
{"id":2431,"date":"2009-03-21T12:32:14","date_gmt":"2009-03-21T15:32:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=2431"},"modified":"2009-03-21T12:33:51","modified_gmt":"2009-03-21T15:33:51","slug":"d-helder-irmaos-dos-pobres-um-testemunho-no-ano-de-seu-centenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/d-helder-irmaos-dos-pobres-um-testemunho-no-ano-de-seu-centenario\/","title":{"rendered":"D. H\u00e9lder, irm\u00e3os dos pobres. Um testemunho no ano de seu centen\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>Luiz Alberto G\u00f3mez de Souza<\/p>\n<p>Este ano se comemora o centen\u00e1rio do nascimento de D.H\u00e9lder Pessoa da C\u00e2mara, que nasceu em 7 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, Cear\u00e1 e faleceu no Recife, Pernambuco, em 27 de agosto de 1999. Desejo trazer meu testemunho de quem teve a felicidade de acompanhar alguns de seus passos, seja nos movimentos de juventude da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, seja na sua atua\u00e7\u00e3o durante o Conc\u00edlio Vaticano II.<\/p>\n<p>Conheci D.H\u00e9lder C\u00e2mara de longe, na organiza\u00e7\u00e3o gigantesca do Congresso Eucar\u00edstico Internacional de 1955, em meio a toda uma imensa mobiliza\u00e7\u00e3o. Logo depois, convivi com ele na A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, de 1956 e 1958. Ele era o Assistente Geral da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e eu fazia parte da equipe nacional da Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica. A\u00ed acompanhei de perto o trabalho do Dom, como o cham\u00e1vamos \u2013 ou Pe. H\u00e9lder \u2013, no pal\u00e1cio S\u00e3o Joaquim, auxiliado pela maravilhosa e inesquec\u00edvel secretaria Cecilinha e por uma equipe de devotadas auxiliares. Fui descobrindo aos poucos um D. H\u00e9lder humano, malicioso, pol\u00edtico h\u00e1bil, ouvindo e seguindo tudo, sem perder uma v\u00edrgula dos debates, atrav\u00e9s das pesadas p\u00e1lpebras e olhos semicerrados.<\/p>\n<p>L\u00e1 na sua terra natal, Cear\u00e1, no nordeste brasileiro, vivera, jovem sacerdote, a tenta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e o equ\u00edvoco de tantos crist\u00e3os daqueles tempos. Fez parte de um movimento de direita, a A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira, no que considerou depois um pecado de juventude. Salvou-o a vinda ao Rio e a orienta\u00e7\u00e3o e o apoio do Cardeal D. Sebasti\u00e3o Leme e do Presidente da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, o grande leigo Alceu Amoroso Lima. Viveu uma experi\u00eancia no Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o, exorcizando-se da pol\u00edtica direitista atrav\u00e9s da frieza do mundo burocr\u00e1tico. Ia rapidamente incorporar-se ao Rio de Janeiro, cidade aberta e acolhedora, com o entusiasmo de um velho carioca, guardando o inconfund\u00edvel sotaque nordestino. Ainda o vejo, almo\u00e7ando num daqueles t\u00edpicos botequins da Gl\u00f3ria, homem do bairro, gente da casa. Um dos bares ali ainda tem no menu, \u201cfil\u00e9 \u00e0 D.H\u00e9lder\u201d.<\/p>\n<p>Descobriu ent\u00e3o os desequil\u00edbrios terr\u00edveis do Rio e o mundo das favelas. Levou Monsenhor Montini, futuro Paulo VI, a conhecer o pov\u00e3o da favela Praia do Pinto, a dois passos do elegante Jockey Club, conjunto de barracos debru\u00e7ados sobre a Lagoa Rodrigo de Freitas. Come\u00e7ava seu trabalho na Cruzada S\u00e3o Sebasti\u00e3o, fruto de uma enorme sensibilidade para com o pobre concreto, correndo os riscos de um assistencialismo comum nos horizontes pastorais daquele tempo. Construiu um conjunto de moradias em terreno pr\u00f3ximo \u00e0 antiga favela.