
{"id":3007,"date":"2009-04-24T21:35:16","date_gmt":"2009-04-25T00:35:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=3007"},"modified":"2009-04-23T21:45:08","modified_gmt":"2009-04-24T00:45:08","slug":"3007","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/3007\/","title":{"rendered":"Frei Carlos Mesters &#8220;entrevista&#8221; o Ap\u00f3stolo Paulo (continua\u00e7\u00e3o)"},"content":{"rendered":"<p>Carlos Mesters<\/p>\n<p>III Parte<br \/>\n20. Qual a sua nacionalidade? Mudou alguma vez?<br \/>\nNaquele tempo n\u00e3o era como hoje. Hoje em dia, a nacionalidade de algu\u00e9m tem a ver com a sua perten\u00e7a a uma na\u00e7\u00e3o-estado que concede ou nega cidadania e passaporte aos seus membros. Naquele tempo, a nacionalidade tinha a ver com a perten\u00e7a da pessoa a uma na\u00e7\u00e3o-ra\u00e7a. Ou seja, Paulo, apesar de ser natural de uma cidade helenista na \u00c1sia Menor, conservava a consci\u00eancia muito clara de ser da ra\u00e7a de Israel (Fm 3,5), descendente de Abra\u00e3o (2Cor 11,22), da tribo de Benjamim (Rm 11,1), hebreu (2Cor 11,22), judeu (At 22,3). Ele dizia: &#8220;Vivi no meio da minha na\u00e7\u00e3o aqui em Jerusal\u00e9m&#8221; (At 26,4). E neste ponto, apesar de tantas viagens e mudan\u00e7as, mesmo apesar da sua convers\u00e3o para Cristo, ele nunca mudou de nacionalidade, isto \u00e9, nunca deixou de ser judeu. Nunca esqueceu a sua origem. No entanto, a experi\u00eancia de Cristo ressuscitado na sua vida fez com que ele, sem deixar de ser judeu, percebesse os limites da sua nacionalidade. Para ele, ser da ra\u00e7a de Israel j\u00e1 n\u00e3o era t\u00edtulo de privil\u00e9gio diante de Deus, pois, &#8220;tanto os judeus como os gregos, est\u00e3o todos debaixo do pecado&#8221; (Rm 3,9). Todos, indistintamente, necessitam da gra\u00e7a que vem por Jesus Cristo (Rm 3,23-24). J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 mais distin\u00e7\u00e3o entre judeu e grego (Rm 10,12). Paulo se fez judeu com os judeus, sem lei com os sem lei, para ganhar todos para Cristo (1Cor 9,20-23). Em Cristo, todos s\u00e3o iguais (1Cor 12,13; Gl 3,28; Cl 3,11).<\/p>\n<p>21. Voc\u00ea \u00e9 judeu e cidad\u00e3o romano. Como \u00e9 que consegue combinar estas duas coisas?<br \/>\nN\u00e3o era f\u00e1cil combinar estas duas coisas. O cidad\u00e3o romano tinha a obriga\u00e7\u00e3o de participar do culto ao imperador, coisa que era absolutamente proibida aos judeus em nome da sua f\u00e9 em Deus. Mas estes conseguiram achar uma forma vi\u00e1vel de conviv\u00eancia sem conflito.Na maioria das cidades do imp\u00e9rio, os judeus, viviam organizados em associa\u00e7\u00f5es chamadas politeuma. Um politeuma era uma associa\u00e7\u00e3o oficialmente reconhecida pela polis, isto \u00e9, pelas autoridades da cidade. Um politeuma, possu\u00eda uma certa independ\u00eancia e gozava de alguns privil\u00e9gios. Seus membros registrados podiam fazer valer estes seus direitos. Os politeumas dos judeus nas v\u00e1rias cidades lutavam sobretudo por dois objetivos bem precisos: 1. De um lado, queriam a plena integra\u00e7\u00e3o dos seus membros corno cidad\u00e3os; assim, os judeus teriam direito aos