
{"id":2647,"date":"2009-04-02T18:50:55","date_gmt":"2009-04-02T21:50:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=2647"},"modified":"2009-04-01T21:59:32","modified_gmt":"2009-04-02T00:59:32","slug":"entrevista-com-liberdade-total-para-o-mercado-quem-atende-aos-pobres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/entrevista-com-liberdade-total-para-o-mercado-quem-atende-aos-pobres\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Com liberdade total para o mercado, quem atende aos pobres?&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Em entrevista publicada no jornal P\u00e1gina 12, o historiador brit\u00e2nico Eric Hobsbawm fala da crise atual e de suas poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Para ele, o mundo est\u00e1 entrando em um per\u00edodo de depress\u00e3o e os grandes riscos, diante da fragilidade da esquerda mundial, s\u00e3o o crescimento da xenofobia e da extrema-direita. Hobsbawm destaca o que est\u00e1 acontecendo na Am\u00e9rica Latina e elogia o presidente brasileiro. &#8220;\u00c9 o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. No Brasil h\u00e1 muitos pobres e ningu\u00e9m jamais fez tantas coisas concretas por eles&#8221;. <\/p>\n<p>Em junho ele completa 92 anos. L\u00facido e ativo, o historiador que escreveu &#8220;Rebeldes Primitivos&#8221;, &#8220;A Era da Revolu\u00e7\u00e3o&#8221; e a &#8220;Hist\u00f3ria do S\u00e9culo XX&#8221;, entre outros livros, aceitou falar de sua pr\u00f3pria vida, da crise de 30, do fascismo e do antifascismo e da crise atual. Segundo ele, uma crise da economia do fundamentalismo de mercado \u00e9 o que a queda do Muro de Berlim foi para a l\u00f3gica sovi\u00e9tica do socialismo. <\/p>\n<p>Hobsbawm aparece na porta da embaixada da Alemanha, em Londres. S\u00e3o pouco mais de tr\u00eas da tarde na bela Belgrave Square e se enxergam as bandeiras das embaixadas por tr\u00e1s das copas das \u00e1rvores. De \u00f3culos, chap\u00e9u na cabe\u00e7a e um casaco muito pesado, cumprimenta. Tem m\u00e3os grandes e ossudas, mas n\u00e3o parecem as m\u00e3os de um velho. Nenhuma deforma\u00e7\u00e3o de artrite as atacou. Rapidamente uma pequena prova demonstra que as pernas de Hobsbawm tamb\u00e9m est\u00e3o em boa forma. Com agilidade desce tr\u00eas degraus que levam do corrim\u00e3o a cal\u00e7ada. Parece enxergar bem. Tem uma bengala na m\u00e3o direita. N\u00e3o se ap\u00f3ia nela, mas talvez a use como seguran\u00e7a, em caso de trope\u00e7ar, ou como um sensor de alerta r\u00e1pido que detecta degraus, po\u00e7as e, de imediato, o meio-fio da cal\u00e7ada. Hobsbawm \u00e9 alto e magro. Uns oitenta e bicos. N\u00e3o pede ajuda. O motorista do Foreign Office lhe abre a porta esquerda do jaguar preto. Entra no carro com facilidade. O carro \u00e9 grande, por sorte, e cabe, mas a viagem \u00e9 curta.<\/p>\n<p>&#8211; Acabo de me encontrar com um historiador alem\u00e3o, por isso estou na embaixada, e devo voltar \u2013 avisa. Ele chegou de visita a Londres e quis conversar com alguns de n\u00f3s. Sei que vamos a Canning House. Est\u00e1 bem. Poucas voltas, n\u00e3o?