<\/p>\n<p>Uma enorme contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja do Brasil: como indicado acima, foi ser Assistente Geral, ao final dos anos quarenta, da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Brasileira. O velho modelo da A.C., calcada no esquema italiano, chegava ao seu esgotamento. A partir da experi\u00eancia da JOC, com seu m\u00e9todo ver-julgar-agir, surgiu, no bojo de uma enorme pol\u00eamica, a A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica especializada, dividida por meios de vida. Apoiou o trabalho dos dirigentes e das dirigentes nacionais que pressionavam na dire\u00e7\u00e3o mais \u00e1gil da especializa\u00e7\u00e3o. Ali o ent\u00e3o Pe. H\u00e9lder teve a companhia inestim\u00e1vel e a iniciativa segura de um grande amigo e companheiro, o Pe. Jos\u00e9 T\u00e1vora, assistente da Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica (JOC) \u2013 o \u201cEu\u201d, como ele chamava, tanto se identificavam. Os estatutos da A.C. de 1950 introduziram definitivamente o novo esquema.<\/p>\n<p>Durante todo esse tempo D. H\u00e9lder demonstrou uma enorme confian\u00e7a nos leigos, em sua maioria jovens. Redigiu cartas, memorandos, textos, defendendo os membros das equipes nacionais dos movimentos frente a bispos recalcitrantes e temerosos. Quando a Juventude Universit\u00e1ria Cat\u00f3lica (JUC), especialmente a partir de 1960, come\u00e7ou a receber toda sorte de cr\u00edticas, escreveu, com seu estilo inconfund\u00edvel, \u201cinforma\u00e7\u00f5es objetivas sobre a JUC e o seu recente congresso nacional\u201d onde, na sua qualidade de Assistente Geral da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Brasileira e j\u00e1 nesse momento Secret\u00e1rio-Geral da Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), afirmava que \u201ca JUC, longe de estar exorbitando ao tentar o esfor\u00e7o que vem tentando, est\u00e1 vivendo uma hora plena e merece o apoio e o est\u00edmulo do Episcopado\u201d (agosto de 1960). Isso no momento em que a imprensa e os setores de direita se abalan\u00e7avam contra esse movimento pioneiro e de vanguarda da Igreja. E isso \u00e9 tanto mais significativo quanto era arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro, D. Jaime C\u00e2mara, extremamente reticente diante da JUC.<\/p>\n<p>A partir de seu trabalho na A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica construiu, em 1952, a Confer\u00eancia Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), da qual seria Secret\u00e1rio-Geral at\u00e9 1964. Com a colabora\u00e7\u00e3o de D.Jos\u00e9 T\u00e1vora, tamb\u00e9m arcebispo-auxiliar do Rio, e com v\u00e1rias ex-dirigentes da A.C., organizou o trabalho que Jo\u00e3o Paulo II proclamaria anos depois pioneiro e exemplo para o mundo. \u00c9 muito significativo que uma organiza\u00e7\u00e3o episcopal tenha nascido a partir de uma experi\u00eancia de movimentos de leigos. Em minhas visitas \u00e0 CNBB, agora em Bras\u00edlia, n\u00e3o deixo de lembrar que ela nasceu da pr\u00e1tica anterior da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica e foi estruturada por ex-dirigentes dos movimentos, especialmente mulheres. Uma organiza\u00e7\u00e3o masculina e de bispos esquece facilmente sua origem de ra\u00edzes leigas e a contribui\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>Em 1955, durante o Congresso Eucar\u00edstico, D.H\u00e9lder participou de maneira decisiva da cria\u00e7\u00e3o do Conselho Episcopal para a Am\u00e9rica Latina, o CELAM, onde teria marcada influ\u00eancia nos anos iniciais, com seu amigo chileno D. Manuel Larra\u00edn \u2013 D.Manuelito, como o chamava carinhosamente \u2013, que nos anos 30, assistente dos universit\u00e1rios em seu pa\u00eds, disc\u00edpulo de Maritain, sofrera ataques dos setores tradicionalistas e no momento era bispo de Talca.