privil\u00e9gios dos &#8220;Cidad\u00e3os da Cidade&#8221;, sobretudo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 isen\u00e7\u00e3o das taxas e dos impostos; 2. De outro lado, queriam plena liberdade para poder praticar a pr\u00f3pria religi\u00e3o; a liberdade religiosa que eles pleiteavam consistia no seguinte: n\u00e3o ser obrigado a trabalhar no s\u00e1bado; ser isento do servi\u00e7o militar; n\u00e3o participar do culto ao Imperador; ter o direito de seguir os seus pr\u00f3prios costumes alimentares; pautar a vida conforme as suas pr\u00f3prias leis.<br \/>\nDesde os tempos de J\u00falio C\u00e9sar, entre 47 e 44 a .C., os judeus foram favorecidos com estes privil\u00e9gios como recompensa pelos servi\u00e7os prestados ao imp\u00e9rio. Por isso mesmo, os judeus da di\u00e1spora, contrariamente aos da Palestina, n\u00e3o tinham tanto problema de conviv\u00eancia com os romanos. Tinham at\u00e9 uma certa simpatia pelo imp\u00e9rio e sua organiza\u00e7\u00e3o.Em alguns lugares, os privil\u00e9gios especiais dos judeus provocaram a animosidade da popula\u00e7\u00e3o local contra eles, sobretudo por causa dos seus costumes alimentares diferentes e por causa da sua religi\u00e3o que n\u00e3o aceitava o culto ao imperador e \u00e0s divindades locais. Uma ou outra vez, surgiram alguns conflitos com o imp\u00e9rio. V\u00e1rias vezes, os judeus tentaram recorrer \u00e0 autoridade romana contra os crist\u00e3os (At 13,8.50; 14,5; 17,5-9; etc.).<\/p>\n<p>22. Como cidad\u00e3o romano, voc\u00ea chegou a prestar servi\u00e7o militar?<br \/>\nUm cidad\u00e3o romano era obrigado a prestar servi\u00e7o militar nas legi\u00f5es romanas. Mas \u00e9 prov\u00e1vel que Paulo tenha ficado isento, pois, como j\u00e1 vimos, os judeus conseguiram o privil\u00e9gio da isen\u00e7\u00e3o do servi\u00e7o militar por v\u00e1rios motivos, todos religiosos: 1. o servi\u00e7o militar dificultava a observ\u00e2ncia do s\u00e1bado; 2. impedia a observ\u00e2ncia da lei da pureza e dos costumes alimentares pr\u00f3prios; 3. exigia dos soldados o culto ao imperador, proibido aos judeus em nome da sua f\u00e9 em Deus.<\/p>\n<p>23. Voc\u00ea j\u00e1 teve problema com a pol\u00edcia? Sofreu alguma persegui\u00e7\u00e3o?<br \/>\nMuitas vezes! Desde a sua primeira viagem mission\u00e1ria, ou melhor, desde o dia da sua convers\u00e3o, Paulo encontrou resist\u00eancia, era perseguido e molestado. Para impedir ou dificultar a a\u00e7\u00e3o de Paulo, os seus advers\u00e1rios recorriam \u00e0 for\u00e7a da pol\u00edcia, ao poder das autoridades ou a outros meios de press\u00e3o: em Damasco (At 9,23-24), em Jerusal\u00e9m (At 9,29), em Chipre (At 13,8), em Antioquia da Pis\u00eddia (At 13,50), em Ic\u00f4nio (At 14,5), em Lica\u00f4nia (At 14,19), em Filipos (At 16,22), em Tessal\u00f4nica (At 17,5-9), em Ber\u00e9ia (At 17,13), em Corinto (At 18,12), em \u00c9feso (At 19,23-40), em Jerusal\u00e9m (At 21,27-30). Ele mesmo informa que, &#8220;foi flagelado tr\u00eas vezes. Cinco vezes recebeu 40 golpes menos um&#8221; (2Cor 11,25). Uma vez, a pol\u00edcia salvou a vida de Paulo. Foi em Jerusal\u00e9m, quando ele corria perigo de ser linchado pela multid\u00e3o na pra\u00e7a do templo. (At 21,31-32).