
{"id":24553,"date":"2014-03-19T09:49:43","date_gmt":"2014-03-19T12:49:43","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=24553"},"modified":"2014-03-19T09:49:43","modified_gmt":"2014-03-19T12:49:43","slug":"simplesmente-jose-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/simplesmente-jose-2\/","title":{"rendered":"Simplesmente Jos\u00e9"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><i style=\"line-height: 1.5em;\">Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, CS<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 \u00e9 uma das figuras mais silenciosas nas narrativas evang\u00e9licas. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, aparece sempre na hora certo e no lugar certo. Quando se trata de proteger a fam\u00edlia \u2013 m\u00e3e e filho \u2013 l\u00e1 est\u00e1 ele. Verdade que conta com os anjos, mensageiros de Deus, que o alertam sobre as maquina\u00e7\u00f5es dos \u201cfilhos das trevas\u201d. Mas, alertado dos riscos que correm Jesus e Maria, p\u00f5e-se logo em marcha, seja fugindo para o Egito, seja de l\u00e1 retornando. Exerce certo protagonismo na inf\u00e2ncia de Jesus, por\u00e9m, n\u00e3o h\u00e1 registro de sua presen\u00e7a na vida adulta do profeta itinerante. Pouco ou nada se sabe de seu destino. \u00c9 l\u00edcito supor que tamb\u00e9m ele estaria ao p\u00e9 da cruz, na hora tr\u00e1gica da morte de Jesus!&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo indica que se trata de um car\u00e1ter discreto, homem de poucas palavras e de guardar segredos. Podemos tamb\u00e9m ver nele um profissional de experi\u00eancia, o carpinteiro de Nazar\u00e9, trabalhador s\u00e9rio e respeitado. Sinais de uma sabedoria inata que, em lugar de a\u00e7\u00f5es intempestivas frente aos imprevistos da vida (como a gravidez de Maria, por exemplo), prefere o sil\u00eancio, a escuta e a espera. Aqui tamb\u00e9m temos a interven\u00e7\u00e3o dos mensageiros de Deus, como atores principais, mas \u00e9 Jos\u00e9 que toma as provid\u00eancias pr\u00e1ticas e necess\u00e1rias. Os seres alados necessitam dos p\u00e9s e das m\u00e3os de Jos\u00e9 para garantir a seguran\u00e7a da Sagrada Fam\u00edlia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o obstante, o humilde carpinteiro permanece como uma esp\u00e9cie de ator de bastidores. Raramente aparece em cena. Hoje dir\u00edamos que n\u00e3o parece gostar de holofotes, c\u00e2meras e microfones. Como se n\u00e3o se sentisse \u00e0 vontade no palco, em evid\u00eancia diante dos espectadores. Menos \u00e0 vontade ainda no cen\u00e1rio dos acontecimentos que, mais tarde, ir\u00e3o se desenrolar com seu filho adotivo. Se de Jesus se diz que \u201cpassou pela vida fazendo bem\u201d, de Jos\u00e9 teremos poucas not\u00edcias. N\u00e3o faz barulho, como quem caminha de p\u00e9s descal\u00e7os, silencioso e oculto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os estudiosos da B\u00edblia, particularmente do Novo Testamento, nos alertam que n\u00e3o podemos olhar para essas narrativas sobre a inf\u00e2ncia de Jesus como fatos hist\u00f3ricos. Constituem antes acomoda\u00e7\u00f5es p\u00f3s-pascais ao nascimento do Filho de Deus, isto \u00e9, grandioso, misterioso, milagroso. Mas isso n\u00e3o invalida a reflex\u00e3o sobre a presen\u00e7a simultaneamente discreta e oportuna de Jos\u00e9 nesses relatos. Fict\u00edcias ou n\u00e3o, os autores dessas p\u00e1ginas apresentam a figura do \u201cpai adotivo de Jesus\u201d como algu\u00e9m com um papel