<\/p>\n<p>Por seis meses, em 1963, juntamente com L\u00facia, minha mulher, assessorei D. H\u00e9lder na prepara\u00e7\u00e3o das sess\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II. Com dificuldade traduz\u00edamos e coment\u00e1vamos os enormes par\u00e1grafos do que come\u00e7ou como o esquema XVII, depois esquema XIII e que finalmente levaria \u00e0 Gaudium et Spes. Documento n\u00e3o previsto pelos organizadores do Conc\u00edlio, esse texto, ponte fundamental com o mundo moderno, foi introduzido por press\u00e3o de cardeais e bispos centro-europeus e D. H\u00e9lder, assessorado em Roma pelo Pe.Lebret, tomou parte ativa nas negocia\u00e7\u00f5es que o impuseram.<\/p>\n<p>Durante o Conc\u00edlio n\u00e3o apareceu na tribuna da sala conciliar. Entretanto, sua presen\u00e7a infatig\u00e1vel nos corredores, longas palestras com o Cardeal Suenens, o bispo belga Smedt e tantos outros, encontros e almo\u00e7os na Domus Mariae, onde se hospedavam os bispos brasileiros, foram decisivos para os rumos abertos do Conc\u00edlio. Ali organizou confer\u00eancias para os bispos brasileiros e para um grande p\u00fablico, trazendo os melhores te\u00f3logos do momento. O Pe. Jos\u00e9 Oscar Beozzo no livro A Igreja do Brasil no Conc\u00edlio Vaticano II, 1959-1965 (Paulinas\/ Educam, 2005) indica a import\u00e2ncia das iniciativas de D.H\u00e9lder. Pela correspond\u00eancia di\u00e1ria a seus amigos do Brasil, \u201ca fam\u00edlia do S\u00e3o Joaquim\u201d, como indicava nas cartas, \u00e9 poss\u00edvel reconstituir o Conc\u00edlio, nos seus impasses iniciais, gestos de aud\u00e1cia e sua presen\u00e7a discreta mas eficaz. As cartas est\u00e3o traduzidas ao franc\u00eas pelas edi\u00e7\u00f5es Cerf e em italiano em Bolonha pela equipe de Giuseppe Alberigo. <\/p>\n<p>Com o Pe.Gauthier e v\u00e1rios bispos, redigiu um texto sobre a Igreja dos pobres, documento que antecipou o que seria, anos depois, na Am\u00e9rica Latina, a \u201cop\u00e7\u00e3o preferencial\u201d. Em novembro de 1965, pouco antes do fim do conc\u00edlio, depois de uma eucaristia na catacumba de Domitila, ele e v\u00e1rios outros bispos redigiram o Pacto das Catacumbas, com treze pontos, desafiando \u201cos irm\u00e3os no episcopado\u201d a levarem uma vida de pobreza, numa Igreja \u201cservidora e pobre\u201d, rejeitando todos os s\u00edmbolos ou privil\u00e9gios do poder e colocando os pobres no centro de seu minist\u00e9rio pastoral. Foi um pren\u00fancio do que anos mais tarde seria a Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Dizem que por esse tempo ele teria proposto ao Papa entregar o suntuoso pal\u00e1cio do Vaticano \u00e0 Unesco, como museu e monumento internacional, retirando-se para um ambiente mais modesto. \u201cIl mio cardinalletto\u201d, o teria chamado carinhosamente Jo\u00e3o XXIII. Nunca chegou ao cardinalato; seria talvez um dos cardeais \u201cin pectore\u201d a que se referiu uma vez o Papa? As c\u00farias temem os profetas e os poetas e ele era ambas as coisas.<\/p>\n<p>Quando terminou o Vaticano II (1965) D. H\u00e9lder e D. Manuel Larra\u00edn pensaram em um encontro de bispos latino-americanos para aplicar na regi\u00e3o os resultados do conc\u00edlio. Foi a base do encontro de Medell\u00edn (1968) que, entretanto, n\u00e3o se limitou a uma simples adapta\u00e7\u00e3o, mas foi al\u00e9m, como aqueles criativos conc\u00edlios regionais dos primeiros s\u00e9culos da Igreja, colocando o pobre como sujeito do processo, denunciando o pecado social das estruturas latino-americanas e incentivando as comunidades eclesiais.