. O pregador tem a bel\u00edssima e dif\u00edcil miss\u00e3o de unir os cora\u00e7\u00f5es que se amam: o do Senhor e os do seu povo. O di\u00e1logo entre Deus e o seu povo refor\u00e7a ainda mais a alian\u00e7a entre ambos e estreita o v\u00ednculo da caridade. Durante o tempo da homilia, os cora\u00e7\u00f5es dos crentes fazem sil\u00eancio e deixam-No falar a Ele. O Senhor e o seu povo falam-se de mil e uma maneiras directamente, sem intermedi\u00e1rios, mas, na homilia, querem que algu\u00e9m sirva de instrumento e exprima os sentimentos, de modo que, depois, cada um possa escolher como continuar a sua conversa. A palavra \u00e9, essencialmente, mediadora e necessita n\u00e3o s\u00f3 dos dois dialogantes mas tamb\u00e9m de um pregador que a represente como tal, convencido de que \u00abn\u00e3o nos pregamos a n\u00f3s mesmos, mas a Cristo Jesus, o Senhor, e nos consideramos vossos servos, por amor de Jesus\u00bb (<em>2 Cor<\/em> 4, 5).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">144.\tFalar com o cora\u00e7\u00e3o implica mant\u00ea-lo n\u00e3o s\u00f3 ardente, mas tamb\u00e9m iluminado pela integridade da Revela\u00e7\u00e3o e pelo caminho que essa Palavra percorreu no cora\u00e7\u00e3o da Igreja e do nosso povo fiel ao longo da sua hist\u00f3ria. A identidade crist\u00e3, que \u00e9 aquele abra\u00e7o baptismal que o Pai nos deu em pequeninos, faz-nos anelar, como filhos pr\u00f3digos \u2013 e predilectos em Maria \u2013, pelo outro abra\u00e7o, o do Pai misericordioso que nos espera na gl\u00f3ria. Fazer com que o nosso povo se sinta, de certo modo, no meio destes dois abra\u00e7os \u00e9 a tarefa dif\u00edcil, mas bela, de quem prega o Evangelho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>3. A prepara\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong><br \/>\n145.\tA prepara\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa t\u00e3o importante que conv\u00e9m dedicar-lhe um tempo longo de estudo, ora\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o e criatividade pastoral. Com muita amizade, quero deter-me a propor um itiner\u00e1rio de prepara\u00e7\u00e3o da homilia. Trata-se de indica\u00e7\u00f5es que, para alguns, poder\u00e3o parecer \u00f3bvias, mas considero oportuno sugeri-las para recordar a necessidade de dedicar um tempo privilegiado a este precioso minist\u00e9rio. Alguns p\u00e1rocos sustentam frequentemente que isto n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel por causa de tantas incumb\u00eancias que devem desempenhar; todavia atrevo-me a pedir que todas as semanas se dedique a esta tarefa um tempo pessoal e comunit\u00e1rio suficientemente longo, mesmo que se tenha de dar menos tempo a outras tarefas tamb\u00e9m importantes. A confian\u00e7a no Esp\u00edrito Santo que actua na prega\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 meramente passiva, mas activa e\u00a0<em>criativa<\/em>. Implica oferecer-se como instrumento (cf.\u00a0<em>Rm<\/em> 12, 1), com todas as pr\u00f3prias capacidades, para que possam ser utilizadas por Deus. Um pregador que n\u00e3o se prepara n\u00e3o \u00e9 \u00abespiritual\u00bb: \u00e9 desonesto e irrespons\u00e1vel quanto aos dons que recebeu.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O culto da verdade<br \/>\n<\/em><br \/>\n146.\tO primeiro passo, depois de invocar o Esp\u00edrito Santo, \u00e9 prestar toda a aten\u00e7\u00e3o ao texto b\u00edblico, que deve ser o fundamento da prega\u00e7\u00e3o. Quando algu\u00e9m se det\u00e9m procurando compreender qual \u00e9 a mensagem dum texto, exerce o \u00abculto da verdade\u00bb. \u00c9 a humildade do cora\u00e7\u00e3o que reconhece que a Palavra sempre nos transcende, que somos, \u00abn\u00e3o os \u00e1rbitros nem os propriet\u00e1rios, mas os deposit\u00e1rios, os arautos e os servidores\u00bb. Esta atitude de humilde e deslumbrada venera\u00e7\u00e3o da Palavra exprime-se detendo-se a estud\u00e1-la com o m\u00e1ximo cuidado e com um santo temor de a manipular. Para se poder interpretar um texto b\u00edblico, faz falta paci\u00eancia, p\u00f4r de parte toda a ansiedade e atribuir-lhe tempo, interesse e dedica\u00e7\u00e3o\u00a0<em>gratuita<\/em>. H\u00e1 que p\u00f4r de lado qualquer preocupa\u00e7\u00e3o que nos inquiete, para entrar noutro \u00e2mbito de serena aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o vale a pena dedicar-se a ler um texto b\u00edblico, se aquilo que se quer obter s\u00e3o resultados r\u00e1pidos, f\u00e1ceis ou imediatos. Por isso, a prepara\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o requer amor. Uma pessoa s\u00f3 dedica um tempo gratuito e sem pressa \u00e0s coisas ou \u00e0s pessoas que ama; e aqui trata-se de amar a Deus, que quis\u00a0<em>falar<\/em>. A partir deste amor, uma pessoa pode deter-se todo o tempo que for necess\u00e1rio, com a atitude dum disc\u00edpulo: \u00abFala, Senhor; o teu servo escuta\u00bb (<em>1 Sam<\/em> 3, 9).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">147.\tEm primeiro lugar, conv\u00e9m estarmos seguros de compreender adequadamente o significado das\u00a0<em>palavras<\/em> que lemos. Quero insistir em algo que parece evidente, mas que nem sempre \u00e9 tido em conta: o texto b\u00edblico, que estudamos, tem dois ou tr\u00eas mil anos, a sua linguagem \u00e9 muito diferente da que usamos agora. Por mais que nos pare\u00e7a termos entendido as palavras, que est\u00e3o traduzidas na nossa l\u00edngua, isso n\u00e3o significa que compreendemos correctamente tudo o que o escritor sagrado queria exprimir. S\u00e3o conhecidos os v\u00e1rios recursos que proporciona a an\u00e1lise liter\u00e1ria: prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras que se repetem ou evidenciam, reconhecer a estrutura e o dinamismo pr\u00f3prio dum texto, considerar o lugar que ocupam os personagens, etc. Mas o objectivo n\u00e3o \u00e9 o de compreender todos os pequenos detalhes dum texto; o mais importante \u00e9 descobrir qual \u00e9 a mensagem\u00a0<em>principal<\/em>, a mensagem que confere estrutura e unidade ao texto. Se o pregador n\u00e3o faz este esfor\u00e7o, \u00e9 poss\u00edvel que tamb\u00e9m a sua prega\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha unidade nem ordem; o seu discurso ser\u00e1 apenas uma s\u00famula de v\u00e1rias ideias desarticuladas que n\u00e3o conseguir\u00e3o mobilizar os outros. A mensagem central \u00e9 aquela que o autor quis primariamente transmitir, o que implica identificar n\u00e3o s\u00f3 uma ideia mas tamb\u00e9m o efeito que esse autor quis produzir. Se um texto foi escrito para consolar, n\u00e3o deveria ser utilizado para corrigir erros; se foi escrito para exortar, n\u00e3o deveria ser utilizado para instruir; se foi escrito para ensinar algo sobre Deus, n\u00e3o deveria ser utilizado para explicar v\u00e1rias opini\u00f5es teol\u00f3gicas; se foi escrito para levar ao louvor ou ao servi\u00e7o mission\u00e1rio, n\u00e3o o utilizemos para informar sobre as \u00faltimas not\u00edcias.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">148.\t\u00c9 verdade que, para se entender adequadamente o sentido da mensagem central dum texto, \u00e9 preciso coloc\u00e1-lo em liga\u00e7\u00e3o com o ensinamento da B\u00edblia inteira, transmitida pela Igreja. Este \u00e9 um princ\u00edpio importante da interpreta\u00e7\u00e3o b\u00edblica, que tem em conta que o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o inspirou s\u00f3 uma parte, mas a B\u00edblia inteira, e que, nalgumas quest\u00f5es, o povo cresceu na sua compreens\u00e3o da vontade de Deus a partir da experi\u00eancia vivida. Assim se evitam interpreta\u00e7\u00f5es equivocadas ou parciais, que contradizem outros ensinamentos da mesma Escritura. Mas isto n\u00e3o significa enfraquecer a acentua\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria e espec\u00edfica do texto que se deve pregar. Um dos defeitos duma prega\u00e7\u00e3o enfadonha e ineficaz \u00e9 precisamente n\u00e3o poder transmitir a for\u00e7a pr\u00f3pria do texto que foi proclamado.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A personaliza\u00e7\u00e3o da Palavra<br \/>\n<\/em><br \/>\n149.\tO pregador \u00abdeve ser o primeiro a desenvolver uma grande familiaridade pessoal com a Palavra de Deus: n\u00e3o lhe basta conhecer o aspecto lingu\u00edstico ou exeg\u00e9tico, sem d\u00favida necess\u00e1rio; precisa de se abeirar da Palavra com o cora\u00e7\u00e3o d\u00f3cil e orante, a fim de que ela penetre a fundo nos seus pensamentos e sentimentos e gere nele uma nova mentalidade\u00bb. Faz-nos bem renovar, cada dia, cada domingo, o nosso ardor na prepara\u00e7\u00e3o da homilia, e verificar se, em n\u00f3s mesmos, cresce o amor pela Palavra que pregamos. \u00c9 bom n\u00e3o esquecer que, \u00abparticularmente, a maior ou menor santidade do ministro influi sobre o an\u00fancio da Palavra\u00bb. Como diz S\u00e3o Paulo, \u00abfalamos, n\u00e3o para agradar aos homens, mas a Deus que p\u00f5e \u00e0 prova os nossos cora\u00e7\u00f5es\u00bb (<em>1 Ts<\/em> 2, 4). Se est\u00e1 vivo este desejo de, primeiro, ouvirmos n\u00f3s a Palavra que temos de pregar, esta transmitir-se-\u00e1 duma maneira ou doutra ao povo fiel de Deus: \u00abA boca fala da abund\u00e2ncia do cora\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>Mt<\/em> 12, 34). As leituras do domingo ressoar\u00e3o com todo o seu esplendor no cora\u00e7\u00e3o do povo, se primeiro ressoarem assim no cora\u00e7\u00e3o do Pastor.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">150.\tJesus irritava-Se com pretensiosos mestres, muito exigentes com os outros, que ensinavam a Palavra de Deus mas n\u00e3o se deixavam iluminar por ela: \u00abAtam fardos pesados e insuport\u00e1veis e colocam-nos aos ombros dos outros, mas eles n\u00e3o p\u00f5em nem um dedo para os deslocar\u00bb (<em>Mt<\/em> 23, 4). E o Ap\u00f3stolo S\u00e3o Tiago exortava: \u00abMeus irm\u00e3os, n\u00e3o haja muitos entre v\u00f3s que pretendam ser mestres, sabendo que n\u00f3s teremos um julgamento mais severo\u00bb (3, 1). Quem quiser pregar, deve primeiro estar disposto a deixar-se tocar pela Palavra e faz\u00ea-la carne na sua vida concreta. Assim, a prega\u00e7\u00e3o consistir\u00e1 na actividade t\u00e3o intensa e fecunda que \u00e9 \u00abcomunicar aos outros o que foi contemplado\u00bb. Por tudo isto, antes de preparar concretamente o que vai dizer na prega\u00e7\u00e3o, o pregador tem que aceitar ser primeiro trespassado por essa Palavra que h\u00e1-de trespassar os outros, porque \u00e9 uma Palavra\u00a0<em>viva e eficaz<\/em>, que, como uma espada, \u00abpenetra at\u00e9 \u00e0 divis\u00e3o da alma e do corpo, das articula\u00e7\u00f5es e das medulas, e discerne os sentimentos e inten\u00e7\u00f5es do cora\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>Heb<\/em> 4, 12). Isto tem um valor pastoral. Mesmo nesta \u00e9poca, a gente prefere escutar as testemunhas: \u00abTem sede de autenticidade (&#8230;), reclama evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conhe\u00e7am e lhes seja familiar como se eles vissem o invis\u00edvel\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">151.\tN\u00e3o nos \u00e9 pedido que sejamos imaculados, mas que n\u00e3o cessamos de melhorar, vivamos o desejo profundo de progredir no caminho do Evangelho, e n\u00e3o deixemos cair os bra\u00e7os. Indispens\u00e1vel \u00e9 que o pregador esteja seguro de que Deus o ama, de que Jesus Cristo o salvou, de que o seu amor tem sempre a \u00faltima palavra. \u00c0 vista de tanta beleza, sentir\u00e1 muitas vezes que a sua vida n\u00e3o lhe d\u00e1 plenamente gl\u00f3ria e desejar\u00e1 sinceramente corresponder melhor a um amor t\u00e3o grande. Todavia, se n\u00e3o se det\u00e9m com sincera abertura a escutar esta Palavra, se n\u00e3o deixa que a mesma toque a sua vida, que o interpele, exorte, mobilize, se n\u00e3o dedica tempo para rezar com esta Palavra, ent\u00e3o na realidade ser\u00e1 um falso profeta, um embusteiro ou um charlat\u00e3o vazio. Em todo o caso, desde que reconhe\u00e7a a sua pobreza e deseje comprometer-se mais, sempre poder\u00e1 dar Jesus Cristo, dizendo como Pedro: \u00abN\u00e3o tenho ouro nem prata, mas o que tenho, isto te dou\u00bb (<em>Act<\/em> 3, 6). O Senhor quer servir-Se de n\u00f3s como seres vivos, livres e criativos, que se deixam penetrar pela sua Palavra antes de a transmitir; a sua mensagem deve passar realmente atrav\u00e9s do pregador, e n\u00e3o s\u00f3 pela sua raz\u00e3o, mas tomando posse de todo o seu ser. O Esp\u00edrito Santo, que inspirou a Palavra, \u00e9 quem \u00abhoje ainda, como nos in\u00edcios da Igreja, age em cada um dos evangelizadores que se deixa possuir e conduzir por Ele, e p\u00f5e na sua boca as palavras que ele sozinho n\u00e3o poderia encontrar\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A leitura espiritual<br \/>\n<\/em><br \/>\n152.\tH\u00e1 uma modalidade concreta para escutarmos aquilo que o Senhor nos quer dizer na sua Palavra e nos deixarmos transformar pelo Esp\u00edrito: designamo-la por \u00ab<em>lectio divina<\/em>\u00bb. Consiste na leitura da Palavra de Deus num tempo de ora\u00e7\u00e3o, para lhe permitir que nos ilumine e renove. Esta leitura orante da B\u00edblia n\u00e3o est\u00e1 separada do estudo que o pregador realiza para individuar a mensagem central do texto; antes pelo contr\u00e1rio, \u00e9 dela que deve partir para procurar descobrir aquilo que\u00a0<em>essa mesma mensagem<\/em> tem a dizer \u00e0 sua pr\u00f3pria vida. A leitura espiritual dum texto deve partir do seu sentido literal. Caso contr\u00e1rio, uma pessoa facilmente far\u00e1 o texto dizer o que lhe conv\u00e9m, o que serve para confirmar as suas pr\u00f3prias decis\u00f5es, o que se adapta aos seus pr\u00f3prios esquemas mentais. E isto seria, em \u00faltima an\u00e1lise, usar o sagrado para proveito pr\u00f3prio e passar esta confus\u00e3o para o povo de Deus. Nunca devemos esquecer-nos de que, por vezes, \u00abtamb\u00e9m Satan\u00e1s se disfar\u00e7a em anjo de luz\u00bb (<em>2 Cor<\/em> 11, 14).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">153.\tNa presen\u00e7a de Deus, numa leitura tranquila do texto, \u00e9 bom perguntar-se, por exemplo: \u00abSenhor,\u00a0<em>a mim<\/em> que me diz este texto? Com esta mensagem, que quereis mudar na minha vida? Que \u00e9 que me d\u00e1 fast\u00eddio neste texto? Porque \u00e9 que isto n\u00e3o me interessa?\u00bb; ou ent\u00e3o: \u00abDe que gosto? Em que me estimula esta Palavra? Que me atrai? E porque me atrai?\u00bb. Quando se procura ouvir o Senhor, \u00e9 normal ter tenta\u00e7\u00f5es. Uma delas \u00e9 simplesmente sentir-se chateado e acabrunhado e dar tudo por encerrado; outra tenta\u00e7\u00e3o muito comum \u00e9 come\u00e7ar a pensar naquilo que o texto diz aos outros, para evitar de o aplicar \u00e0 pr\u00f3pria vida. Acontece tamb\u00e9m come\u00e7ar a procurar desculpas, que nos permitam diluir a mensagem espec\u00edfica do texto. Outras vezes pensamos que Deus nos exige uma decis\u00e3o demasiado grande, que ainda n\u00e3o estamos em condi\u00e7\u00f5es de tomar. Isto leva muitas pessoas a perderem a alegria do encontro com a Palavra, mas isso significaria esquecer que ningu\u00e9m \u00e9 mais paciente do que Deus Pai, ningu\u00e9m compreende e sabe esperar como Ele. Deus convida sempre a dar um passo mais, mas n\u00e3o exige uma resposta completa, se ainda n\u00e3o percorremos o caminho que a torna poss\u00edvel. Apenas quer que olhemos com sinceridade a nossa vida e a apresentemos sem fingimento diante dos seus olhos, que estejamos dispostos a continuar a crescer, e pe\u00e7amos a Ele o que ainda n\u00e3o podemos conseguir.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>\u00c0 escuta do povo<br \/>\n<\/em><br \/>\n154.\tO pregador deve tamb\u00e9m p\u00f4r-se \u00e0 escuta\u00a0<em>do povo<\/em>, para descobrir aquilo que os fi\u00e9is precisam de ouvir. Um pregador \u00e9 um contemplativo da Palavra e tamb\u00e9m um contemplativo do povo. Desta forma, descobre \u00abas aspira\u00e7\u00f5es, as riquezas e as limita\u00e7\u00f5es, as maneiras de orar, de amar, de encarar a vida e o mundo, que caracterizam este ou aquele aglomerado humano\u00bb, prestando aten\u00e7\u00e3o \u00abao povo\u00a0<em>concreto<\/em> com os seus sinais e s\u00edmbolos e respondendo aos problemas que apresenta\u00bb. Trata-se de relacionar a mensagem do texto b\u00edblico com uma situa\u00e7\u00e3o humana, com algo que as pessoas vivem, com uma experi\u00eancia que precisa da luz da Palavra. Esta preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 ditada por uma atitude oportunista ou diplom\u00e1tica, mas \u00e9 profundamente religiosa e pastoral. No fundo, \u00e9 uma \u00absensibilidade espiritual para saber ler nos acontecimentos a mensagem de Deus\u00bb, e isto \u00e9 muito mais do que encontrar algo interessante para dizer. Procura-se descobrir \u00ab<em>o que o Senhor tem a dizer<\/em> nessas circunst\u00e2ncias\u00bb. Ent\u00e3o a prepara\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o transforma-se num exerc\u00edcio de\u00a0<em>discernimento evang\u00e9lico<\/em>, no qual se procura reconhecer \u2013 \u00e0 luz do Esp\u00edrito \u2013 \u00abum \u201capelo\u201d que Deus faz ressoar na pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica: tamb\u00e9m nele e atrav\u00e9s dele, Deus chama o crente\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">155.\tNesta busca, \u00e9 poss\u00edvel recorrer apenas a alguma experi\u00eancia humana frequente, como, por exemplo, a alegria dum reencontro, as desilus\u00f5es, o medo da solid\u00e3o, a compaix\u00e3o pela dor alheia, a incerteza perante o futuro, a preocupa\u00e7\u00e3o com um ser querido, etc.; mas faz falta intensificar a sensibilidade para se reconhecer o que isso realmente tem a ver com a vida das pessoas. Recordemos que nunca se deve\u00a0<em>responder a perguntas que ningu\u00e9m se p\u00f5e<\/em>, nem conv\u00e9m fazer a cr\u00f3nica da actualidade para despertar interesse; para isso, j\u00e1 existem os programas televisivos. Em todo o caso, \u00e9 poss\u00edvel partir de algum facto para que a Palavra possa repercutir fortemente no seu apelo \u00e0 convers\u00e3o, \u00e0 adora\u00e7\u00e3o, a atitudes concretas de fraternidade e servi\u00e7o, etc., porque acontece, \u00e0s vezes, que algumas pessoas gostam de ouvir coment\u00e1rios sobre a realidade na prega\u00e7\u00e3o, mas nem por isso se deixam interpelar pessoalmente.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Recursos pedag\u00f3gicos<br \/>\n<\/em><br \/>\n156.\tAlguns acreditam que podem ser bons pregadores por saber o que devem dizer, mas descuidam o\u00a0<em>como<\/em>, a forma concreta de desenvolver uma prega\u00e7\u00e3o. Zangam-se quando os outros n\u00e3o os ouvem ou n\u00e3o os apreciam, mas talvez n\u00e3o se tenham empenhado por encontrar a forma adequada de apresentar a mensagem. Lembremo-nos de que \u00aba evidente import\u00e2ncia do conte\u00fado da evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o deve esconder a import\u00e2ncia dos m\u00e9todos e dos meios da mesma evangeliza\u00e7\u00e3o\u00bb. A preocupa\u00e7\u00e3o com a forma de pregar tamb\u00e9m \u00e9 uma atitude profundamente espiritual. \u00c9 responder ao amor de Deus, entregando-nos com todas as nossas capacidades e criatividade \u00e0 miss\u00e3o que Ele nos confia; mas tamb\u00e9m \u00e9 um ex\u00edmio exerc\u00edcio de amor ao pr\u00f3ximo, porque n\u00e3o queremos oferecer aos outros algo de m\u00e1 qualidade. Na B\u00edblia, por exemplo, aparece a recomenda\u00e7\u00e3o para se preparar a prega\u00e7\u00e3o de modo a garantir uma apropriada extens\u00e3o: \u00abS\u00ea conciso no teu falar: muitas coisas em poucas palavras\u00bb (<em>Sir<\/em> 32, 8).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">157.\tApenas, para exemplificar, recordemos alguns recursos pr\u00e1ticos que podem enriquecer uma prega\u00e7\u00e3o e torn\u00e1-la mais atraente. Um dos esfor\u00e7os mais necess\u00e1rios \u00e9 aprender a usar imagens na prega\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, a falar por imagens. \u00c0s vezes usam-se exemplos para tornar mais compreens\u00edvel algo que se quer explicar, mas estes exemplos frequentemente dirigem-se apenas ao entendimento, enquanto as imagens ajudam a apreciar e acolher a mensagem que se quer transmitir. Uma imagem fascinante faz com que se sinta a mensagem como algo familiar, pr\u00f3ximo, poss\u00edvel, relacionado com a pr\u00f3pria vida. Uma imagem apropriada pode levar a saborear a mensagem que se quer transmitir, desperta um desejo e motiva a vontade na direc\u00e7\u00e3o do Evangelho. Uma boa homilia, como me dizia um antigo professor, deve conter \u00abuma ideia, um sentimento, uma imagem\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">158.\tJ\u00e1 dizia Paulo VI que os fi\u00e9is \u00abesperam muito desta prega\u00e7\u00e3o e dela poder\u00e3o tirar fruto, contanto que ela seja simples, clara, directa, adaptada\u00bb. A simplicidade tem a ver com a linguagem utilizada. Deve ser linguagem que os destinat\u00e1rios compreendam, para n\u00e3o correr o risco de falar ao vento. Acontece frequentemente que os pregadores usam palavras que aprenderam nos seus estudos e em certos ambientes, mas que n\u00e3o fazem parte da linguagem comum das pessoas que os ouvem. H\u00e1 palavras pr\u00f3prias da teologia ou da catequese, cujo significado n\u00e3o \u00e9 compreens\u00edvel para a maioria dos crist\u00e3os. O maior risco dum pregador \u00e9 habituar-se \u00e0 sua pr\u00f3pria linguagem e pensar que todos os outros a usam e compreendem espontaneamente. Se se quer adaptar \u00e0 linguagem dos outros, para poder chegar at\u00e9 eles com a Palavra, deve-se escutar muito, \u00e9 preciso partilhar a vida das pessoas e prestar-lhes ben\u00e9vola aten\u00e7\u00e3o. A simplicidade e a clareza s\u00e3o duas coisas diferentes. A linguagem pode ser muito simples, mas pouco clara a prega\u00e7\u00e3o. Pode-se tornar incompreens\u00edvel pela desordem, pela sua falta de l\u00f3gica, ou porque trata v\u00e1rios temas ao mesmo tempo. Por isso, outro cuidado necess\u00e1rio \u00e9 procurar que a prega\u00e7\u00e3o tenha unidade tem\u00e1tica, uma ordem clara e liga\u00e7\u00e3o entre as frases, de modo que as pessoas possam facilmente seguir o pregador e captar a l\u00f3gica do que lhes diz.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">159.\tOutra caracter\u00edstica \u00e9 a linguagem positiva. N\u00e3o diz tanto o que n\u00e3o se deve fazer, como sobretudo prop\u00f5e o que podemos fazer melhor. E, se aponta algo negativo, sempre procura mostrar tamb\u00e9m um valor positivo que atraia, para n\u00e3o se ficar pela queixa, o lamento, a cr\u00edtica ou o remorso. Al\u00e9m disso, uma prega\u00e7\u00e3o positiva oferece sempre esperan\u00e7a, orienta para o futuro, n\u00e3o nos deixa prisioneiros da negatividade. Como \u00e9 bom que sacerdotes, di\u00e1conos e leigos se re\u00fanam periodicamente para encontrarem, juntos, os recursos que tornem mais atraente a prega\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>4. Uma evangeliza\u00e7\u00e3o para o aprofundamento do querigma<br \/>\n<\/strong><br \/>\n160.