<\/p>\n<p>O carro d\u00e1 meia volta na Belgrave Square e p\u00e1ra na frente de outro palacete branco de tr\u00eas andares, com uma varanda rodeada de colunas e a porta de madeira pesada. Por algum motivo m\u00e1gico o motorista de cabelos brancos com uma mecha sobre o rosto, traje azul e sorridente como um ajudante do inspetor Morse de Oxford, j\u00e1 abre a porta a Hobsbawm. Entre essas constru\u00e7\u00f5es t\u00e3o parecidas, a eleg\u00e2ncia do Jaguar o assemelha a uma carruagem rec\u00e9m polida. O motorista sorri quando Hobsbawm desce. O professor lhe devolve a simpatia enquanto sobe com facilidade num hall obscuro. J\u00e1 entrou em Canning House e \u00e0 direita v\u00ea uma enorme imagem de Jos\u00e9 de San Martin. \u00c0 esquerda do corredor, uma grande sala. O ch\u00e1 est\u00e1 servido. Quer dizer, o ch\u00e1, os p\u00e3es e uma torta. Outro quadro do mesmo tamanho que o de San Martin. \u00c9 Simon Bol\u00edvar. E tamb\u00e9m \u00e9 Bol\u00edvar o cavalheiro do busto sobre o aparador. <\/p>\n<p>Quanto ch\u00e1 tomaram Bol\u00edvar e San Martin antes de sa\u00edrem de Londres para a Am\u00e9rica do Sul, em princ\u00edpios do s\u00e9culo XIX, para cumprir seus planos de independ\u00eancia?<\/p>\n<p>Hobsbawm pega a primeira ta\u00e7a e quer ser quem faz a primeira pergunta. <\/p>\n<p>&#8211; Como est\u00e1 a Argentina? &#8211; interroga mas n\u00e3o muito, porque n\u00e3o espera e comenta \u2013 No ano passado Cristina esteve para vir a Londres para uma reuni\u00e3o de presidentes progressistas e pediu para me ver. Eu disse sim, mas ela n\u00e3o veio. N\u00e3o foi sua culpa. Estava no meio do confronto com a Sociedade Rural.<\/p>\n<p>Hobsbawm fala um ingl\u00eas sem afeta\u00e7\u00e3o nem os trejeitos de alguns acad\u00eamicos do Reino Unido. Mas acaba de pronunciar \u201cSociedade Rural\u201d em castellhano. <\/p>\n<p>&#8211; O que aconteceu com esse conflito?<\/p>\n<p>Durante a explica\u00e7\u00e3o, o professor inclina a cabe\u00e7a, mais curioso que antes, enquanto com a m\u00e3o direita seu garfo tenta cortar a torta de ma\u00e7\u00e3. \u00c9 uma tarefa dif\u00edcil. Ent\u00e3o se desconcentra da torta e fixa o olhar esperando, agora sim, alguma pergunta. <\/p>\n<p>&#8211; O mundo est\u00e1 complicado \u2013 afirma ainda mantendo a iniciativa. N\u00e3o quero cair em slogans, mas \u00e9 indubit\u00e1vel que o Consenso de Washington morreu. A desregula\u00e7\u00e3o selvagem j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 somente m\u00e1: \u00e9 imposs\u00edvel. H\u00e1 que se reorganizar o sistema financeiro internacional. Minha esperan\u00e7a \u00e9 que os l\u00edderes do mundo se d\u00eaem conta de que n\u00e3o se pode renegociar a situa\u00e7\u00e3o para voltar atr\u00e1s, sen\u00e3o que h\u00e1 que se redesenhar tudo em dire\u00e7\u00e3o ao futuro. <\/p>\n<p>A Argentina experimentou v\u00e1rias crises, a \u00faltima forte em 2001. Em 2005 o presidente N\u00e9stor Kirchner, de acordo com o governo brasileiro, que tamb\u00e9m o fez, pagou ao FMI e desvinculou a Argentina do organismo para que o pa\u00eds n\u00e3o continuasse submetido a suas condicionalidades. <\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 que a esta altura se necessita de um FMI absolutamente distinto, com outros princ\u00edpios que n\u00e3o dependam apenas dos pa\u00edses mais desenvolvidos e em que uma ou duas pessoas tomam as decis\u00f5es. \u00c9 muito importante o que o Brasil e a Argentina est\u00e3o propondo, para mudar o sistema atual. Como est\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es de voc\u00eas?