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, D. H\u00e9lder ficou at\u00e9 certo ponto insatisfeito com os resultados do Vaticano II. Ali faltara uma centralidade do pobre. Na verdade, o Vaticano II fora um conc\u00edlio influenciado principalmente pela realidade europ\u00e9ia, abrindo corajosamente caminho, na Gaudium et Spes, para um di\u00e1logo com a modernidade. Terminado o mesmo, em conversa\u00e7\u00f5es com Ivan Illich, indicou que era preciso come\u00e7ar a preparar um Vaticano III. Illich tinha uma equipe internacional no Centro Intercultural de Forma\u00e7\u00e3o (CIF) em Cuernavaca e come\u00e7ou a pensar nisso. Por indica\u00e7\u00e3o de D. H\u00e9lder, em abril de 1965, fui com L\u00facia minha esposa e os tr\u00eas filhos para o M\u00e9xico e me integrei na equipe e em sua preocupa\u00e7\u00e3o pelo futuro da Igreja e da Am\u00e9rica latina.<\/p>\n<p>J\u00e1 no come\u00e7o de 1964, em carta para o leigo cat\u00f3lico mais eminente, Alceu Amoroso Lima, eu falara da necessidade de um novo conc\u00edlio. Em mar\u00e7o desse ano Amoroso Lima me escreveu: \u201cMas voc\u00ea \u00e9 um militante, um engajado e diz, muito bem, que est\u00e1 no grupo dos que j\u00e1 est\u00e3o preparando o Vaticano III, com toda raz\u00e3o&#8230;eu n\u00e3o verei o III. Voc\u00ea talvez. Mas de qualquer modo, eu no meu canto de velho reformado, voc\u00ea na linha de combate, estamos realmente preparando os caminhos para o Cristo do s\u00e9culo XXI, como o fizeram os 72 disc\u00edpulos, que ele mandou, \u2018dois a dois\u2019 prepararem os caminhos do senhor\u201d (carta de 8 de mar\u00e7o de 1964, semanas antes do golpe de estado no Brasil). Na ocasi\u00e3o, Amoroso Lima tinha praticamente a idade que tenho hoje e posso repetir o que me escreveu: chegarei a ver um novo conc\u00edlio?<\/p>\n<p>Anos depois, em 1981, em carta a seu amigo Jer\u00f3nimo Podest\u00e1, ex-bispo de Avellameda na Argentina, que deixara o episcopado e se casara, D. H\u00e9lder se referiu a alguns sonhos que tinha. Eis o segundo: a realiza\u00e7\u00e3o, no ano 2000, de um Conc\u00edlio Jerusal\u00e9m II. Nos Atos dos Ap\u00f3stolos (cap\u00edtulo 15) se descreve o encontro em Jerusal\u00e9m onde Paulo abriu o cristianismo para os gentios, saindo de um \u00e2mbito mais estreito judeu-crist\u00e3o. Quem sabe, penso eu, um Jerusal\u00e9m II n\u00e3o seria o momento de uma perspectiva ecum\u00eanica e talvez de um di\u00e1logo interreligioso? E conclu\u00eda D. H\u00e9lder na carta a Podest\u00e1: \u201cN\u00e3o me preocupa o fato de que o mais prov\u00e1vel \u00e9 eu assistir este conc\u00edlio da casa do pai. De l\u00e1 quero ajudar a que ele se realize.\u201d Morreu em 1999, um ano antes do ano 2.000 e um novo conc\u00edlio ainda n\u00e3o se realizou.<\/p>\n<p>Ficou o sonho, que no S\u00ednodo Europeu de 1999 foi retomado pelo Cardeal Martini e, desde ent\u00e3o, por muitos outros. Martini voltou a esse tema e a outros desafios da Igreja hoje em seu Col\u00f3quios Noturnos em Jerusal\u00e9m, de 2008, traduzido em v\u00e1rias l\u00ednguas. Num livro de alguns anos, eu perguntava no t\u00edtulo: Do Vaticano II a um novo conc\u00edlio? Olhar de um crist\u00e3o leigo sobre a Igreja (Loyola, 2004). Mais do que um conc\u00edlio convocado \u00e0s pressas, \u00e9 preciso um amplo processo de prepara\u00e7\u00e3o conciliar, para tratar de temas congelados na Igreja atual (sexualidade e reprodu\u00e7\u00e3o, celibato obrigat\u00f3rio, ordena\u00e7\u00e3o de homens casados e de mulheres, etc.). Dom H\u00e9lder, com suas intui\u00e7\u00f5es, carisma e aud\u00e1cias abriu caminho que pastorais eclesiais e outros bispos pioneiros (Luciano Mendes de Almeida, Pedro Casald\u00e1liga, Mendes Arceo, Le\u00f4nidas Proa\u00f1o&#8230;) foram lan\u00e7ando como sementes de renova\u00e7\u00e3o e que poder\u00e3o frutificar no futuro.