\tO mandato mission\u00e1rio do Senhor inclui o apelo ao crescimento da f\u00e9, quando diz: \u00ab<em>ensinando-os<\/em> a cumprir tudo quanto vos tenho mandado\u00bb (<em>Mt<\/em> 28, 20). Daqui se v\u00ea claramente que o primeiro an\u00fancio deve desencadear tamb\u00e9m um caminho de forma\u00e7\u00e3o e de amadurecimento. A evangeliza\u00e7\u00e3o procura tamb\u00e9m o crescimento, o que implica tomar muito a s\u00e9rio em cada pessoa o projecto que Deus tem para ela. Cada ser humano precisa sempre mais de Cristo, e a evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria deixar que algu\u00e9m se contente com pouco, mas possa dizer com plena verdade: \u00abJ\u00e1 n\u00e3o sou eu que vivo, mas \u00e9 Cristo que vive em mim\u00bb (<em>Gal<\/em> 2, 20).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">161.\tN\u00e3o seria correcto que este apelo ao crescimento fosse interpretado, exclusiva ou prioritariamente, como forma\u00e7\u00e3o doutrinal. Trata-se de \u00abcumprir\u00bb aquilo que o Senhor nos indicou como resposta ao seu amor, sobressaindo, junto com todas as virtudes, aquele mandamento novo que \u00e9 o primeiro, o maior, o que melhor nos identifica como disc\u00edpulos: \u00ab\u00c9 este o meu mandamento: que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei\u00bb (<em>Jo<\/em> 15, 12). \u00c9 evidente que, quando os autores do Novo Testamento querem reduzir a mensagem moral crist\u00e3 a uma \u00faltima s\u00edntese, ao mais essencial, apresentam-nos a exig\u00eancia irrenunci\u00e1vel do amor ao pr\u00f3ximo: \u00abQuem ama\u00a0<em>o pr\u00f3ximo<\/em> cumpre plenamente a lei. (\u2026) \u00c9 no amor que est\u00e1 o pleno cumprimento da lei\u00bb (<em>Rm<\/em> 13, 8.10). De igual modo, S\u00e3o Paulo, para quem o mandamento do amor n\u00e3o s\u00f3 resume a lei mas constitui o centro e a raz\u00e3o de ser da mesma: \u00abToda a lei se cumpre plenamente nesta\u00a0<em>\u00fanica<\/em> palavra: Ama\u00a0<em>o teu pr\u00f3ximo<\/em> como a ti mesmo\u00bb (<em>Gal<\/em> 5, 14). E, \u00e0s suas comunidades, apresenta a vida crist\u00e3 como um caminho de crescimento no amor: \u00abO Senhor vos fa\u00e7a crescer e superabundar de caridade uns para com os outros e para com todos\u00bb (<em>1 Ts<\/em> 3, 12). Tamb\u00e9m S\u00e3o Tiago exorta os crist\u00e3os a cumprir \u00aba lei\u00a0<em>do Reino<\/em>, de acordo com a Escritura: Amar\u00e1s\u00a0<em>o teu pr\u00f3ximo<\/em> como a ti mesmo\u00bb (2, 8), acabando por n\u00e3o citar nenhum preceito.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">162.\tEntretanto, este caminho de resposta e crescimento aparece sempre precedido pelo dom, porque o antecede aquele outro pedido do Senhor: \u00abbaptizando-os em nome&#8230;\u00bb (<em>Mt<\/em> 28, 19). A adop\u00e7\u00e3o como filhos que o Pai oferece gratuitamente e a iniciativa do dom da sua gra\u00e7a (cf.\u00a0<em>Ef<\/em> 2, 8-9;\u00a0<em>1 Cor<\/em> 4, 7) s\u00e3o a condi\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel esta santifica\u00e7\u00e3o constante, que agrada a Deus e Lhe d\u00e1 gl\u00f3ria. \u00c9 deixar-se transformar em Cristo, vivendo progressivamente \u00abde acordo com o Esp\u00edrito\u00bb (<em>Rm<\/em> 8, 5).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Uma catequese querigm\u00e1tica e mistag\u00f3gica<br \/>\n<\/em><br \/>\n163.\tA educa\u00e7\u00e3o e a catequese est\u00e3o ao servi\u00e7o deste crescimento. J\u00e1 temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o v\u00e1rios textos do Magist\u00e9rio e subs\u00eddios sobre a catequese, preparados pela Santa S\u00e9 e por diversos episcopados. Lembro a Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica\u00a0<em>Catechesi tradendae<\/em> (1979), o\u00a0<em>Direct\u00f3rio Geral para a Catequese<\/em> (1997) e outros documentos cujo conte\u00fado, sempre actual, n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio repetir aqui. Queria deter-me apenas nalgumas considera\u00e7\u00f5es que me parece oportuno evidenciar.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">164.\tVolt\u00e1mos a descobrir que tamb\u00e9m na catequese tem um papel fundamental o primeiro an\u00fancio ou\u00a0<em>querigma<\/em>, que deve ocupar o centro da actividade evangelizadora e de toda a tentativa de renova\u00e7\u00e3o eclesial. O\u00a0<em>querigma<\/em> \u00e9 trinit\u00e1rio. \u00c9 o fogo do Esp\u00edrito que se d\u00e1 sob a forma de l\u00ednguas e nos faz crer em Jesus Cristo, que, com a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, nos revela e comunica a miseric\u00f3rdia infinita do Pai. Na boca do catequista, volta a ressoar sempre o primeiro an\u00fancio: \u00abJesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar\u00bb. Ao designar-se como \u00abprimeiro\u00bb este an\u00fancio, n\u00e3o significa que o mesmo se situa no in\u00edcio e que, em seguida, se esquece ou substitui por outros conte\u00fados que o superam; \u00e9 o primeiro em sentido qualitativo, porque \u00e9 o an\u00fancio\u00a0<em>principal<\/em>, aquele que sempre se tem de voltar a ouvir de diferentes maneiras e aquele que sempre se tem de voltar a anunciar, duma forma ou doutra, durante a catequese, em todas as suas etapas e momentos. Por isso, tamb\u00e9m \u00abo sacerdote, como a Igreja, deve crescer na consci\u00eancia da sua permanente necessidade de ser evangelizado\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">165.\tN\u00e3o se deve pensar que, na catequese, o\u00a0<em>querigma<\/em> \u00e9 deixado de lado em favor duma forma\u00e7\u00e3o supostamente mais \u00abs\u00f3lida\u00bb. Nada h\u00e1 de mais s\u00f3lido, mais profundo, mais seguro, mais consistente e mais s\u00e1bio que esse an\u00fancio. Toda a forma\u00e7\u00e3o crist\u00e3 \u00e9, primariamente, o aprofundamento do\u00a0<em>querigma<\/em> que se vai, cada vez mais e melhor, fazendo carne, que nunca deixa de iluminar a tarefa catequ\u00e9tica, e permite compreender adequadamente o sentido de qualquer tema que se desenvolve na catequese. \u00c9 o an\u00fancio que d\u00e1 resposta ao anseio de infinito que existe em todo o cora\u00e7\u00e3o humano. A centralidade do\u00a0<em>querigma<\/em> requer certas caracter\u00edsticas do an\u00fancio que hoje s\u00e3o necess\u00e1rias em toda a parte: que exprima o amor salv\u00edfico de Deus como pr\u00e9vio \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o moral e religiosa, que n\u00e3o imponha a verdade mas fa\u00e7a apelo \u00e0 liberdade, que seja pautado pela alegria, o est\u00edmulo, a vitalidade e uma integralidade harmoniosa que n\u00e3o reduza a prega\u00e7\u00e3o a poucas doutrinas, por vezes mais filos\u00f3ficas que evang\u00e9licas. Isto exige do evangelizador certas atitudes que ajudam a acolher melhor o an\u00fancio: proximidade, abertura ao di\u00e1logo, paci\u00eancia, acolhimento cordial que n\u00e3o condena.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">166.\tOutra caracter\u00edstica da catequese, que se desenvolveu nas \u00faltimas d\u00e9cadas, \u00e9 a inicia\u00e7\u00e3o\u00a0<em>mistag\u00f3gica<\/em>, que significa essencialmente duas coisas: a necess\u00e1ria progressividade da experi\u00eancia formativa na qual interv\u00e9m toda a comunidade e uma renovada valoriza\u00e7\u00e3o dos sinais lit\u00fargicos da inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Muitos manuais e planifica\u00e7\u00f5es ainda n\u00e3o se deixaram interpelar pela necessidade duma renova\u00e7\u00e3o mistag\u00f3gica, que poderia assumir formas muito diferentes de acordo com o discernimento de cada comunidade educativa. O encontro catequ\u00e9tico \u00e9 um an\u00fancio da Palavra e est\u00e1 centrado nela, mas precisa sempre duma ambienta\u00e7\u00e3o adequada e duma motiva\u00e7\u00e3o atraente, do uso de s\u00edmbolos eloquentes, da sua inser\u00e7\u00e3o num amplo processo de crescimento e da integra\u00e7\u00e3o de todas as dimens\u00f5es da pessoa num caminho comunit\u00e1rio de escuta e resposta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">167.\t\u00c9 bom que toda a catequese preste uma especial aten\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00abvia da beleza (<em>via pulchritudinis<\/em>)\u00bb. Anunciar Cristo significa mostrar que crer n\u2019Ele e segui-Lo n\u00e3o \u00e9 algo apenas verdadeiro e justo, mas tamb\u00e9m belo, capaz de cumular a vida dum novo esplendor e duma alegria profunda, mesmo no meio das prova\u00e7\u00f5es. Nesta perspectiva, todas as express\u00f5es de verdadeira beleza podem ser reconhecidas como uma senda que ajuda a encontrar-se com o Senhor Jesus. N\u00e3o se trata de fomentar um relativismo est\u00e9tico, que pode obscurecer o v\u00ednculo indivis\u00edvel entre verdade, bondade e beleza, mas de recuperar a estima da beleza para poder chegar ao cora\u00e7\u00e3o do homem e fazer resplandecer nele a verdade e a bondade do Ressuscitado. Se n\u00f3s, como diz Santo Agostinho, n\u00e3o amamos sen\u00e3o o que \u00e9 belo, o Filho feito homem, revela\u00e7\u00e3o da beleza infinita, \u00e9 sumamente am\u00e1vel e atrai-nos para Si com la\u00e7os de amor. Por isso, torna-se necess\u00e1rio que a forma\u00e7\u00e3o na\u00a0<em>via pulchritudinis<\/em> esteja inserida na transmiss\u00e3o da f\u00e9. \u00c9 desej\u00e1vel que cada Igreja particular incentive o uso das artes na sua obra evangelizadora, em continuidade com a riqueza do passado, mas tamb\u00e9m na vastid\u00e3o das suas m\u00faltiplas express\u00f5es actuais, a fim de transmitir a f\u00e9 numa nova \u00ablinguagem parab\u00f3lica\u00bb. \u00c9 preciso ter a coragem de encontrar os novos sinais, os novos s\u00edmbolos, uma nova carne para a transmiss\u00e3o da Palavra, as diversas formas de beleza que se manifestam em diferentes \u00e2mbitos culturais, incluindo aquelas modalidades n\u00e3o convencionais de beleza que podem ser pouco significativas para os evangelizadores, mas tornaram-se particularmente atraentes para os outros.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">168.\tRelativamente \u00e0 proposta moral da catequese, que convida a crescer na fidelidade ao estilo de vida do Evangelho, \u00e9 oportuno indicar sempre o bem desej\u00e1vel, a proposta de vida, de maturidade, de realiza\u00e7\u00e3o, de fecundidade, sob cuja luz se pode entender a nossa den\u00fancia dos males que a podem obscurecer. Mais do que como peritos em diagn\u00f3sticos apocal\u00edpticos ou ju\u00edzes sombrios que se comprazem em detectar qualquer perigo ou desvio, \u00e9 bom que nos possam ver como mensageiros alegres de propostas altas, guardi\u00f5es do bem e da beleza que resplandecem numa vida fiel ao Evangelho.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O acompanhamento pessoal dos processos de crescimento<br \/>\n<\/em><br \/>\n169.\tNuma civiliza\u00e7\u00e3o paradoxalmente ferida pelo anonimato e, simultaneamente, obcecada com os detalhes da vida alheia, descaradamente doente de morbosa curiosidade, a Igreja tem necessidade de um olhar solid\u00e1rio para contemplar, comover-se e parar diante do outro, tantas vezes quantas forem necess\u00e1rias. Neste mundo, os ministros ordenados e os outros agentes de pastoral podem tornar presente a fragr\u00e2ncia da presen\u00e7a solid\u00e1ria de Jesus e o seu olhar pessoal. A Igreja dever\u00e1 iniciar os seus membros \u2013 sacerdotes, religiosos e leigos \u2013 nesta \u00abarte do acompanhamento\u00bb, para que todos aprendam a descal\u00e7ar sempre as sand\u00e1lias diante da terra sagrada do outro (cf.\u00a0<em>Ex<\/em> 3, 5). Devemos dar ao nosso caminhar o ritmo salutar da proximidade, com um olhar respeitoso e cheio de compaix\u00e3o, mas que ao mesmo tempo cure, liberte e anime a amadurecer na vida crist\u00e3.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">170.\tEmbora possa soar \u00f3bvio, o acompanhamento espiritual deve conduzir cada vez mais para Deus, em quem podemos alcan\u00e7ar a verdadeira liberdade. Alguns cr\u00eaem-se livres quando caminham \u00e0 margem de Deus, sem se dar conta que ficam existencialmente \u00f3rf\u00e3os, desamparados, sem um lar para onde sempre possam voltar. Deixam de ser peregrinos para se transformarem em errantes, que giram indefinidamente ao redor de si mesmos, sem chegar a lado nenhum. O acompanhamento seria contraproducente, caso se tornasse uma esp\u00e9cie de terapia que incentive esta reclus\u00e3o das pessoas na sua iman\u00eancia e deixe de ser uma peregrina\u00e7\u00e3o com Cristo para o Pai.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">171.\tHoje mais do que nunca precisamos de homens e mulheres que conhe\u00e7am, a partir da sua experi\u00eancia de acompanhamento, o modo de proceder onde reine a prud\u00eancia, a capacidade de compreens\u00e3o, a arte de esperar, a docilidade ao Esp\u00edrito, para no meio de todos defender as ovelhas a n\u00f3s confiadas dos lobos que tentam desgarrar o rebanho. Precisamos de nos exercitar na arte de escutar, que \u00e9 mais do que ouvir. Escutar, na comunica\u00e7\u00e3o com o outro, \u00e9 a capacidade do cora\u00e7\u00e3o que torna poss\u00edvel a proximidade, sem a qual n\u00e3o existe um verdadeiro encontro espiritual. Escutar ajuda-nos a individuar o gesto e a palavra oportunos que nos desinstalam da c\u00f3moda condi\u00e7\u00e3o de espectadores. S\u00f3 a partir desta escuta respeitosa e compassiva \u00e9 que se pode encontrar os caminhos para um crescimento genu\u00edno, despertar o desejo do ideal crist\u00e3o, o anseio de corresponder plenamente ao amor de Deus e o anelo de desenvolver o melhor de quanto Deus semeou na nossa pr\u00f3pria vida. Mas sempre com a paci\u00eancia de quem est\u00e1 ciente daquilo que ensinava S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino: algu\u00e9m pode ter a gra\u00e7a e a caridade, mas n\u00e3o praticar bem nenhuma das virtudes \u00abpor causa de algumas inclina\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias\u00bb que persistem. Por outras palavras, as virtudes organizam-se sempre e necessariamente \u00ab<em>in habitu<\/em>\u00bb, embora os condicionamentos possam dificultar as\u00a0<em>opera\u00e7\u00f5es<\/em> desses h\u00e1bitos virtuosos. Por isso, faz falta \u00abuma pedagogia que introduza a pessoa passo a passo at\u00e9 chegar \u00e0 plena apropria\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio\u00bb. Para se chegar a um estado de maturidade, isto \u00e9, para que as pessoas sejam capazes de decis\u00f5es verdadeiramente livres e respons\u00e1veis, \u00e9 preciso dar tempo ao tempo, com uma paci\u00eancia imensa. Como dizia o Beato Pedro Fabro: \u00abO tempo \u00e9 o mensageiro de Deus\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">172.\tQuem acompanha sabe reconhecer que a situa\u00e7\u00e3o de cada pessoa diante de Deus e a sua vida em gra\u00e7a \u00e9 um mist\u00e9rio que ningu\u00e9m pode conhecer plenamente a partir do exterior. O Evangelho prop\u00f5e-nos que se corrija e ajude a crescer uma pessoa a partir do reconhecimento da maldade objectiva das suas ac\u00e7\u00f5es (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 18, 15), mas sem proferir ju\u00edzos sobre a sua responsabilidade e culpabilidade (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 7, 1;\u00a0<em>Lc<\/em> 6, 37). Seja como for, um v\u00e1lido acompanhante n\u00e3o transige com os fatalismos nem com a pusilanimidade. Sempre convida a querer curar-se, a pegar no catre (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 9, 6), a abra\u00e7ar a cruz, a deixar tudo e partir sem cessar para anunciar o Evangelho. A experi\u00eancia pessoal de nos deixarmos acompanhar e curar, conseguindo exprimir com plena sinceridade a nossa vida a quem nos acompanha, ensina-nos a ser pacientes e compreensivos com os outros e habilita-nos a encontrar as formas para despertar neles a confian\u00e7a, a abertura e a vontade de crescer.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">173.\tO acompanhamento espiritual aut\u00eantico come\u00e7a sempre e prossegue no \u00e2mbito do servi\u00e7o \u00e0 miss\u00e3o evangelizadora. A rela\u00e7\u00e3o de Paulo com Tim\u00f3teo e Tito \u00e9 exemplo deste acompanhamento e desta forma\u00e7\u00e3o durante a ac\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica. Ao mesmo tempo que lhes confia a miss\u00e3o de permanecer numa cidade concreta para \u00abacabar de organizar o que ainda falta\u00bb (<em>Tt<\/em> 1, 5; cf.\u00a0<em>1 Tm<\/em> 1, 3-5), d\u00e1-lhes os crit\u00e9rios para a vida pessoal e a actividade pastoral. Isto \u00e9 claramente distinto de todo o tipo de acompanhamento intimista, de auto-realiza\u00e7\u00e3o isolada. Os disc\u00edpulos mission\u00e1rios acompanham disc\u00edpulos mission\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Ao redor da Palavra de Deus<br \/>\n<\/em><br \/>\n174.\tN\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a homilia que se deve alimentar da Palavra de Deus. Toda a evangeliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 fundada sobre esta Palavra escutada, meditada, vivida, celebrada e testemunhada. A Sagrada Escritura \u00e9 fonte da evangeliza\u00e7\u00e3o. Por isso, \u00e9 preciso formar-se continuamente na escuta da Palavra. A Igreja n\u00e3o evangeliza, se n\u00e3o se deixa continuamente evangelizar. \u00c9 indispens\u00e1vel que a Palavra de Deus \u00abse torne cada vez mais o cora\u00e7\u00e3o de toda a actividade eclesial\u00bb. A Palavra de Deus ouvida e celebrada, sobretudo na Eucaristia, alimenta e refor\u00e7a interiormente os crist\u00e3os e torna-os capazes de um aut\u00eantico testemunho evang\u00e9lico na vida di\u00e1ria. Super\u00e1mos j\u00e1 a velha contraposi\u00e7\u00e3o entre Palavra e Sacramento: a Palavra proclamada, viva e eficaz, prepara a recep\u00e7\u00e3o do Sacramento e, no Sacramento, essa Palavra alcan\u00e7a a sua m\u00e1xima efic\u00e1cia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">175.\tO estudo da Sagrada Escritura deve ser uma porta aberta para todos os crentes. \u00c9 fundamental que a Palavra revelada fecunde radicalmente a catequese e todos os esfor\u00e7os para transmitir a f\u00e9. A evangeliza\u00e7\u00e3o requer a familiaridade com a Palavra de Deus, e isto exige que as dioceses, par\u00f3quias e todos os grupos cat\u00f3licos proponham um estudo s\u00e9rio e perseverante da B\u00edblia e promovam igualmente a sua leitura orante pessoal e comunit\u00e1ria. N\u00f3s n\u00e3o procuramos Deus tacteando, nem precisamos de esperar que Ele nos dirija a palavra, porque realmente \u00abDeus falou, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o grande desconhecido, mas mostrou-Se a Si mesmo\u00bb. Acolhamos o tesouro sublime da Palavra revelada!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo IV<br \/>\nA DIMENS\u00c3O SOCIAL DA EVANGELIZA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">176. Evangelizar \u00e9 tornar o Reino de Deus presente no mundo. \u00abNenhuma defini\u00e7\u00e3o parcial e fragmentada, por\u00e9m, chegar\u00e1 a dar raz\u00e3o da realidade rica, complexa e din\u00e2mica que \u00e9 a evangeliza\u00e7\u00e3o, a n\u00e3o ser com o risco de a empobrecer e at\u00e9 mesmo de a mutilar\u00bb. Desejo agora partilhar as minhas preocupa\u00e7\u00f5es relacionadas com a dimens\u00e3o social da evangeliza\u00e7\u00e3o, precisamente porque, se esta dimens\u00e3o n\u00e3o for devidamente explicitada, corre-se sempre o risco de desfigurar o sentido aut\u00eantico e integral da miss\u00e3o evangelizadora.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. As repercuss\u00f5es comunit\u00e1rias e sociais do querigma<br \/>\n<\/strong><br \/>\n177.\tO\u00a0<em>querigma<\/em> possui um conte\u00fado inevitavelmente social: no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do Evangelho, aparece a vida comunit\u00e1ria e o compromisso com os outros. O conte\u00fado do primeiro an\u00fancio tem uma repercuss\u00e3o moral imediata, cujo centro \u00e9 a caridade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Confiss\u00e3o da f\u00e9 e compromisso social<br \/>\n<\/em><br \/>\n178.\tConfessar um Pai que ama infinitamente cada ser humano implica descobrir que \u00abassim lhe confere uma dignidade infinita\u00bb. Confessar que o Filho de Deus assumiu a nossa carne humana significa que cada pessoa humana foi elevada at\u00e9 ao pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o de Deus. Confessar que Jesus deu o seu sangue por n\u00f3s impede-nos de ter qualquer d\u00favida acerca do amor sem limites que enobrece todo o ser humano. A sua reden\u00e7\u00e3o tem um sentido social, porque \u00abDeus, em Cristo, n\u00e3o redime somente a pessoa individual, mas tamb\u00e9m as rela\u00e7\u00f5es sociais entre os homens\u00bb. Confessar que o Esp\u00edrito Santo actua em todos implica reconhecer que Ele procura permear toda a situa\u00e7\u00e3o humana e todos os v\u00ednculos sociais: \u00abO Esp\u00edrito Santo possui uma inventiva infinita, pr\u00f3pria da mente divina, que sabe prover a desfazer os n\u00f3s das vicissitudes humanas mais complexas e impenetr\u00e1veis\u00bb. A evangeliza\u00e7\u00e3o procura colaborar tamb\u00e9m com esta ac\u00e7\u00e3o libertadora do Esp\u00edrito. O pr\u00f3prio mist\u00e9rio da Trindade nos recorda que somos criados \u00e0 imagem desta comunh\u00e3o divina, pelo que n\u00e3o podemos realizar-nos nem salvar-nos sozinhos. A partir do cora\u00e7\u00e3o do Evangelho, reconhecemos a conex\u00e3o \u00edntima que existe entre evangeliza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o humana, que se deve necessariamente exprimir e desenvolver em toda a ac\u00e7\u00e3o evangelizadora. A aceita\u00e7\u00e3o do primeiro an\u00fancio, que convida a deixar-se amar por Deus e a am\u00e1-Lo com o amor que Ele mesmo nos comunica, provoca na vida da pessoa e nas suas ac\u00e7\u00f5es uma primeira e fundamental reac\u00e7\u00e3o: desejar, procurar e ter a peito o bem dos outros.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">179.