secund\u00e1rio, embora relevante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Partindo do pano de fundo dos par\u00e1grafos anteriores, surpreende o n\u00famero de pessoas que, no mundo inteiro e ao longo da hist\u00f3ria, foram batizadas com o nome de Jos\u00e9. Desnecess\u00e1rio deter-se em pesquisas para constatar que esse \u00e9 o nome mais recorrente em praticamente todos os povos e culturas do mundo ocidental. No juda\u00edsmo, no cristianismo cat\u00f3lico ou protestante e nos movimentos religiosos derivados, Jos\u00e9 se imp\u00f5e como nome quase obrigat\u00f3rio de um dos filhos de n\u00e3o poucas fam\u00edlias. Mesmo entre os que recebem outro nome de pia, muitos tratam de intercalar o Jos\u00e9 como intermedi\u00e1rio entre nome e sobrenome.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A surpresa \u00e9 ainda maior se nos detemos sobre determinadas manifesta\u00e7\u00f5es da devo\u00e7\u00e3o popular a S\u00e3o Jos\u00e9. \u00c9 sem d\u00favida uma das mais disseminadas no universo cat\u00f3lico. No nordeste brasileiro, por exemplo, o dia do santo, a 19 de mar\u00e7o, constitui, ao mesmo tempo, um marco para a car\u00eancia ou a abund\u00e2ncia de chuvas e, consequentemente, um marco para o novo plantio. De acordo com uma cren\u00e7a popular bastante generalizada, se a estiagem se prolongar al\u00e9m do S\u00e3o Jos\u00e9, o ano tende a ser pobre em feij\u00e3o, milho, batata, mandioca, inhame, etc. Chuva no \u201cS\u00e3o Jos\u00e9\u201d (19 de mar\u00e7o) significa milho no \u201cS\u00e3o Jo\u00e3o\u201d (24 de junho). Por outro lado, n\u00e3o s\u00e3o poucos os religiosos e os sacerdotes que, respectivamente, fazem sua profiss\u00e3o perp\u00e9tua, ou se ordenam presb\u00edteros, exatamente nesse mesmo dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como explicar essa dupla homenagem a S\u00e3o Jos\u00e9? Impl\u00edcita ou explicitamente, \u00e9 f\u00e1cil identificar-se com o Jos\u00e9 dos Evangelhos. Na sociedade do espet\u00e1culo (Guy Debord) em que vivemos e nos movemos, s\u00e3o poucas as estrelas e incont\u00e1veis os planetas. Algumas pessoas se destacam e brilham com luz pr\u00f3pria, mas a imensa maioria apenas reflete o brilho dos astros mais eminentes. O culto ao corpo e \u00e0 celebridade se difunde juntamente com a exacerba\u00e7\u00e3o do subjetivismo e do individualismo. Por\u00e9m, raros s\u00e3o os senhores Fulano, Sicrano ou Beltrano, e mais raras ainda as beldades, princesas. A tirania do prazer ou o imp\u00e9rio do ef\u00eamero (para usar express\u00f5es de Jean-Claude Guillebaud e Gilles Lipovetsky), s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel gra\u00e7as a dezenas, centenas ou milhares de coadjuvantes. Estes s\u00e3o os Jos\u00e9s, in\u00fameros e desconhecidos, com o sobrenome de Silva, Souza, Santos, Oliveira, Gon\u00e7alves, e assim por diante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, \u00e9 preciso estar atento \u00e0s p\u00e9rolas ocultas por tr\u00e1s das m\u00e3os calejadas, dos rostos impenetr\u00e1veis e das almas rudes desses Jos\u00e9s. Mais do que apoiar-se no sucesso moment\u00e2neo e fugaz, eles seguem com os p\u00e9s firmes no cotidiano, ainda que cheio de surpresas e adversidades. Mais do que colher as luzes de espet\u00e1culos fulgurantes e ef\u00eameros, eles procuram lan\u00e7ar sementes no solo \u00famido e escuro da terra. Mais do que explodir roj\u00f5es que sobem e iluminam os c\u00e9us, mas com a mesma rapidez descem e viram cinzas, eles