<\/p>\n<p>Voltemos ao Brasil. Seguindo a trilha do antigo Cardeal do Rio de Janeiro, D.Sebasti\u00e3o Leme, D. H\u00e9lder foi um interlocutor permanente do governo nos anos do \u201cpacto populista\u201d (1950-1963). Com os bispos do nordeste, em 1956, incentivou o presidente Juscelino Kubitschek a criar a Superintend\u00eancia do Desenvolvimento do Nordeste (SUDENE). Tenta\u00e7\u00e3o de usar o poder da Igreja diante do poder do Estado? Seu contato permanente com o povo, os favelados, os leigos da A\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, o defenderiam da tenta\u00e7\u00e3o palaciana e de cair nas malhas dos poderosos que o cortejavam com insist\u00eancia e com interesse. Nos tempos do desenvolvimentismo do presidente Kubitschek, esteve tentado a pensar uma \u201cpastoral do desenvolvimento\u201d, para a qual chegou a tender o episcopado latino-americano, no come\u00e7o dos anos 60, \u00e0 sombra da Alian\u00e7a para o Progresso e o receio da transforma\u00e7\u00e3o cubana. Logo depois, uma \u201cpastoral da liberta\u00e7\u00e3o\u201d, que se imporia em Medell\u00edn, em 1968, encaminhava a pr\u00e1tica e a reflex\u00e3o em outra dire\u00e7\u00e3o, mais evang\u00e9lica e certeira. Os textos de D. H\u00e9lder nessa ocasi\u00e3o passam das propostas do desenvolvimento \u00e0s exig\u00eancias da liberta\u00e7\u00e3o. Aos poucos as \u00faltimas foram se fortalecendo e para isso concorreria a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil depois de 1964, durante o novo \u201cpacto autorit\u00e1rio\u201d dos governos militares(1964-1984), onde ele seria \u201ca voz dos sem voz e dos sem vez\u201d.<\/p>\n<p>Desde v\u00e1rios anos atr\u00e1s, sua rela\u00e7\u00e3o de arcebispo-auxiliar do Cardeal do Rio de Janeiro era dif\u00edcil, oscilante e ao mesmo tempo filial. Diferentes em quase tudo, o sentido pastoral e a humildade de D. Jaime C\u00e2mara, no fundo consciente de suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, permitiam a coexist\u00eancia nem sempre f\u00e1cil com aquele bispinho inc\u00f4modo, irrequieto e tantas vezes incompreens\u00edvel para o velho Cardeal. Mas essa situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia perdurar. Em plena crise social e pol\u00edtica, no come\u00e7o de mar\u00e7o de 1964, foi nomeado arcebispo de S\u00e3o Luis do Maranh\u00e3o, o que o afastaria, para a conveni\u00eancia de muitos, do eixo geogr\u00e1fico do poder. Estava em Roma quando ocorreu a morte s\u00fabita de D. Carlos Coelho no Recife, e foi transferido imediatamente para a S\u00e9 de Olinda e Recife, sem ter chegado a tomar posse em S\u00e3o Luis. \u00c9 f\u00e1cil aquilatar a import\u00e2ncia estrat\u00e9gica de Recife, verdadeira capital do subdesenvolvido nordeste, para seu trabalho pastoral a partir daqueles anos. L\u00e1 tamb\u00e9m chegara D. Leme no come\u00e7o do s\u00e9culo, anteriormente bispo auxiliar do Rio de Janeiro e para esta \u00faltima cidade retornara anos depois como arcebispo e cardeal. Repetir-se-ia o mesmo itiner\u00e1rio desta vez, como muitos de n\u00f3s esper\u00e1vamos? Outros eram os tempos, sobretudo do ponto de vista pol\u00edtico, no per\u00edodo militar que come\u00e7ava.<\/p>\n<p>Haveria tamb\u00e9m que lembrar rapidamente sua amizade com o n\u00fancio apost\u00f3lico D. Armando Lombardi, certamente o melhor de todos os n\u00fancios que tivemos no Brasil. Quantos bispos, respons\u00e1veis mais tarde pela renova\u00e7\u00e3o da Igreja brasileira, n\u00e3o tiveram sua indica\u00e7\u00e3o sugerida nos almo\u00e7os semanais entre os dois amigos? V\u00e1rios tinham sido assistentes da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica. Em maio de 1964, D. Armando morreria, perdendo talvez a Igreja um excelente Secret\u00e1rio de Estado, como sonhava D. H\u00e9lder.