\tEste la\u00e7o indissol\u00favel entre a recep\u00e7\u00e3o do an\u00fancio salv\u00edfico e um efectivo amor fraterno exprime-se nalguns textos da Escritura, que conv\u00e9m considerar e meditar atentamente para tirar deles todas as consequ\u00eancias. \u00c9 uma mensagem a que frequentemente nos habituamos e repetimos quase mecanicamente, mas sem nos assegurarmos de que tenha real incid\u00eancia na nossa vida e nas nossas comunidades. Como \u00e9 perigoso e prejudicial este habituar-se que nos leva a perder a maravilha, a fascina\u00e7\u00e3o, o entusiasmo de viver o Evangelho da fraternidade e da justi\u00e7a! A Palavra de Deus ensina que, no irm\u00e3o, est\u00e1 o prolongamento permanente da Encarna\u00e7\u00e3o para cada um de n\u00f3s: \u00abSempre que fizestes isto a um destes meus irm\u00e3os mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes\u00bb (<em>Mt<\/em> 25, 40). O que fizermos aos outros, tem uma dimens\u00e3o transcendente: \u00abCom a medida com que medirdes, assim sereis medidos\u00bb (<em>Mt<\/em> 7, 2); e corresponde \u00e0 miseric\u00f3rdia divina para connosco: \u00abSede misericordiosos como o vosso Pai \u00e9 misericordioso. N\u00e3o julgueis e n\u00e3o sereis julgados; n\u00e3o condeneis, e n\u00e3o sereis condenados; perdoai, e sereis perdoados. Dai e ser-vos-\u00e1 dado (&#8230;). A medida que usardes com os outros ser\u00e1 usada convosco\u00bb (<em>Lc<\/em> 6, 36-38). Nestes textos, exprime-se a absoluta prioridade da \u00absa\u00edda de si pr\u00f3prio para o irm\u00e3o\u00bb, como um dos dois mandamentos principais que fundamentam toda a norma moral e como o sinal mais claro para discernir sobre o caminho de crescimento espiritual em resposta \u00e0 doa\u00e7\u00e3o absolutamente gratuita de Deus. Por isso mesmo, \u00abtamb\u00e9m o servi\u00e7o da caridade \u00e9 uma dimens\u00e3o constitutiva da miss\u00e3o da Igreja e express\u00e3o irrenunci\u00e1vel da sua pr\u00f3pria ess\u00eancia\u00bb. Assim como a Igreja \u00e9 mission\u00e1ria por natureza, tamb\u00e9m brota inevitavelmente dessa natureza a caridade efectiva para com o pr\u00f3ximo, a compaix\u00e3o que compreende, assiste e promove.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O Reino que nos chama<br \/>\n<\/em><br \/>\n180.\tAo lermos as Escrituras, fica bem claro que a proposta do Evangelho n\u00e3o consiste s\u00f3 numa rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus. E a nossa resposta de amor tamb\u00e9m n\u00e3o deveria ser entendida como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indiv\u00edduos necessitados, o que poderia constituir uma \u00abcaridade por receita\u00bb, uma s\u00e9rie de ac\u00e7\u00f5es destinadas apenas a tranquilizar a pr\u00f3pria consci\u00eancia. A proposta\u00a0<em>\u00e9 o Reino de Deus<\/em> (cf.\u00a0<em>Lc<\/em> 4, 43); trata-se de amar a Deus, que reina no mundo. Na medida em que Ele conseguir reinar entre n\u00f3s, a vida social ser\u00e1 um espa\u00e7o de fraternidade, de justi\u00e7a, de paz, de dignidade para todos. Por isso, tanto o an\u00fancio como a experi\u00eancia crist\u00e3 tendem a provocar consequ\u00eancias sociais. Procuremos o seu Reino: \u00abProcurai primeiro o Reino de Deus e a sua justi\u00e7a, e tudo o mais se vos dar\u00e1 por acr\u00e9scimo\u00bb (<em>Mt<\/em> 6, 33). O projecto de Jesus \u00e9 instaurar o Reino de seu Pai; por isso, pede aos seus disc\u00edpulos: \u00abProclamai que o Reino do C\u00e9u est\u00e1 perto\u00bb (<em>Mt<\/em> 10, 7).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">181.\tO Reino, que se antecipa e cresce entre n\u00f3s, abrange tudo, como nos recorda aquele princ\u00edpio de discernimento que Paulo VI propunha a prop\u00f3sito do verdadeiro desenvolvimento: \u00abTodos os homens e o homem todo\u00bb. Sabemos que \u00aba evangeliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria completa, se ela n\u00e3o tomasse em considera\u00e7\u00e3o a interpela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, dos homens\u00bb. \u00c9 o crit\u00e9rio da universalidade, pr\u00f3prio da din\u00e2mica do Evangelho, dado que o Pai quer que todos os homens se salvem; e o seu plano de salva\u00e7\u00e3o consiste em \u00absubmeter tudo a Cristo, reunindo n\u2019Ele o que h\u00e1 no c\u00e9u e na terra\u00bb (<em>Ef<\/em> 1, 10). O mandato \u00e9: \u00abIde pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda criatura\u00bb (<em>Mc<\/em> 16, 15), porque toda \u00aba cria\u00e7\u00e3o se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus\u00bb (<em>Rm<\/em> 8, 19). Toda a cria\u00e7\u00e3o significa tamb\u00e9m todos os aspectos da vida humana, de tal modo que \u00aba miss\u00e3o do an\u00fancio da Boa Nova de Jesus Cristo tem destina\u00e7\u00e3o universal. Seu mandato de caridade alcan\u00e7a todas as dimens\u00f5es da exist\u00eancia, todas as pessoas, todos os ambientes da conviv\u00eancia e todos os povos. Nada do humano pode lhe parecer estranho\u00bb. A verdadeira esperan\u00e7a crist\u00e3, que procura o Reino escatol\u00f3gico, gera sempre hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A doutrina da Igreja sobre as quest\u00f5es sociais<br \/>\n<\/em><br \/>\n182.\tOs ensinamentos da Igreja acerca de situa\u00e7\u00f5es contingentes est\u00e3o sujeitos a maiores ou novos desenvolvimentos e podem ser objecto de discuss\u00e3o, mas n\u00e3o podemos evitar de ser concretos \u2013 sem pretender entrar em detalhes \u2013 para que os grandes princ\u00edpios sociais n\u00e3o fiquem meras generalidades que n\u00e3o interpelam ningu\u00e9m. \u00c9 preciso tirar as suas consequ\u00eancias pr\u00e1ticas, para que \u00abpossam incidir com efic\u00e1cia tamb\u00e9m nas complexas situa\u00e7\u00f5es hodiernas\u00bb. Os Pastores, acolhendo as contribui\u00e7\u00f5es das diversas ci\u00eancias, t\u00eam o direito de exprimir opini\u00f5es sobre tudo aquilo que diz respeito \u00e0 vida das pessoas, dado que a tarefa da evangeliza\u00e7\u00e3o implica e exige uma promo\u00e7\u00e3o integral de cada ser humano. J\u00e1 n\u00e3o se pode afirmar que a religi\u00e3o deve limitar-se ao \u00e2mbito privado e serve apenas para preparar as almas para o c\u00e9u. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos tamb\u00e9m nesta terra, embora estejam chamados \u00e0 plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas \u00abpara nosso usufruto\u00bb (<em>1 Tm<\/em> 6, 17), para que\u00a0<em>todos<\/em> possam usufruir delas. Por isso, a convers\u00e3o crist\u00e3 exige rever \u00abespecialmente tudo o que diz respeito \u00e0 ordem social e consecu\u00e7\u00e3o do bem comum\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">183.\tPor conseguinte, ningu\u00e9m pode exigir-nos que releguemos a religi\u00e3o para a intimidade secreta das pessoas, sem qualquer influ\u00eancia na vida social e nacional, sem nos preocupar com a sa\u00fade das institui\u00e7\u00f5es da sociedade civil, sem nos pronunciar sobre os acontecimentos que interessam aos cidad\u00e3os. Quem ousaria encerrar num templo e silenciar a mensagem de S\u00e3o Francisco de Assis e da Beata Teresa de Calcut\u00e1? Eles n\u00e3o o poderiam aceitar. Uma f\u00e9 aut\u00eantica \u2013 que nunca \u00e9 c\u00f3moda nem individualista \u2013 comporta sempre um profundo desejo de mudar o mundo, transmitir valores, deixar a terra um pouco melhor depois da nossa passagem por ela. Amamos este magn\u00edfico planeta, onde Deus nos colocou, e amamos a humanidade que o habita, com todos os seus dramas e cansa\u00e7os, com os seus anseios e esperan\u00e7as, com os seus valores e fragilidades. A terra \u00e9 a nossa casa comum, e todos somos irm\u00e3os. Embora \u00aba justa ordem da sociedade e do Estado seja dever central da pol\u00edtica\u00bb, a Igreja \u00abn\u00e3o pode nem deve ficar \u00e0 margem na luta pela justi\u00e7a\u00bb. Todos os crist\u00e3os, incluindo os Pastores, s\u00e3o chamados a preocupar-se com a constru\u00e7\u00e3o dum mundo melhor. \u00c9 disto mesmo que se trata, pois o pensamento social da Igreja \u00e9 primariamente positivo e construtivo, orienta uma ac\u00e7\u00e3o transformadora e, neste sentido, n\u00e3o deixa de ser um sinal de esperan\u00e7a que brota do cora\u00e7\u00e3o amoroso de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo, \u00abune o pr\u00f3prio empenho ao esfor\u00e7o em campo social das demais Igrejas e Comunidades eclesiais, tanto na reflex\u00e3o doutrinal como na pr\u00e1tica\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">184.\tAqui n\u00e3o \u00e9 o momento para explanar todas as graves quest\u00f5es sociais que afectam o mundo actual, algumas das quais j\u00e1 comentei no terceiro cap\u00edtulo. Este n\u00e3o \u00e9 um documento social e, para nos ajudar a reflectir sobre estes v\u00e1rios temas, temos um instrumento muito apropriado no\u00a0<em>Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja<\/em>, cujo uso e estudo vivamente recomendo. Al\u00e9m disso, nem o Papa nem a Igreja possui o monop\u00f3lio da interpreta\u00e7\u00e3o da realidade social ou da apresenta\u00e7\u00e3o de solu\u00e7\u00f5es para os problemas contempor\u00e2neos. Posso repetir aqui o que indicava, com grande lucidez, Paulo VI: \u00abPerante situa\u00e7\u00f5es, assim t\u00e3o diversificadas, torna-se-nos dif\u00edcil tanto o pronunciar uma palavra \u00fanica, como o propor uma solu\u00e7\u00e3o que tenha um valor universal. Mas, isso n\u00e3o \u00e9 ambi\u00e7\u00e3o nossa, nem mesmo a nossa miss\u00e3o. \u00c9 \u00e0s comunidades crist\u00e3s que cabe analisarem, com objectividade, a situa\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do seu pa\u00eds\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">185.\tEm seguida, procurarei concentrar-me sobre duas grandes quest\u00f5es que me parecem fundamentais neste momento da hist\u00f3ria. Desenvolv\u00ea-las-ei com uma certa amplitude, porque considero que ir\u00e3o determinar o futuro da humanidade. A primeira \u00e9 a inclus\u00e3o social dos pobres; e a segunda, a quest\u00e3o da paz e do di\u00e1logo social.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>2. A inclus\u00e3o social dos pobres<br \/>\n<\/strong><br \/>\n186.\tDeriva da nossa f\u00e9 em Cristo, que Se fez pobre e sempre Se aproximou dos pobres e marginalizados, a preocupa\u00e7\u00e3o pelo desenvolvimento integral dos mais abandonados da sociedade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Unidos a Deus, ouvimos um clamor<br \/>\n<\/em><br \/>\n187.\tCada crist\u00e3o e cada comunidade s\u00e3o chamados a ser instrumentos de Deus ao servi\u00e7o da liberta\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o dos pobres, para que possam integrar-se plenamente na sociedade; isto sup\u00f5e estar docilmente atentos, para ouvir o clamor do pobre e socorr\u00ea-lo. Basta percorrer as Escrituras, para descobrir como o Pai bom quer ouvir o clamor dos pobres: \u00abEu bem vi a opress\u00e3o do meu povo que est\u00e1 no Egipto, e ouvi o seu clamor diante dos seus inspectores; conhe\u00e7o, na verdade, os seus sofrimentos. Desci a fim de os libertar (&#8230;). E agora, vai; Eu te envio&#8230;\u00bb (<em>Ex<\/em> 3, 7-8.10). E Ele mostra-Se sol\u00edcito com as suas necessidades: \u00abOs filhos de Israel clamaram, ent\u00e3o, ao Senhor, e o Senhor enviou-lhes um salvador\u00bb (<em>Jz<\/em> 3, 15). Ficar surdo a este clamor, quando somos os instrumentos de Deus para ouvir o pobre, coloca-nos fora da vontade do Pai e do seu projecto, porque esse pobre \u00abclamaria ao Senhor contra ti, e aquilo tornar-se-ia para ti um pecado\u00bb (<em>Dt<\/em> 15, 9). E a falta de solidariedade, nas suas necessidades, influi directamente sobre a nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus: \u00abSe te amaldi\u00e7oa na amargura da sua alma, Aquele que o criou ouvir\u00e1 a sua ora\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>Sir<\/em> 4, 6). Sempre retorna a antiga pergunta: \u00abSe algu\u00e9m possuir bens deste mundo e, vendo o seu irm\u00e3o com necessidade, lhe fechar o seu cora\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que o amor de Deus pode permanecer nele?\u00bb (<em>1 Jo<\/em> 3, 17). Lembremos tamb\u00e9m com quanta convic\u00e7\u00e3o o Ap\u00f3stolo S\u00e3o Tiago retomava a imagem do clamor dos oprimidos: \u00abOlhai que o sal\u00e1rio que n\u00e3o pagastes, aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos, est\u00e1 a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo\u00bb (5, 4).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">188.\tA Igreja reconheceu que a exig\u00eancia de ouvir este clamor deriva da pr\u00f3pria obra libertadora da gra\u00e7a em cada um de n\u00f3s, pelo que n\u00e3o se trata de uma miss\u00e3o reservada apenas a alguns: \u00abA Igreja, guiada pelo Evangelho da Miseric\u00f3rdia e pelo amor ao homem,\u00a0<em>escuta o clamor pela justi\u00e7a<\/em> e deseja responder com todas as suas for\u00e7as\u00bb. Nesta linha, se pode entender o pedido de Jesus aos seus disc\u00edpulos: \u00abDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u00bb (<em>Mc<\/em> 6, 37), que envolve tanto a coopera\u00e7\u00e3o para resolver as causas estruturais da pobreza e promover o desenvolvimento integral dos pobres, como os gestos mais simples e di\u00e1rios de solidariedade para com as mis\u00e9rias muito concretas que encontramos. Embora um pouco desgastada e, por vezes, at\u00e9 mal interpretada, a palavra \u00absolidariedade\u00bb significa muito mais do que alguns actos espor\u00e1dicos de generosidade; sup\u00f5e a cria\u00e7\u00e3o duma nova mentalidade que pense em termos de comunidade, de prioridade da vida de todos sobre a apropria\u00e7\u00e3o dos bens por parte de alguns.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">189.\tA solidariedade \u00e9 uma reac\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de quem reconhece a fun\u00e7\u00e3o social da propriedade e o destino universal dos bens como realidades anteriores \u00e0 propriedade privada. A posse privada dos bens justifica-se para cuidar deles e aument\u00e1-los de modo a servirem melhor o bem comum, pelo que a solidariedade deve ser vivida como a decis\u00e3o de devolver ao pobre o que lhe corresponde. Estas convic\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de solidariedade, quando se fazem carne, abrem caminho a outras transforma\u00e7\u00f5es estruturais e tornam-nas poss\u00edveis. Uma mudan\u00e7a nas estruturas, sem se gerar novas convic\u00e7\u00f5es e atitudes, far\u00e1 com que essas mesmas estruturas, mais cedo ou mais tarde, se tornem corruptas, pesadas e ineficazes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">190.\t\u00c0s vezes trata-se de ouvir o clamor de povos inteiros, dos povos mais pobres da terra, porque \u00aba paz funda-se n\u00e3o s\u00f3 no respeito pelos direitos do homem, mas tamb\u00e9m no respeito pelo direito dos povos\u00bb. Lamentavelmente, at\u00e9 os direitos humanos podem ser usados como justifica\u00e7\u00e3o para uma defesa exacerbada dos direitos individuais ou dos direitos dos povos mais ricos. Respeitando a independ\u00eancia e a cultura de cada na\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso recordar-se sempre de que o planeta \u00e9 de toda a humanidade e para toda a humanidade, e que o simples facto de ter nascido num lugar com menores recursos ou menor desenvolvimento n\u00e3o justifica que algumas pessoas vivam menos dignamente. \u00c9 preciso repetir que \u00abos mais favorecidos devem renunciar a alguns dos seus direitos, para poderem colocar, com mais liberalidade, os seus bens ao servi\u00e7o dos outros\u00bb. Para falarmos adequadamente dos nossos direitos, \u00e9 preciso alongar mais o olhar e abrir os ouvidos ao clamor dos outros povos ou de outras regi\u00f5es do pr\u00f3prio pa\u00eds. Precisamos de crescer numa solidariedade que \u00abpermita a todos os povos tornarem-se art\u00edfices do seu destino\u00bb, tal como \u00abcada homem \u00e9 chamado a desenvolver-se\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">191.\tAnimados pelos seus Pastores, os crist\u00e3os s\u00e3o chamados, em todo o lugar e circunst\u00e2ncia, a ouvir o clamor dos pobres, como bem se expressaram os Bispos do Brasil: \u00abDesejamos assumir, a cada dia, as alegrias e esperan\u00e7as, as ang\u00fastias e tristezas do povo brasileiro, especialmente das popula\u00e7\u00f5es das periferias urbanas e das zonas rurais \u2013 sem terra, sem teto, sem p\u00e3o, sem sa\u00fade \u2013 lesadas em seus direitos. Vendo a sua mis\u00e9ria, ouvindo os seus clamores e conhecendo o seu sofrimento, escandaliza-nos o fato de saber que existe alimento suficiente para todos e que a fome se deve \u00e0 m\u00e1 reparti\u00e7\u00e3o dos bens e da renda. O problema se agrava com a pr\u00e1tica generalizada do desperd\u00edcio\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">192.\tMas queremos ainda mais, o nosso sonho voa mais alto. N\u00e3o se fala apenas de garantir a comida ou um decoroso \u00absustento\u00bb para todos, mas \u00abprosperidade e civiliza\u00e7\u00e3o\u00a0<em>em seus m\u00faltiplos aspectos<\/em>\u00bb. Isto engloba educa\u00e7\u00e3o, acesso aos cuidados de sa\u00fade e especialmente trabalho, porque, no trabalho livre, criativo, participativo e solid\u00e1rio, o ser humano exprime e engrandece a dignidade da sua vida. O sal\u00e1rio justo permite o acesso adequado aos outros bens que est\u00e3o destinados ao uso comum.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Fidelidade ao Evangelho, para n\u00e3o correr em v\u00e3o<br \/>\n<\/em><br \/>\n193.\tEste imperativo de ouvir o clamor dos pobres faz-se carne em n\u00f3s, quando no mais \u00edntimo de n\u00f3s mesmos nos comovemos \u00e0 vista do sofrimento alheio. Voltemos a ler alguns ensinamentos da Palavra de Deus sobre a miseric\u00f3rdia, para que ressoem vigorosamente na vida da Igreja. O Evangelho proclama: \u00abFelizes os misericordiosos, porque alcan\u00e7ar\u00e3o miseric\u00f3rdia\u00bb (<em>Mt<\/em> 5, 7). O Ap\u00f3stolo S\u00e3o Tiago ensina que a miseric\u00f3rdia para com os outros permite-nos sair triunfantes no ju\u00edzo divino: \u00abFalai e procedei como pessoas que h\u00e3o-de ser julgadas segundo a lei da liberdade. Porque, quem n\u00e3o pratica a miseric\u00f3rdia, ser\u00e1 julgado sem miseric\u00f3rdia. Mas a miseric\u00f3rdia n\u00e3o teme o julgamento\u00bb (2, 12-13). Neste texto, S\u00e3o Tiago aparece-nos como herdeiro do que tinha de mais rico a espiritualidade judaica do p\u00f3s-ex\u00edlio, a qual atribu\u00eda um especial valor salv\u00edfico \u00e0 miseric\u00f3rdia: \u00abRedime o teu pecado pela justi\u00e7a, e as tuas iniquidades, pela piedade para com os infelizes; talvez isto consiga prolongar a tua prosperidade\u00bb (<em>Dn<\/em> 4, 24). Nesta mesma perspectiva, a literatura sapiencial fala da esmola como exerc\u00edcio concreto da miseric\u00f3rdia para com os necessitados: \u00abA esmola livra da morte e limpa de todo o pecado\u00bb (<em>Tb<\/em> 12, 9). E de forma ainda mais sens\u00edvel se exprime Ben-Sir\u00e1: \u00abA \u00e1gua apaga o fogo ardente, e a esmola expia o pecado\u00bb (3, 30). Encontramos a mesma s\u00edntese no Novo Testamento: \u00abMantende entre v\u00f3s uma intensa caridade, porque o amor cobre a multid\u00e3o dos pecados\u00bb (<em>1 Pd<\/em> 4, 8). Esta verdade permeou profundamente a mentalidade dos Padres da Igreja, tendo exercido uma resist\u00eancia prof\u00e9tica como alternativa cultural face ao individualismo hedonista pag\u00e3o. Recordemos apenas um exemplo: \u00abTal como, em perigo de inc\u00eandio, correr\u00edamos a buscar \u00e1gua para o apagar (&#8230;), o mesmo dever\u00edamos fazer quando nos turvamos porque, da nossa palha, irrompeu a chama do pecado; assim, quando se nos proporciona a ocasi\u00e3o de uma obra cheia de miseric\u00f3rdia, alegremo-nos por ela como se fosse uma fonte que nos \u00e9 oferecida e na qual podemos extinguir o inc\u00eandio\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">194.\t\u00c9 uma mensagem t\u00e3o clara, t\u00e3o directa, t\u00e3o simples e eloquente que nenhuma hermen\u00eautica eclesial tem o direito de relativizar. A reflex\u00e3o da Igreja sobre estes textos n\u00e3o deveria ofuscar nem enfraquecer o seu sentido exortativo, mas antes ajudar a assumi-los com coragem e ardor. Para qu\u00ea complicar o que \u00e9 t\u00e3o simples? As elabora\u00e7\u00f5es conceptuais h\u00e3o-de favorecer o contacto com a realidade que pretendem explicar, e n\u00e3o afastar-nos dela. Isto vale sobretudo para as exorta\u00e7\u00f5es b\u00edblicas que convidam, com tanta determina\u00e7\u00e3o, ao amor fraterno, ao servi\u00e7o humilde e generoso, \u00e0 justi\u00e7a, \u00e0 miseric\u00f3rdia para com o pobre. Jesus ensinou-nos este caminho de reconhecimento do outro, com as suas palavras e com os seus gestos. Para qu\u00ea ofuscar o que \u00e9 t\u00e3o claro? N\u00e3o nos preocupemos s\u00f3 com n\u00e3o cair em erros doutrinais, mas tamb\u00e9m com ser fi\u00e9is a este caminho luminoso de vida e sabedoria. Porque \u00ab\u00e9 frequente dirigir aos defensores da \u201cortodoxia\u201d a acusa\u00e7\u00e3o de passividade, de indulg\u00eancia ou de cumplicidade culp\u00e1veis frente a situa\u00e7\u00f5es intoler\u00e1veis de injusti\u00e7a e de regimes pol\u00edticos que mant\u00eam estas situa\u00e7\u00f5es\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">195.\tQuando S\u00e3o Paulo foi ter com os Ap\u00f3stolos a Jerusal\u00e9m para discernir \u00abse estava a correr ou tinha corrido em v\u00e3o\u00bb (<em>Gal<\/em> 2, 2), o crit\u00e9rio-chave de autenticidade que lhe indicaram foi que n\u00e3o se esquecesse dos pobres (cf.\u00a0<em>Gal<\/em> 2, 10). Este crit\u00e9rio importante para que as comunidades paulinas n\u00e3o se deixassem arrastar pelo estilo de vida individualista dos pag\u00e3os, tem uma grande actualidade no contexto actual em que tende a desenvolver-se um novo paganismo individualista. A pr\u00f3pria beleza do Evangelho nem sempre a conseguimos manifestar adequadamente, mas h\u00e1 um sinal que nunca deve faltar: a op\u00e7\u00e3o pelos \u00faltimos, por aqueles que a sociedade descarta e lan\u00e7a fora.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">196.\t\u00c0s vezes somos duros de cora\u00e7\u00e3o e de mente, esquecemo-nos, entretemo-nos, extasiamo-nos com as imensas possibilidades de consumo e de distrac\u00e7\u00e3o que esta sociedade oferece. Gera-se assim uma esp\u00e9cie de aliena\u00e7\u00e3o que nos afecta a todos, pois \u00abalienada \u00e9 a sociedade que, nas suas formas de organiza\u00e7\u00e3o social, de produ\u00e7\u00e3o e de consumo, torna mais dif\u00edcil a realiza\u00e7\u00e3o deste dom e a constitui\u00e7\u00e3o dessa solidariedade inter-humana\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus<br \/>\n<\/em><br \/>\n197.\tNo cora\u00e7\u00e3o de Deus, ocupam lugar preferencial os pobres, tanto que at\u00e9 Ele mesmo \u00abSe fez pobre\u00bb (<em>2 Cor <\/em>8, 9). Todo o caminho da nossa reden\u00e7\u00e3o est\u00e1 assinalado pelos pobres. Esta salva\u00e7\u00e3o veio a n\u00f3s, atrav\u00e9s do \u00absim\u00bb duma jovem humilde, duma pequena povoa\u00e7\u00e3o perdida na periferia dum grande imp\u00e9rio. O Salvador nasceu num pres\u00e9pio, entre animais, como sucedia com os filhos dos mais pobres; foi apresentado no Templo, juntamente com dois pombinhos, a oferta de quem n\u00e3o podia permitir-se pagar um cordeiro (cf.\u00a0<em>Lc<\/em> 2, 24;\u00a0<em>Lv<\/em> 5, 7); cresceu num lar de simples trabalhadores, e trabalhou com suas m\u00e3os para ganhar o p\u00e3o. Quando come\u00e7ou a anunciar o Reino, seguiam-No multid\u00f5es de deserdados, pondo assim em evid\u00eancia o que Ele mesmo dissera: \u00abO Esp\u00edrito do Senhor est\u00e1 sobre Mim, porque Me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres\u00bb (<em>Lc<\/em> 4, 18). A quantos sentiam o peso do sofrimento, acabrunhados pela pobreza, assegurou que Deus os tinha no \u00e2mago do seu cora\u00e7\u00e3o: \u00abFelizes v\u00f3s, os pobres, porque vosso \u00e9 o Reino de Deus\u00bb (<em>Lc<\/em> 6, 20); e com eles Se identificou: \u00abTive fome e destes-Me de comer\u00bb, ensinando que a miseric\u00f3rdia para com eles \u00e9 a chave do C\u00e9u (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 25, 34-40).