<\/p>\n<p>24. Voc\u00ea j\u00e1 teve problema com a justi\u00e7a? J\u00e1 teve que comparecer diante do tribunal?<br \/>\nEm Corinto, pressionado pelos judeus, Paulo teve que comparecer diante do tribunal romano, onde Gallio, irm\u00e3o de S\u00eaneca, era pro-consul. Este deu ganho de causa a Paulo contra os judeus (At 18,12-16).<\/p>\n<p>Em Jerusal\u00e9m, a pedido do centuri\u00e3o romano, Paulo teve que comparecer diante do tribunal dos judeus, o sin\u00e9drio (At 22,30). Foi nesta ocasi\u00e3o que ele provocou um conflito entre os membros do pr\u00f3prio tribunal ao dizer que estava sendo julgado pela sua f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o (At 23,6-7). Deste modo, jogou os fariseus contra os saduceus e conseguiu impedir que fosse condenado. Nem houve julgamento (At 23,8-10).<\/p>\n<p>Levado para Cesar\u00e9ia, Paulo teve que comparecer diante de F\u00e9lix, o governador romano, que protelou o assunto e o deixou preso, sem julgamento, durante dois anos (At 24,22-27). Festo, o novo governador, quis que Paulo fosse julgado no tribunal de Jerusal\u00e9m (At 25,9). Foi nesta ocasi\u00e3o que Paulo apelou para o tribunal de C\u00e9sar em Roma (At 25,10-11). Ele sabia que a proposta de se fazer o julgamento em Jerusal\u00e9m era apenas um pretexto para poder assassin\u00e1-lo numa emboscada durante a viagem para l\u00e1 (At 25,3).Em Roma, ele continuou preso, por mais dois anos, aguardando o julgamento que, ao que tudo indica, n\u00e3o aconteceu por falta de provas (At 28,30-31).<\/p>\n<p>25. Quantas vezes j\u00e1 esteve preso, aonde e por qu\u00ea?<br \/>\nPaulo foi preso v\u00e1rias vezes: em Filipos (At 16,23), em Jerusal\u00e9m (At 21,33), em Cesar\u00e9ia (At 23,23), em Roma (At 28,20). Al\u00e9m disso, ele deve ter sofrido uma pris\u00e3o muito pesada em \u00c9feso, de onde mandou cartas para os Filipenses (Fil 1,13), para os Colossenses (Co 4,18) e, talvez, para Filemon (9 e 13). A pris\u00e3o em \u00c9feso foi t\u00e3o pesada, que ele chegou a perder a esperan\u00e7a de sobreviver (2Cor 1,8-9). Foi como &#8220;uma luta contra animais selvagens&#8221; (1Cor 15,32). Ele mesmo, fazendo um resumo da sua vida, sugere que passou por muitas pris\u00f5es (2Cor 11,23).<\/p>\n<p>O motivo aduzido pelos advers\u00e1rios para prend\u00ea-lo nem sempre era o mesmo. Em Filipos, a acusa\u00e7\u00e3o diz a prop\u00f3sito de Paulo e Silas: &#8220;Estes homens est\u00e3o provocando desordem em nossa cidade; s\u00e3o judeus e pregam costumes que a n\u00f3s, romanos, n\u00e3o \u00e9 permitido aceitar nem seguir&#8221; (At 16,20-21). Em Jerusal\u00e9m, os judeus gritavam ao povo contra Paulo: &#8220;Israelitas, socorro! Este \u00e9 o homem que anda ensinando a todos e por toda a parte contra o nosso povo, contra a lei e contra este lugar. Al\u00e9m disso, ele trouxe gregos para dentro do &#8220;Templo, profanando este santo Lugar&#8221; (At 21,28). Em Cesar\u00e9ia, o governador recebeu a seguinte escrita do oficial romano de Jerusal\u00e9m a respeito de Paulo: &#8220;Verifiquei que ele era incriminado por quest\u00f5es referentes \u00e0 lei que os rege, n\u00e3o havendo nenhum crime que justificasse morte ou pris\u00e3o&#8221; (At 23,29). E diante do tribunal a acusa\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios judeus dizia: &#8220;Verificamos que este homem \u00e9 uma peste: ele promove conflitos entre os judeus do mundo inteiro e \u00e9 tamb\u00e9m um dos l\u00edderes da seita dos nazareus. Ele tentou inclusive profanar o templo; por isso, o prendemos&#8221; (At 24,5-6).