<\/p>\n<p>D. H\u00e9lder chegou ao Recife, para tomar posse, logo depois do golpe de Estado de abril de 1964, numa situa\u00e7\u00e3o tensa. O cardeal Motta, at\u00e9 ent\u00e3o presidente da CNBB, f\u00f4ra removido de S\u00e3o Paulo para o ref\u00fagio de Aparecida do Norte. O Secret\u00e1rio-Geral afastava-se tamb\u00e9m do Rio. Veio outro sucessor, D. Jos\u00e9 Gon\u00e7alves, de posi\u00e7\u00f5es conservadoras e bastante burocr\u00e1ticas. Come\u00e7ava um sutil remanejamento na CNBB, no que Charles Antoine chamou \u201ca Igreja na corda-bamba\u201d. Esse retrocesso foi interrompido felizmente anos depois, com a crise Igreja-Estado. Novas diretorias, com D. Alo\u00edsio Lorscheider e D. Ivo Lorscheiter enfrentariam o governo militar com valentia e recolocariam a CNBB no centro da defesa dos direitos humanos.<\/p>\n<p>Seu discurso de posse no Recife foi claro e incisivo em sua op\u00e7\u00e3o pelos mais pobres, pela justi\u00e7a social e pela liberdade. Mal recebido pelos poderosos, teve o carinho do povo simples que logo o compreendeu. Nesses primeiros anos em Recife, come\u00e7o da ditadura, acolheu perseguidos pol\u00edticos, visitou pris\u00f5es e levantou sua voz de protesto. Os militares n\u00e3o se animaram a prend\u00ea-lo, mas torturaram e mataram um de seus sacerdotes mais pr\u00f3ximos, o Pe. Henrique Pereira Neto, assistente dos jovens na diocese. Seu corpo, terrivelmente mutilado, foi encontrado num campo da periferia. D. H\u00e9lder sofreu muito e sentiu que era a ele que queriam atingir atrav\u00e9s do Pe. Henrique. Por esse tempo, Gustavo Guti\u00e9rrez terminava seu livro cl\u00e1ssico Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o e a dedicat\u00f3ria foi a esse sacerdote-m\u00e1rtir.<\/p>\n<p>D. H\u00e9lder, fiel ao pacto das catacumbas deixou o Pal\u00e1cio de S\u00e3o Jos\u00e9 de Manguinhos e foi morar nos fundos de uma velha igreja, a Igreja das Fronteiras, em dois c\u00f4modos, sozinho e sem prote\u00e7\u00e3o. L\u00e1 o iria ver, numa noite escura, um rude sertanejo que lhe entregou, chorando, a faca com que tinham encomendado sua morte. Hoje ali est\u00e1 o Instituto D. H\u00e9lder C\u00e2mara, onde se conservam seus objetos pessoais e farta documenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Surgiam \u00e0s vezes coment\u00e1rios com respeito \u00e0s aus\u00eancias de D.H\u00e9lder. Ele trazia a inquietude e a \u201csolicitude de todas as Igrejas\u201d do ap\u00f3stolo Paulo, itinerante entre \u00c9feso, Roma, Tessal\u00f4nica e Corinto. As dioceses nasceram \u00e0 sombra da estrutura feudal de uma Idade M\u00e9dia imobilista e de poucas comunica\u00e7\u00f5es. Eram espa\u00e7os quase estanques por s\u00e9culos, ligados ao centro da Cidade Eterna. Mais recentemente, tem buscado coordenar-se regional e nacionalmente e foi ali\u00e1s D. H\u00e9lder, como vimos, um dos primeiros a compreender essa necessidade, na CNBB e no CELAM. Um homem irrequieto como nosso bispo cabia mal dentro do velho esquema territorial e administrativo. Sua retaguarda era coberta com efici\u00eancia e dedica\u00e7\u00e3o por seu bispo-auxiliar D.Jos\u00e9 Lamartine Soares, com quem trabalhara desde os tempos da A\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica no Rio de Janeiro, onde este fora assistente nacional da Juventude Estudantil Cat\u00f3lica Feminina. Deveriam criar-se, talvez, bispos-itinerantes, peregrinos, mais pr\u00f3ximos dos profetas do que dos guardi\u00e3es do templo, anunciando a Boa-Nova pelos caminhos do mundo. Talvez inclusive isso n\u00e3o correspondesse tanto ao episcopado, mas a outra fun\u00e7\u00e3o eclesial e\/ou eclesi\u00e1stica. O monge Hildebrando, antes de ser o Papa Greg\u00f3rio VII, fora um grande viajante desse tipo.