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">198.\tPara a Igreja, a op\u00e7\u00e3o pelos pobres \u00e9 mais uma categoria teol\u00f3gica que cultural, sociol\u00f3gica, pol\u00edtica ou filos\u00f3fica. Deus \u00abmanifesta a sua miseric\u00f3rdia antes de mais\u00bb a eles. Esta prefer\u00eancia divina tem consequ\u00eancias na vida de f\u00e9 de todos os crist\u00e3os, chamados a possu\u00edrem \u00abos mesmos sentimentos que est\u00e3o em Cristo Jesus\u00bb (<em>Fl<\/em> 2, 5). Inspirada por tal prefer\u00eancia, a Igreja fez uma\u00a0<em>op\u00e7\u00e3o pelos pobres<\/em>, entendida como uma \u00abforma especial de primado na pr\u00e1tica da caridade crist\u00e3, testemunhada por toda a Tradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u00bb. Como ensinava Bento XVI, esta op\u00e7\u00e3o \u00abest\u00e1 impl\u00edcita na f\u00e9 cristol\u00f3gica naquele Deus que Se fez pobre por n\u00f3s, para enriquecer-nos com sua pobreza\u00bb. Por isso, desejo uma Igreja pobre para os pobres. Estes t\u00eam muito para nos ensinar. Al\u00e9m de participar do\u00a0<em>sensus fidei<\/em>, nas suas pr\u00f3prias dores conhecem Cristo sofredor. \u00c9 necess\u00e1rio que todos nos deixemos evangelizar por eles. A nova evangeliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um convite a reconhecer a for\u00e7a salv\u00edfica das suas vidas, e a coloc\u00e1-los no centro do caminho da Igreja. Somos chamados a descobrir Cristo neles: n\u00e3o s\u00f3 a emprestar-lhes a nossa voz nas suas causas, mas tamb\u00e9m a ser seus amigos, a escut\u00e1-los, a compreend\u00ea-los e a acolher a misteriosa sabedoria que Deus nos quer comunicar atrav\u00e9s deles.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">199.\tO nosso compromisso n\u00e3o consiste exclusivamente em ac\u00e7\u00f5es ou em programas de promo\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia; aquilo que o Esp\u00edrito p\u00f5e em movimento n\u00e3o \u00e9 um excesso de activismo, mas primariamente uma\u00a0<em>aten\u00e7\u00e3o<\/em> prestada ao outro \u00abconsiderando-o como um s\u00f3 consigo mesmo\u00bb. Esta aten\u00e7\u00e3o amiga \u00e9 o in\u00edcio duma verdadeira preocupa\u00e7\u00e3o pela sua pessoa e, a partir dela, desejo procurar efectivamente o seu bem. Isto implica apreciar o pobre na sua bondade pr\u00f3pria, com o seu modo de ser, com a sua cultura, com a sua forma de viver a f\u00e9. O amor aut\u00eantico \u00e9 sempre contemplativo, permitindo-nos servir o outro n\u00e3o por necessidade ou vaidade, mas porque ele \u00e9 belo, independentemente da sua apar\u00eancia: \u00abDo amor, pelo qual uma pessoa \u00e9 agrad\u00e1vel a outra, depende que lhe d\u00ea algo de gra\u00e7a\u00bb. Quando amado, o pobre \u00ab\u00e9 estimado como de alto valor\u00bb, e isto diferencia a aut\u00eantica op\u00e7\u00e3o pelos pobres de qualquer ideologia, de qualquer tentativa de utilizar os pobres ao servi\u00e7o de interesses pessoais ou pol\u00edticos. Unicamente a partir desta proximidade real e cordial \u00e9 que podemos acompanh\u00e1-los adequadamente no seu caminho de liberta\u00e7\u00e3o. S\u00f3 isto tornar\u00e1 poss\u00edvel que \u00abos pobres se sintam, em cada comunidade crist\u00e3, como \u201cem casa\u201d. N\u00e3o seria, este estilo, a maior e mais eficaz apresenta\u00e7\u00e3o da boa nova do Reino?\u00bb Sem a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres, \u00abo an\u00fancio do Evangelho \u2013 e este an\u00fancio \u00e9 a primeira caridade \u2013 corre o risco de n\u00e3o ser compreendido ou de afogar-se naquele mar de palavras que a actual sociedade da comunica\u00e7\u00e3o diariamente nos apresenta\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">200.\tDado que esta Exorta\u00e7\u00e3o se dirige aos membros da Igreja Cat\u00f3lica, desejo afirmar, com m\u00e1goa, que a pior discrimina\u00e7\u00e3o que sofrem os pobres \u00e9 a falta de cuidado espiritual. A imensa maioria dos pobres possui uma especial abertura \u00e0 f\u00e9; tem necessidade de Deus e n\u00e3o podemos deixar de lhe oferecer a sua amizade, a sua b\u00ean\u00e7\u00e3o, a sua Palavra, a celebra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos e a proposta dum caminho de crescimento e amadurecimento na f\u00e9. A op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres deve traduzir-se, principalmente, numa solicitude religiosa privilegiada e priorit\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">201.\tNingu\u00e9m deveria dizer que se mant\u00e9m longe dos pobres, porque as suas op\u00e7\u00f5es de vida implicam prestar mais aten\u00e7\u00e3o a outras incumb\u00eancias. Esta \u00e9 uma desculpa frequente nos ambientes acad\u00e9micos, empresariais ou profissionais, e at\u00e9 mesmo eclesiais. Embora se possa dizer, em geral, que a voca\u00e7\u00e3o e a miss\u00e3o pr\u00f3prias dos fi\u00e9is leigos \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o das diversas realidades terrenas para que toda a actividade humana seja transformada pelo Evangelho, ningu\u00e9m pode sentir-se exonerado da preocupa\u00e7\u00e3o pelos pobres e pela justi\u00e7a social: \u00abA convers\u00e3o espiritual, a intensidade do amor a Deus e ao pr\u00f3ximo, o zelo pela justi\u00e7a e pela paz, o sentido evang\u00e9lico dos pobres e da pobreza s\u00e3o exigidos a todos\u00bb. Temo que tamb\u00e9m estas palavras sejam objecto apenas de alguns coment\u00e1rios, sem verdadeira incid\u00eancia pr\u00e1tica. Apesar disso, tenho confian\u00e7a na abertura e nas boas disposi\u00e7\u00f5es dos crist\u00e3os e pe\u00e7o-vos que procureis, comunitariamente, novos caminhos para acolher esta renovada proposta.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Economia e distribui\u00e7\u00e3o das entradas<br \/>\n<\/em><br \/>\n202.\tA necessidade de resolver as causas estruturais da pobreza n\u00e3o pode esperar; e n\u00e3o apenas por uma exig\u00eancia pragm\u00e1tica de obter resultados e ordenar a sociedade, mas tamb\u00e9m para a curar duma mazela que a torna fr\u00e1gil e indigna e que s\u00f3 poder\u00e1 lev\u00e1-la a novas crises. Os planos de assist\u00eancia, que acorrem a determinadas emerg\u00eancias, deveriam considerar-se apenas como respostas provis\u00f3rias. Enquanto n\u00e3o forem radicalmente solucionados os problemas dos pobres, renunciando \u00e0 autonomia absoluta dos mercados e da especula\u00e7\u00e3o financeira e atacando as causas estruturais da desigualdade social, n\u00e3o se resolver\u00e3o os problemas do mundo e, em definitivo, problema algum. A desigualdade \u00e9 a raiz dos males sociais.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">203.\tA dignidade de cada pessoa humana e o bem comum s\u00e3o quest\u00f5es que deveriam estruturar toda a pol\u00edtica econ\u00f3mica, mas \u00e0s vezes parecem somente ap\u00eandices adicionados de fora para completar um discurso pol\u00edtico sem perspectivas nem programas de verdadeiro desenvolvimento integral. Quantas palavras se tornaram molestas para este sistema! Molesta que se fale de \u00e9tica, molesta que se fale de solidariedade mundial, molesta que se fale de distribui\u00e7\u00e3o dos bens, molesta que se fale de defender os postos de trabalho, molesta que se fale da dignidade dos fracos, molesta que se fale de um Deus que exige um compromisso em prol da justi\u00e7a. Outras vezes acontece que estas palavras se tornam objecto duma manipula\u00e7\u00e3o oportunista que as desonra. A c\u00f3moda indiferen\u00e7a diante destas quest\u00f5es esvazia a nossa vida e as nossas palavras de todo o significado. A voca\u00e7\u00e3o dum empres\u00e1rio \u00e9 uma nobre tarefa, desde que se deixe interpelar por um sentido mais amplo da vida; isto permite-lhe servir verdadeiramente o bem comum com o seu esfor\u00e7o por multiplicar e tornar os bens deste mundo mais acess\u00edveis a todos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">204.\tN\u00e3o podemos mais confiar nas for\u00e7as cegas e na m\u00e3o invis\u00edvel do mercado. O crescimento equitativo exige algo mais do que o crescimento econ\u00f3mico, embora o pressuponha; requer decis\u00f5es, programas, mecanismos e processos especificamente orientados para uma melhor distribui\u00e7\u00e3o das entradas, para a cria\u00e7\u00e3o de oportunidades de trabalho, para uma promo\u00e7\u00e3o integral dos pobres que supere o mero assistencialismo. Longe de mim propor um populismo irrespons\u00e1vel, mas a economia n\u00e3o pode mais recorrer a rem\u00e9dios que s\u00e3o um novo veneno, como quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos exclu\u00eddos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">205.\tPe\u00e7o a Deus que cres\u00e7a o n\u00famero de pol\u00edticos capazes de entrar num aut\u00eantico di\u00e1logo que vise efectivamente sanar as ra\u00edzes profundas e n\u00e3o a apar\u00eancia dos males do nosso mundo. A pol\u00edtica, t\u00e3o denegrida, \u00e9 uma sublime voca\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma das formas mais preciosas da caridade, porque busca o bem comum. Temos de nos convencer que a caridade \u00ab\u00e9 o princ\u00edpio n\u00e3o s\u00f3 das micro-rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre amigos, na fam\u00edlia, no pequeno grupo, mas tamb\u00e9m das macro-rela\u00e7\u00f5es como relacionamentos sociais, econ\u00f3micos, pol\u00edticos\u00bb. Rezo ao Senhor para que nos conceda mais pol\u00edticos, que tenham verdadeiramente a peito a sociedade, o povo, a vida dos pobres. \u00c9 indispens\u00e1vel que os governantes e o poder financeiro levantem o olhar e alarguem as suas perspectivas, procurando que haja trabalho digno, instru\u00e7\u00e3o e cuidados sanit\u00e1rios para todos os cidad\u00e3os. E porque n\u00e3o acudirem a Deus pedindo-Lhe que inspire os seus planos? Estou convencido de que, a partir duma abertura \u00e0 transcend\u00eancia, poder-se-ia formar uma nova mentalidade pol\u00edtica e econ\u00f3mica que ajudaria a superar a dicotomia absoluta entre a economia e o bem comum social.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">206.\tA economia \u2013 como indica o pr\u00f3prio termo \u2013 deveria ser a arte de alcan\u00e7ar uma adequada administra\u00e7\u00e3o da casa comum, que \u00e9 o mundo inteiro. Todo o acto econ\u00f3mico duma certa envergadura, que se realiza em qualquer parte do planeta, repercute-se no mundo inteiro, pelo que nenhum Governo pode agir \u00e0 margem duma responsabilidade comum. Na realidade, torna-se cada vez mais dif\u00edcil encontrar solu\u00e7\u00f5es a n\u00edvel local para as enormes contradi\u00e7\u00f5es globais, pelo que a pol\u00edtica local se satura de problemas por resolver. Se realmente queremos alcan\u00e7ar uma economia global saud\u00e1vel, precisamos, neste momento da hist\u00f3ria, de um modo mais eficiente de interac\u00e7\u00e3o que, sem preju\u00edzo da soberania das na\u00e7\u00f5es, assegure o bem-estar econ\u00f3mico a todos os pa\u00edses e n\u00e3o apenas a alguns.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">207.\tE qualquer comunidade da Igreja, na medida em que pretender subsistir tranquila sem se ocupar criativamente nem cooperar de forma eficaz para que os pobres vivam com dignidade e haja a inclus\u00e3o de todos, correr\u00e1 tamb\u00e9m o risco da sua dissolu\u00e7\u00e3o, mesmo que fale de temas sociais ou critique os Governos. Facilmente acabar\u00e1 submersa pelo mundanismo espiritual, dissimulado em pr\u00e1ticas religiosas, reuni\u00f5es infecundas ou discursos vazios.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">208.\tSe algu\u00e9m se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das inten\u00e7\u00f5es, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia pol\u00edtica. A minha palavra n\u00e3o \u00e9 a dum inimigo nem a dum opositor. A mim interessa-me apenas procurar que, quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e ego\u00edsta, possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcancem um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique a sua passagem por esta terra.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Cuidar da fragilidade<br \/>\n<\/em><br \/>\n209.\tJesus, o evangelizador por excel\u00eancia e o Evangelho em pessoa, identificou-Se especialmente com os mais pequeninos (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 25, 40). Isto recorda-nos, a todos os crist\u00e3os, que somos chamados a cuidar dos mais fr\u00e1geis da Terra. Mas, no modelo \u00abdo \u00eaxito\u00bb e \u00abindividualista\u00bb em vigor, parece que n\u00e3o faz sentido investir para que os lentos, fracos ou menos dotados possam tamb\u00e9m singrar na vida.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">210.\tEmbora aparentemente n\u00e3o nos traga benef\u00edcios tang\u00edveis e imediatos, \u00e9 indispens\u00e1vel prestar aten\u00e7\u00e3o e debru\u00e7ar-nos sobre as novas formas de pobreza e fragilidade, nas quais somos chamados a reconhecer Cristo sofredor: os sem abrigo, os toxicodependentes, os refugiados, os povos ind\u00edgenas, os idosos cada vez mais s\u00f3s e abandonados, etc. Os migrantes representam um desafio especial para mim, por ser Pastor duma Igreja sem fronteiras que se sente m\u00e3e de todos. Por isso, exorto os pa\u00edses a uma abertura generosa, que, em vez de temer a destrui\u00e7\u00e3o da identidade local, seja capaz de criar novas s\u00ednteses culturais. Como s\u00e3o belas as cidades que superam a desconfian\u00e7a doentia e integram os que s\u00e3o diferentes, fazendo desta integra\u00e7\u00e3o um novo factor de progresso! Como s\u00e3o encantadoras as cidades que, j\u00e1 no seu projecto arquitect\u00f3nico, est\u00e3o cheias de espa\u00e7os que unem, relacionam, favorecem o reconhecimento do outro!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">211.\tSempre me angustiou a situa\u00e7\u00e3o das pessoas que s\u00e3o objecto das diferentes formas de tr\u00e1fico. Quem dera que se ouvisse o grito de Deus, perguntando a todos n\u00f3s: \u00abOnde est\u00e1 o teu irm\u00e3o?\u00bb (<em>Gn<\/em> 4, 9). Onde est\u00e1 o teu irm\u00e3o escravo? Onde est\u00e1 o irm\u00e3o que est\u00e1s matando cada dia na pequena f\u00e1brica clandestina, na rede da prostitui\u00e7\u00e3o, nas crian\u00e7as usadas para a mendicidade, naquele que tem de trabalhar \u00e0s escondidas porque n\u00e3o foi regularizado? N\u00e3o nos fa\u00e7amos de distra\u00eddos! H\u00e1 muita cumplicidade&#8230; A pergunta \u00e9 para todos! Nas nossas cidades, est\u00e1 instalado este crime mafioso e aberrante, e muitos t\u00eam as m\u00e3os cheias de sangue devido a uma c\u00f3moda e muda cumplicidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">212.\tDuplamente pobres s\u00e3o as mulheres que padecem situa\u00e7\u00f5es de exclus\u00e3o, maus-tratos e viol\u00eancia, porque frequentemente t\u00eam menores possibilidades de defender os seus direitos. E todavia, tamb\u00e9m entre elas, encontramos continuamente os mais admir\u00e1veis gestos de hero\u00edsmo quotidiano na defesa e cuidado da fragilidade das suas fam\u00edlias.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">213.\tEntre estes seres fr\u00e1geis, de que a Igreja quer cuidar com predilec\u00e7\u00e3o, est\u00e3o tamb\u00e9m os nascituros, os mais inermes e inocentes de todos, a quem hoje se quer negar a dignidade humana para poder fazer deles o que apetece, tirando-lhes a vida e promovendo legisla\u00e7\u00f5es para que ningu\u00e9m o possa impedir. Muitas vezes, para ridiculizar jocosamente a defesa que a Igreja faz da vida dos nascituros, procura-se apresentar a sua posi\u00e7\u00e3o como ideol\u00f3gica, obscurantista e conservadora; e no entanto esta defesa da vida nascente est\u00e1 intimamente ligada \u00e0 defesa de qualquer direito humano. Sup\u00f5e a convic\u00e7\u00e3o de que um ser humano \u00e9 sempre sagrado e inviol\u00e1vel, em qualquer situa\u00e7\u00e3o e em cada etapa do seu desenvolvimento. \u00c9 fim em si mesmo, e nunca um meio para resolver outras dificuldades. Se cai esta convic\u00e7\u00e3o, n\u00e3o restam fundamentos s\u00f3lidos e permanentes para a defesa dos direitos humanos, que ficariam sempre sujeitos \u00e0s conveni\u00eancias contingentes dos poderosos de turno. Por si s\u00f3 a raz\u00e3o \u00e9 suficiente para se reconhecer o valor inviol\u00e1vel de qualquer vida humana, mas, se a olhamos tamb\u00e9m a partir da f\u00e9, \u00abtoda a viola\u00e7\u00e3o da dignidade pessoal do ser humano clama por vingan\u00e7a junto de Deus e torna-se ofensa ao Criador do homem\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">214.\tE precisamente porque \u00e9 uma quest\u00e3o que mexe com a coer\u00eancia interna da nossa mensagem sobre o valor da pessoa humana, n\u00e3o se deve esperar que a Igreja altere a sua posi\u00e7\u00e3o sobre esta quest\u00e3o. A prop\u00f3sito, quero ser completamente honesto. Este n\u00e3o \u00e9 um assunto sujeito a supostas reformas ou \u00abmoderniza\u00e7\u00f5es\u00bb. N\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana. Mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que temos feito pouco para acompanhar adequadamente as mulheres que est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es muito duras, nas quais o aborto lhes aparece como uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para as suas profundas ang\u00fastias, particularmente quando a vida que cresce nelas surgiu como resultado duma viol\u00eancia ou num contexto de extrema pobreza. Quem pode deixar de compreender estas situa\u00e7\u00f5es de tamanho sofrimento?<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">215.\tH\u00e1 outros seres fr\u00e1geis e indefesos, que muitas vezes ficam \u00e0 merc\u00ea dos interesses econ\u00f3micos ou dum uso indiscriminado. Refiro-me ao conjunto da cria\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, os seres humanos, n\u00e3o somos meramente benefici\u00e1rios, mas guardi\u00f5es das outras criaturas. Pela nossa realidade corp\u00f3rea, Deus uniu-nos t\u00e3o estreitamente ao mundo que nos rodeia, que a desertifica\u00e7\u00e3o do solo \u00e9 como uma doen\u00e7a para cada um, e podemos lamentar a extin\u00e7\u00e3o de uma esp\u00e9cie como se fosse uma mutila\u00e7\u00e3o. N\u00e3o deixemos que, \u00e0 nossa passagem, fiquem sinais de destrui\u00e7\u00e3o e de morte que afectem a nossa vida e a das gera\u00e7\u00f5es futuras. Neste sentido, fa\u00e7o meu o expressivo e prof\u00e9tico lamento que, j\u00e1 h\u00e1 v\u00e1rios anos, formularam os Bispos das Filipinas: \u00abUma incr\u00edvel variedade de insectos vivia no bosque; e estavam ocupados com todo o tipo de tarefas. (&#8230;) Os p\u00e1ssaros voavam pelo ar, as suas penas brilhantes e os seus variados gorjeios acrescentavam cor e melodia ao verde dos bosques. (&#8230;) Deus quis que esta terra fosse para n\u00f3s, suas criaturas especiais, mas n\u00e3o para a podermos destruir ou transformar num baldio. (&#8230;) Depois de uma \u00fanica noite de chuva, observa os rios de castanho-chocolate da tua localidade e lembra-te que est\u00e3o a arrastar o sangue vivo da terra para o mar. (&#8230;) Como poder\u00e3o os peixes nadar em esgotos como o rio Pasig e muitos outros rios que polu\u00edmos? Quem transformou o maravilhoso mundo marinho em cemit\u00e9rios subaqu\u00e1ticos despojados de vida e de cor<em>?<\/em>\u00bb<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">216.\tPequenos mas fortes no amor de Deus, como S\u00e3o Francisco de Assis, todos n\u00f3s, crist\u00e3os, somos chamados a cuidar da fragilidade do povo e do mundo em que vivemos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>3. O bem comum e a paz social<br \/>\n<\/strong><br \/>\n217.\tFal\u00e1mos muito sobre a alegria e o amor, mas a Palavra de Deus menciona tamb\u00e9m o fruto da paz (cf.\u00a0<em>Gal<\/em> 5, 22).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">218.\tA paz social n\u00e3o pode ser entendida como irenismo ou como mera aus\u00eancia de viol\u00eancia obtida pela imposi\u00e7\u00e3o de uma parte sobre as outras. Tamb\u00e9m seria uma paz falsa aquela que servisse como desculpa para justificar uma organiza\u00e7\u00e3o social que silencie ou tranquilize os mais pobres, de modo que aqueles que gozam dos maiores benef\u00edcios possam manter o seu estilo de vida sem sobressaltos, enquanto os outros sobrevivem como podem. As reivindica\u00e7\u00f5es sociais, que t\u00eam a ver com a distribui\u00e7\u00e3o das entradas, a inclus\u00e3o social dos pobres e os direitos humanos n\u00e3o podem ser sufocados com o pretexto de construir um consenso de escrit\u00f3rio ou uma paz ef\u00e9mera para uma minoria feliz. A dignidade da pessoa humana e o bem comum est\u00e3o por cima da tranquilidade de alguns que n\u00e3o querem renunciar aos seus privil\u00e9gios. Quando estes valores s\u00e3o afectados, \u00e9 necess\u00e1ria uma voz prof\u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">219.\tE a paz tamb\u00e9m \u00abn\u00e3o se reduz a uma aus\u00eancia de guerra, fruto do equil\u00edbrio sempre prec\u00e1rio das for\u00e7as. Constr\u00f3i-se, dia a dia, na busca duma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justi\u00e7a mais perfeita entre os homens\u00bb. Enfim, uma paz que n\u00e3o surja como fruto do desenvolvimento integral de todos, n\u00e3o ter\u00e1 futuro e ser\u00e1 sempre semente de novos conflitos e variadas formas de viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">220.\tEm cada na\u00e7\u00e3o, os habitantes desenvolvem a dimens\u00e3o social da sua vida, configurando-se como cidad\u00e3os respons\u00e1veis dentro de um povo e n\u00e3o como massa arrastada pelas for\u00e7as dominantes. Lembremo-nos que \u00abser cidad\u00e3o fiel \u00e9 uma virtude, e a participa\u00e7\u00e3o na vida pol\u00edtica \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o moral\u00bb. Mas, tornar-se um\u00a0<em>povo<\/em> \u00e9 algo mais, exigindo um processo constante no qual cada nova gera\u00e7\u00e3o est\u00e1 envolvida. \u00c9 um trabalho lento e \u00e1rduo que exige querer integrar-se e aprender a faz\u00ea-lo at\u00e9 se desenvolver uma cultura do encontro numa harmonia pluriforme.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">221.\tPara avan\u00e7ar nesta constru\u00e7\u00e3o de um povo em paz, justi\u00e7a e fraternidade, h\u00e1 quatro princ\u00edpios relacionados com tens\u00f5es bipolares pr\u00f3prias de toda a realidade social. Derivam dos grandes postulados da Doutrina Social da Igreja, que constituem o \u00abprimeiro e fundamental par\u00e2metro de refer\u00eancia para a interpreta\u00e7\u00e3o e o exame dos fen\u00f3menos sociais\u00bb. \u00c0 luz deles, desejo agora propor estes quatro princ\u00edpios que orientam especificamente o desenvolvimento da conviv\u00eancia social e a constru\u00e7\u00e3o de um povo onde as diferen\u00e7as se harmonizam dentro de um projecto comum. Fa\u00e7o-o na convic\u00e7\u00e3o de que a sua aplica\u00e7\u00e3o pode ser um verdadeiro caminho para a paz dentro de cada na\u00e7\u00e3o e no mundo inteiro.