<\/p>\n<p>Apesar de preso, Paulo continuava livre: escrevia cartas e anunciava o Evangelho &#8220;com firmeza e sem impedimento&#8221; (At 28,31).<\/p>\n<p>26. Dizem que voc\u00ea \u00e9 uma pessoa doente. \u00c9 verdade? Como vai de sa\u00fade?<br \/>\nPaulo deve ter tido uma sa\u00fade de ferro para poder levar a vida que levou. Dos 40 aos 60 anos de idade, viajava a p\u00e9 pelo mundo, percorrendo ao todo mais de 15 mil quil\u00f4metros, suportando canseiras, pris\u00f5es, a\u00e7oites, perigos de morte, flagela\u00e7\u00f5es, apedrejamento, naufr\u00e1gios, perigos nas estradas, nos rios, nas serras, perigos por parte dos judeus e por parte dos falsos irm\u00e3os, a preocupa\u00e7\u00e3o constante pelas comunidades, sem contar o trabalho profissional como fabricante de tendas de manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0 noite, com sal\u00e1rio minguado que o deixava com fome e sede e o obrigava a fazer vig\u00edlias e horas-extras (cf. 2Cor 11,23-28). S\u00f3 mesmo com muita sa\u00fade!<\/p>\n<p>Mesmo assim, durante a segunda viagem mission\u00e1ria, a doen\u00e7a apareceu na vida de Paulo e o obrigou a fazer uma parada for\u00e7ada na Gal\u00e1cia da \u00c1sia Menor (Gl 4,13). Ele aproveitou da ocasi\u00e3o para anunciar o Evangelho aos habitantes da regi\u00e3o e, assim, contribuiu para que surgisse a comunidade dos G\u00e1latas. Tratava-se, provavelmente, de uma doen\u00e7a nos olhos, pois os G\u00e1latas queriam at\u00e9 &#8220;arrancar os pr\u00f3prios olhos para d\u00e1-los a Paulo&#8221; (Gl 4,15).<\/p>\n<p>Alguns exegetas acham que o misterioso &#8220;aguilh\u00e3o na carne&#8221;, de que ele fala na Carta aos Cor\u00edntios (2Cor 12,7), tamb\u00e9m tenha sido uma doen\u00e7a. \u00c9 dif\u00edcil saber o que era na verdade, pois Paulo n\u00e3o o explica.<\/p>\n<p>O fato de Paulo mostrar-se preocupado com a sa\u00fade dos companheiros e de recomendar a Tim\u00f3teo que bebesse um pouco de vinho por causa do est\u00f4mago e das freq\u00fcentes fraquezas (1Tm 5,23), revela uma pessoa realista que sabia apreciar o imenso dom de uma boa sa\u00fade.<\/p>\n<p>27. Como voc\u00ea se distrai e se diverte? Tem algum passa-tempo? \u00c9 admirador de algum esporte?<br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil saber o que o divertia e distra\u00eda. Durante toda a sua vida, sobretudo depois da sua convers\u00e3o, aquilo que o ocupava e o dilatava por dentro era o que ele chamava a agap\u00e8, o amor (1Cor 13,1-13). Por este amor, permitia que o outro, a comunidade, entrasse dentro dele, ocupasse todo o espa\u00e7o, morasse a\u00ed dentro como o dono real da casa e o distra\u00edsse de si mesmo, do seu pr\u00f3prio centro, para o bem-estar dos outros.