<\/p>\n<p>&#8211; Muito bem <\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 muito importante. Mantenham-nas assim. As boas rela\u00e7\u00f5es entre governos como os de voc\u00eas s\u00e3o muito importantes em meio a uma crise que tamb\u00e9m implica riscos pol\u00edticos. Para os padr\u00f5es estadunidenses, o pa\u00eds est\u00e1 girando \u00e0 esquerda e n\u00e3o \u00e0 extrema direita. Isso tamb\u00e9m \u00e9 bom. A Grande Depress\u00e3o levou politicamente o mundo para a extrema direita em quase todo o planeta, com exce\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses escandinavos e dos Estados Unidos de Roosevelt. Inclusive o Reino Unido chegou a ter membros do Parlamento que eram de extrema direita [e come\u00e7a a entrevista propriamente]. <\/p>\n<p>&#8211; E que alternativa aparece? <\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o sei. Sabe qual \u00e9 o drama? O giro \u00e0 direita teve onde se apoiar: nos conservadores. O giro \u00e0 esquerda tamb\u00e9m teve em quem descansar: nos trabalhistas. <\/p>\n<p>&#8211; Os trabalhistas governam o Reino Unido.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, mas eu gostaria de considerar um quadro mais geral. J\u00e1 n\u00e3o existe esquerda tal como era.<\/p>\n<p>&#8211; Isso lhe \u00e9 estranho?<\/p>\n<p>&#8211; Fa\u00e7o apenas o registro. <\/p>\n<p>&#8211; A que se refere quando diz \u201ca esquerda tal como era\u201d?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c0s distintas variantes da esquerda cl\u00e1ssica. Aos comunistas, naturalmente. E aos socialdemocratas. Mas, sabe o que acontece? Todas as variantes da esquerda precisam do Estado. E durante d\u00e9cadas de giro \u00e0 direita conservadora, o controle do Estado se tornou imposs\u00edvel. <\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Muito simples. Como voc\u00ea controla o estado em condi\u00e7\u00f5es de globaliza\u00e7\u00e3o? Conv\u00e9m recordar que, em princ\u00edpios dos anos 80 n\u00e3o s\u00f3 triunfaram Ronald Reagan e Margareth Thatcher. Na Fran\u00e7a, Fran\u00e7ois Miterrand n\u00e3o obteve uma vit\u00f3ria. <\/p>\n<p>&#8211; Havia vencido para a presid\u00eancia dem 1974 e repetiu a vit\u00f3ria em 1981.<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Mas quando tentou uma unidade das esquerdas para nacionalizar um setor maior da economia, n\u00e3o teve poder suficiente para faz\u00ea-lo. Fracassou completamente. A esquerda e os partidos socialdemocratas se retiraram de cena, derrotados, convencidos de que nada se podia fazer. E, ent\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 na Fran\u00e7a como em todo mundo ficou claro que o \u00fanico modelo que se podia impor com poder real era o capitalismo absolutamente livre.<\/p>\n<p>&#8211; Livre, sim. Por que diz \u201cabsolutamente\u201d?<\/p>\n<p>&#8211; Porque com liberdade absoluta para o mercado, quem atende aos pobres? Essa pol\u00edtica, ou a pol\u00edtica da n\u00e3o-pol\u00edtica, \u00e9 a que se desenvolveu com Margareth Thatcher e Ronald Reagan. E funcionou \u2013 dentro de sua l\u00f3gica, claro, que n\u00e3o compartilho \u2013 at\u00e9 a crise que come\u00e7ou em 2008. Frente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o anterior a esquerda n\u00e3o tinha alternativa. E frente a esta? Prestemos aten\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e0 esquerda mais cl\u00e1ssica da Europa. \u00c9 muito d\u00e9bil na Europa. Ou est\u00e1 fragmentada. Ou desapareceu. A Refunda\u00e7\u00e3o Comunista na It\u00e1lia \u00e9 d\u00e9bil e os outros ramos do ex Partido Comunista Italiano est\u00e3o muito mal. A Esquerda Unida na Espanha tamb\u00e9m est\u00e1 descendo ladeira abaixo. Algo permaneceu na Alemanha. Algo na Fran\u00e7a, como Partido Comunista. Nem essas for\u00e7as, nem menos ainda a extrema esquerda, como os trotskistas, e nem sequer uma socialdemocracia como a que descrevi antes alcan\u00e7am uma resposta a esta crise a seus perigos, contudo. A mesma debilidade da esquerda aumenta os riscos. <\/p>\n<p>&#8211; Que riscos?