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o<br \/>\n<\/em><br \/>\n222.\tExiste uma tens\u00e3o bipolar entre a plenitude e o limite. A plenitude gera a vontade de possuir tudo, e o limite \u00e9 o muro que nos aparece pela frente. O \u00abtempo\u00bb, considerado em sentido amplo, faz referimento \u00e0 plenitude como express\u00e3o do horizonte que se abre diante de n\u00f3s, e o momento \u00e9 express\u00e3o do limite que se vive num espa\u00e7o circunscrito. Os cidad\u00e3os vivem em tens\u00e3o entre a conjuntura do momento e a luz do tempo, do horizonte maior, da utopia que nos abre ao futuro como causa final que atrai. Daqui surge um primeiro princ\u00edpio para progredir na constru\u00e7\u00e3o de um povo: o tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">223.\tEste princ\u00edpio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsess\u00e3o pelos resultados imediatos. Ajuda a suportar, com paci\u00eancia, situa\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e hostis ou as mudan\u00e7as de planos que o dinamismo da realidade imp\u00f5e. \u00c9 um convite a assumir a tens\u00e3o entre plenitude e limite, dando prioridade ao tempo. Um dos pecados que, \u00e0s vezes, se nota na actividade sociopol\u00edtica \u00e9 privilegiar os espa\u00e7os de poder em vez dos tempos dos processos. Dar prioridade ao espa\u00e7o leva-nos a proceder como loucos para resolver tudo no momento presente, para tentar tomar posse de todos os espa\u00e7os de poder e autoafirma\u00e7\u00e3o. \u00c9 cristalizar os processos e pretender par\u00e1-los. Dar prioridade ao tempo \u00e9 ocupar-se\u00a0<em>mais<\/em> com\u00a0<em>iniciar processos do que possuir espa\u00e7os<\/em>. O tempo ordena os espa\u00e7os, ilumina-os e transforma-os em elos duma cadeia em constante crescimento, sem marcha atr\u00e1s. Trata-se de privilegiar as ac\u00e7\u00f5es que geram novos dinamismos na sociedade e comprometem outras pessoas e grupos que os desenvolver\u00e3o at\u00e9 frutificar em acontecimentos hist\u00f3ricos importantes. Sem ansiedade, mas com convic\u00e7\u00f5es claras e tenazes.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">224.\t\u00c0s vezes interrogo-me sobre quais s\u00e3o as pessoas que, no mundo actual, se preocupam realmente mais com gerar processos que construam um povo do que com obter resultados imediatos que produzam ganhos pol\u00edticos f\u00e1ceis, r\u00e1pidos e ef\u00e9meros, mas que n\u00e3o constroem a plenitude humana. A hist\u00f3ria julg\u00e1-los-\u00e1 talvez com aquele crit\u00e9rio enunciado por Romano Guardini: \u00abO \u00fanico padr\u00e3o para avaliar justamente uma \u00e9poca \u00e9 perguntar-se at\u00e9 que ponto, nela, se desenvolve e alcan\u00e7a uma aut\u00eantica raz\u00e3o de ser\u00a0<em>a plenitude da exist\u00eancia humana<\/em>, de acordo com o car\u00e1cter peculiar e as\u00a0<em>possibilidades<\/em> da dita \u00e9poca\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">225.\tEste crit\u00e9rio \u00e9 muito apropriado tamb\u00e9m para a evangeliza\u00e7\u00e3o, que exige ter presente o horizonte, adoptar os processos poss\u00edveis e a estrada longa. O pr\u00f3prio Senhor, na sua vida mortal, deu a entender v\u00e1rias vezes aos seus disc\u00edpulos que havia coisas que ainda n\u00e3o podiam compreender e era necess\u00e1rio esperar o Esp\u00edrito Santo (cf.\u00a0<em>Jo<\/em> 16, 12-13). A par\u00e1bola do trigo e do joio (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 13, 24-30) descreve um aspecto importante de evangeliza\u00e7\u00e3o que consiste em mostrar como o inimigo pode ocupar o espa\u00e7o do Reino e causar dano com o joio, mas \u00e9 vencido pela bondade do trigo que se manifesta com o tempo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A unidade prevalece sobre o conflito<br \/>\n<\/em><br \/>\n226.\tO conflito n\u00e3o pode ser ignorado ou dissimulado; deve ser aceitado. Mas, se ficamos encurralados nele, perdemos a perspectiva, os horizontes reduzem-se e a pr\u00f3pria realidade fica fragmentada. Quando paramos na conjuntura conflitual, perdemos o sentido da unidade profunda da realidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">227.\tPerante o conflito, alguns limitam-se a olh\u00e1-lo e passam adiante como se nada fosse, lavam-se as m\u00e3os para poder continuar com a sua vida. Outros entram de tal maneira no conflito que ficam prisioneiros, perdem o horizonte, projectam nas institui\u00e7\u00f5es as suas pr\u00f3prias confus\u00f5es e insatisfa\u00e7\u00f5es e, assim, a unidade torna-se imposs\u00edvel. Mas h\u00e1 uma terceira forma, a mais adequada, de enfrentar o conflito: \u00e9 aceitar suportar o conflito, resolv\u00ea-lo e transform\u00e1-lo no elo de liga\u00e7\u00e3o de um novo processo. \u00abFelizes os pacificadores\u00bb (<em>Mt<\/em> 5, 9)!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">228.\tDeste modo, torna-se poss\u00edvel desenvolver uma comunh\u00e3o nas diferen\u00e7as, que pode ser facilitada s\u00f3 por pessoas magn\u00e2nimas que t\u00eam a coragem de ultrapassar a superf\u00edcie conflitual e consideram os outros na sua dignidade mais profunda. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio postular um princ\u00edpio que \u00e9 indispens\u00e1vel para construir a amizade social: a unidade \u00e9 superior ao conflito. A solidariedade, entendida no seu sentido mais profundo e desafiador, torna-se assim um estilo de constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, um \u00e2mbito vital onde os conflitos, as tens\u00f5es e os opostos podem alcan\u00e7ar uma unidade multifacetada que gera nova vida. N\u00e3o \u00e9 apostar no sincretismo ou na absor\u00e7\u00e3o de um no outro, mas na resolu\u00e7\u00e3o num plano superior que conserva em si as preciosas potencialidades das polaridades em contraste.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">229.\tEste crit\u00e9rio evang\u00e9lico recorda-nos que Cristo tudo unificou em Si: c\u00e9u e terra, Deus e homem, tempo e eternidade, carne e esp\u00edrito, pessoa e sociedade. O sinal distintivo desta unidade e reconcilia\u00e7\u00e3o de tudo n\u2019Ele \u00e9 a paz. Cristo \u00ab\u00e9 a nossa paz\u00bb (<em>Ef<\/em> 2, 14). O an\u00fancio do Evangelho come\u00e7a sempre com a sauda\u00e7\u00e3o de paz; e a paz coroa e cimenta em cada momento as rela\u00e7\u00f5es entre os disc\u00edpulos. A paz \u00e9 poss\u00edvel, porque o Senhor venceu o mundo e sua permanente conflitualidade, \u00abpacificando pelo sangue da sua cruz\u00bb (<em>Col<\/em> 1, 20). Entretanto, se examinarmos a fundo estes textos b\u00edblicos, descobriremos que o primeiro \u00e2mbito onde somos chamados a conquistar esta pacifica\u00e7\u00e3o nas diferen\u00e7as \u00e9 a pr\u00f3pria interioridade, a pr\u00f3pria vida sempre amea\u00e7ada pela dispers\u00e3o dial\u00e9ctica. Com cora\u00e7\u00f5es despeda\u00e7ados em milhares de fragmentos, ser\u00e1 dif\u00edcil construir uma verdadeira paz social.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">230.\tO an\u00fancio de paz n\u00e3o \u00e9 a proclama\u00e7\u00e3o duma paz negociada, mas a convic\u00e7\u00e3o de que a unidade do Esp\u00edrito harmoniza todas as diversidades. Supera qualquer conflito numa nova e promissora s\u00edntese. A diversidade \u00e9 bela, quando aceita entrar constantemente num processo de reconcilia\u00e7\u00e3o at\u00e9 selar uma esp\u00e9cie de pacto cultural que fa\u00e7a surgir uma \u00abdiversidade reconciliada\u00bb, como justamente ensinaram os Bispos da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo: \u00abA diversidade das nossas etnias \u00e9 uma riqueza. (\u2026) S\u00f3 com a unidade, a convers\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es e a reconcilia\u00e7\u00e3o \u00e9 que poderemos fazer avan\u00e7ar o nosso pa\u00eds\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A realidade \u00e9 mais importante do que a ideia<br \/>\n<\/em><br \/>\n231.\tExiste tamb\u00e9m uma tens\u00e3o bipolar entre a ideia e a realidade: a realidade simplesmente \u00e9, a ideia elabora-se. Entre as duas, deve estabelecer-se um di\u00e1logo constante, evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade. \u00c9 perigoso viver no reino s\u00f3 da palavra, da imagem, do sofisma. Por isso, h\u00e1 que postular um terceiro princ\u00edpio: a realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia. Isto sup\u00f5e evitar v\u00e1rias formas de ocultar a realidade: os purismos ang\u00e9licos, os totalitarismos do relativo, os nominalismos declaracionistas, os projectos mais formais que reais, os fundamentalismos anti-hist\u00f3ricos, os eticismos sem bondade, os intelectualismos sem sabedoria.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">232.\tA ideia \u2013 as elabora\u00e7\u00f5es conceituais \u2013 est\u00e1 ao servi\u00e7o da capta\u00e7\u00e3o, compreens\u00e3o e condu\u00e7\u00e3o da realidade. A ideia desligada da realidade d\u00e1 origem a idealismos e nominalismos ineficazes que, no m\u00e1ximo, classificam ou definem, mas n\u00e3o empenham. O que empenha \u00e9 a realidade iluminada pelo racioc\u00ednio. \u00c9 preciso passar do nominalismo formal \u00e0 objectividade harmoniosa. Caso contr\u00e1rio, manipula-se a verdade, do mesmo modo que se substitui a gin\u00e1stica pela cosm\u00e9tica. H\u00e1 pol\u00edticos \u2013 e tamb\u00e9m l\u00edderes religiosos \u2013 que se interrogam por que motivo o povo n\u00e3o os compreende nem segue, se as suas propostas s\u00e3o t\u00e3o l\u00f3gicas e claras. Possivelmente \u00e9 porque se instalaram no reino das puras ideias e reduziram a pol\u00edtica ou a f\u00e9 \u00e0 ret\u00f3rica; outros esqueceram a simplicidade e importaram de fora uma racionalidade alheia \u00e0 gente.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">233.\tA realidade \u00e9 superior \u00e0 ideia. Este crit\u00e9rio est\u00e1 ligado \u00e0 encarna\u00e7\u00e3o da Palavra e ao seu cumprimento: \u00abReconheceis que o esp\u00edrito \u00e9 de Deus por isto: todo o esp\u00edrito que confessa Jesus Cristo que veio em carne mortal \u00e9 de Deus\u00bb. (<em>1 Jo<\/em> 4, 2). O crit\u00e9rio da realidade, duma Palavra j\u00e1 encarnada e sempre procurando encarnar-se, \u00e9 essencial \u00e0 evangeliza\u00e7\u00e3o. Por um lado, leva-nos a valorizar a hist\u00f3ria da Igreja como hist\u00f3ria de salva\u00e7\u00e3o, a recordar os nossos Santos que inculturaram o Evangelho na vida dos nossos povos, a recolher a rica tradi\u00e7\u00e3o bimilen\u00e1ria da Igreja, sem pretender elaborar um pensamento desligado deste tesouro como se quis\u00e9ssemos inventar o Evangelho. Por outro lado, este crit\u00e9rio impele-nos a p\u00f4r em pr\u00e1tica a Palavra, a realizar obras de justi\u00e7a e caridade nas quais se torne fecunda esta Palavra. N\u00e3o p\u00f4r em pr\u00e1tica, n\u00e3o levar \u00e0 realidade a Palavra \u00e9 construir sobre a areia, permanecer na pura ideia e degenerar em intimismos e gnosticismos que n\u00e3o d\u00e3o fruto, que esterilizam o seu dinamismo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O todo \u00e9 superior \u00e0 parte<br \/>\n<\/em><br \/>\n234.\tEntre a globaliza\u00e7\u00e3o e a localiza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m se gera uma tens\u00e3o. \u00c9 preciso prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0 dimens\u00e3o global para n\u00e3o cair numa mesquinha quotidianidade. Ao mesmo tempo conv\u00e9m n\u00e3o perder de vista o que \u00e9 local, que nos faz caminhar com os p\u00e9s por terra. As duas coisas unidas impedem de cair em algum destes dois extremos: o primeiro, que os cidad\u00e3os vivam num universalismo abstracto e globalizante, mim\u00e9ticos passageiros do carro de apoio, admirando os fogos de artif\u00edcio do mundo, que \u00e9 de outros, com a boca aberta e aplausos programados; o outro extremo \u00e9 que se transformem num museu folcl\u00f3rico de eremitas localistas, condenados a repetir sempre as mesmas coisas, incapazes de se deixar interpelar pelo que \u00e9 diverso e de apreciar a beleza que Deus espalha fora das suas fronteiras.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">235.\tO todo \u00e9 mais do que a parte, sendo tamb\u00e9m mais do que a simples soma delas. Portanto, n\u00e3o se deve viver demasiado obcecados por quest\u00f5es limitadas e particulares. \u00c9 preciso alargar sempre o olhar para reconhecer um bem maior que trar\u00e1 benef\u00edcios a todos n\u00f3s. Mas h\u00e1 que o fazer sem se evadir nem se desenraizar. \u00c9 necess\u00e1rio mergulhar as ra\u00edzes na terra f\u00e9rtil e na hist\u00f3ria do pr\u00f3prio lugar, que \u00e9 um dom de Deus. Trabalha-se no pequeno, no que est\u00e1 pr\u00f3ximo, mas com uma perspectiva mais ampla. Da mesma forma, uma pessoa que conserva a sua peculiaridade pessoal e n\u00e3o esconde a sua identidade, quando se integra cordialmente numa comunidade n\u00e3o se aniquila, mas recebe sempre novos est\u00edmulos para o seu pr\u00f3prio desenvolvimento. N\u00e3o \u00e9 a esfera global que aniquila, nem a parte isolada que esteriliza.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">236.\tAqui o modelo n\u00e3o \u00e9 a esfera, pois n\u00e3o \u00e9 superior \u00e0s partes e, nela, cada ponto \u00e9 equidistante do centro, n\u00e3o havendo diferen\u00e7as entre um ponto e o outro. O modelo \u00e9 o poliedro, que reflecte a conflu\u00eancia de todas as partes que nele mant\u00eam a sua originalidade. Tanto a ac\u00e7\u00e3o pastoral como a ac\u00e7\u00e3o pol\u00edtica procuram reunir nesse poliedro o melhor de cada um. Ali entram os pobres com a sua cultura, os seus projectos e as suas pr\u00f3prias potencialidades. At\u00e9 mesmo as pessoas que possam ser criticadas pelos seus erros, t\u00eam algo a oferecer que n\u00e3o se deve perder. \u00c9 a uni\u00e3o dos povos, que, na ordem universal, conservam a sua pr\u00f3pria peculiaridade; \u00e9 a totalidade das pessoas numa sociedade que procura um bem comum que verdadeiramente incorpore a todos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">237.\tA n\u00f3s, crist\u00e3os, este princ\u00edpio fala-nos tamb\u00e9m da totalidade ou integridade do Evangelho que a Igreja nos transmite e envia a pregar. A sua riqueza plena incorpora acad\u00e9micos e oper\u00e1rios, empres\u00e1rios e artistas, incorpora todos. A \u00abm\u00edstica popular\u00bb acolhe, a seu modo, o Evangelho inteiro e encarna-o em express\u00f5es de ora\u00e7\u00e3o, de fraternidade, de justi\u00e7a, de luta e de festa. A Boa Nova \u00e9 a alegria dum Pai que n\u00e3o quer que se perca nenhum dos seus pequeninos. Assim nasce a alegria no Bom Pastor que encontra a ovelha perdida e a reintegra no seu rebanho. O Evangelho \u00e9 fermento que leveda toda a massa e cidade que brilha no cimo do monte, iluminando todos os povos. O Evangelho possui um crit\u00e9rio de totalidade que lhe \u00e9 intr\u00ednseco: n\u00e3o cessa de ser Boa Nova enquanto n\u00e3o for anunciado a todos, enquanto n\u00e3o fecundar e curar todas as dimens\u00f5es do homem, enquanto n\u00e3o unir todos os homens \u00e0 volta da mesa do Reino. O todo \u00e9 superior \u00e0 parte.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>4. O di\u00e1logo social como contribui\u00e7\u00e3o para a paz<br \/>\n<\/strong><br \/>\n238.\tA evangeliza\u00e7\u00e3o implica tamb\u00e9m um caminho de di\u00e1logo. Neste momento, existem sobretudo tr\u00eas campos de di\u00e1logo onde a Igreja deve estar presente, cumprindo um servi\u00e7o a favor do pleno desenvolvimento do ser humano e procurando o bem comum: o di\u00e1logo com os Estados, com a sociedade \u2013 que inclui o di\u00e1logo com as culturas e as ci\u00eancias \u2013 e com os outros crentes que n\u00e3o fazem parte da Igreja Cat\u00f3lica. Em todos os casos, \u00aba Igreja fala a partir da luz que a f\u00e9 lhe d\u00e1\u00bb, oferece a sua experi\u00eancia de dois mil anos e conserva sempre na mem\u00f3ria as vidas e sofrimentos dos seres humanos. Isto ultrapassa a raz\u00e3o humana, mas tamb\u00e9m tem um significado que pode enriquecer a quantos n\u00e3o cr\u00eaem e convida a raz\u00e3o a alargar as suas perspectivas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">239.\tA Igreja proclama o \u00abevangelho da paz\u00bb (<em>Ef<\/em> 6, 15) e est\u00e1 aberta \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o com todas as autoridades nacionais e internacionais para cuidar deste bem universal t\u00e3o grande. Ao anunciar Jesus Cristo, que \u00e9 a paz em pessoa (cf.\u00a0<em>Ef<\/em> 2, 14), a nova evangeliza\u00e7\u00e3o incentiva todo o baptizado a ser instrumento de pacifica\u00e7\u00e3o e testemunha cred\u00edvel duma vida reconciliada. \u00c9 hora de saber como projectar, numa cultura que privilegie o di\u00e1logo como forma de encontro, a busca de consenso e de acordos mas sem a separar da preocupa\u00e7\u00e3o por uma sociedade justa, capaz de mem\u00f3ria e sem exclus\u00f5es. O autor principal, o sujeito hist\u00f3rico deste processo, \u00e9 a gente e a sua cultura, n\u00e3o uma classe, uma frac\u00e7\u00e3o, um grupo, uma elite. N\u00e3o precisamos de um projecto de poucos para poucos, ou de uma minoria esclarecida ou testemunhal que se aproprie de um sentimento colectivo. Trata-se de um acordo para viver juntos, de um pacto social e cultural.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">240.\tO cuidado e a promo\u00e7\u00e3o do bem comum da sociedade compete ao Estado. Este, com base nos princ\u00edpios de subsidiariedade e solidariedade e com um grande esfor\u00e7o de di\u00e1logo pol\u00edtico e cria\u00e7\u00e3o de consensos, desempenha um papel fundamental \u2013 que n\u00e3o pode ser delegado \u2013 na busca do desenvolvimento integral de todos. Este papel exige, nas circunst\u00e2ncias actuais, uma profunda humildade social.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">241.\tNo di\u00e1logo com o Estado e com a sociedade, a Igreja n\u00e3o tem solu\u00e7\u00f5es para todas as quest\u00f5es espec\u00edficas. Mas, juntamente com as v\u00e1rias for\u00e7as sociais, acompanha as propostas que melhor correspondam \u00e0 dignidade da pessoa humana e ao bem comum. Ao faz\u00ea-lo, prop\u00f5e sempre com clareza os valores fundamentais da exist\u00eancia humana, para transmitir convic\u00e7\u00f5es que possam depois traduzir-se em ac\u00e7\u00f5es pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O di\u00e1logo entre a f\u00e9, a raz\u00e3o e as ci\u00eancias<br \/>\n<\/em><br \/>\n242.\tO di\u00e1logo entre ci\u00eancia e f\u00e9 tamb\u00e9m faz parte da ac\u00e7\u00e3o evangelizadora que favorece a paz. O cientificismo e o positivismo recusam-se a \u00abadmitir, como v\u00e1lidas, formas de conhecimento distintas daquelas que s\u00e3o pr\u00f3prias das ci\u00eancias positivas\u00bb. A Igreja prop\u00f5e outro caminho, que exige uma s\u00edntese entre um uso respons\u00e1vel das metodologias pr\u00f3prias das ci\u00eancias emp\u00edricas e os outros saberes como a filosofia, a teologia, e a pr\u00f3pria f\u00e9 que eleva o ser humano at\u00e9 ao mist\u00e9rio que transcende a natureza e a intelig\u00eancia humana. A f\u00e9 n\u00e3o tem medo da raz\u00e3o; pelo contr\u00e1rio, procura-a e tem confian\u00e7a nela, porque \u00aba luz da raz\u00e3o e a luz da f\u00e9 prov\u00eam ambas de Deus\u00bb, e n\u00e3o se podem contradizer entre si. A evangeliza\u00e7\u00e3o est\u00e1 atenta aos progressos cient\u00edficos para os iluminar com a luz da f\u00e9 e da lei natural, tendo em vista procurar que sempre respeitem a centralidade e o valor supremo da pessoa humana em todas as fases da sua exist\u00eancia. Toda a sociedade pode ser enriquecida atrav\u00e9s deste di\u00e1logo que abre novos horizontes ao pensamento e amplia as possibilidades da raz\u00e3o. Tamb\u00e9m este \u00e9 um caminho de harmonia e pacifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">243.\tA Igreja n\u00e3o pretende deter o progresso admir\u00e1vel das ci\u00eancias. Pelo contr\u00e1rio, alegra-se e inclusivamente desfruta reconhecendo o enorme potencial que Deus deu \u00e0 mente humana. Quando o progresso das ci\u00eancias, mantendo-se com rigor acad\u00e9mico no campo do seu objecto espec\u00edfico, torna evidente uma determinada conclus\u00e3o que a raz\u00e3o n\u00e3o pode negar, a f\u00e9 n\u00e3o a contradiz. Nem os crentes podem pretender que uma opini\u00e3o cient\u00edfica que lhes agrada \u2013 e que nem sequer foi suficientemente comprovada \u2013 adquira o peso dum dogma de f\u00e9. Em certas ocasi\u00f5es, por\u00e9m, alguns cientistas v\u00e3o mais al\u00e9m do objecto formal da sua disciplina e exageram com afirma\u00e7\u00f5es ou conclus\u00f5es que extravasam o campo da pr\u00f3pria ci\u00eancia. Neste caso, n\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o que se prop\u00f5e, mas uma determinada ideologia que fecha o caminho a um di\u00e1logo aut\u00eantico, pac\u00edfico e frutuoso.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O di\u00e1logo ecum\u00e9nico<br \/>\n<\/em><br \/>\n244.\tO compromisso ecum\u00e9nico corresponde \u00e0 ora\u00e7\u00e3o do Senhor Jesus pedindo \u00abque todos sejam um s\u00f3\u00bb (<em>Jo<\/em> 17, 21). A credibilidade do an\u00fancio crist\u00e3o seria muito maior, se os crist\u00e3os superassem as suas divis\u00f5es e a Igreja realizasse \u00aba plenitude da catolicidade que lhe \u00e9 pr\u00f3pria naqueles filhos que, embora incorporados pelo Baptismo, est\u00e3o separados da sua plena comunh\u00e3o\u00bb. Devemos sempre lembrar-nos de que somos peregrinos, e peregrinamos juntos. Para isso, devemos abrir o cora\u00e7\u00e3o ao companheiro de estrada sem medos nem desconfian\u00e7as, e olhar primariamente para o que procuramos: a paz no rosto do \u00fanico Deus. O abrir-se ao outro tem algo de artesanal, a paz \u00e9 artesanal. Jesus disse-nos: \u00abFelizes os pacificadores\u00bb (<em>Mt<\/em> 5, 9). Neste esfor\u00e7o, mesmo entre n\u00f3s, cumpre-se a antiga profecia: \u00abTransformar\u00e3o as suas espadas em relhas de arado\u00bb (<em>Is<\/em> 2, 4).<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">245.\tSob esta luz, o ecumenismo \u00e9 uma contribui\u00e7\u00e3o para a unidade da fam\u00edlia humana. A presen\u00e7a no S\u00ednodo do Patriarca de Constantinopla, Sua Santidade Bartolomeu I, e do Arcebispo de Cantu\u00e1ria, Sua Gra\u00e7a Rowan Douglas Williams, foi um verdadeiro dom de Deus e um precioso testemunho crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">246.