<\/p>\n<p>No fim da vida, j\u00e1 depois dos 50 anos de idade, aquilo que mais o ocupava e preocupava por dentro era &#8220;a solicitude por todas as comunidades&#8221; (2Cor 11,28). Ele n\u00e3o deve ter tido muito tempo nem ocasi\u00e3o para se divertir. \u00c9 dif\u00edcil saber se tinha algum passatempo. Nas horas livres e nas horas de trabalho na oficina ou no mercado, ele discutia o assunto da Boa Nova de Jesus com o pessoal (At 17,11.17).<\/p>\n<p>Mesmo assim, tem alguma coisa nas cartas que nos revela o gosto e a prefer\u00eancia de Paulo. Quando menino, ele deve ter gostado muito de assistir \u00e0s corridas no est\u00e1dio da cidade, pois delas ele continua falando, at\u00e9 depois de velho, mesmo para comparar a mensagem do Evangelho e as suas exig\u00eancias para a vida (Gl 2,2; 5,7; 1Cor 9,24-26; Fil 2,16; 3,12-14; 2Tm 4,7; Hb 12,1).<\/p>\n<p>Paulo \u00e9 nascido e criado em cidade grande. Tarso tinha mais ou menos 300 mil habitantes. Uma cidade assim tinha o seu est\u00e1dio de esportes e organizava os seus jogos de atletismo, cada quatro anos: corridas, lutas, lan\u00e7amento de disco, acertar no alvo, etc. Paulo pode n\u00e3o saber muito de ro\u00e7a e de plantas, mas ele entende de jogos urbanos. As compara\u00e7\u00f5es que ele usa s\u00e3o quase todas tiradas dos jogos e ele sup\u00f5e que os seus leitores as entendam: ganhar a coroa (1Cor 9,25), prosseguir o alvo (Fil 3,14), alcan\u00e7ar o pr\u00eamio (Fil 3,14), lutar sem soltar soco no ar (1Cor 9,26), correr na dire\u00e7\u00e3o certa (1Cor 9,26). Ele fala em &#8220;luta&#8221; e &#8220;combate&#8221; (2Tm 4,7), em &#8220;pugilato&#8221; (1Cor 9,26). Conhece o esfor\u00e7o e a disciplina dos atletas (1Cor 9,25). Provavelmente, mesmo depois de velho, ele acompanhava o resultado dos jogos e, quem sabe, torcia por algum time!<\/p>\n<p>28. O que lhe causou mais tristeza na vida?<br \/>\nPaulo teve muitas tristezas e problemas na vida. Ele as enumera na segunda carta aos Cor\u00edntios (2Cor 11,23-29). Teve tristezas nas comunidades, sobretudo em Corinto. Mas a tristeza maior parece ter sido a recusa dos seus irm\u00e3os, os judeus, de crer em Jesus e de aceit\u00e1-lo como o messias prometido e esperado. A isto ele se refere quando diz: &#8220;Tenho uma grande tristeza, uma dor incessante no cora\u00e7\u00e3o&#8221; (Rm 9,2). Ele chega a dizer que gostaria de ser &#8220;separado de Cristo&#8221;, se com isto pudesse ganhar os seus irm\u00e3os para Cristo (Rm 9,3). Est\u00eav\u00e3o questionou a Paulo e conseguiu lev\u00e1-lo \u00e0 convers\u00e3o. Paulo, uma vez convertido, questionou os outros judeus, mas n\u00e3o conseguiu lev\u00e1-los \u00e0 convers\u00e3o. Pelo contr\u00e1rio, provocou a raiva deles a ponto de ser perseguido por eles com \u00f3dio de morte, pois n\u00e3o o perdoavam de, como eles diziam, ter se levantado contra o povo, contra a lei e contra o templo (At 21,28; cf. At 9,23; 21,31; 23,12; 25,3).