<\/p>\n<p>D. H\u00e9lder, na Mutualit\u00e9 em Paris, em Nova Iorque ou em T\u00f3quio, supria com seu carisma as defici\u00eancias ling\u00fc\u00edsticas e nas imprecis\u00f5es da sintaxe criava uma sem\u00e2ntica completada pelo olhar, a entoa\u00e7\u00e3o e os gestos. Um jornalista uruguaio, Hector Borrat, assim o viu em Nova Iorque em 1969: \u201cum entusiasmo vital que se derrama avassalador sobre os outros, uma soberana liberdade para expressar-se al\u00e9m do maior ou menor conhecimento do ingl\u00eas, com os tons da voz e do olhar, com as m\u00e3os, com todo o corpo; um fabuloso histrionismo ao servi\u00e7o das convic\u00e7\u00f5es mais profundas\u201d (revista Marcha, 7 de fevereiro de 1969).<\/p>\n<p>No exterior e no Brasil dos militares o consideravam um bispo radical e \u201cvermelho\u201d, o que realmente n\u00e3o era. N\u00e3o havia que esperar dele os discursos pol\u00edticos, mas os gestos que libertavam. Sua pr\u00e1tica internacional e suas intui\u00e7\u00f5es iam al\u00e9m, muito mais longe das id\u00e9ias e das ideologias, mesmo de suas decis\u00f5es de pastor local.<\/p>\n<p>V\u00e1rias intui\u00e7\u00f5es s\u00e3o enormemente ricas e f\u00e9rteis e merecem ser retomadas. Um exemplo o indica: sua id\u00e9ia das \u201cminorias abra\u00e2micas\u201d. Ele, que lidou com governos, planos pastorais de emerg\u00eancia e de conjunto, descobriu a fecundidade que vem de baixo, dos grupos inovadores. N\u00e3o s\u00e3o um \u201cresto\u201d ao lado do povo e \u00e0 margem da hist\u00f3ria, mas os pr\u00f3prios e reais protagonistas da hist\u00f3ria que vir\u00e1, os que fazem as experi\u00eancias din\u00e2micas portadoras de futuro, o fermento capaz de transformar. Minorias com a \u201cfor\u00e7a hist\u00f3rica\u201d dos pobres a que se refere com insist\u00eancia Gustavo Guti\u00e9rrez, ligadas e em fun\u00e7\u00e3o de um trabalho de massas. E que no fundo expressam, congregam e organizam as grandes maiorias do povo oprimido e emergente.<\/p>\n<p>D.H\u00e9lder repetiu mais de uma vez que era preciso fazer com algumas intui\u00e7\u00f5es marxistas o que Santo Tom\u00e1s fizera com o pensamento \u201cateu\u201d de Arist\u00f3teles. Na assembl\u00e9ia da CNBB teve sempre uma interven\u00e7\u00e3o na hora oportuna e precisa, maliciosa e imaginativa, com que apoiou francamente as inova\u00e7\u00f5es, convencia os indecisos com o peso de sua autoridade e deixava sem argumento os conservadores e os tradicionalistas.<\/p>\n<p>Deus lhe deu um organismo franzino e resistente. Precisava pouqu\u00edssimo \u2013 sono, comida \u2013, realizava muito. Suas madrugadas longas e fecundas eram povoadas de medita\u00e7\u00e3o, leituras, muita ora\u00e7\u00e3o, reda\u00e7\u00e3o de cartas, textos e poemas. Poeta quase in\u00e9dito \u2013 o Pe. Jos\u00e9, como assinava quase sempre \u2013 deveria um dia ter publicados seus versos. Sua correspond\u00eancia, por ocasi\u00f5es praticamente di\u00e1ria, reproduz muito da caminhada da Igreja no Brasil. Constitui um arquivo inestim\u00e1vel.