
{"id":24656,"date":"2014-04-02T09:17:48","date_gmt":"2014-04-02T12:17:48","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=24656"},"modified":"2014-04-02T09:17:48","modified_gmt":"2014-04-02T12:17:48","slug":"crise-desemprego-e-migracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/crise-desemprego-e-migracao\/","title":{"rendered":"Crise, desemprego e migra\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><i style=\"line-height: 1.5em;\">Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, CS<\/i><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No \u00faltimo m\u00eas de fevereiro (2014), o desemprego na It\u00e1lia bateu um novo recorde. Atingiu a marca de 13% da Popula\u00e7\u00e3o Economicamente Ativa (PEA), a mais elevada desde que \u201cla disocupazione\u201d vem sendo medida regularmente. Entre os jovens de 15 a 25 anos, por\u00e9m, a porcentagem \u00e9 ainda mais alarmante, alcan\u00e7ando a cifra de 42,3%, quase a metade daqueles que procuram emprego. Outro dado nada animador: nos \u00faltimos doze meses (fevereiro\/2013 \u2013 fevereiro\/2014), foram fechados 365.000 postos de trabalho no pa\u00eds, nada menos do que uma m\u00e9dia de mil por dia. De parte das empresas e ind\u00fastris em geral, desde o come\u00e7o da crise, em 2008, cerca de 25% dos empreendimentos interromperam e\/ou encerraram as atividades. N\u00e3o s\u00e3o poucos os pequenos e m\u00e9dios neg\u00f3cios que fecham as portas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por outro lado, vem caindo consideravelmente o rendimento e o consumo m\u00e9dio das fam\u00edlias, incluindo os produtos de primeira necessidade, at\u00e9 mesmo os alimentos. Tamb\u00e9m os aposentados viram seus rendimentos diminuirem de ano para ano. Nessa atmosfera sombria, de cada 10 trabalhadores italianos, 6 temem perder o emprego, sendo essa a maior preocupa\u00e7\u00e3o da maior parte das fam\u00edlias. A verdade \u00e9 que tornou-se praticamente imposs\u00edvel encontrar outro do mesmo n\u00edvel e, mesmo para qualquer emprego inferior, o tempo m\u00e9dio para uma nova oportunidade de trabalho pode chegar a 3 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somando e subtraindo, o resultado desses n\u00fameros s\u00e3o preocupantes. Embora os governantes anunciem que j\u00e1 se pode vislumbrar alguns sinais de recupera\u00e7\u00e3o, em termos de crescimento econ\u00f4mico e do PIB, por exemplo, o desemprego deve continuar batendo novos recordes durante o ano em curso, dificultando o fortalecimento de um mercado interno s\u00f3lido e robusto. De igual modo, as fam\u00edlias permanecem com um p\u00e9 atr\u00e1s quando se trata de ampliar o volume de compras. O fantasma da defla\u00e7\u00e3o, t\u00e3o nocivo quanto a infla\u00e7\u00e3o, come\u00e7a a preocupar certos economistas. De acordo com grande parte dos analistas, as pequenos luzes no fim do t\u00fanel apontam para 2015 como \u201cl\u2019anno della ripresa\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dois sintomas vis\u00edveis desse clima v\u00eam se agravando h\u00e1 alguns anos. O primeiro tem sido chamado de \u201cfuga de c\u00e9rebros\u201d.\u00a0 Mesmo n\u00e3o dispondo de estat\u00edsticas exatas, cacula-se em milhares os jovens de ambos os sexos que deixam o pa\u00eds com a perspectiva de um futuro menos prec\u00e1rio. Os destinos mais procurados s\u00e3o Estados Unidos, Gr\u00e3 Bret\u00e2nia e Alemanha. Fala-se em \u201chemoragia de m\u00e3o de obra especializada\u201d, uma vez que grande parte desses emigrantes concluiram os estudos superiores. N\u00e3o poucos apenas esperam receber o diploma para embarcar. Tal emigra\u00e7\u00e3o contrasta vivamente com a entrada cont\u00ednua de refugiados no sul da It\u00e1lia, especialemte atrav\u00e9s de Lampedusa. As barca\u00e7as apinhadas de gente n\u00e3o param de chegar. Nos tr\u00eas primeiros meses de 2014, o n\u00famero j\u00e1 ultrapassa a casa dos 5 mil. Entre os pa\u00edses de origem, destacam-se Eritr\u00e9ia, Eti\u00f3pia, L\u00edbano e norte da \u00c1frica em geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O outro sintoma \u00e9 bem mais tr\u00e1gico. Tem aumentado de forma mais ou menos vis\u00edvel o n\u00famero de suic\u00eddios: trata-se, por uma parte, de pessoas relativamente idosas cujos rendimentos, em alguns casos, sequer conseguem acompanhar o pre\u00e7o do aluguel; de outra parte, pais ou m\u00e3es de fam\u00edlia incapazes de arcar com o sustento da mesma. Pior ainda quando, antes de suicidar-se, eliminam fisicamente os pr\u00f3prios filhos. N\u00e3o se pode falar de epidemia, evidentemente, mas crescem as situa\u00e7\u00f5es de desespero, bastando n\u00e3o muitos casos para aumentar o clima de temor, instabilidade e inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse cen\u00e1rio de