
{"id":2460,"date":"2009-03-23T08:20:55","date_gmt":"2009-03-23T11:20:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=2460"},"modified":"2009-03-21T13:28:41","modified_gmt":"2009-03-21T16:28:41","slug":"entrevista-de-maria-clara-bingemer-o-rosto-feminino-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/entrevista-de-maria-clara-bingemer-o-rosto-feminino-de-deus\/","title":{"rendered":"Entrevista de Maria Clara Bingemer: O rosto feminino de Deus"},"content":{"rendered":"<p>IHU &#8211; Unisinos<\/p>\n<p><em>&#8220;A p\u00f3s-modernidade resgatou a transcend\u00eancia que a modernidade havia tentado banir do horizonte humano, mas resgatou uma transcend\u00eancia sem absolutos&#8221;, explica a te\u00f3loga brasileira Maria Clara Bingemer, na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line. Ela comenta as diversas formas de viver a experi\u00eancia religiosa na modernidade e na p\u00f3s-modernidade. Tamb\u00e9m fala sobre as contribui\u00e7\u00f5es cristol\u00f3gicas dadas pelos estudos de g\u00eanero. &#8220;A Cristologia \u00e9 percebida inclusive por muitas mulheres como sendo a doutrina da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que mais freq\u00fcentemente foi usada contra elas&#8221;, disse.<\/em> <\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Quem \u00e9 Jesus? O que destacaria d\u2019Ele, baseada na sua pr\u00f3pria reflex\u00e3o teol\u00f3gica?<\/p>\n<p>Maria Clara Bingemer &#8211; Antes de tudo, Jesus \u00e9 uma pessoa humana.  Creio que \u00e9 esse o caminho que seguem as primeiras testemunhas e que tamb\u00e9m n\u00f3s, crist\u00e3os, somos chamados a seguir. Jesus (que) \u00e9 (era) homem, (que) \u00e9 (era) irm\u00e3o, (que) \u00e9 (era) Messias (Cristo),(que) \u00e9 Filho, \u00e9 Deus.<\/p>\n<p>Dizer simplesmente &#8220;Jesus \u00e9 Deus&#8221;, sem supor a humanidade do mesmo Jesus, pode ser her\u00e9tico, pois significa negar todo o processo da revela\u00e7\u00e3o e da salva\u00e7\u00e3o. Se n\u00e3o fizermos nenhuma distin\u00e7\u00e3o; se n\u00e3o reconhecermos nenhuma alteridade, nenhuma diferen\u00e7a entre as pessoas divinas; se afirmarmos equivalente e simetricamente &#8220;Jesus \u00e9 Deus&#8221; assim como afirmamos &#8220;O Pai \u00e9 Deus&#8221;, acabaremos por afirmar e identificar &#8220;Jesus \u00e9 o Pai&#8221;, e acabaremos comprometendo nosso entendimento do Novo Testamento e a revela\u00e7\u00e3o que faz da pessoa de Jesus. Assim, essa \u00e9 minha experi\u00eancia com a pessoa de Jesus. Uma experi\u00eancia de encontro. S\u00f3 depois vir\u00e1 a reflex\u00e3o teol\u00f3gica, que faz perceber que aquele homem tem um comportamento essencialmente fraterno com toda e qualquer pessoa que cruza seu caminho. Que nele se encontram os gestos e os fatos que se espera da chegada do Messias. Que ele tem com Deus uma rela\u00e7\u00e3o \u00fanica e singular, que ningu\u00e9m mais tem. Isso \u00e9 o que faz poss\u00edvel a experi\u00eancia de v\u00ea-lo morto e experiment\u00e1-lo ressuscitado e vivo no meio de n\u00f3s. E proclamar, ent\u00e3o, que ele \u00e9 o Filho de Deus e Deus mesmo.<\/p>\n<p>Para chegar \u00e0 confiss\u00e3o de f\u00e9 na divindade de Jesus Cristo, tudo tem que come\u00e7ar em sua humanidade. \u00c9 por isso que Deus se fez carne em Jesus de Nazar\u00e9. Para que n\u00f3s possamos, a partir do n\u00facleo de nossa humanidade, encontr\u00e1-lo e relacionarmo-nos com ele.