<\/p>\n<p>&#8211; Em per\u00edodos de grande descontentamento como o que come\u00e7amos a viver, o grande perigo \u00e9 a xenofobia, que alimentar\u00e1 e ser\u00e1 por sua vez alimentada pela extrema direita. E quem essa extrema direita buscar\u00e1? Buscar\u00e1 atrair os \u201cest\u00fapidos\u201d cidad\u00e3os que se preocupam com seu trabalho e t\u00eam medo de perd\u00ea-lo. E digo est\u00fapidos ironicamente, quero deixar claro. Porque a\u00ed reside outro fracasso evidente do fundamentalismo de mercado. Deu liberdade para todos, e a verdadeira liberdade de trabalho? A de mud\u00e1-lo e melhorar em todos os aspectos? Essa liberdade n\u00e3o foi respeitada porque, para o fundamentalismo de mercado isso tinha se tornado intoler\u00e1vel. Tamb\u00e9m teriam sido politicamente intoler\u00e1veis a liberdade absoluta e a desregula\u00e7\u00e3o absoluta em mat\u00e9ria laboral, ao menos na Europa. Eu temo uma era de depress\u00e3o. <\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea ainda tem d\u00favidas de que entraremos em depress\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Se voc\u00ea quiser posso falar tecnicamente, como os economistas, e quantificar trimestres. Mas isso n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio. Que outra palavra pode se usar para denominar um tempo em que muito velozmente milh\u00f5es de pessoas perdem seu emprego? De qualquer maneira, at\u00e9 o momento no vejo um cen\u00e1rio de uma extrema direita ganhando maioria em elei\u00e7\u00f5es, como ocorreu em 1933, quando a Alemanha elegeu Adolf Hitler. \u00c9 paradoxal, mas com um mundo muito globalizado um fator impedir\u00e1 a imigra\u00e7\u00e3o, que por sua vez aparece como a desculpa para a xenofobia e para o giro \u00e0 extrema direita. E esse fator \u00e9 que as pessoas emigrar\u00e3o menos \u2013 falo em termos de emigra\u00e7\u00e3o em massa \u2013 ao verem que nos pa\u00edses desenvolvidos a crise \u00e9 t\u00e3o grave. Voltando \u00e0 xenofobia, o problema \u00e9 que, ainda que a extrema direita n\u00e3o ganhe, poderia ser muito importante na fixa\u00e7\u00e3o da agenda p\u00fablica de temas e terminaria por imprimir uma face muito feia na pol\u00edtica. <\/p>\n<p>&#8211; Deixemos de lado a economia, por um momento. Pensando em pol\u00edtica, o que diminuiria o risco da xenofobia?<\/p>\n<p>&#8211; Me parece bem, vamos \u00e0 pr\u00e1tica. O perigo diminuiria com governos que gozem de confian\u00e7a pol\u00edtica suficiente por parte do povo em virtude de sua capacidade de restaurar o bem-estar econ\u00f4mico. As pessoas devem ver os pol\u00edticos como gente capaz de garantir a democracia, os direitos individuais e ao mesmo tempo coordenar planos eficazes para se sair da crise. Agora que falamos deste tema, sabe que vejo os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina surpreendentemente imunes \u00e0 xenofobia?<\/p>\n<p>&#8211; Por qu\u00ea? <\/p>\n<p>&#8211; Eu lhe pergunto se \u00e9 assim. \u00c9 assim?<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 poss\u00edvel. N\u00e3o diria que s\u00e3o imunes, se pensamos, por exemplo, no tratamento racista de um setor da Bol\u00edvia frente a Evo Morales, mas ao menos nos \u00faltimos 25 anos de democracia, para tomar a idade da democracia argentina, a xenofobia e o racismo nunca foram massivos nem nutriram partidos de extrema direita, que s\u00e3o muito pequenos. Nem sequer com a crise de 2001, que culminou o processo de destrui\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de empregos, apesar de que a imigra\u00e7\u00e3o boliviana j\u00e1 era muito importante em n\u00famero. Agora, n\u00e3o falamos dos cantos das torcidas de futebol, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, eu penso em termos massivos.