\tDada a gravidade do contra-testemunho da divis\u00e3o entre crist\u00e3os, sobretudo na \u00c1sia e na \u00c1frica, torna-se urgente a busca de caminhos de unidade. Os mission\u00e1rios, nesses continentes, referem repetidamente as cr\u00edticas, queixas e sarcasmos que recebem por causa do esc\u00e2ndalo dos crist\u00e3os divididos. Se nos concentrarmos nas convic\u00e7\u00f5es que nos unem e recordarmos o princ\u00edpio da hierarquia das verdades, poderemos caminhar decididamente para formas comuns de an\u00fancio, de servi\u00e7o e de testemunho. A imensa multid\u00e3o que n\u00e3o recebeu o an\u00fancio de Jesus Cristo n\u00e3o pode deixar-nos indiferentes. Por isso, o esfor\u00e7o por uma unidade que facilite a recep\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo deixa de ser mera diplomacia ou um dever for\u00e7ado para se transformar num caminho imprescind\u00edvel da evangeliza\u00e7\u00e3o. Os sinais de divis\u00e3o entre crist\u00e3os, em pa\u00edses que j\u00e1 est\u00e3o dilacerados pela viol\u00eancia, juntam outros motivos de conflito vindos da parte de quem deveria ser um activo fermento de paz. S\u00e3o tantas e t\u00e3o valiosas as coisas que nos unem! E, se realmente acreditamos na ac\u00e7\u00e3o livre e generosa do Esp\u00edrito, quantas coisas podemos aprender uns dos outros! N\u00e3o se trata apenas de receber informa\u00e7\u00f5es sobre os outros para os conhecermos melhor, mas de recolher o que o Esp\u00edrito semeou neles como um dom tamb\u00e9m para n\u00f3s. S\u00f3 para dar um exemplo, no di\u00e1logo com os irm\u00e3os ortodoxos, n\u00f3s, os cat\u00f3licos, temos a possibilidade de aprender algo mais sobre o significado da colegialidade episcopal e sobre a sua experi\u00eancia da sinodalidade. Atrav\u00e9s dum interc\u00e2mbio de dons, o Esp\u00edrito pode conduzir-nos cada vez mais para a verdade e o bem.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>As rela\u00e7\u00f5es com o Juda\u00edsmo<br \/>\n<\/em><br \/>\n247.\tUm olhar muito especial \u00e9 dirigido ao povo judeu, cuja Alian\u00e7a com Deus nunca foi revogada, porque \u00abos dons e o chamamento de Deus s\u00e3o irrevog\u00e1veis\u00bb (<em>Rm<\/em> 11, 29). A Igreja, que partilha com o Juda\u00edsmo uma parte importante das Escrituras Sagradas, considera o povo da Alian\u00e7a e a sua f\u00e9 como uma raiz sagrada da pr\u00f3pria identidade crist\u00e3 (cf.\u00a0<em>Rm<\/em> 11, 16-18). Como crist\u00e3os, n\u00e3o podemos considerar o Juda\u00edsmo como uma religi\u00e3o alheia, nem inclu\u00edmos os judeus entre quantos s\u00e3o chamados a deixar os \u00eddolos para se converter ao verdadeiro Deus (cf.\u00a0<em>1 Ts<\/em> 1, 9). Juntamente com eles, acreditamos no \u00fanico Deus que actua na hist\u00f3ria, e acolhemos, com eles, a Palavra revelada comum.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">248.\tO di\u00e1logo e a amizade com os filhos de Israel fazem parte da vida dos disc\u00edpulos de Jesus. O afecto que se desenvolveu leva-nos a lamentar, sincera e amargamente, as terr\u00edveis persegui\u00e7\u00f5es de que foram e s\u00e3o objecto, particularmente aquelas que envolvem ou envolveram crist\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">249.\tDeus continua a operar no povo da Primeira Alian\u00e7a e faz nascer tesouros de sabedoria que brotam do seu encontro com a Palavra divina. Por isso, a Igreja tamb\u00e9m se enriquece quando recolhe os valores do Juda\u00edsmo. Embora algumas convic\u00e7\u00f5es crist\u00e3s sejam inaceit\u00e1veis para o Juda\u00edsmo e a Igreja n\u00e3o possa deixar de anunciar Jesus como Senhor e Messias, h\u00e1 uma rica complementaridade que nos permite ler juntos os textos da B\u00edblia hebraica e ajudar-nos mutuamente a desentranhar as riquezas da Palavra, bem como compartilhar muitas convic\u00e7\u00f5es \u00e9ticas e a preocupa\u00e7\u00e3o comum pela justi\u00e7a e o desenvolvimento dos povos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O di\u00e1logo inter-religioso<br \/>\n<\/em><br \/>\n250.\tUma atitude de abertura na verdade e no amor deve caracterizar o di\u00e1logo com os crentes das religi\u00f5es n\u00e3o-crist\u00e3s, apesar dos v\u00e1rios obst\u00e1culos e dificuldades, de modo particular os fundamentalismos de ambos os lados. Este di\u00e1logo inter-religioso \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a paz no mundo e, por conseguinte, \u00e9 um dever para os crist\u00e3os e tamb\u00e9m para outras comunidades religiosas. Este di\u00e1logo \u00e9, em primeiro lugar, uma conversa sobre a vida humana ou simplesmente \u2013 como prop\u00f5em os Bispos da \u00cdndia \u2013 \u00abestar aberto a eles, compartilhando as suas alegrias e penas\u00bb. Assim aprendemos a aceitar os outros, na sua maneira diferente de ser, de pensar e de se exprimir. Com este m\u00e9todo, poderemos assumir juntos o dever de servir a justi\u00e7a e a paz, que dever\u00e1 tornar-se um crit\u00e9rio b\u00e1sico de todo o interc\u00e2mbio. Um di\u00e1logo, no qual se procurem a paz e a justi\u00e7a social, \u00e9 em si mesmo, para al\u00e9m do aspecto meramente pragm\u00e1tico, um compromisso \u00e9tico que cria novas condi\u00e7\u00f5es sociais. Os esfor\u00e7os \u00e0 volta dum tema espec\u00edfico podem transformar-se num processo em que, atrav\u00e9s da escuta do outro, ambas as partes encontram purifica\u00e7\u00e3o e enriquecimento. Portanto, estes esfor\u00e7os tamb\u00e9m podem ter o significado de amor \u00e0 verdade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">251.\tNeste di\u00e1logo, sempre am\u00e1vel e cordial, nunca se deve descuidar o v\u00ednculo essencial entre di\u00e1logo e an\u00fancio, que leva a Igreja a manter e intensificar as rela\u00e7\u00f5es com os n\u00e3o-crist\u00e3os. Um sincretismo conciliador seria, no fundo, um totalitarismo de quantos pretendem conciliar prescindindo de valores que os transcendem e dos quais n\u00e3o s\u00e3o donos. A verdadeira abertura implica conservar-se firme nas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es mais profundas, com uma identidade clara e feliz, mas \u00abdispon\u00edvel para compreender as do outro\u00bb e \u00absabendo que o di\u00e1logo pode enriquecer a ambos\u00bb. N\u00e3o nos serve uma abertura diplom\u00e1tica que diga sim a tudo para evitar problemas, porque seria um modo de enganar o outro e negar-lhe o bem que se recebeu como um dom para partilhar com generosidade. Longe de se contraporem, a evangeliza\u00e7\u00e3o e o di\u00e1logo inter-religioso apoiam-se e alimentam-se reciprocamente.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">252.\tNeste tempo, adquire grande import\u00e2ncia a rela\u00e7\u00e3o com os crentes do Isl\u00e3o, hoje particularmente presentes em muitos pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, onde podem celebrar livremente o seu culto e viver integrados na sociedade. N\u00e3o se deve jamais esquecer que eles \u00abprofessam seguir a f\u00e9 de Abra\u00e3o, e connosco adoram o Deus \u00fanico e misericordioso, que h\u00e1-de julgar os homens no \u00faltimo dia\u00bb. Os escritos sagrados do Isl\u00e3o conservam parte dos ensinamentos crist\u00e3os; Jesus Cristo e Maria s\u00e3o objecto de profunda venera\u00e7\u00e3o e \u00e9 admir\u00e1vel ver como jovens e idosos, mulheres e homens do Isl\u00e3o s\u00e3o capazes de dedicar diariamente tempo \u00e0 ora\u00e7\u00e3o e participar fielmente nos seus ritos religiosos. Ao mesmo tempo, muitos deles t\u00eam uma profunda convic\u00e7\u00e3o de que a pr\u00f3pria vida, na sua totalidade, \u00e9 de Deus e para Deus. Reconhecem tamb\u00e9m a necessidade de Lhe responder com um compromisso \u00e9tico e com a miseric\u00f3rdia para com os mais pobres.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">253.\tPara sustentar o di\u00e1logo com o Isl\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel a adequada forma\u00e7\u00e3o dos interlocutores, n\u00e3o s\u00f3 para que estejam s\u00f3lida e jubilosamente radicados na sua identidade, mas tamb\u00e9m para que sejam capazes de reconhecer os valores dos outros, compreender as preocupa\u00e7\u00f5es que subjazem \u00e0s suas reivindica\u00e7\u00f5es e fazer aparecer as convic\u00e7\u00f5es comuns. N\u00f3s, crist\u00e3os, dever\u00edamos acolher com afecto e respeito os imigrantes do Isl\u00e3o que chegam aos nossos pa\u00edses, tal como esperamos e pedimos para ser acolhidos e respeitados nos pa\u00edses de tradi\u00e7\u00e3o isl\u00e2mica. Rogo, imploro humildemente a esses pa\u00edses que assegurem liberdade aos crist\u00e3os para poderem celebrar o seu culto e viver a sua f\u00e9, tendo em conta a liberdade que os crentes do Isl\u00e3o gozam nos pa\u00edses ocidentais. Frente a epis\u00f3dios de fundamentalismo violento que nos preocupam, o afecto pelos verdadeiros crentes do Isl\u00e3o deve levar-nos a evitar odiosas generaliza\u00e7\u00f5es, porque o verdadeiro Isl\u00e3o e uma interpreta\u00e7\u00e3o adequada do Alcor\u00e3o op\u00f5em-se a toda a viol\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">254.\tOs n\u00e3o-crist\u00e3os fi\u00e9is \u00e0 sua consci\u00eancia podem, por gratuita iniciativa divina, viver \u00abjustificados por meio da gra\u00e7a de Deus\u00bb e, assim, \u00abassociados ao mist\u00e9rio pascal de Jesus Cristo\u00bb. Devido, por\u00e9m, \u00e0 dimens\u00e3o sacramental da gra\u00e7a santificante, a ac\u00e7\u00e3o divina neles tende a produzir sinais, ritos, express\u00f5es sagradas que, por sua vez, envolvem outros numa experi\u00eancia comunit\u00e1ria do caminho para Deus. N\u00e3o t\u00eam o significado e a efic\u00e1cia dos Sacramentos institu\u00eddos por Cristo, mas podem ser canais que o pr\u00f3prio Esp\u00edrito suscita para libertar os n\u00e3o-crist\u00e3os do imanentismo ateu ou de experi\u00eancias religiosas meramente individuais. O mesmo Esp\u00edrito suscita por toda a parte diferentes formas de sabedoria pr\u00e1tica que ajudam a suportar as car\u00eancias da vida e a viver com mais paz e harmonia. N\u00f3s, crist\u00e3os, podemos tirar proveito tamb\u00e9m desta riqueza consolidada ao longo dos s\u00e9culos, que nos pode ajudar a viver melhor as nossas pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O di\u00e1logo social num contexto de liberdade religiosa<br \/>\n<\/em><br \/>\n255.\tOs Padres sinodais lembraram a import\u00e2ncia do respeito pela liberdade religiosa, considerada um direito humano fundamental. Inclui \u00aba liberdade de escolher a religi\u00e3o que se cr\u00ea ser verdadeira e de manifestar publicamente a pr\u00f3pria cren\u00e7a\u00bb. Um s\u00e3o pluralismo, que respeite verdadeiramente aqueles que pensam diferente e os valorizem como tais, n\u00e3o implica uma privatiza\u00e7\u00e3o das religi\u00f5es, com a pretens\u00e3o de as reduzir ao sil\u00eancio e \u00e0 obscuridade da consci\u00eancia de cada um ou \u00e0 sua marginaliza\u00e7\u00e3o no recinto fechado das igrejas, sinagogas ou mesquitas. Tratar-se-ia, em definitivo, de uma nova forma de discrimina\u00e7\u00e3o e autoritarismo. O respeito devido \u00e0s minorias de agn\u00f3sticos ou de n\u00e3o-crentes n\u00e3o se deve impor de maneira arbitr\u00e1ria que silencie as convic\u00e7\u00f5es de maiorias crentes ou ignore a riqueza das tradi\u00e7\u00f5es religiosas. No fundo, isso fomentaria mais o ressentimento do que a toler\u00e2ncia e a paz.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">256.\tAo questionar-se sobre a incid\u00eancia p\u00fablica da religi\u00e3o, \u00e9 preciso distinguir diferentes modos de a viver. Tanto os intelectuais como os jornalistas caem, frequentemente, em generaliza\u00e7\u00f5es grosseiras e pouco acad\u00e9micas, quando falam dos defeitos das religi\u00f5es e, muitas vezes, n\u00e3o s\u00e3o capazes de distinguir que nem todos os crentes \u2013 nem todos os l\u00edderes religiosos \u2013 s\u00e3o iguais. Alguns pol\u00edticos aproveitam esta confus\u00e3o para justificar ac\u00e7\u00f5es discriminat\u00f3rias. Outras vezes, desprezam-se os escritos que surgiram no \u00e2mbito duma convic\u00e7\u00e3o crente, esquecendo que os textos religiosos cl\u00e1ssicos podem oferecer um significado para todas as \u00e9pocas, possuem uma for\u00e7a motivadora que abre sempre novos horizontes, estimula o pensamento, engrandece a mente e a sensibilidade. S\u00e3o desprezados pela miopia dos racionalismos. Ser\u00e1 razo\u00e1vel e inteligente releg\u00e1-los para a obscuridade, s\u00f3 porque nasceram no contexto duma cren\u00e7a religiosa? Cont\u00eam princ\u00edpios profundamente humanistas que possuem um valor racional, apesar de estarem permeados de s\u00edmbolos e doutrinas religiosos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">257.\tComo crentes, sentimo-nos pr\u00f3ximo tamb\u00e9m de todos aqueles que, n\u00e3o se reconhecendo parte de qualquer tradi\u00e7\u00e3o religiosa, buscam sinceramente a verdade, a bondade e a beleza, que, para n\u00f3s, t\u00eam a sua m\u00e1xima express\u00e3o e a sua fonte em Deus. Sentimo-los como preciosos aliados no compromisso pela defesa da dignidade humana, na constru\u00e7\u00e3o duma conviv\u00eancia pac\u00edfica entre os povos e na guarda da cria\u00e7\u00e3o. Um espa\u00e7o peculiar \u00e9 o dos chamados novos\u00a0<em>Are\u00f3pagos<\/em>, como o \u00ab\u00c1trio dos Gentios\u00bb, onde \u00abcrentes e n\u00e3o-crentes podem dialogar sobre os temas fundamentais da \u00e9tica, da arte e da ci\u00eancia, e sobre a busca da transcend\u00eancia\u00bb. Tamb\u00e9m este \u00e9 um caminho de paz para o nosso mundo ferido.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">258.\tA partir de alguns temas sociais, importantes para o futuro da humanidade, procurei explicitar uma vez mais a incontorn\u00e1vel dimens\u00e3o social do an\u00fancio do Evangelho, para encorajar todos os crist\u00e3os a manifest\u00e1-la sempre nas suas palavras, atitudes e ac\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">Cap\u00edtulo V<br \/>\nEVANGELIZADORES COM ESP\u00cdRITO<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">259.\tEvangelizadores com esp\u00edrito quer dizer evangelizadores que se abrem sem medo \u00e0 ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. No Pentecostes, o Esp\u00edrito faz os Ap\u00f3stolos sa\u00edrem de si mesmos e transforma-os em anunciadores das maravilhas de Deus, que cada um come\u00e7a a entender na pr\u00f3pria l\u00edngua. Al\u00e9m disso, o Esp\u00edrito Santo infunde a for\u00e7a para anunciar a novidade do Evangelho com ousadia (<em>parresia<\/em>), em voz alta e em todo o tempo e lugar, mesmo contra-corrente. Invoquemo-Lo hoje, bem apoiados na ora\u00e7\u00e3o, sem a qual toda a ac\u00e7\u00e3o corre o risco de ficar v\u00e3 e o an\u00fancio, no fim de contas, carece de alma. Jesus quer evangelizadores que anunciem a Boa Nova, n\u00e3o s\u00f3 com palavras mas sobretudo com uma vida transfigurada pela presen\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">260.\tNeste \u00faltimo cap\u00edtulo, n\u00e3o vou oferecer uma s\u00edntese da espiritualidade crist\u00e3, nem desenvolverei grandes temas como a ora\u00e7\u00e3o, a adora\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica ou a celebra\u00e7\u00e3o da f\u00e9, sobre os quais j\u00e1 possu\u00edmos preciosos textos do Magist\u00e9rio e escritos c\u00e9lebres de grandes autores. N\u00e3o pretendo substituir nem superar tanta riqueza. Limitar-me-ei simplesmente a propor algumas reflex\u00f5es acerca do esp\u00edrito da nova evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">261.\tQuando se diz de uma realidade que tem \u00abesp\u00edrito\u00bb, indica-se habitualmente uma mo\u00e7\u00e3o interior que impele, motiva, encoraja e d\u00e1 sentido \u00e0 ac\u00e7\u00e3o pessoal e comunit\u00e1ria. Uma evangeliza\u00e7\u00e3o com esp\u00edrito \u00e9 muito diferente de um conjunto de tarefas vividas como uma obriga\u00e7\u00e3o pesada, que quase n\u00e3o se tolera ou se suporta como algo que contradiz as nossas pr\u00f3prias inclina\u00e7\u00f5es e desejos. Como gostaria de encontrar palavras para encorajar uma esta\u00e7\u00e3o evangelizadora mais ardorosa, alegre, generosa, ousada, cheia de amor at\u00e9 ao fim e feita de vida contagiante! Mas sei que nenhuma motiva\u00e7\u00e3o ser\u00e1 suficiente, se n\u00e3o arde nos cora\u00e7\u00f5es o fogo do Esp\u00edrito. Em suma, uma evangeliza\u00e7\u00e3o com esp\u00edrito \u00e9 uma evangeliza\u00e7\u00e3o com o Esp\u00edrito Santo, j\u00e1 que Ele \u00e9 a alma da Igreja evangelizadora. Antes de propor algumas motiva\u00e7\u00f5es e sugest\u00f5es espirituais, invoco uma vez mais o Esp\u00edrito Santo; pe\u00e7o-Lhe que venha renovar, sacudir, impelir a Igreja numa decidida sa\u00edda para fora de si mesma a fim de evangelizar todos os povos.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Motiva\u00e7\u00f5es para um renovado impulso mission\u00e1rio<br \/>\n<\/strong><br \/>\n262.\tEvangelizadores com esp\u00edrito quer dizer evangelizadores que rezam e trabalham. Do ponto de vista da evangeliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o servem as propostas m\u00edsticas desprovidas de um vigoroso compromisso social e mission\u00e1rio, nem os discursos e ac\u00e7\u00f5es sociais e pastorais sem uma espiritualidade que transforme o cora\u00e7\u00e3o. Estas propostas parciais e desagregadoras alcan\u00e7am s\u00f3 pequenos grupos e n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a de ampla penetra\u00e7\u00e3o, porque mutilam o Evangelho. \u00c9 preciso cultivar sempre um espa\u00e7o interior que d\u00ea sentido crist\u00e3o ao compromisso e \u00e0 actividade. Sem momentos prolongados de adora\u00e7\u00e3o, de encontro orante com a Palavra, de di\u00e1logo sincero com o Senhor, as tarefas facilmente se esvaziam de significado, quebrantamo-nos com o cansa\u00e7o e as dificuldades, e o ardor apaga-se. A Igreja n\u00e3o pode dispensar o pulm\u00e3o da ora\u00e7\u00e3o, e alegra-me imenso que se multipliquem, em todas as institui\u00e7\u00f5es eclesiais, os grupos de ora\u00e7\u00e3o, de intercess\u00e3o, de leitura orante da Palavra, as adora\u00e7\u00f5es perp\u00e9tuas da Eucaristia. Ao mesmo tempo, \u00abh\u00e1 que rejeitar a tenta\u00e7\u00e3o duma espiritualidade intimista e individualista, que dificilmente se coaduna com as exig\u00eancias da caridade, com a l\u00f3gica da encarna\u00e7\u00e3o\u00bb. H\u00e1 o risco de que alguns momentos de ora\u00e7\u00e3o se tornem uma desculpa para evitar de dedicar a vida \u00e0 miss\u00e3o, porque a privatiza\u00e7\u00e3o do estilo de vida pode levar os crist\u00e3os a refugiarem-se nalguma falsa espiritualidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">263.\t\u00c9 salutar recordar-se dos primeiros crist\u00e3os e de tantos irm\u00e3os ao longo da hist\u00f3ria que se mantiveram transbordantes de alegria, cheios de coragem, incans\u00e1veis no an\u00fancio e capazes de uma grande resist\u00eancia activa. H\u00e1 quem se console, dizendo que hoje \u00e9 mais dif\u00edcil; temos, por\u00e9m, de reconhecer que o contexto do Imp\u00e9rio Romano n\u00e3o era favor\u00e1vel ao an\u00fancio do Evangelho, nem \u00e0 luta pela justi\u00e7a, nem \u00e0 defesa da dignidade humana. Em cada momento da hist\u00f3ria, est\u00e3o presentes a fraqueza humana, a busca doentia de si mesmo, a comodidade ego\u00edsta e, enfim, a concupisc\u00eancia que nos amea\u00e7a a todos. Isto est\u00e1 sempre presente, sob uma roupagem ou outra; deriva mais da limita\u00e7\u00e3o humana que das circunst\u00e2ncias. Por isso, n\u00e3o digamos que hoje \u00e9 mais dif\u00edcil; \u00e9 diferente. Em vez disso, aprendamos com os Santos que nos precederam e enfrentaram as dificuldades pr\u00f3prias do seu tempo. Com esta finalidade, proponho-vos que nos detenhamos a recuperar algumas motiva\u00e7\u00f5es que nos ajudem a imit\u00e1-los nos nossos dias.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva<br \/>\n<\/em><br \/>\n264.\tA primeira motiva\u00e7\u00e3o para evangelizar \u00e9 o amor que recebemos de Jesus, aquela experi\u00eancia de sermos salvos por Ele que nos impele a am\u00e1-Lo cada vez mais. Com efeito, um amor que n\u00e3o sentisse a necessidade de falar da pessoa amada, de a apresentar, de a tornar conhecida, que amor seria? Se n\u00e3o sentimos o desejo intenso de comunicar Jesus, precisamos de nos deter em ora\u00e7\u00e3o para Lhe pedir que volte a cativar-nos. Precisamos de o implorar cada dia, pedir a sua gra\u00e7a para que abra o nosso cora\u00e7\u00e3o frio e sacuda a nossa vida t\u00edbia e superficial. Colocados diante d\u2019Ele com o cora\u00e7\u00e3o aberto, deixando que Ele nos olhe, reconhecemos aquele olhar de amor que descobriu Natanael no dia em que Jesus Se fez presente e lhe disse: \u00abEu vi-te, quando estavas debaixo da figueira!\u00bb (<em>Jo<\/em> 1, 48). Como \u00e9 doce permanecer diante dum crucifixo ou de joelhos diante do Sant\u00edssimo Sacramento, e faz\u00ea-lo simplesmente para estar \u00e0 frente dos seus olhos! Como nos faz bem deixar que Ele volte a tocar a nossa vida e nos envie para comunicar a sua vida nova! Sucede ent\u00e3o que, em \u00faltima an\u00e1lise, \u00abo que n\u00f3s vimos e ouvimos, isso anunciamos\u00bb (<em>1 Jo<\/em> 1, 3). A melhor motiva\u00e7\u00e3o para se decidir a comunicar o Evangelho \u00e9 contempl\u00e1-lo com amor, \u00e9 deter-se nas suas p\u00e1ginas e l\u00ea-lo com o cora\u00e7\u00e3o. Se o abordamos desta maneira, a sua beleza deslumbra-nos, volta a cativar-nos vezes sem conta. Por isso, \u00e9 urgente recuperar um esp\u00edrito\u00a0<em>contemplativo<\/em>, que nos permita redescobrir, cada dia, que somos deposit\u00e1rios dum bem que humaniza, que ajuda a levar uma vida nova. N\u00e3o h\u00e1 nada de melhor para transmitir aos outros.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">265.\tToda a vida de Jesus, a sua forma de tratar os pobres, os seus gestos, a sua coer\u00eancia, a sua generosidade simples e quotidiana e, finalmente, a sua total dedica\u00e7\u00e3o, tudo \u00e9 precioso e fala \u00e0 nossa vida pessoal. Todas as vezes que algu\u00e9m volta a descobri-lo, convence-se de que \u00e9 isso mesmo o que os outros precisam, embora n\u00e3o o saibam: \u00abAquele que venerais sem O conhecer, \u00e9 Esse que eu vos anuncio\u00bb (<em>Act<\/em> 17, 23). \u00c0s vezes perdemos o entusiasmo pela miss\u00e3o, porque esquecemos que o Evangelho\u00a0<em>d\u00e1 resposta \u00e0s necessidades mais profundas<\/em> das pessoas, porque todos fomos criados para aquilo que o Evangelho nos prop\u00f5e: a amizade com Jesus e o amor fraterno. Quando se consegue exprimir, de forma adequada e bela, o conte\u00fado essencial do Evangelho, de certeza que essa mensagem fala aos anseios mais profundos do cora\u00e7\u00e3o: \u00abO mission\u00e1rio est\u00e1 convencido de que existe j\u00e1, nas pessoas e nos povos, pela ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, uma \u00e2nsia \u2013 mesmo se inconsciente \u2013 de conhecer a verdade acerca de Deus, do homem, do caminho que conduz \u00e0 libera\u00e7\u00e3o do pecado e da morte. O entusiasmo posto no an\u00fancio de Cristo deriva da convic\u00e7\u00e3o de responder a tal \u00e2nsia\u00bb.<br \/>\nO entusiasmo na evangeliza\u00e7\u00e3o funda-se nesta convic\u00e7\u00e3o. Temos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o um tesouro de vida e de amor que n\u00e3o pode enganar, a mensagem que n\u00e3o pode manipular nem desiludir. \u00c9 uma resposta que desce ao mais fundo do ser humano e pode sustent\u00e1-lo e elev\u00e1-lo. \u00c9 a verdade que n\u00e3o passa de moda, porque \u00e9 capaz de penetrar onde nada mais pode chegar. A nossa tristeza infinita s\u00f3 se cura com um amor infinito.