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Como o feminismo ajuda a entender a pessoa de Jesus? O que seria uma cristologia feminista?<\/p>\n<p>Maria Clara Bingemer &#8211; Prefiro a palavra &#8220;reflex\u00e3o de g\u00eanero&#8221; do que &#8220;feminismo&#8221;. Ou seja, a consci\u00eancia feita reflex\u00e3o de que todo conhecimento que se elabora necessariamente \u00e9 situado, tanto no contexto hist\u00f3rico e cultural onde se vive quanto no g\u00eanero ao qual pertencemos. Por isso, o fato de ser mulher e ter disso consci\u00eancia, obriga a levantar sobre Jesus um tipo de reflex\u00e3o a partir disso. Uma reflex\u00e3o teol\u00f3gica, portanto, que os homens n\u00e3o podem fazer. <\/p>\n<p>Entre os diferentes tratados da Teologia que buscam repensar-se a partir da perspectiva da mulher, a Cristologia \u00e9 talvez um dos mais importantes e, certamente, dos mais pol\u00eamicos. Porque se, por um lado, Jesus Cristo \u00e9 o centro da f\u00e9 e da teologia crist\u00e3s, o ponto de converg\u00eancia e de possibilidade de acesso da pessoa humana &#8211; homem e mulher &#8211; \u00e0 salva\u00e7\u00e3o oferecida pelo Deus vivo, e, portanto, \u00e0 vida em plenitude que \u00e9 esse Deus em si mesmo, por outro lado, para muitas mulheres, a masculinidade de Jesus &#8211; ou seja, o fato hist\u00f3rico teol\u00f3gico de que o Deus de toda gl\u00f3ria e majestade se haja encarnado na pessoa de um var\u00e3o da Palestina h\u00e1 2.000 anos -, n\u00e3o est\u00e1 isenta de problemas. <\/p>\n<p>Muitas te\u00f3logas feministas, em seu intento de pensar o mist\u00e9rio revelado desde sua perspectiva de seres humanos do sexo feminino, encontraram um obst\u00e1culo na pessoa de Jesus. A centralidade &#8211; o senhorio &#8211; deste Deus masculino lhes soava como havendo sido empregado doutrin\u00e1ria, pol\u00edtica, psicol\u00f3gica e estruturalmente ao servi\u00e7o de uma fraternidade de irm\u00e3os e padres &#8211; a Igreja -, cujos membros femininos foram sempre contados como auxiliares ou subalternos ou, em casos especiais, percebidos como muito semelhantes aos homens para que elas pudessem ser relativamente bem aceitas em sua companhia.<\/p>\n<p><strong>Cristologia e quest\u00f5es de g\u00eanero<\/strong><\/p>\n<p>A Cristologia \u00e9 percebida, inclusive, por muitas mulheres como sendo a doutrina da tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 que mais freq\u00fcentemente foi usada contra elas. Algumas afirma\u00e7\u00f5es de grandes mestres da teologia, como Agostinho de Hipona e, na alta escol\u00e1stica, e Tom\u00e1s de Aquino, foram interpretadas no sentido de que o macho \u00e9 o sexo gen\u00e9rico da esp\u00e9cie humana. Somente o macho representa a plenitude do potencial humano, enquanto a mulher, por natureza, \u00e9 deficiente f\u00edsica, moral e mentalmente. Esta concep\u00e7\u00e3o leva a afirmar que n\u00e3o s\u00f3 depois da queda original, mas tamb\u00e9m na ess\u00eancia original das coisas, a natureza deficiente da mulher a confinou a uma posi\u00e7\u00e3o subserviente na ordem social. Ela \u00e9, por natureza, subjugada. Portanto, a encarna\u00e7\u00e3o do Logos de Deus em um macho n\u00e3o seria um acidente hist\u00f3rico, mas uma necessidade ontol\u00f3gica. O macho representa a totalidade da natureza humana, em si mesmo e como cabe\u00e7a da mulher. Ele \u00e9 a totalidade da imagem de Deus, enquanto a mulher por si mesma n\u00e3o representa a imagem de Deus e n\u00e3o tem a totalidade da humanidade.