<\/p>\n<p>&#8211; Ent\u00e3o as coisas parecem ser como voc\u00ea pensa, professor. E, como em outros lugares do mundo, o pensamento da extrema direita aparece, por exemplo, com a crispa\u00e7\u00e3o sobre a seguran\u00e7a e a inseguran\u00e7a das ruas.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, a Am\u00e9rica Latina \u00e9 interessante. Tenho essa intui\u00e7\u00e3o. Pense num pa\u00eds maior, o Brasil. Lula manteve algumas id\u00e9ias de estabilidade econ\u00f4mica de Fernando Henrique Cardoso, mas ampliou enormemente os servi\u00e7os sociais e a distribui\u00e7\u00e3o. Alguns dizem que n\u00e3o \u00e9 suficiente&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea, o que diz?<\/p>\n<p>&#8211; Que n\u00e3o \u00e9 suficiente. Mas que Lula fez, fez. E \u00e9 muito significativo. Lula \u00e9 o verdadeiro introdutor da democracia no Brasil. E ningu\u00e9m o havia feito nunca na hist\u00f3ria desse pa\u00eds. Por isso hoje tem 70% de popularidade, apesar dos problemas pr\u00e9vios \u00e0s \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es. Porque no Brasil h\u00e1 muitos pobres e ningu\u00e9m jamais fez tantas coisas concretas por eles, desenvolvendo ao mesmo tempo a ind\u00fastria e a exporta\u00e7\u00e3o de produtos manufaturados. A desigualdade ainda assim segue sendo horrorosa. Mas ainda faltam muitos anos para mudar as cosias. Muitos. <\/p>\n<p>&#8211; E voc\u00ea pensa que ser\u00e3o de anos de depress\u00e3o mundial<\/p>\n<p>&#8211; Sim. Lamento diz\u00ea-lo, mas apostaria que haver\u00e1 depress\u00e3o e que durar\u00e1 alguns anos. Estamos entrando em depress\u00e3o. Sabem como se pode dar conta disso? Falando com gente de neg\u00f3cios. Bom, eles est\u00e3o mais deprimidos que os economistas e os pol\u00edticos. E, por sua vez, esta depress\u00e3o \u00e9 uma grande mudan\u00e7a para a economia capitalista global.<\/p>\n<p>&#8211; Por que est\u00e1 t\u00e3o seguro desse diagn\u00f3stico?<\/p>\n<p>&#8211; Porque n\u00e3o h\u00e1 volta atr\u00e1s para o mercado absoluto que regeu os \u00faltimos 40 anos, desde a d\u00e9cada de 70. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais uma quest\u00e3o de ciclos. O sistema deve ser reestruturado. <\/p>\n<p>&#8211; Posso lhe perguntar de novo por que est\u00e1 t\u00e3o seguro?<\/p>\n<p>&#8211; Porque esse modelo n\u00e3o \u00e9 apenas injusto: agora \u00e9 imposs\u00edvel. As no\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas segundo as quais as pol\u00edticas p\u00fablicas deviam ser abandonadas, agora est\u00e3o sendo deixadas de lado. Pense no que fazem e \u00e0s vezes dizem, dirigentes importantes de pa\u00edses desenvolvidos. Est\u00e3o querendo reestruturar as economias para sair da crise. N\u00e3o estou elogiando. Estou descrevendo um fen\u00f4meno. E esse fen\u00f4meno tem um elemento central: ningu\u00e9m mais se anima a pensar que o Estado pode n\u00e3o ser necess\u00e1rio ao desenvolvimento econ\u00f4mico. Ningu\u00e9m mais diz que bastar\u00e1 deixar que o mercado flua, com sua liberdade total. N\u00e3o v\u00ea que o sistema financeiro internacional j\u00e1 nem funciona mais? Num sentido, essa crise \u00e9 pior do que a de 1929-1933, porque \u00e9 absolutamente global. Nem os bancos funcionam.<\/p>\n<p>&#8211; Onde voc\u00ea vivia nesse momento, no come\u00e7o dos anos 30?<\/p>\n<p>&#8211; Nada menos que em Viena e Berlim. Era um menino. Que momento horroroso. Falemos de coisas melhores, como Franklin Delano Roosevelt.