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">266.\tEsta convic\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 sustentada com a experi\u00eancia pessoal, constantemente renovada, de saborear a sua amizade e a sua mensagem. N\u00e3o se pode perseverar numa evangeliza\u00e7\u00e3o cheia de ardor, se n\u00e3o se est\u00e1 convencido, por experi\u00eancia pr\u00f3pria, que n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa ter conhecido Jesus ou n\u00e3o O conhecer, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa caminhar com Ele ou caminhar tacteando, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa poder escut\u00e1-Lo ou ignorar a sua Palavra, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa poder contempl\u00e1-Lo, ador\u00e1-Lo, descansar n\u2019Ele ou n\u00e3o o poder fazer. N\u00e3o \u00e9 a mesma coisa procurar construir o mundo com o seu Evangelho em vez de o fazer unicamente com a pr\u00f3pria raz\u00e3o. Sabemos bem que a vida com Jesus se torna muito mais plena e, com Ele, \u00e9 mais f\u00e1cil encontrar o sentido para cada coisa. \u00c9 por isso que evangelizamos. O verdadeiro mission\u00e1rio, que n\u00e3o deixa jamais de ser disc\u00edpulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa mission\u00e1ria. Se uma pessoa n\u00e3o O descobre presente no cora\u00e7\u00e3o mesmo da entrega mission\u00e1ria, depressa perde o entusiasmo e deixa de estar seguro do que transmite, faltam-lhe for\u00e7a e paix\u00e3o. E uma pessoa que n\u00e3o est\u00e1 convencida, entusiasmada, segura, enamorada, n\u00e3o convence ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">267.\tUnidos a Jesus, procuramos o que Ele procura, amamos o que Ele ama. Em \u00faltima inst\u00e2ncia, o que procuramos \u00e9 a gl\u00f3ria do Pai, vivemos e agimos \u00abpara que seja prestado louvor \u00e0 gl\u00f3ria da sua gra\u00e7a\u00bb (<em>Ef<\/em> 1, 6). Se queremos entregar-nos a s\u00e9rio e com perseveran\u00e7a, esta motiva\u00e7\u00e3o deve superar toda e qualquer outra. O movente definitivo, o mais profundo, o maior, a raz\u00e3o e o sentido \u00faltimo de tudo o resto \u00e9 este: a gl\u00f3ria do Pai que Jesus procurou durante toda a sua exist\u00eancia. Ele \u00e9 o Filho eternamente feliz, com todo o seu ser \u00abno seio do Pai\u00bb (<em>Jo<\/em> 1, 18). Se somos mission\u00e1rios, antes de tudo \u00e9 porque Jesus nos disse: \u00abA gl\u00f3ria do meu Pai [consiste] em que deis muito fruto\u00bb (<em>Jo<\/em> 15, 8). Independentemente de que nos convenha, interesse, aproveite ou n\u00e3o, para al\u00e9m dos estreitos limites dos nossos desejos, da nossa compreens\u00e3o e das nossas motiva\u00e7\u00f5es, evangelizamos para a maior gl\u00f3ria do Pai que nos ama.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O prazer espiritual de ser povo<br \/>\n<\/em><br \/>\n268.\tA Palavra de Deus convida-nos tamb\u00e9m a reconhecer que somos povo: \u00abV\u00f3s que outrora n\u00e3o \u00e9reis um povo, agora sois povo de Deus\u00bb (<em>1 Pd<\/em> 2, 10). Para ser evangelizadores com esp\u00edrito \u00e9 preciso tamb\u00e9m desenvolver o prazer espiritual de estar pr\u00f3ximo da vida das pessoas, at\u00e9 chegar a descobrir que isto se torna fonte duma alegria superior. A miss\u00e3o \u00e9 uma paix\u00e3o por Jesus, e simultaneamente uma paix\u00e3o pelo seu povo. Quando paramos diante de Jesus crucificado, reconhecemos todo o seu amor que nos dignifica e sustenta, mas l\u00e1 tamb\u00e9m, se n\u00e3o formos cegos, come\u00e7amos a perceber que este olhar de Jesus se alonga e dirige, cheio de afecto e ardor, a todo o seu povo. L\u00e1 descobrimos novamente que Ele quer servir-Se de n\u00f3s para chegar cada vez mais perto do seu povo amado. Toma-nos do meio do povo e envia-nos ao povo, de tal modo que a nossa identidade n\u00e3o se compreende sem esta perten\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">269.\tO pr\u00f3prio Jesus \u00e9 o modelo desta op\u00e7\u00e3o evangelizadora que nos introduz no cora\u00e7\u00e3o do povo. Como nos faz bem v\u00ea-Lo perto de todos! Se falava com algu\u00e9m, fitava os seus olhos com uma profunda solicitude cheia de amor: \u00abJesus, fitando nele o olhar, sentiu afei\u00e7\u00e3o por ele\u00bb (<em>Mc<\/em> 10, 21). Vemo-Lo dispon\u00edvel ao encontro, quando manda aproximar-se o cego do caminho (cf.\u00a0<em>Mc<\/em> 10, 46-52) e quando come e bebe com os pecadores (cf.\u00a0<em>Mc<\/em> 2, 16), sem Se importar que O chamem de glut\u00e3o e beberr\u00e3o (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 11, 19). Vemo-Lo dispon\u00edvel, quando deixa uma prostituta ungir-Lhe os p\u00e9s (cf.\u00a0<em>Lc<\/em> 7, 36-50) ou quando recebe, de noite, Nicodemos (cf.<em> Jo<\/em> 3, 1-21). A entrega de Jesus na cruz \u00e9 apenas o culminar deste estilo que marcou toda a sua vida. Fascinados por este modelo, queremos inserir-nos a fundo na sociedade, partilhamos a vida com todos, ouvimos as suas preocupa\u00e7\u00f5es, colaboramos material e espiritualmente nas suas necessidades, alegramo-nos com os que est\u00e3o alegres, choramos com os que choram e comprometemo-nos na constru\u00e7\u00e3o de um mundo novo, lado a lado com os outros. Mas n\u00e3o por obriga\u00e7\u00e3o, nem como um peso que nos desgasta, mas como uma op\u00e7\u00e3o pessoal que nos enche de alegria e nos d\u00e1 uma identidade.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">270.\t\u00c0s vezes sentimos a tenta\u00e7\u00e3o de ser crist\u00e3os, mantendo uma prudente dist\u00e2ncia das chagas do Senhor. Mas Jesus quer que toquemos a mis\u00e9ria humana, que toquemos a carne sofredora dos outros. Espera que renunciemos a procurar aqueles abrigos pessoais ou comunit\u00e1rios que permitem manter-nos \u00e0 dist\u00e2ncia do n\u00f3 do drama humano, a fim de aceitarmos verdadeiramente entrar em contacto com a vida concreta dos outros e conhecermos a for\u00e7a da ternura. Quando o fazemos, a vida complica-se sempre maravilhosamente e vivemos a intensa experi\u00eancia de ser povo, a experi\u00eancia de pertencer a um povo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">271.\t\u00c9 verdade que, na nossa rela\u00e7\u00e3o com o mundo, somos convidados a dar raz\u00e3o da nossa esperan\u00e7a, mas n\u00e3o como inimigos que apontam o dedo e condenam. A advert\u00eancia \u00e9 muito clara: fazei-o \u00abcom mansid\u00e3o e respeito\u00bb (<em>1 Pd<\/em> 3, 16) e \u00abtanto quanto for poss\u00edvel e de v\u00f3s dependa, vivei em paz com todos os homens\u00bb (<em>Rm<\/em> 12, 18). E somos incentivados tamb\u00e9m a vencer \u00abo mal com o bem\u00bb (<em>Rm<\/em> 12, 21), sem nos cansarmos de \u00abfazer o bem\u00bb (<em>Gal<\/em> 6, 9) e sem pretendermos aparecer como superiores, antes \u00abconsiderai os outros superiores a v\u00f3s pr\u00f3prios\u00bb (<em>Fl<\/em> 2, 3). Na realidade, os Ap\u00f3stolos do Senhor \u00abtinham a simpatia de todo o povo\u00bb (<em>Act<\/em> 2, 47; cf. 4, 21.33; 5, 13). Est\u00e1 claro que Jesus n\u00e3o nos quer como pr\u00edncipes que olham desdenhosamente, mas como homens e mulheres do povo. Esta n\u00e3o \u00e9 a opini\u00e3o de um Papa, nem uma op\u00e7\u00e3o pastoral entre v\u00e1rias poss\u00edveis; s\u00e3o indica\u00e7\u00f5es da Palavra de Deus t\u00e3o claras, directas e contundentes, que n\u00e3o precisam de interpreta\u00e7\u00f5es que as despojariam da sua for\u00e7a interpeladora. Vivamo-las\u00a0<em>sine glossa<\/em>, sem coment\u00e1rios. Assim, experimentaremos a alegria mission\u00e1ria de partilhar a vida com o povo fiel de Deus, procurando acender o fogo no cora\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">272.\tO amor \u00e0s pessoas \u00e9 uma for\u00e7a espiritual que favorece o encontro em plenitude com Deus, a ponto de se dizer, de quem n\u00e3o ama o irm\u00e3o, que \u00abest\u00e1 nas trevas e nas trevas caminha\u00bb (<em>1 Jo<\/em> 2, 11), \u00abpermanece na morte\u00bb (<em>1 Jo<\/em> 3, 14) e \u00abn\u00e3o chegou a conhecer a Deus\u00bb (<em>1 Jo<\/em> 4, 8). Bento XVI disse que \u00abfechar os olhos diante do pr\u00f3ximo torna cegos tamb\u00e9m diante de Deus\u00bb, e que o amor \u00e9 fundamentalmente a\u00a0<em>\u00fanica<\/em> luz que \u00abilumina incessantemente um mundo \u00e0s escuras e nos d\u00e1 a coragem de viver e agir\u00bb. Portanto, quando vivemos a m\u00edstica de nos aproximar dos outros com a inten\u00e7\u00e3o de procurar o seu bem, ampliamos o nosso interior para receber os mais belos dons do Senhor. Cada vez que nos encontramos com um ser humano no amor, ficamos capazes de descobrir algo de novo sobre Deus. Cada vez que os nossos olhos se abrem para reconhecer o outro, ilumina-se mais a nossa f\u00e9 para reconhecer a Deus. Em consequ\u00eancia disto, se queremos crescer na vida espiritual, n\u00e3o podemos renunciar a ser mission\u00e1rios. A tarefa da evangeliza\u00e7\u00e3o enriquece a mente e o cora\u00e7\u00e3o, abre-nos horizontes espirituais, torna-nos mais sens\u00edveis para reconhecer a ac\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, faz-nos sair dos nossos esquemas espirituais limitados. Ao mesmo tempo, um mission\u00e1rio plenamente devotado ao seu trabalho experimenta o prazer de ser um manancial que transborda e refresca os outros. S\u00f3 pode ser mission\u00e1rio quem se sente bem procurando o bem do pr\u00f3ximo, desejando a felicidade dos outros. Esta abertura do cora\u00e7\u00e3o \u00e9 fonte de felicidade, porque \u00aba felicidade est\u00e1 mais em dar do que em receber\u00bb (<em>Act<\/em> 20, 35). N\u00e3o se vive melhor fugindo dos outros, escondendo-se, negando-se a partilhar, resistindo a dar, fechando-se na comodidade. Isto n\u00e3o \u00e9 sen\u00e3o um lento suic\u00eddio.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">273.\tA miss\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o do povo n\u00e3o \u00e9 uma parte da minha vida, ou um ornamento que posso p\u00f4r de lado; n\u00e3o \u00e9 um ap\u00eandice ou um momento entre tantos outros da minha vida. \u00c9 algo que n\u00e3o posso arrancar do meu ser, se n\u00e3o me quero destruir. Eu\u00a0<em>sou uma miss\u00e3o<\/em> nesta terra, e para isso estou neste mundo. \u00c9 preciso considerarmo-nos como que marcados a fogo por esta miss\u00e3o de iluminar, aben\u00e7oar, vivificar, levantar, curar, libertar. Nisto se revela a enfermeira aut\u00eantica , o professor aut\u00eantico, o pol\u00edtico aut\u00eantico, aqueles que decidiram, no mais \u00edntimo do seu ser, estar com os outros e ser para os outros. Mas, se uma pessoa coloca a tarefa dum lado e a vida privada do outro, tudo se torna cinzento e viver\u00e1 continuamente \u00e0 procura de reconhecimentos ou defendendo as suas pr\u00f3prias exig\u00eancias. Deixar\u00e1 de ser povo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">274.\tPara partilhar a vida com a gente e dar-nos generosamente, precisamos de reconhecer tamb\u00e9m que cada pessoa \u00e9 digna da nossa dedica\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o pelo seu aspecto f\u00edsico, suas capacidades, sua linguagem, sua mentalidade ou pelas satisfa\u00e7\u00f5es que nos pode dar, mas porque \u00e9 obra de Deus, criatura sua. Ele criou-a \u00e0 sua imagem, e reflecte algo da sua gl\u00f3ria. Cada ser humano \u00e9 objecto da ternura infinita do Senhor, e Ele mesmo habita na sua vida. Na cruz, Jesus Cristo deu o seu sangue precioso por essa pessoa. Independentemente da apar\u00eancia, cada um \u00e9\u00a0<em>imensamente sagrado e merece o nosso afecto e a nossa dedica\u00e7\u00e3o<\/em>. Por isso, se consigo ajudar uma s\u00f3 pessoa a viver melhor, isso j\u00e1 justifica o dom da minha vida. \u00c9 maravilhoso ser povo fiel de Deus. E ganhamos plenitude, quando derrubamos os muros e o cora\u00e7\u00e3o se enche de rostos e de nomes!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A ac\u00e7\u00e3o misteriosa do Ressuscitado e do seu Esp\u00edrito<br \/>\n<\/em><br \/>\n275.\tNo terceiro cap\u00edtulo, reflectimos sobre a car\u00eancia de espiritualidade profunda que se traduz no pessimismo, no fatalismo, na desconfian\u00e7a. Algumas pessoas n\u00e3o se dedicam \u00e0 miss\u00e3o, porque cr\u00eaem que nada pode mudar e assim, segundo elas, \u00e9 in\u00fatil esfor\u00e7ar-se. Pensam: \u00abPara qu\u00ea privar-me das minhas comodidades e prazeres, se n\u00e3o vejo algum resultado importante?\u00bb Com esta mentalidade, torna-se imposs\u00edvel ser mission\u00e1rio. Esta atitude \u00e9 precisamente uma desculpa maligna para continuar fechado na pr\u00f3pria comodidade, na pregui\u00e7a, na tristeza insatisfeita, no vazio ego\u00edsta. Trata-se de uma atitude autodestrutiva, porque \u00abo homem n\u00e3o pode viver sem esperan\u00e7a: a sua vida, condenada \u00e0 insignific\u00e2ncia, tornar-se-ia insuport\u00e1vel\u00bb. No caso de pensarmos que as coisas n\u00e3o v\u00e3o mudar, recordemos que Jesus Cristo triunfou sobre o pecado e a morte e possui todo o poder. Jesus Cristo vive verdadeiramente. Caso contr\u00e1rio, \u00abse Cristo n\u00e3o ressuscitou, \u00e9 v\u00e3 a nossa prega\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>1 Cor<\/em> 15, 14). Diz-nos o Evangelho que, quando os primeiros disc\u00edpulos sa\u00edram a pregar, \u00abo Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra\u00bb (<em>Mc<\/em> 16, 20). E o mesmo acontece hoje. Somos convidados a descobri-lo, a viv\u00ea-lo. Cristo ressuscitado e glorioso \u00e9 a fonte profunda da nossa esperan\u00e7a, e n\u00e3o nos faltar\u00e1 a sua ajuda para cumprir a miss\u00e3o que nos confia.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">276.\tA sua ressurrei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo do passado; cont\u00e9m uma for\u00e7a de vida que penetrou o mundo. Onde parecia que tudo morreu, voltam a aparecer por todo o lado os rebentos da ressurrei\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma for\u00e7a sem igual. \u00c9 verdade que muitas vezes parece que Deus n\u00e3o existe: vemos injusti\u00e7as, maldades, indiferen\u00e7as e crueldades que n\u00e3o cedem. Mas tamb\u00e9m \u00e9 certo que, no meio da obscuridade, sempre come\u00e7a a desabrochar algo de novo que, mais cedo ou mais tarde, produz fruto. Num campo arrasado, volta a aparecer a vida, tenaz e invenc\u00edvel. Haver\u00e1 muitas coisas m\u00e1s, mas o bem sempre tende a reaparecer e espalhar-se. Cada dia, no mundo, renasce a beleza, que ressuscita transformada atrav\u00e9s dos dramas da hist\u00f3ria. Os valores tendem sempre a reaparecer sob novas formas, e na realidade o ser humano renasceu muitas vezes de situa\u00e7\u00f5es que pareciam irrevers\u00edveis. Esta \u00e9 a for\u00e7a da ressurrei\u00e7\u00e3o, e cada evangelizador \u00e9 um instrumento deste dinamismo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">277.\tE continuamente aparecem tamb\u00e9m novas dificuldades, a experi\u00eancia do fracasso, as mesquinhices humanas que tanto ferem. Todos sabemos, por experi\u00eancia, que \u00e0s vezes uma tarefa n\u00e3o nos d\u00e1 as satisfa\u00e7\u00f5es que desejar\u00edamos, os frutos s\u00e3o escassos e as mudan\u00e7as s\u00e3o lentas, e vem-nos a tenta\u00e7\u00e3o de se dar por cansado. Todavia, n\u00e3o \u00e9 a mesma coisa quando algu\u00e9m, por cansa\u00e7o, baixa momentaneamente os bra\u00e7os e quando os baixa definitivamente dominado por um descontentamento cr\u00f3nico, por uma ac\u00e9dia que lhe mirra a alma. Pode acontecer que o cora\u00e7\u00e3o se canse de lutar, porque, em \u00faltima an\u00e1lise, se busca a si mesmo num carreirismo sedento de reconhecimentos, aplausos, pr\u00e9mios, promo\u00e7\u00f5es; ent\u00e3o a pessoa n\u00e3o baixa os bra\u00e7os, mas j\u00e1 n\u00e3o tem garra, carece de ressurrei\u00e7\u00e3o. Assim, o Evangelho, que \u00e9 a mensagem mais bela que h\u00e1 neste mundo, fica sepultado sob muitas desculpas.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">278.\tA f\u00e9 significa tamb\u00e9m acreditar n\u2019Ele, acreditar que nos ama verdadeiramente, que est\u00e1 vivo, que \u00e9 capaz de intervir misteriosamente, que n\u00e3o nos abandona, que tira bem do mal com o seu poder e a sua criatividade infinita. Significa acreditar que Ele caminha vitorioso na hist\u00f3ria \u00abe, com Ele, estar\u00e3o os chamados, os escolhidos, os fi\u00e9is\u00bb (<em>Ap<\/em> 17, 14). Acreditamos no Evangelho que diz que o Reino de Deus j\u00e1 est\u00e1 presente no mundo, e vai-se desenvolvendo-se aqui e al\u00e9m de v\u00e1rias maneiras: como a pequena semente que pode chegar a transformar-se numa grande \u00e1rvore (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 13, 31-32), como o punhado de fermento que leveda uma grande massa (cf.<em> Mt<\/em> 13, 33), e como a boa semente que cresce no meio do joio (cf.\u00a0<em>Mt<\/em> 13, 24-30) e sempre nos pode surpreender positivamente: ei-la que aparece, vem outra vez, luta para florescer de novo. A ressurrei\u00e7\u00e3o de Cristo produz por toda a parte rebentos deste mundo novo; e, ainda que os cortem, voltam a despontar, porque a ressurrei\u00e7\u00e3o do Senhor j\u00e1 penetrou a trama oculta desta hist\u00f3ria; porque Jesus n\u00e3o ressuscitou em v\u00e3o. N\u00e3o fiquemos \u00e0 margem desta marcha da esperan\u00e7a viva!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">279.\tComo nem sempre vemos estes rebentos, precisamos de uma certeza interior, ou seja, da convic\u00e7\u00e3o de que Deus pode actuar em qualquer circunst\u00e2ncia, mesmo no meio de aparentes fracassos, porque \u00abtrazemos este tesouro em vasos de barro\u00bb (<em>2 Cor<\/em> 4, 7). Esta certeza \u00e9 o que se chama \u00ab<em>sentido de mist\u00e9rio<\/em>\u00bb, que consiste em saber, com certeza, que a pessoa que se oferece e entrega a Deus por amor, seguramente ser\u00e1 fecunda (cf.\u00a0<em>Jo<\/em> 15, 5). Muitas vezes esta fecundidade \u00e9 invis\u00edvel, incontrol\u00e1vel, n\u00e3o pode ser contabilizada. A pessoa sabe com certeza que a sua vida dar\u00e1 frutos, mas sem pretender conhecer como, onde ou quando; est\u00e1 segura de que n\u00e3o se perde nenhuma das suas obras feitas com amor, n\u00e3o se perde nenhuma das suas preocupa\u00e7\u00f5es sinceras com os outros, n\u00e3o se perde nenhum acto de amor a Deus, n\u00e3o se perde nenhuma das suas generosas fadigas, n\u00e3o se perde nenhuma dolorosa paci\u00eancia. Tudo isto circula pelo mundo como uma for\u00e7a de vida. \u00c0s vezes invade-nos a sensa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o termos obtido resultado algum com os nossos esfor\u00e7os, mas a miss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um neg\u00f3cio nem um projecto empresarial, nem mesmo uma organiza\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria, n\u00e3o \u00e9 um espect\u00e1culo para que se possa contar quantas pessoas assistiram devido \u00e0 nossa propaganda. \u00c9 algo de muito mais profundo, que escapa a toda e qualquer medida. Talvez o Senhor Se sirva da nossa entrega para derramar b\u00ean\u00e7\u00e3os noutro lugar do mundo, aonde nunca iremos. O Esp\u00edrito Santo trabalha como quer, quando quer e onde quer; e n\u00f3s gastamo-nos com grande dedica\u00e7\u00e3o, mas sem pretender ver resultados espectaculares. Sabemos apenas que o dom de n\u00f3s mesmos \u00e9 necess\u00e1rio. No meio da nossa entrega criativa e generosa, aprendamos a descansar na ternura dos bra\u00e7os do Pai. Continuemos para diante, empenhemo-nos totalmente, mas deixemos que seja Ele a tornar fecundos, como melhor Lhe parecer, os nossos esfor\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">280.\tPara manter vivo o ardor mission\u00e1rio, \u00e9 necess\u00e1ria uma decidida confian\u00e7a no Esp\u00edrito Santo, porque Ele \u00abvem em aux\u00edlio da nossa fraqueza\u00bb (<em>Rm<\/em> 8, 26). Mas esta confian\u00e7a generosa tem de ser alimentada e, para isso, precisamos de O invocar constantemente. Ele pode curar-nos de tudo o que nos faz esmorecer no compromisso mission\u00e1rio. \u00c9 verdade que esta confian\u00e7a no invis\u00edvel pode causar-nos alguma vertigem: \u00e9 como mergulhar num mar onde n\u00e3o sabemos o que vamos encontrar. Eu mesmo o experimentei tantas vezes. Mas n\u00e3o h\u00e1 maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo Esp\u00edrito, renunciando a calcular e controlar tudo e permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde Ele quiser. O Esp\u00edrito Santo bem sabe o que faz falta em cada \u00e9poca e em cada momento. A isto chama-se ser misteriosamente fecundos!<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A for\u00e7a mission\u00e1ria da intercess\u00e3o<br \/>\n<\/em><br \/>\n281.\tH\u00e1 uma forma de ora\u00e7\u00e3o que nos incentiva particularmente a gastarmo-nos na evangeliza\u00e7\u00e3o e nos motiva a procurar o bem dos outros: \u00e9 a intercess\u00e3o. Fixemos, por momentos, o \u00edntimo dum grande evangelizador como S\u00e3o Paulo, para perceber como era a sua ora\u00e7\u00e3o. Esta estava repleta de seres humanos: \u00abEm todas as minhas ora\u00e7\u00f5es, sempre pe\u00e7o com alegria por todos v\u00f3s (&#8230;), pois tenho-vos no cora\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>Fl<\/em> 1, 4.7). Descobrimos, assim, que interceder n\u00e3o nos afasta da verdadeira contempla\u00e7\u00e3o, porque a contempla\u00e7\u00e3o que deixa de fora os outros \u00e9 uma farsa.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">282.\tEsta atitude transforma-se tamb\u00e9m num agradecimento a Deus pelos outros. \u00abAntes de mais, dou gra\u00e7as ao meu Deus por todos v\u00f3s, por meio de Jesus Cristo\u00bb (<em>Rm<\/em> 1, 8). Trata-se de um agradecimento constante: \u00abDou\u00a0<em>incessantemente<\/em> gra\u00e7as ao meu Deus por v\u00f3s, pela gra\u00e7a de Deus que vos foi concedida em Cristo Jesus\u00bb (<em>1 Cor<\/em> 1, 4); \u00ab<em>todas<\/em> as vezes que me lembro de v\u00f3s, dou gra\u00e7as ao meu Deus\u00bb (<em>Fl<\/em> 1, 3). N\u00e3o \u00e9 um olhar incr\u00e9dulo, negativo e sem esperan\u00e7a, mas uma vis\u00e3o espiritual, de f\u00e9 profunda, que reconhece aquilo que o pr\u00f3prio Deus faz neles. E, simultaneamente, \u00e9 a gratid\u00e3o que brota de um cora\u00e7\u00e3o verdadeiramente sol\u00edcito pelos outros. Deste modo, quando um evangelizador sai da ora\u00e7\u00e3o, o seu cora\u00e7\u00e3o tornou-se mais generoso, libertou-se da consci\u00eancia isolada e est\u00e1 ansioso por fazer o bem e partilhar a vida com os outros.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">283.\tOs grandes homens e mulheres de Deus foram grandes intercessores. A intercess\u00e3o \u00e9 como \u00abfermento\u00bb no seio da Sant\u00edssima Trindade. \u00c9 penetrarmos no Pai e descobrirmos novas dimens\u00f5es que iluminam as situa\u00e7\u00f5es concretas e as mudam. Poder\u00edamos dizer que o cora\u00e7\u00e3o de Deus se deixa comover pela intercess\u00e3o, mas na realidade Ele sempre nos antecipa, pelo que, com a nossa intercess\u00e3o, apenas possibilitamos que o seu poder, o seu amor e a sua lealdade se manifestem mais claramente no povo.