<\/p>\n<p>Portanto, a cristologia feita pela mulher levanta as seguintes perguntas: se o cristianismo \u00e9 fundamentalmente seguimento e identifica\u00e7\u00e3o de e com Jesus Cristo, se nisto consiste a salva\u00e7\u00e3o e a plena realiza\u00e7\u00e3o dos desejos do cora\u00e7\u00e3o humano, como pode a mulher encontrar seu lugar a\u00ed, em plena fidelidade a sua condi\u00e7\u00e3o feminina? Como encontrar o caminho para sentir-se cidad\u00e3 plena no Reino proposto por Jesus? Como encontrar seu espa\u00e7o na Revela\u00e7\u00e3o de um Deus com caracter\u00edsticas masculinas e numa comunidade de estrutura e corte essencialmente masculinos formada por seus seguidores?<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; O que caracterizaria sentir Deus de um modo feminino?<\/p>\n<p>Maria Clara Bingemer- Foi Jesus quem nos ensinou a chamar a Deus de Pai. E, certamente, ele o fez seguindo os modelos culturais da \u00e9poca, que falavam masculinamente de Deus. Diferentemente de outros povos que tinham tamb\u00e9m deusas, o povo de Israel sempre se referiu a Jav\u00e9 no masculino. Mas como falar de Deus-Pai nessa nova linguagem? Primeiramente, \u00e9 preciso lembrar que Deus-Pai n\u00e3o \u00e9 pai como nossos pais humanos, t\u00e3o marcados por pecados e imperfei\u00e7\u00f5es. Al\u00e9m do mais, o pai entra com apenas uma parcela na fonte e origem da vida de uma crian\u00e7a. Quando dizemos Deus-Pai, j\u00e1 estamos afirmando a paternidade perfeita do Pai, uma paternidade que inclui toda a dignidade e beleza e generosidade, tanto da paternidade quanto da maternidade. Em si, quando dizemos Deus-Pai, j\u00e1 estamos pensando e falando num Deus que tamb\u00e9m \u00e9 M\u00e3e. A gera\u00e7\u00e3o eterna do Filho pelo Pai \u00e9 t\u00e3o plena e perfeita que num \u00fanico Filho resplandece toda ternura materna e todo vigor paterno de seu amor.<\/p>\n<p>Por outro lado, n\u00e3o se pode cair na tenta\u00e7\u00e3o oposta, e cham\u00e1-lo somente de Deus-M\u00e3e. Tamb\u00e9m nossas m\u00e3es humanas s\u00e3o marcadas por imperfei\u00e7\u00f5es e pecados, e nenhuma delas consegue ser sozinha a fonte da vida de seus filhos. Al\u00e9m disso, em nossa linguagem cat\u00f3lica, a palavra &#8220;M\u00e3e&#8221; \u00e9 espec\u00edfica para se falar de Maria. Estar\u00edamos correndo um s\u00e9rio risco de promover confus\u00f5es entre Maria (que n\u00e3o \u00e9 deusa, mas criatura de Deus) e Deus.<\/p>\n<p><strong>A maternidade de Deus e de Jesus<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se pode, por\u00e9m, negar a necessidade e urg\u00eancia de apresentar a dimens\u00e3o feminina de Deus. A pr\u00f3pria B\u00edblia fala de Deus-Pai em linguagem feminina. Consola o povo, como a m\u00e3e consola o filho (Is 66,13). Compara-se \u00e0 m\u00e3e que nunca abandona o filho (Is 49,15). No Conc\u00edlio Regional de Toledo, no ano de 675, se afirma em linguagem feminina que &#8220;o Filho foi gerado do \u00fatero do Pai&#8221;. O Papa Jo\u00e3o Paulo I, o papa-sorriso, disse: &#8220;Deus \u00e9 Pai e M\u00e3e&#8221;.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, n\u00e3o se pode aplicar a denomina\u00e7\u00e3o feminina apenas \u00e0 primeira pessoa da Sant\u00edssima Trindade, ou seja, \u00e0 pessoa do Pai. O amor de Deus pela humanidade, que flui da economia trinit\u00e1ria, \u00e9 a imagem e forma da realidade mais funda de Deus. O amor assim misteriosamente entendido \u00e9 inclusivo, n\u00e3o deixando fora de si o pobre ou os pequenos deste mundo.