<\/p>\n<p>&#8211; Numa entrevista para a BBC no come\u00e7o da crise voc\u00ea o resgatou.<\/p>\n<p>&#8211; Sim, e resgato os motivos pol\u00edticos de Roosevelt. Na pol\u00edtica ele aplicou o princ\u00edpio do \u201cNunca mais\u201d. Com tantos pobres, com tantos famintos nos Estados Unidos, nunca mais o mercado como fator exclusivo de obten\u00e7\u00e3o de recursos. Por isso decidiu realizar sua pol\u00edtica do pleno emprego. E desse modo n\u00e3o somente atenuou os efeitos sociais da crise como seus eventuais efeitos pol\u00edticos de fascistiza\u00e7\u00e3o com base no medo massivo. O sistema de pleno emprego n\u00e3o modificou a raiz da sociedade, mas funcionou durante d\u00e9cadas. Funcionou razoavelmente bem nos Estados Unidos, funcionou na Fran\u00e7a, produziu a inclus\u00e3o social de muita gente, baseou-se no bem-estar combinado com uma economia mista que teve resultados muito razo\u00e1veis no mundo do p\u00f3s-Segunda Guerra. Alguns estados foram mais sistem\u00e1ticos, como a Fran\u00e7a, que implantou o capitalismo dirigido, mas em geral as economias eram mistas e o Estado estava presente de um modo ou de outro. Poderemos faz\u00ea-lo de novo? N\u00e3o sei. O que sei \u00e9 que a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o estar\u00e1 s\u00f3 na tecnologia e no desenvolvimento econ\u00f4mico. Roosevelt levou em conta o custo humano da situa\u00e7\u00e3o de crise. <\/p>\n<p>&#8211; Quer dizer que para voc\u00ea as sociedades n\u00e3o se suicidam. <\/p>\n<p>(Pensa) \u2013 N\u00e3o deliberadamente. Sim, podem ir cometendo erros que as levam a cat\u00e1strofes terr\u00edveis. Ou ao desastre. Com que razoabilidade, durante esses anos, se podia acreditar que o crescimento com tamanho n\u00edvel de uma bolha seria ilimitado? Cedo ou tarde isso terminaria e algo deveria ser feito. <\/p>\n<p>&#8211; De maneira que n\u00e3o haver\u00e1 cat\u00e1strofe.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o me interessam as previs\u00f5es. Observe, se acontece, acontece. Mas se h\u00e1 algo que se possa fazer, fa\u00e7amos-no. N\u00e3o se pode perdoar algu\u00e9m por n\u00e3o ter feito nada. Pelo menos uma tentativa. O desastre sobrevir\u00e1 se permanecermos quietos. A sociedade n\u00e3o pode basear-se numa concep\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica dos processos pol\u00edticos. Minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o ficou quieta nos anos 30 nem nos 40. Na Inglaterra eu cresci, participei ativamente da pol\u00edtica, fui acad\u00eamico estudando em Cambridge. E todos \u00e9ramos muito politizados. A Guerra Civil espanhola nos tocou muito. Por isso fomos firmemente antifascistas. <\/p>\n<p>&#8211; Tocou a esquerda de todo o mundo. Tamb\u00e9m na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>&#8211; Claro, foi um tema muito forte para todos. E n\u00f3s, em Cambridge, v\u00edamos que os governos n\u00e3o faziam nada para defender a Rep\u00fablica. Por isso reagimos contra as velhas gera\u00e7\u00f5es e os governos que as representavam. Anos depois entendi a l\u00f3gica de por qu\u00ea o governo do Reino Unido, onde n\u00f3s est\u00e1vamos, n\u00e3o fez nada contra Francisco Franco. J\u00e1 tinha a lucidez de se saber um imp\u00e9rio em decad\u00eancia e tinha consci\u00eancia de sua debilidade. A Espanha funcionou como uma distra\u00e7\u00e3o. E os governos n\u00e3o deviam t\u00ea-la tomado assim. Equivocaram-se. O levante contra a Rep\u00fablica foi um dos feitos mais importantes do s\u00e9culo XX. Logo depois, na Segunda