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>2. Maria, a M\u00e3e da evangeliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong><br \/>\n284.\tJuntamente com o Esp\u00edrito Santo, sempre est\u00e1 Maria no meio do povo. Ela reunia os disc\u00edpulos para O invocarem (<em>Act<\/em> 1, 14), e assim tornou poss\u00edvel a explos\u00e3o mission\u00e1ria que se deu no Pentecostes. Ela \u00e9 a M\u00e3e da Igreja evangelizadora e, sem Ela, n\u00e3o podemos compreender cabalmente o esp\u00edrito da nova evangeliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>O dom de Jesus ao seu povo<br \/>\n<\/em><br \/>\n285.\tNa cruz, quando Cristo suportava em sua carne o dram\u00e1tico encontro entre o pecado do mundo e a miseric\u00f3rdia divina, p\u00f4de ver a seus p\u00e9s a presen\u00e7a consoladora da M\u00e3e e do amigo. Naquele momento crucial, antes de declarar consumada a obra que o Pai Lhe havia confiado, Jesus disse a Maria: \u00abMulher, eis o teu filho!\u00bb E, logo a seguir, disse ao amigo bem-amado: \u00abEis a tua m\u00e3e!\u00bb (<em>Jo<\/em> 19, 26-27). Estas palavras de Jesus, no limiar da morte, n\u00e3o exprimem primariamente uma terna preocupa\u00e7\u00e3o por sua M\u00e3e; mas s\u00e3o, antes, uma f\u00f3rmula de revela\u00e7\u00e3o que manifesta o mist\u00e9rio duma miss\u00e3o salv\u00edfica especial. Jesus deixava-nos a sua M\u00e3e como nossa M\u00e3e. E s\u00f3 depois de fazer isto \u00e9 que Jesus p\u00f4de sentir que \u00abtudo se consumara\u00bb (<em>Jo<\/em> 19, 28). Ao p\u00e9 da cruz, na hora suprema da nova cria\u00e7\u00e3o, Cristo conduz-nos a Maria; conduz-nos a Ela, porque n\u00e3o quer que caminhemos sem uma m\u00e3e; e, nesta imagem materna, o povo l\u00ea todos os mist\u00e9rios do Evangelho. N\u00e3o \u00e9 do agrado do Senhor que falte \u00e0 sua Igreja o \u00edcone feminino. Ela, que O gerou com tanta f\u00e9, tamb\u00e9m acompanha \u00abo resto da sua descend\u00eancia, isto \u00e9, os que observam os mandamentos de Deus e guardam o testemunho de Jesus\u00bb (<em>Ap<\/em> 12, 17). Esta liga\u00e7\u00e3o \u00edntima entre Maria, a Igreja e cada fiel, enquanto de maneira diversa geram Cristo, foi maravilhosamente expressa pelo Beato Isaac da Estrela: \u00abNas Escrituras divinamente inspiradas, o que se atribui em geral \u00e0 Igreja, Virgem e M\u00e3e, aplica-se em especial \u00e0 Virgem Maria (&#8230;). Alem disso, cada alma fiel \u00e9 igualmente, a seu modo, esposa do Verbo de Deus, m\u00e3e de Cristo, filha e irm\u00e3, virgem e m\u00e3e fecunda. (&#8230;) No tabern\u00e1culo do ventre de Maria, Cristo habitou durante nove meses; no tabern\u00e1culo da f\u00e9 da Igreja, permanecer\u00e1 at\u00e9 ao fim do mundo; no conhecimento e amor da alma fiel habitar\u00e1 pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">286.\tMaria \u00e9 aquela que sabe transformar um curral de animais na casa de Jesus, com uns pobres paninhos e uma montanha de ternura. Ela \u00e9 a serva humilde do Pai, que transborda de alegria no louvor. \u00c9 a amiga sempre sol\u00edcita para que n\u00e3o falte o vinho na nossa vida. \u00c9 aquela que tem o cora\u00e7\u00e3o trespassado pela espada, que compreende todas as penas. Como M\u00e3e de todos, \u00e9 sinal de esperan\u00e7a para os povos que sofrem as dores do parto at\u00e9 que germine a justi\u00e7a. Ela \u00e9 a mission\u00e1ria que Se aproxima de n\u00f3s, para nos acompanhar ao longo da vida, abrindo os cora\u00e7\u00f5es \u00e0 f\u00e9 com o seu afecto materno. Como uma verdadeira m\u00e3e, caminha connosco, luta connosco e aproxima-nos incessantemente do amor de Deus. Atrav\u00e9s dos diferentes t\u00edtulos marianos, geralmente ligados aos santu\u00e1rios, compartilha as vicissitudes de cada povo que recebeu o Evangelho e entra a formar parte da sua identidade hist\u00f3rica. Muitos pais crist\u00e3os pedem o Baptismo para seus filhos num santu\u00e1rio mariano, manifestando assim a f\u00e9 na ac\u00e7\u00e3o materna de Maria que gera novos filhos para Deus. \u00c9 l\u00e1, nos santu\u00e1rios, que se pode observar como Maria re\u00fane ao seu redor os filhos que, com grandes sacrif\u00edcios, v\u00eam peregrinos para A ver e deixar-se olhar por Ela. L\u00e1 encontram a for\u00e7a de Deus para suportar os sofrimentos e as fadigas da vida. Como a S\u00e3o Jo\u00e3o Diego, Maria oferece-lhes a car\u00edcia da sua consola\u00e7\u00e3o materna e diz-lhes: \u00abN\u00e3o se perturbe o teu cora\u00e7\u00e3o. (&#8230;) N\u00e3o estou aqui eu, que sou tua M\u00e3e?\u00bb<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>A Estrela da nova evangeliza\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/em><br \/>\n287.\t\u00c0 M\u00e3e do Evangelho vivente, pedimos a sua intercess\u00e3o a fim de que este convite para uma nova etapa da evangeliza\u00e7\u00e3o seja acolhido por toda a comunidade eclesial. Ela \u00e9 a mulher de f\u00e9, que vive e caminha na f\u00e9, e \u00aba sua excepcional peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9 representa um ponto de refer\u00eancia constante para a Igreja\u00bb. Ela deixou-Se conduzir pelo Esp\u00edrito, atrav\u00e9s dum itiner\u00e1rio de f\u00e9, rumo a uma destina\u00e7\u00e3o feita de servi\u00e7o e fecundidade. Hoje fixamos n\u2019Ela o olhar, para que nos ajude a anunciar a todos a mensagem de salva\u00e7\u00e3o e para que os novos disc\u00edpulos se tornem operosos evangelizadores. Nesta peregrina\u00e7\u00e3o evangelizadora, n\u00e3o faltam as fases de aridez, de oculta\u00e7\u00e3o e at\u00e9 de um certo cansa\u00e7o, como as que viveu Maria nos anos de Nazar\u00e9 enquanto Jesus crescia: \u00abEste \u00e9 o in\u00edcio do Evangelho, isto \u00e9, da boa nova, da jubilosa nova. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, por\u00e9m, perceber naquele in\u00edcio um particular aperto do cora\u00e7\u00e3o, unido a uma esp\u00e9cie de \u201cnoite da f\u00e9\u201d \u2013 para usar as palavras de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u2013 como que um \u201cv\u00e9u\u201d atrav\u00e9s do qual \u00e9 for\u00e7oso aproximar-se do Invis\u00edvel e viver na intimidade com o mist\u00e9rio. Foi deste modo efectivamente que Maria, durante muitos anos, permaneceu na intimidade com o mist\u00e9rio do seu Filho, e avan\u00e7ou no seu itiner\u00e1rio de f\u00e9\u00bb.<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\">288.\tH\u00e1 um estilo mariano na actividade evangelizadora da Igreja. Porque sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na for\u00e7a revolucion\u00e1ria da ternura e do afecto. N\u2019Ela, vemos que a humildade e a ternura n\u00e3o s\u00e3o virtudes dos fracos, mas dos fortes, que n\u00e3o precisam de maltratar os outros para se sentir importantes. Fixando-A, descobrimos que aquela que louvava a Deus porque \u00abderrubou os poderosos de seus tronos\u00bb e \u00abaos ricos despediu de m\u00e3os vazias\u00bb (<em>Lc<\/em> 1, 52.53) \u00e9 mesma que assegura o aconchego dum lar \u00e0 nossa busca de justi\u00e7a. E \u00e9 a mesma tamb\u00e9m que conserva cuidadosamente \u00abtodas estas coisas ponderando-as no seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb (<em>Lc<\/em> 2, 19). Maria sabe reconhecer os vest\u00edgios do Esp\u00edrito de Deus tanto nos grandes acontecimentos como naqueles que parecem impercept\u00edveis. \u00c9 contemplativa do mist\u00e9rio de Deus no mundo, na hist\u00f3ria e na vida di\u00e1ria de cada um e de todos. \u00c9 a mulher orante e trabalhadora em Nazar\u00e9, mas \u00e9 tamb\u00e9m nossa Senhora da prontid\u00e3o, a que sai \u00ab\u00e0 pressa\u00bb (<em>Lc<\/em> 1, 39) da sua povoa\u00e7\u00e3o para ir ajudar os outros. Esta din\u00e2mica de justi\u00e7a e ternura, de contempla\u00e7\u00e3o e de caminho para os outros faz d\u2019Ela um modelo eclesial para a evangeliza\u00e7\u00e3o. Pedimos-Lhe que nos ajude, com a sua ora\u00e7\u00e3o materna, para que a Igreja se torne uma casa para muitos, uma m\u00e3e para todos os povos, e torne poss\u00edvel o nascimento dum mundo novo. \u00c9 o Ressuscitado que nos diz, com uma for\u00e7a que nos enche de imensa confian\u00e7a e firm\u00edssima esperan\u00e7a: \u00abEu renovo todas as coisas\u00bb (<em>Ap<\/em> 21, 5). Com Maria, avan\u00e7amos confiantes para esta promessa, e dizemos-Lhe:<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Virgem e M\u00e3e Maria,<\/em><br \/>\n<em>V\u00f3s que, movida pelo Esp\u00edrito,<\/em><br \/>\n<em>acolhestes o Verbo da vida<\/em><br \/>\n<em>na profundidade da vossa f\u00e9 humilde,<\/em><br \/>\n<em>totalmente entregue ao Eterno,<\/em><br \/>\n<em>ajudai-nos a dizer o nosso \u00absim\u00bb<\/em><br \/>\n<em>perante a urg\u00eancia, mais imperiosa do que nunca,<\/em><br \/>\n<em>de fazer ressoar a Boa Nova de Jesus.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>V\u00f3s, cheia da presen\u00e7a de Cristo,<\/em><br \/>\n<em>levastes a alegria a Jo\u00e3o o Baptista,<\/em><br \/>\n<em>fazendo-o exultar no seio de sua m\u00e3e.<\/em><br \/>\n<em>V\u00f3s, estremecendo de alegria,<\/em><br \/>\n<em>cantastes as maravilhas do Senhor.<\/em><br \/>\n<em>V\u00f3s, que permanecestes firme diante da Cruz<\/em><br \/>\n<em>com uma f\u00e9 inabal\u00e1vel,<\/em><br \/>\n<em>e recebestes a jubilosa consola\u00e7\u00e3o da ressurrei\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>reunistes os disc\u00edpulos \u00e0 espera do Esp\u00edrito<\/em><br \/>\n<em>para que nascesse a Igreja evangelizadora.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Alcan\u00e7ai-nos agora um novo ardor de ressuscitados<\/em><br \/>\n<em>para levar a todos o Evangelho da vida<\/em><br \/>\n<em>que vence a morte.<\/em><br \/>\n<em>Dai-nos a santa ousadia de buscar novos caminhos<\/em><br \/>\n<em>para que chegue a todos<\/em><br \/>\n<em>o dom da beleza que n\u00e3o se apaga.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>V\u00f3s, Virgem da escuta e da contempla\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>M\u00e3e do amor, esposa das n\u00fapcias eternas<\/em><br \/>\n<em>intercedei pela Igreja, da qual sois o \u00edcone pur\u00edssimo,<\/em><br \/>\n<em>para que ela nunca se feche nem se detenha<\/em><br \/>\n<em>na sua paix\u00e3o por instaurar o Reino.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>Estrela da nova evangeliza\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>ajudai-nos a refulgir com o testemunho da comunh\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em>do servi\u00e7o, da f\u00e9 ardente e generosa,<\/em><br \/>\n<em>da justi\u00e7a e do amor aos pobres,<\/em><br \/>\n<em>para que a alegria do Evangelho<\/em><br \/>\n<em>chegue at\u00e9 aos confins da terra<\/em><br \/>\n<em>e nenhuma periferia fique privada da sua luz.<\/em><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><em>M\u00e3e do Evangelho vivente,<\/em><br \/>\n<em>manancial de alegria para os pequeninos,<\/em><br \/>\n<em>rogai por n\u00f3s.<\/em><br \/>\n<em>Amen. Aleluia!<br \/>\n<\/em><br \/>\nDado em Roma, junto de S\u00e3o Pedro, no encerramento do\u00a0<em>Ano da F\u00e9<\/em>, dia 24 de Novembro \u2013 Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo \u2013 do ano de 2013, primeiro do meu Pontificado.<br \/>\n[<em>Franciscus PP<\/em>]<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>\u00cdNDICE<\/strong><\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Alegria que se renova e comunica<\/strong> [2-8]\t \u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.. 2<br \/>\n<strong>2. A doce e reconfortante alegria de evangelizar<\/strong> [9-10] \u2026\u2026\u2026\u2026.. 6<br \/>\n<em>Uma eterna novidade<\/em> [11-13] \u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.. 7<br \/>\n<strong>3. A nova evangeliza\u00e7\u00e3o para a transmiss\u00e3o da f\u00e9<\/strong> [14-15] \u2026\u2026\u2026\u2026.. 9<br \/>\n<em>A proposta desta Exorta\u00e7\u00e3o e seus contornos<\/em> [16-18] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.. 11<br \/>\nCap\u00edtulo I<br \/>\nA TRANSFORMA\u00c7\u00c3O MISSION\u00c1RIA DA IGREJA<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Uma Igreja \u00abem sa\u00edda\u00bb<\/strong> [20-23] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..\u2026\u2026\u2026.. 13<br \/>\n<em>\u00abPrimeirear\u00bb, envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar<\/em> [24] ..\u2026.. 14<br \/>\n<strong>2. Pastoral em convers\u00e3o<\/strong> [25-26] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;\u2026\u2026.. 16<br \/>\n<em>Uma renova\u00e7\u00e3o eclesial inadi\u00e1vel<\/em> [27-33] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.\u2026\u2026\u2026\u2026.. 17<em> <\/em><br \/>\n<strong>3. A partir do cora\u00e7\u00e3o do Evangelho<\/strong> [34-39] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;\u2026\u2026.. 21<br \/>\n<strong>4. A miss\u00e3o que se encarna nas limita\u00e7\u00f5es humanas<\/strong> [40-45] &#8230;\u2026.. 23<br \/>\n<strong>5. Uma m\u00e3e de cora\u00e7\u00e3o aberto<\/strong> [46-49] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;..\u2026\u2026.. 27<br \/>\nCap\u00edtulo II<br \/>\nNA CRISE DO COMPROMISSO COMUNIT\u00c1RIO<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Alguns desafios do mundo actual<\/strong> [52] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026.. 30<br \/>\n<em>N\u00e3o a uma economia da exclus\u00e3o<\/em> [53-54] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026.. 30<br \/>\n<em>N\u00e3o \u00e0 nova idolatria do dinheiro<\/em> [55-56] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026.. 31<br \/>\n<em>N\u00e3o a um dinheiro que governa em vez de servir<\/em> [57-58] \u2026&#8230;\u2026\u2026.. 32<br \/>\n<em>N\u00e3o \u00e0 desigualdade social que gera viol\u00eancia<\/em> [59-60] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.. 33<br \/>\n<em>Alguns desafios culturais<\/em> [61-67] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;\u2026\u2026.. 35<br \/>\n<em>Desafios da incultura\u00e7\u00e3o da f\u00e9<\/em> [68-70] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026.. 38<br \/>\n<em>Desafios das culturas urbanas<\/em> [71-75] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026.. 40<br \/>\n<strong>2. Tenta\u00e7\u00f5es dos agentes pastorais<\/strong> [76-77] \u2026..\u2026\u2026..\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026.. 42<br \/>\n<em>Sim ao desafio duma espiritualidade mission\u00e1ria<\/em> [78-80] \u2026&#8230;.\u2026\u2026.. 43<br \/>\n<em>N\u00e3o \u00e0 ac\u00e9dia ego\u00edsta<\/em> [81-83] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.\u2026\u2026.. 45<br \/>\n<em>N\u00e3o ao pessimismo est\u00e9ril<\/em> [84-86] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;\u2026\u2026.. 46<br \/>\n<em>Sim \u00e0s rela\u00e7\u00f5es novas geradas por Jesus Cristo<\/em> [87-92] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026.\u2026.. 48<br \/>\n<em>N\u00e3o ao mundanismo espiritual<\/em> [93-97] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026&#8230; 51<br \/>\n<em>N\u00e3o \u00e0 guerra entre n\u00f3s<\/em> [98-101] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;\u2026\u2026.. 53<br \/>\n<em>Outros desafios eclesiais<\/em> [102-109] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.. 55<br \/>\nCap\u00edtulo III<br \/>\nO AN\u00daNCIO DO EVANGELHO<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. Todo o povo de Deus anuncia o Evangelho<\/strong> [111] \u2026..\u2026\u2026\u2026.\u2026\u2026.. 60<br \/>\n<em>Um povo para todos<\/em> [112-114] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;\u2026\u2026.. 60<br \/>\n<em>Um povo com muitos rostos<\/em> [115-118]<em> <\/em>\u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026&#8230; 62<br \/>\n<em>Todos somos disc\u00edpulos mission\u00e1rios<\/em> [119-121] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;\u2026\u2026.. 65<em> <\/em><br \/>\n<em>A for\u00e7a evangelizadora da piedade popular<\/em> [122-126] \u2026..\u2026\u2026\u2026.\u2026\u2026.. 66<br \/>\n<em>De pessoa a pessoa<\/em> [127-129] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.\u2026\u2026.. 69<br \/>\n<em>Carismas ao servi\u00e7o da comunh\u00e3o evangelizadora<\/em> [130-131] \u2026&#8230;.\u2026.\u2026.. 70<br \/>\n<em>Cultura, pensamento e educa\u00e7\u00e3o<\/em> [132-134] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026..\u2026&#8230;.. 71<br \/>\n<strong>2. A homilia<\/strong> [135-136] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230; 72<br \/>\n<em>O contexto lit\u00fargico<\/em> [137-138] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.\u2026.. 73<br \/>\n<em>A conversa da m\u00e3e<\/em> [139-141] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.\u2026\u2026.. 74<br \/>\n<em>Palavras que abrasam os cora\u00e7\u00f5es<\/em> [142-144] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;.\u2026\u2026.. 75<br \/>\n<strong>3. A prepara\u00e7\u00e3o da prega\u00e7\u00e3o<\/strong> [145] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026\u2026&#8230;\u2026.. 77<br \/>\n<em>O culto da verdade<\/em> [146-148] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;.\u2026\u2026.. 77<br \/>\n<em>A personaliza\u00e7\u00e3o da Palavra<\/em> [148-151] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026.\u2026.. 79<em> <\/em><br \/>\n<em>A leitura espiritual <\/em>[152-153] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;..\u2026\u2026.. 81<br \/>\n<em>\u00c0 escuta do povo<\/em> [154-155] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..\u2026\u2026.. 82<br \/>\n<em>Recursos pedag\u00f3gicos<\/em> [156-159] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026\u2026..\u2026.. 84<br \/>\n<strong>4. Uma evangeliza\u00e7\u00e3o para o aprofundamento do querigma<\/strong> [160-162] . 85<br \/>\n<em>Uma catequese querigm\u00e1tica e mistag\u00f3gica <\/em>[163-168] \u2026..\u2026\u2026\u2026.\u2026\u2026.. 87<br \/>\n<em>O acompanhamento pessoal dos processos de crescimento<\/em> [169-173] \u2026&#8230;. 90<br \/>\n<em>Ao redor da Palavra de Deus <\/em>[174-175] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;..\u2026\u2026.. 92<br \/>\nCap\u00edtulo IV<br \/>\nA DIMENS\u00c3O SOCIAL DA EVANGELIZA\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p style=\"padding-left: 30px;\"><strong>1. As repercuss\u00f5es comunit\u00e1rias e sociais do querigma<\/strong> [177] \u2026&#8230;. 94<br \/>\n<em>Confiss\u00e3o da f\u00e9 e compromisso social<\/em> [178-179] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 94<br \/>\n<em>O Reino que nos chama<\/em> [180-181] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026\u2026&#8230;\u2026.. 96<br \/>\n<em>A doutrina da Igreja sobre as quest\u00f5es sociais<\/em> [182-185] \u2026\u2026.\u2026\u2026.. 97<br \/>\n<strong>2. A inclus\u00e3o social dos pobres<\/strong> [186] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.\u2026\u2026&#8230; 99<br \/>\n<em>Unidos a Deus, ouvimos um clamor<\/em> [187-192] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;.. 99<br \/>\n<em>Fidelidade ao Evangelho, para n\u00e3o correr em v\u00e3o<\/em> [193-196] \u2026..\u2026\u2026&#8230;. 102<br \/>\n<em>O lugar privilegiado dos pobres no povo de Deus <\/em>[197-201] \u2026..\u2026\u2026&#8230;. 105<br \/>\n<em>Economia e distribui\u00e7\u00e3o das entradas<\/em> [202-208] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 108<br \/>\n<em>Cuidar da fragilidade<\/em> [209-216] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 110<br \/>\n<strong>3. O bem comum e a paz social<\/strong> [217-221] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230; 114<br \/>\n<em>O tempo \u00e9 superior ao espa\u00e7o<\/em> [222-225] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230; 115<br \/>\n<em>A unidade prevalece sobre o conflito<\/em> [226-230] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 117<br \/>\n<em>A realidade \u00e9 mais importante do que a ideia<\/em> [231-233] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230; 118<br \/>\n<em>O todo \u00e9 superior \u00e0 parte<\/em> [234-237] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 120<br \/>\n<strong>4. O di\u00e1logo social como contribui\u00e7\u00e3o para a paz<\/strong> [238-241] \u2026..\u2026\u2026&#8230; 121<br \/>\n<em>O di\u00e1logo entre a f\u00e9, a raz\u00e3o e as ci\u00eancias<\/em> [242-243] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230; 123<br \/>\n<em>O di\u00e1logo ecum\u00e9nico<\/em> [244-246] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230;.. 124<br \/>\n<em>As rela\u00e7\u00f5es com o Juda\u00edsmo<\/em> [247-249] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;&#8230; 125<br \/>\n<em>O di\u00e1logo inter-religioso<\/em> [250-254] \u2026..\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 126<br \/>\n<em>O di\u00e1logo social num contexto de liberdade religiosa<\/em> [255-258] \u2026&#8230;. 129<br \/>\nCap\u00edtulo V<br \/>\nEVANGELIZADORES COM ESP\u00cdRITO<br \/>\n<strong>1. Motiva\u00e7\u00f5es para um renovado impulso mission\u00e1rio<\/strong> [262-263]<strong> <\/strong>\u2026&#8230;. 133<br \/>\n<em>O encontro pessoal com o amor de Jesus que nos salva<\/em> [264-267]<strong> <\/strong>\u2026&#8230;. 134<br \/>\n<em>O prazer espiritual de ser povo<\/em> [268-274]<strong> <\/strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 137<br \/>\n<em>A ac\u00e7\u00e3o misteriosa do Ressuscitado e do seu Esp\u00edrito<\/em> [275-280]<strong> <\/strong>\u2026&#8230;. 140<br \/>\n<em>A for\u00e7a mission\u00e1ria da intercess\u00e3o<\/em> [281-283]<strong> <\/strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026.. 144<br \/>\n<strong>2. Maria, a M\u00e3e da evangeliza\u00e7\u00e3o<\/strong> [284]<strong> <\/strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230; 145<br \/>\n<em>O dom de Jesus ao seu povo<\/em> [285-286]<strong> <\/strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 145<br \/>\n<em>A Estrela da nova evangeliza\u00e7\u00e3o<\/em> [287-288]<strong> <\/strong>\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026\u2026&#8230;. 146<\/p>\n<p><a title=\"Evangelii Gaudium\" href=\"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/wp-content\/uploads\/EvangeliiGaudium-PapaFrancisco-26-11-2013.pdf\" target=\"_blank\">Arquivo em PDF para download<\/a>.<\/p>\n<p><em>Fontes: Arquidiocese de S\u00e3o Paulo e R\u00e1dio Vaticano <\/em><\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-23873\" data-postid=\"23873\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-23873 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Vaticano publicou na manh\u00e3 desta ter\u00e7a-feira, 26, a primeira exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica do Papa Francisco, &#8220;Evangelii Gaudium&#8221; (&#8220;A alegria do Evangelho&#8221;). 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