<\/p>\n<p>A reciprocidade trinit\u00e1ria \u00e9 matriz para a reciprocidade inter-humana, primeiro e \u00faltimo elemento de tudo que existe. Da mesma maneira que o Filho e o Esp\u00edrito Santo constituem refer\u00eancias de um Princ\u00edpio sem princ\u00edpio, um Mist\u00e9rio absoluto &#8211; o Pai -, assim tamb\u00e9m o homem e a mulher s\u00e3o constitu\u00eddos atrav\u00e9s da refer\u00eancia a um dinamismo que os transcende e constitui o mist\u00e9rio do ser humano.  <\/p>\n<p>Cada pessoa da Trindade mostra uma harmoniza\u00e7\u00e3o de caracter\u00edsticas masculinas e femininas. Trata-se de uma comunidade de amor que se revelou tamb\u00e9m no feminino, assim como no masculino.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Que caracter\u00edsticas adquire a experi\u00eancia religiosa na modernidade?<\/p>\n<p>Maria Clara Bingemer &#8211; A experi\u00eancia religiosa na modernidade passa pelo crivo do processo de seculariza\u00e7\u00e3o e o dom\u00ednio da raz\u00e3o. Toda experi\u00eancia e, inclusive a experi\u00eancia religiosa, nos tempos modernos deve passar pela b\u00ean\u00e7\u00e3o da raz\u00e3o. A crise dessa raz\u00e3o potente que a tudo explica e a tudo justifica traz consigo o advento de um novo tempo juntamente com uma nova maneira de ver as coisas. Ao mesmo tempo, com o advento da p\u00f3s-modernidade, come\u00e7a uma nova valoriza\u00e7\u00e3o da gratuidade, da contempla\u00e7\u00e3o, do sens\u00edvel. <\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 mais valorizado apenas aquilo que passa pelo crivo da raz\u00e3o, mas tamb\u00e9m e muito especialmente aquilo que vai de encontro \u00e0 afetividade e provoca a sensibilidade. A experi\u00eancia religiosa ir\u00e1 encontrar a\u00ed uma maneira de ser e de existir que est\u00e1 mais de acordo ao perfil do homem e da mulher p\u00f3s-modernos: sinto, logo existo. A cultura de sensa\u00e7\u00f5es seduzidas, que caracteriza a p\u00f3s-modernidade, ir\u00e1 marcar os tempos em que vivemos com a marca indel\u00e9vel da afetividade seduzida e sensibilizada. Apenas \u00e0s vezes muito superficialmente.<\/p>\n<p>Portanto, se a pura racionalidade, r\u00edgida e inflex\u00edvel da modernidade, engessou a experi\u00eancia religiosa e distanciou-a do viver das pessoas, por outro lado, a superficialidade e o &#8220;\u00e0 flor da pele&#8221; da p\u00f3s-modernidade corre o risco de torn\u00e1-la fluida e l\u00edquida, como l\u00edquidos s\u00e3o os tempos hiper-modernos. A p\u00f3s-modernidade resgatou a transcend\u00eancia que a modernidade havia tentado banir do horizonte humano, mas resgatou uma transcend\u00eancia sem absolutos. <\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; Quais s\u00e3o os aspectos mais relevantes das pesquisas cient\u00edficas sobre o Jesus hist\u00f3rico?<\/p>\n<p>Maria Clara Bingemer &#8211; As pesquisas sobre o Jesus hist\u00f3rico trazem, sobretudo, um aspecto relevante: abordar o mist\u00e9rio de Jesus Cristo a partir da hist\u00f3ria, da humanidade, a partir de baixo, em um movimento ascendente. Uma cristologia ascendente parte do humano, ou seja, trata-se de uma cristologia que parte &#8220;de baixo&#8221;. Segundo este modo de aproximar-se do mist\u00e9rio cristol\u00f3gico, Jesus foi um homem singular e \u00fanico. Irrepet\u00edvel e absolutamente original, viveu a exist\u00eancia amea\u00e7ada e insegura de todo ser humano, comprometendo-se na mais radical obedi\u00eancia a Deus para libertar a humanidade, porque