Guerra&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Pouco depois, n\u00e3o? Porque o fim da Guerra Civil Espanhola e a invas\u00e3o alem\u00e3 da Tchecoslov\u00e1quia ocorreu no mesmo ano. <\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 verdade. Dizia-lhe que logo depois o liberalismo e o comunismo tiveram uma causa comum. Se deram conta de que, assim n\u00e3o fosse, eram d\u00e9beis frente ao nazismo. E no caso da Am\u00e9rica Latina o modelo de Franco influenciou mais que o de Benito Mussolini, com suas id\u00e9ias conspirat\u00f3rias da sinarquia, por exemplo. N\u00e3o tome isso como uma desculpa para Mussolini, por favor. O fascismo europeu em geral \u00e9 uma ideologia inaceit\u00e1vel, oposta a valores universais. <\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea fala da Am\u00e9rica Latina&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas n\u00e3o me pergunte da Argentina. N\u00e3o sei o suficiente de seu pa\u00eds. Todos me perguntam do peronismo. Para mim est\u00e1 claro que n\u00e3o pode ser tomado como um movimento de extrema direita. Foi um movimento popular que organizou os trabalhadores e isso talvez explique sua perman\u00eancia no tempo. Nem os socialistas nem os comunistas puderam estabelecer uma base forte no movimento sindical. Sei das crises que a Argentina sofreu e sei algo de sua hist\u00f3ria, do peso da classe m\u00e9dia, de sua sociedade avan\u00e7ada culturalmente dentro da Am\u00e9rica Latina, fen\u00f4meno que creio ainda se mant\u00e9m. Sei da idade de ouro dos anos 20 e sei dos exemplos obscenos de desigualdade comuns a toda a Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea sempre se definiu com um homem de esquerda. Tamb\u00e9m segue tendo confian\u00e7a nela?<\/p>\n<p>&#8211; Sigo na esquerda, sem d\u00favida com mais interesse em Marx do que em L\u00eanin. Porque sejamos sinceros, o socialismo sovi\u00e9tico fracassou. Foi uma forma extrema de aplicar a l\u00f3gica do socialismo, assimo como o fundamentalismo de mercado foi uma forma extrema de aplica\u00e7\u00e3o da l\u00f3gica do liberalismo econ\u00f4mico. E tamb\u00e9m fracassou. A crise global que come\u00e7ou no ano passado \u00e9, para a economia de mercado, equivalente ao que foi a queda do Muro de Berlim em 1989. Por isso Marx segue me interessando. Como o capitalismo segue existindo, a an\u00e1lise marxista ainda \u00e9 uma boa ferramenta para analis\u00e1-lo. Ao mesmo tempo, est\u00e1 claro que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel como n\u00e3o \u00e9 desej\u00e1vel uma economia socialista sem mercado nem uma economia em geral sem Estado. <\/p>\n<p>&#8211; Por que n\u00e3o? <\/p>\n<p>&#8211; Se se mira a hist\u00f3ria e o presente, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida alguma de que os problemas principais, sobretudo no meio de uma crise profunda, devem e podem ser solucionados pela a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. O mercado n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-2647\" data-postid=\"2647\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-2647 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista publicada no jornal P\u00e1gina 12, o historiador brit\u00e2nico Eric Hobsbawm fala da crise atual e de suas poss\u00edveis implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Para ele, o mundo est\u00e1 entrando em um per\u00edodo de depress\u00e3o e os grandes riscos, diante da fragilidade da esquerda mundial, s\u00e3o o crescimento da xenofobia e da extrema-direita. 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