<\/p>\n<p>Outro sofrimento muito grande de Paulo vinha dos &#8220;falsos irm\u00e3os&#8221; (2Cor 11,26), ou &#8220;falsos ap\u00f3stolos&#8221; (2Cor 11,13). Os &#8220;falsos irm\u00e3os&#8221; eram judeus convertidos que n\u00e3o concordavam com a abertura de Paulo com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 entrada dos pag\u00e3os na Igreja. Eles achavam que os pag\u00e3os, ao entrarem na comunidade, deviam observar toda a lei e praticar a circuncis\u00e3o (At 15,1.10; Gl 6,12-13).<\/p>\n<p>Por isso, procuravam solapar a base do trabalho de Paulo, dizendo que a sua prega\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha a aprova\u00e7\u00e3o dos grandes ap\u00f3stolos (Gl 2,1-10). Obrigaram Paulo a fazer a sua defesa (cf. 2Cor 11 e 12). Se Paulo se defende, n\u00e3o \u00e9 por causa dele mesmo, mas por causa das comunidades por ele fundadas.<\/p>\n<p>29. Paulo, qual o lugar que a religi\u00e3o ocupa em sua vida?<br \/>\nPaulo sempre foi profundamente religioso, tanto antes como depois da sua convers\u00e3o para Cristo. Antes da convers\u00e3o, ele vivia conforme a lei e a esperan\u00e7a do seu povo (At 24,14-15; 22,3; 26,6-7), identificado com o ideal da religi\u00e3o de seus pais. Na pr\u00e1tica da religi\u00e3o, ele seguia o grupo mais observante que era o grupo dos fariseus (At 26,5). Ele mesmo confessa que era irrepreens\u00edvel na mais estrita observ\u00e2ncia da lei (Fil 3,6). Paulo era um homem de zelo (Fil 3,6; At 22,3), &#8220;zelo pelas tradi\u00e7\u00f5es paternas&#8221; (Gl 1,14). Para defender a tradi\u00e7\u00e3o dos pais chegou a perseguir os crist\u00e3os (At 26,9; 22,4; Gl 1,13).<\/p>\n<p>Era na viv\u00eancia fiel desta religi\u00e3o dos pais, que Paulo procurava a sua seguran\u00e7a junto de Deus. O testemunho de Est\u00eav\u00e3o, por\u00e9m, abalou-o profundamente. Foi o come\u00e7o da mudan\u00e7a!A convers\u00e3o para Cristo significou uma mudan\u00e7a profunda na vida de Paulo, mas n\u00e3o significou uma mudan\u00e7a ou troca de Deus. Pelo contr\u00e1rio! Paulo continuou fiel ao mesmo Deus dos pais, pois em Jesus reencontrou e reconheceu o mesmo Deus de sempre, o Deus de Abra\u00e3o, o Deus de Isaque, o Deus de Jac\u00f3. A diferen\u00e7a profunda entre antes e depois \u00e9 que, agora, ele j\u00e1 n\u00e3o coloca a sua seguran\u00e7a na observ\u00e2ncia da lei, mas no amor gratuito de Deus por ele, manifestado e experimentado em Jesus (Gl 2,20-21). \u00c9 na certeza absoluta deste amor, que est\u00e1 o fundamento \u00faltimo da nova seguran\u00e7a que encontrou junto de Deus (Rm 8,31-39).<\/p>\n<p>30. Explique melhor porque voc\u00ea aprovou a morte de Est\u00eav\u00e3o e perseguiu os crist\u00e3os.<br \/>\nPaulo procurava atingir a justi\u00e7a atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia da lei (Fil 3,5-6). A sua vida e a vida do seu povo estava organizada e estruturada, desde s\u00e9culos, em torno do cumprimento das exig\u00eancias da Alian\u00e7a, que Deus tinha feito com seu povo. Observando plenamente as cl\u00e1usulas da Alian\u00e7a, o povo teria alcan\u00e7ado a justi\u00e7a, seria justo. Esta era a teoria, a doutrina ensinada ao povo. A pr\u00e1tica, por\u00e9m, era outra.