<\/p>\n<p>Os meios de comunica\u00e7\u00e3o do Brasil, pelos anos da censura e da repress\u00e3o, baniram sua imagem. Prescri\u00e7\u00e3o vinda por decreto, \u00fanico argumento do arb\u00edtrio. Foi censurado em sua pr\u00f3pria r\u00e1dio diocesana. Durante a ditadura seu nome era proibido de ser mencionado. Era como se n\u00e3o existisse. Mas sempre esteve presente entre o povo simples e na opini\u00e3o p\u00fablica mundial, onde foi se tornando quase um mito. Um dia, aqui no pa\u00eds, tiveram que levantar o embargo. E durante a visita do Papa ficou patente o carinho do povo e de Jo\u00e3o Paulo II, que o abra\u00e7ou dizendo: \u201cD.H\u00e9lder, irm\u00e3o dos pobres e meu irm\u00e3o\u201d. Seu nome foi quatro vezes indicado para o Pr\u00eamio Nobel da Paz, de 1970 a 1973. As embaixadas brasileiras em Estolcomo e em Oslo foram acionadas e jornalistas conservadores internacionais pressionaram fortemente para que n\u00e3o o elegessem. Numa das vezes (1973) foi preterido por Henri Kissinger&#8230;Foi \u201cdoutor honoris causa\u201d em muitas universidades e recebeu in\u00fameras premia\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n<p>Aposentou-se em julho de 1985, mas continuou morando no Recife, nos fundos de sua igreja. Seu sucessor, D. Jos\u00e9 Cardoso Sobrinho, tudo fez para destruir sua obra diocesana. Sofreu em sil\u00eancio e seguiu tendo uma forte presen\u00e7a internacional. Com uma imagina\u00e7\u00e3o sempre f\u00e9rtil, escreveu, em parceria com um compositor su\u00ed\u00e7o, sua Sinfonia dos dois mundos. Acalentava um desejo que n\u00e3o chegou a realizar: produzir um circo para, em linguagem simples e alegre, dirigir-se aos setores populares e aos jovens.Em 1983, preparou um texto para o core\u00f3grafo Maurice B\u00e9jart, que foi a base do bal\u00e9 Missa para o tempo futuro.<\/p>\n<p>Foram v\u00e1rias d\u00e9cadas fecundas e enormemente criadoras. Podemos alegrar-nos de seu passado como padre e como bispo, servindo sempre, tantas vezes abrindo caminhos, apoiando, animando, olhando para a frente com uma invej\u00e1vel confian\u00e7a. Belas recorda\u00e7\u00f5es de D.H\u00e9lder se encontram no livro do monge Marcelo Barros, Dom H\u00e9lder C\u00e2mara. Profeta para os nossos dias (editora Rede da Paz, 2006). Excelente sele\u00e7\u00e3o de textos seus foi publicada por Jos\u00e9 de Broucker em Les nuits d\u2019um proph\u00e8te (ed. du Cerf, 2005). Uma biografia completa foi realizada por Nelson Piletti e Walter Praxedes, Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, entre o poder e a profecia (editora \u00c1tica, 1997). Jos\u00e9 Oscar Beozzo, pelo Centro Alceu Amoroso Lima pela Liberdade, recolheu fotos e documentos de uma exposi\u00e7\u00e3o itinerante criada em Paris pela Soci\u00e9t\u00e9 des Amis de D. H\u00e9lder C\u00e2mara: Dom H\u00e9lder: mem\u00f3ria e profecia (CAALL\/Educam, 2009).<\/p>\n<p>Alguns criticaram seu prest\u00edgio internacional e falaram, com uma ponta de ci\u00fame, de vedetismo. N\u00e3o percebiam o que ele realizava como servi\u00e7o, \u201cdiakonia\u201d, \u00e0 Igreja universal. Mais, muito mais que bispo de Olinda e Recife, foi bispo de um vasto mundo sem fronteiras. Era sinal de uma Igreja que tem muito a anunciar nestes tempos de transi\u00e7\u00e3o e crise onde, mais importantes do que os programas, s\u00e3o os gestos libertadores e a voz dos profetas clamando com for\u00e7a e anunciando mundos novos carregados de esperan\u00e7a. Deus nos trouxe D. Helder por muitos anos, dirigindo-se, com a palavra quente e o gesto significativo, aos pobres de todos os quadrantes, para anunciar a Boa Nova.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-2431\" data-postid=\"2431\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-2431 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz Alberto G\u00f3mez de Souza Este ano se comemora o centen\u00e1rio do nascimento de D.H\u00e9lder Pessoa da C\u00e2mara, que nasceu em 7 de fevereiro de 1909 em Fortaleza, Cear\u00e1 e faleceu no Recife, Pernambuco, em 27 de agosto de 1999. 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