para isso havia sido enviado por seu Deus e Pai. Ap\u00f3s realizar totalmente e at\u00e9 o fim o plano de Deus, foi por Deus ressuscitado e constitu\u00eddo Senhor e Cristo. Nesta perspectiva, est\u00e3o necessariamente vinculadas a cristologia e a soteriologia, o mist\u00e9rio de Cristo e nossa salva\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que uma n\u00e3o se pode compreender sem a outra. Al\u00e9m disso, esta perspectiva teol\u00f3gica tem a vantagem de que salva a cristologia de todo perigo de monofisismo ou de infiltra\u00e7\u00f5es m\u00edticas, sejam elas quais forem. Nesta cristologia, aparece claro que Jesus Cristo foi um homem inteiramente igual a todos os outros seres humanos, menos no pecado (Heb 4,15; cf. Fil 2,7-8).<\/p>\n<p><strong>A humanidade de Jesus<\/strong><\/p>\n<p>Por outra parte, nesta cristologia se explicam sem dificuldade toda uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es que os evangelhos fazem sobre Jesus: dizem que ele aprendia (Lc 2,40.50), que sentia saudades e se surpreendia (Mt 8,10; Lc 7,9; Mc 6,6), que n\u00e3o sabia ou conhecia certas coisas (Mc 13,32), que tinha tenta\u00e7\u00f5es (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13; Lc 4,1-13; 22,28), que sofreu o medo diante da morte e do fracasso (Mt 26,38; Mc 14,34; Lc 22,43-45; Heb 5,7). Definitivamente, Jesus aparece nestes textos como algu\u00e9m muito humano, a quem se pode seguir e a quem se pode tomar como modelo e desejar imitar. Igualmente, nesta interpreta\u00e7\u00e3o, Jesus aparece como um judeu muito consciente de sua perten\u00e7a ao povo eleito. Mais: aparece como algu\u00e9m que se d\u00e1 conta da verdadeira situa\u00e7\u00e3o de seu povo, e se compromete at\u00e9 o fundo para libertar seus semelhantes das m\u00faltiplas cadeias e escravid\u00f5es (morais, religiosas, humanas) em que est\u00e3o aprisionados, por obedi\u00eancia a seu Pai , em quem ele v\u00ea o Deus libertador que se revelou no Antigo Testamento. Mas esta cristologia tem o inconveniente de que, ao menos em princ\u00edpio, n\u00e3o explica suficientemente toda uma s\u00e9rie de afirma\u00e7\u00f5es do Novo Testamento nas quais se fala da preexist\u00eancia de Cristo e da consci\u00eancia messi\u00e2nica de Jesus, que aparece afirmada em alguns textos do Novo Testamento, especialmente o evangelho de Jo\u00e3o.<\/p>\n<p>IHU On-Line &#8211; O que caracteriza o messianismo crist\u00e3o? Como Jesus o viveu? Como o aspecto messi\u00e2nico \u00e9 vivido no cristianismo de hoje e quais as deriva\u00e7\u00f5es dele?<\/p>\n<p>Maria Clara Bingemer &#8211; A messianidade de Jesus \u00e9 ponto fundamental da f\u00e9 das primeiras comunidades crist\u00e3s. As comunidades crist\u00e3s declararam ser Jesus de Nazar\u00e9 o Messias esperado, o que, em si mesmo, j\u00e1 \u00e9 uma confiss\u00e3o de f\u00e9. O Messias e o carpinteiro Jesus que morreu crucificado pelos romanos s\u00e3o, ent\u00e3o, a mesma pessoa, ou seja, o evangelista. Esse Messias \u00e9 inseparavelmente o Filho de Deus. O evangelista nos d\u00e1 a f\u00f3rmula da f\u00e9: vincula a pessoa de Jesus a um certo quadro hist\u00f3rico: o do ambiente judaico que espera a vinda de um Messias, que clama pela Reden\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia da cristologia ascendente, hoje, nos permite afirmar que Jesus experimentou sua autoconsci\u00eancia messi\u00e2nica n\u00e3o em termos de um messianismo r\u00e9gio ou mon\u00e1rquico ou mesmo de uma condi\u00e7\u00e3o de ser preexistente, mas de um chamado divino. O que caracteriza, portanto, o messianismo de Jesus \u00e9 o fato de sentir-se eleito e enviado para realizar uma miss\u00e3o divina particular e obedecer estritamente ao chamado de Deus.