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, Paulo experimentava dolorosamente que ele, apesar de todo o esfor\u00e7o, n\u00e3o era capaz de cumprir tudo o que a lei mandava. O seu esfor\u00e7o n\u00e3o bastava para alcan\u00e7ar a justi\u00e7a. Paulo continuava em falta com Deus e n\u00e3o alcan\u00e7ava a paz da consci\u00eancia. Queria fazer o bem e n\u00e3o o conseguia (Rm 7,14-24). Mesmo assim, apesar da pr\u00e1tica deficiente, ningu\u00e9m duvidava da exatid\u00e3o da doutrina ensinada pelos fariseus.<\/p>\n<p>O testemunho de Est\u00eav\u00e3o, por\u00e9m, abalou na raiz este mundo de Paulo e questionou radicalmente a exatid\u00e3o do caminho que ele seguia para alcan\u00e7ar a justi\u00e7a e a paz com Deus. Na hora de morrer apedrejado, Est\u00eav\u00e3o disse: &#8220;Vejo os c\u00e9us abertos e o Filho do Homem de p\u00e9 \u00e0 direita de Deus&#8221; (At 7,56). Neste testemunho, Est\u00eav\u00e3o dava prova de estar na presen\u00e7a de Deus e de ser acolhido por Ele, tranq\u00fcilo, em paz com a pr\u00f3pria consci\u00eancia, e, portanto, de possuir a justi\u00e7a que Paulo procurava e n\u00e3o alcan\u00e7ava. E mais: Est\u00eav\u00e3o possu\u00eda a justi\u00e7a n\u00e3o como resultado da observ\u00e2ncia da lei, mas como um dom gratuito de Deus atrav\u00e9s de Jesus, vivo, de p\u00e9, \u00e0 direita de Deus; o mesmo Jesus que, alguns anos atr\u00e1s, tinha sido condenado como her\u00e9tico e blasfemo pela suprema autoridade dos judeus e morrera vergonhosamente numa cruz!Este testemunho t\u00e3o breve e t\u00e3o simples era a nega\u00e7\u00e3o radical do ideal de justi\u00e7a de Paulo. Ou Est\u00eav\u00e3o, ou Paulo! Os dois n\u00e3o podiam ser verdadeiros ao mesmo tempo. Eram dois caminhos totalmente diferentes, dois mundos opostos! Ou um, ou outro!Paulo estava convencido de que o seu caminho era o caminho certo.<\/p>\n<p>Para ele, o caminho de Est\u00eav\u00e3o era falso e corruptor dos bons costumes. Por isso, aprovou a morte de Est\u00eav\u00e3o e come\u00e7ou a perseguir os crist\u00e3os. Agia por ignor\u00e2ncia (1Tm 1,13). Pensava estar prestando um servi\u00e7o a Deus em defesa da tradi\u00e7\u00e3o dos pais. Mas no fundo, quem sabe, se Paulo procurava calar a voz de Est\u00eav\u00e3o e dos crist\u00e3os, era porque queria abafar a voz da pr\u00f3pria consci\u00eancia que come\u00e7ava a incomod\u00e1-lo. Paulo estava fugindo de si mesmo e de Deus, at\u00e9 que Deus interveio e o derrubou na estrada de Damasco.<\/p>\n<p>31. Como foi a entrada de Jesus na sua vida? Qual o significado e o alcance que a experi\u00eancia na estrada de Damasco teve para voc\u00ea?<br \/>\nA entrada de Jesus foi o divisor das \u00e1guas. A vida de Paulo se divide em antes e depois da experi\u00eancia na estrada de Damasco. Os fen\u00f4menos externos que acompanharam o processo interno da convers\u00e3o e os termos e compara\u00e7\u00f5es usados para descrev\u00ea-la sugerem que a entrada de Jesus na vida de Paulo n\u00e3o foi uma brisa leve e tranq\u00fcila, mas uma tempestade violenta, repentina. Ela sacudiu tudo e atingiu as funda\u00e7\u00f5es da sua exist\u00eancia. Fez desmoronar todo um mundo, uma tradi\u00e7\u00e3o antiga, montada desde s\u00e9culos, e fez aparecer um novo come\u00e7o.