crise, desemprego, emigra\u00e7\u00e3o\/imigra\u00e7\u00e3o, e \u00e0s vezes desespero, vem trazendo \u00e0 tona um outro debate, delicado mas que ganha espa\u00e7o no velho continente. Trata-se do tema sobre uma Comunidade Europeia cada vez mais fraccionada entre o norte anglo-sax\u00f4nico, de um lado, e o sul dos pa\u00edses latinos e mediterr\u00e2neos, de outro. Ao norte, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Dinamarca, Su\u00e9cia, Finl\u00e2ndia \u2013 pa\u00edses relativamente est\u00e1veis e mais ou menos \u00e0 margem da crise, ou que j\u00e1 a superaram; de outro, Espanha, Portugal, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia, Chipre \u2013 pa\u00edses que apresentam s\u00e9rias dificuldades para retomar o n\u00edvel socioeconomico de 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algum tempo artr\u00e1s o empres\u00e1rio h\u00fangaro-americano George Soros chamava a aten\u00e7\u00e3o para o risco de uma Europa fraturada entre pa\u00edses credores (ao norte) e pa\u00edses devedores (ao sul). Segundo ele, e seguindo o parecer de outros estudiosos, isso seria umas das consequ\u00eancias nefastas da pol\u00edtica europeia \u201cdell\u2019austerity e del rigore\u201d, em lugar de incentivar medidas urgentes e necess\u00e1rias para um crescimento econ\u00f4mico e o desenvolvimento sustent\u00e1vel. Semelhante pol\u00edtica de austeridade, em linha de m\u00e1ssima, beneficiaria os pa\u00edses do norte, de forma especial a Alemanha, cujos bancos continuam faturando atrav\u00e9s da especula\u00e7\u00e3o financeira. Capital que rende ac\u00famulo de mais capital, em vez de produ\u00e7\u00e3o de bens e servi\u00e7os \u00e0 popula\u00e7\u00e3o. Enquanto isso, Gr\u00e9cia, Espanha e It\u00e1lia \u2013 entre outros \u2013 patinam no lodo da crise, tendo ainda que arcar com o \u00f4nus das d\u00edvidas e das car\u00eancias de ordem sociocultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Retomando a tem\u00e1tica da migra\u00e7\u00e3o, os pa\u00edses do sul que confinam com as \u00e1guas do mediterr\u00e2neo, s\u00e3o justamente aqueles onde aportam as embarca\u00e7\u00f5es de imigrante refugiados (It\u00e1lia, Espanha, Gr\u00e9cia). Embora as autoridades italianas venham insistindo que o mediterr\u00e2neo constitui uma fronteira da Europa e n\u00e3o s\u00f3 da It\u00e1lia, os pa\u00edses do norte raramente (para evitar um \u201cnunca\u201d) d\u00e3o sinais de condidivir o \u00f4nus da acolhida aos milhares de refugiados que continuam desembarcamdo em territ\u00f3rio europeu. Figuras influentes como Jean-Marie Le Pen e Marine Le Pen, bem como os l\u00edderes do partido da Lega Nord (e estamos em um pa\u00edses latinos, respectivamente Fran\u00e7a e It\u00e1lia) tendem a recha\u00e7ar qualquer pol\u00edtica de imigra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As coisas n\u00e3o s\u00e3o diferentes nos pa\u00edses como Alemanha, Sui\u00e7a, Finl\u00e2ndia, Inglaterra, Dinamarca, Finl\u00e2ndia, etc.? No geral, tanto ao sul quanto ao norte, a verdadeira \u201cpol\u00edtica migrat\u00f3ria\u201d \u00e9 o uso de um filtro rigoroso, uma peneira fina, constitu\u00edda de leis sempre mais r\u00edgidas, sobre a massa de imigrantes. T\u00eam chance os que apresentam algum tipo de capacita\u00e7\u00e3o ou especializa\u00e7\u00e3o; os demais raramente conseguir\u00e3o o t\u00edtulo de cidadania. Est\u00e3o condenados a perambular pelas ruas de Paris, Londres, Roma, Berlim&#8230; Sobrevidendo a duras penas nos por\u00f5es do mercado informal, em boa parte imigrantes \u201csans-papiers\u201d. Em lugar de uma poss\u00edvel acolhida, difunde-se um duplo fator de recha\u00e7o: o temor de que os imigrantes venham tomar o posto dos \u201cnossos\u201d, ao lado de palavras e atitudes de discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito ou persegui\u00e7\u00e3o por parte de pessoas e grupos n\u00e3o raro neonazistas. Prova disso s\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es racistas e xen\u00f3fobas da tor\u00e7ida contra jogadores de futebol de origem negra. Manifesta\u00e7\u00f5es que se verificam tanto nos pa\u00edses do norte europeu quanto nos pa\u00edses do sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\" align=\"right\"><i>Roma, It\u00e1lia, 02 de abril de 2014<\/i><\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-24656\" data-postid=\"24656\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-24656 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, CS No \u00faltimo m\u00eas de fevereiro (2014), o desemprego na It\u00e1lia bateu um novo recorde. Atingiu a marca de 13% da Popula\u00e7\u00e3o Economicamente Ativa (PEA), a mais elevada desde que \u201cla disocupazione\u201d vem sendo medida regularmente. 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