<\/p>\n<p>Nesse sentido, as a\u00e7\u00f5es e o ensinamento de Jesus mostram que ele se autocompreendia dentro de uma rela\u00e7\u00e3o marcante com Deus seu Pai e investido de uma miss\u00e3o especial. O sofrimento e a morte, do mesmo modo que a esperan\u00e7a na ressurrei\u00e7\u00e3o, foram assumidos como decorr\u00eancia da obedi\u00eancia irrestrita \u00e0 vontade do Pai. Essa vontade, necessariamente, contrariava a vontade daqueles que n\u00e3o aceitavam o messianismo de Jesus e sua a\u00e7\u00e3o libertadora e desejavam que a configura\u00e7\u00e3o do campo religioso judaico oficial permanecesse tal como estava antes de Jesus come\u00e7ar sua prega\u00e7\u00e3o. E, embora Jesus tentasse e pretendesse conservar em segredo a natureza da autoridade que o fazia t\u00e3o especial, sua coer\u00eancia e a for\u00e7a de seu carisma n\u00e3o deixaram de provocar indigna\u00e7\u00e3o naqueles que desejavam esse carisma para poder ter maior influ\u00eancia sobre o povo e que, no entanto, n\u00e3o o tinham.<\/p>\n<p><strong>Messianismo sem poder nem reformismo pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n<p>Jesus n\u00e3o entende seu messianismo como uma atividade meramente pol\u00edtica, de poder, mas sim de servi\u00e7o, que incluir\u00e1 a incompreens\u00e3o, a rejei\u00e7\u00e3o e o sofrimento. O povo v\u00ea, sim, em Jesus um profeta que se dirige \u00e0s dimens\u00f5es religiosa e social do ser humano, mostrando-lhes o sentido da vida e a atitude correta a ter para com Deus e com os outros a fim de viver plenamente. Mas se afasta dele no momento em que compreende com certeza que ele n\u00e3o ser\u00e1 nem pretender\u00e1 ser o reformador pol\u00edtico que eles de alguma maneira esperam.  <\/p>\n<p>Jesus mostra que seu messianismo est\u00e1 relacionado com o servi\u00e7o a Deus. Seu messianismo n\u00e3o \u00e9 mon\u00e1rquico e triunfal. Do ponto de vista pol\u00edtico, Jesus ser\u00e1 rejeitado justamente pelas autoridades formadas pelos anci\u00e3os, sacerdotes e escribas, representantes das principais correntes do Sin\u00e9drio. S\u00e3o esses que o condenar\u00e3o. O sonho de gl\u00f3ria dos disc\u00edpulos que esperavam participar de um poder terreno de Jesus \u00e9 transtornado e frustrado pela realidade do sofrimento de Jesus.<\/p>\n<p><em>Maria Clara Bingemer \u00e9 professora do departamento de teologia da PUC-Rio e decana do Centro de Teologia e Ci\u00eancias Humanas da mesma universidade. Ela \u00e9 graduada em Jornalismo, mestre em Teologia e doutora em Teologia Sistem\u00e1tica.<\/em><\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-2460\" data-postid=\"2460\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-2460 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>IHU &#8211; Unisinos &#8220;A p\u00f3s-modernidade resgatou a transcend\u00eancia que a modernidade havia tentado banir do horizonte humano, mas resgatou uma transcend\u00eancia sem absolutos&#8221;, explica a te\u00f3loga brasileira Maria Clara Bingemer, na entrevista a seguir, concedida por e-mail \u00e0 IHU On-Line. Ela comenta as diversas formas de viver a experi\u00eancia religiosa na modernidade e na p\u00f3s-modernidade. 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