acreditam que as mudan\u00e7as se erguem do ch\u00e3o, atrav\u00e9s de pequenos gestos de solidariedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, contudo, um segredo ainda mais misterioso, um tesouro escondido, ao qual esses Jos\u00e9s costumam ter acesso imediato. Sabem pela experi\u00eancia que a felicidade duradoura n\u00e3o est\u00e1 no sucesso, no dinheiro, na conta banc\u00e1ria, nos privil\u00e9gios, nos t\u00edtulos, no patrim\u00f4nio acumulado \u2013 mas numa pr\u00e1tica di\u00e1ria e silenciosa do bem. Surfar sobre a onda dos sucessos equivale a surfar nas depress\u00f5es dos fracassos. Uns s\u00e3o direta e alternadamente proporcionais aos outros. Expectativas inflacionadas, tal como os bal\u00f5es de ar, murcham com facilidade e geram frustra\u00e7\u00f5es igualmente infladas. Todo domingo de festa, regado a comida, bebida e embriaguez, \u00e9 seguido de uma segunda-feira de ressaca. Se a cruz aponta para a ressurrei\u00e7\u00e3o, esta sup\u00f5e aquela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Jos\u00e9s evitam os saltos de lebre. Preferem o passo lento e firme da tartaruga ou do jumento, nosso irm\u00e3o, diria o nordestino. Depositam sua confian\u00e7a n\u00e3o nos pulos em falso, mas num caminhar laborioso, regular e persistente. Sabem como extrair alegrias mi\u00fadas de uma palavra, de um olhar, de um gesto, de uma visita, de um sorriso, de um beijo, de um abra\u00e7o, de um toque&#8230; E sabem que \u00e9 nessas m\u00ednimas coisas que reside uma felicidade menos vol\u00e1til e mais s\u00f3lida. Aprendem a tirar \u00e1gua de pedras, a colher flores no deserto est\u00e9ril, a acender uma vela no meio da escurid\u00e3o. Raramente se deixam levar pela apar\u00eancia de grandiosidade, desconfiam dos passos largos. Mais ainda: desconfiam da pr\u00f3pria energia, colocando-se nas m\u00e3os de uma for\u00e7a que desconhecem, mas em que cr\u00eaem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Normalmente n\u00e3o sobem muito alto, mas tampouco ficam expostos a quedas bruscas. Mais facilmente descem ao cora\u00e7\u00e3o da terra e das coisas. Suas palavras costumam ser poucas e parcimoniosas, mas revestidas de uma sabedoria simples e profunda. Os ditos populares, ricos e concentrados, nascem, crescem e cruzam as encruzilhadas do mundo com a persist\u00eancia dos Jos\u00e9s. S\u00e3o diamantes lapidados com sua experi\u00eancia oculta e silenciosa. A pr\u00f3pria palavra \u201cJos\u00e9\u201d, concentrada e valorizada como moeda preciosa, percorre as fam\u00edlias, os povos e as culturas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jos\u00e9 n\u00e3o deixa de ser, tamb\u00e9m, a cara da migra\u00e7\u00e3o. Esta, de fato, p\u00f5e em marcha uma grande quantidade de Jos\u00e9s. O pr\u00f3prio \u201cpai adotivo\u201d de Jesus, esposo de Maria, \u00e9 testemunha disso. Um novo olhar aos Evangelhos basta para dar-se conta de como ele, primeiro, por causa do recenseamento, sobe de Nazar\u00e9 a Bel\u00e9m, lugar em que se completam os dias de Maria ela d\u00e1 \u00e1 luz um numa manjedoura, \u201cpois n\u00e3o havia lugar para eles\u201d; depois de nascido o menino, empreende a fuga para o Egito, protegendo o rec\u00e9m-nascido da f\u00faria e persegui\u00e7\u00e3o de Herodes; dessa terra estrangeira, retorna \u00e0 pr\u00f3pria p\u00e1tria, quando a tormenta j\u00e1 tinha se acalmado; por fim, ao longo da vida, quantas vezes ter\u00e1 se deslocado por causa desse Filho \u201crebelde\u201d, o qual insistia que \u201co seu Reino n\u00e3o era deste mundo\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 essa a trajet\u00f3ria de in\u00fameros migrantes? De tribula\u00e7\u00e3o em tribula\u00e7\u00e3o, de fuga em fuga, de sonho em sonho, de busca em busca&#8230; Sempre perseguindo o futuro, e este como que sempre lhes escapando entre os dedos. Jos\u00e9s, milh\u00f5es de pessoas sem terra nem lugar, sem rumo nem p\u00e1tria&#8230; Jos\u00e9s a caminho! Jos\u00e9s que, por s\u00ea-lo, vivem inquietos e irrequietos. Rompem obst\u00e1culos e fronteiras, abrindo com os ombros curvados os horizontes de um novo amanh\u00e3. \u00c9 nome comum de um povo acostumado \u00e0 estrada. N\u00e3o costuma figurar entre as fam\u00edlias milion\u00e1rias, nobres e aristocr\u00e1ticas, assentadas solidamente sobre suas fortalezas e suas jazidas de ouro e prata. Jos\u00e9s s\u00e3o pessoas pouco vinculadas a castelos e fazendas, normalmente habitam tendas. Conhecendo de perto a transitoriedade e a provisoriedade dos bens terrenos, podem desenvolver uma ambival\u00eancia diante da riqueza: ou se agarram ao pouco que possuem, lutando com unhas e dentes para ter mais, ou amadurecem um despojamento que os torna mais leves e livres. Neste \u00faltimo caso, aprendem a li\u00e7\u00e3o de depurar a mala e a alma, para caminhar com um fardo menos carregado de coisas sup\u00e9rfluas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso, ao contr\u00e1rio daqueles que nascem em ber\u00e7o de ouro e a ele se apegam morbidamente, os Jos\u00e9s, e entre estes os migrantes, tendem a uma maior abertura quanto ao futuro. Est\u00e3o mais preparados para as surpresas da hist\u00f3ria. Especialmente em momentos de crise e tormenta, enquanto os que moram em castelos e fortalezas correm a se abrigar no ber\u00e7o dourado e saudoso da inf\u00e2ncia, os Jos\u00e9s costumam ser impelidos para a fronteira. Os primeiros, com o cora\u00e7\u00e3o preso aos seus tesouros acumulados, lutam para mant\u00ea-los a todo o custo; os segundos, encontram-se mais preparados para enfrentar as pedras e espinhos que a exist\u00eancia apresenta. Tender\u00e3o a rasgar veredas novas, a se aventurarem, pois nada t\u00eam a perder. Das duas uma: ou s\u00e3o tomados pelo medo e a ang\u00fastia da mis\u00e9ria j\u00e1 experimentada na carne e na alma, agarrando-se mesquinhamente a qualquer migalha; ou se lan\u00e7am intr\u00e9pidos \u00e0 luta por algo diferente. Neste caso, a coragem lhes \u00e9 praticamente inata. Mas com muita raridade ter\u00e3o seu nome gravado nos jornais. Em geral n\u00e3o s\u00e3o m\u00e1rtires abatidos a tiro, de nome no calend\u00e1rio, de folha na parede. Vivem, antes, um mart\u00edrio de gota a gota, passo a passo, mi\u00fado e di\u00e1rio, onde uma travessia dura e teimosa substitui as a\u00e7\u00f5es vistosas, sensacionais e espetaculares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\"><i>Roma, It\u00e1lia, 19 de mar\u00e7o de 2014<\/i><\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-24553\" data-postid=\"24553\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-24553 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, CS Jos\u00e9 \u00e9 uma das figuras mais silenciosas nas narrativas evang\u00e9licas. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, aparece sempre na hora certo e no lugar certo. Quando se trata de proteger a fam\u00edlia \u2013 m\u00e3e e filho \u2013 l\u00e1 est\u00e1 ele. 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