<\/p>\n<p>Deus n\u00e3o pediu licen\u00e7a. Entrou sem mais e jogou Paulo no ch\u00e3o (At 9,4; 22,7; 26,14). Quando levantou, estava cego, e cego ficou durante tr\u00eas dias (At 9,8-9). Apesar de ser o guia do grupo, Paulo teve que ser guiado pelos pr\u00f3prios s\u00faditos (At 9,8). Ele mesmo diz que o nascimento dele para Cristo n\u00e3o foi normal. Deus o fez nascer de maneira for\u00e7ada e violenta, atrav\u00e9s de um aborto (1Cor 15,8).<br \/>\nPaulo n\u00e3o estava esperando: &#8220;Fui apanhado!&#8221; (Fil 3,12). Mesmo assim, depois que tudo aconteceu, teve que reconhecer que era isto que ele estava esperando desde sempre. Foi para isto que Deus o separou e o colocou \u00e0 parte, desde o seio materno (Gl 1,15). Ele o viveu como sendo o seu destino, a sua voca\u00e7\u00e3o, a sua miss\u00e3o. Uma quase fatalidade, da qual j\u00e1 n\u00e3o podia escapar: o seu destino, agora, \u00e9 anunciar o Filho de Deus entre os pag\u00e3os (Gl 1,16). \u00c9 uma necessidade para ele: &#8220;Ai de mim se n\u00e3o anunciar o Evangelho!&#8221; (1Cor 9,16). Ao mesmo tempo, ele viveu aquela hora como um momento de miseric\u00f3rdia por parte de Deus. Deus o acolheu, quando ele mesmo era insolente e perseguidor (1Tm 1,13). Foi o momento em que superabundou nele a gra\u00e7a de Deus (1Tm 1,14). Foi assim que Cristo o formou para o seu servi\u00e7o. (1Tm 1,12).<\/p>\n<p>Agora, para Paulo, o viver \u00e9 Cristo (Fil 1,21). J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 ele que vive, mas \u00e9 Cristo que vive nele (Gl 2,20). Paulo sabe que \u00e9 amado: &#8220;Ele me amou e se entregou por mim!&#8221; (Gl 2,20). Daqui para a frente, ele j\u00e1 n\u00e3o quer saber outra coisa a n\u00e3o ser Jesus crucificado (1Cor 2,2). Quer completar na sua pr\u00f3pria carne o que falta na paix\u00e3o de Cristo (Cl 1,24). Por amor a Jesus largou tudo para poder possu\u00ed-lo a ele e ser encontrado nele (Fil 3,8-9). Participa da paix\u00e3o de Cristo para poder experimentar a sua ressurrei\u00e7\u00e3o (Fil 3,10-11). Traz a agonia de Jesus no corpo, para que se manifeste nele a vida (2Cor 4,10-12; Gl 6,17). Paulo vive uma total identifica\u00e7\u00e3o com Jesus morto e ressuscitado.<\/p>\n<p>Por causa desta experi\u00eancia de Cristo morto e ressuscitado, tudo mudou na vida de Paulo: de elite virou periferia, de livre virou escravo, de honrado virou expulso, de rico virou pobre! (Veja respostas \u00e0s perguntas 11 a 13). Por causa de Cristo, suporta tudo e vive entregue, dia e noite (1Cor 13,4-6). Um novo crit\u00e9rio invadiu sua vida: a gra\u00e7a libertadora de Deus tomou forma concreta em Jesus, &#8220;que me amou e se entregou por mim&#8221; (Gl 2,20).<\/p>\n<p>32. Qual foi a \u00faltima raz\u00e3o que levou voc\u00ea a aceitar Jesus como Messias?<br \/>\nHouve o encontro na estrada de Damasco que derrubou Paulo e o deixou cego durante tr\u00eas dias. Foi a experi\u00eancia mais forte e mais duradoura da sua vida. No entanto, n\u00e3o foi s\u00f3 isto que o levou a aceitar Jesus e a reconhec\u00ea-lo como Messias. Dentro desta experi\u00eancia, \u00fanica e avassaladora, alumiou para Paulo a certeza de que Jesus \u00e9 o SIM de Deus \u00e0s promessas feitas ao povo no passado (2Cor 1,20).<br \/>\nCom outras palavras, aceitando Jesus como Messias, Paulo n\u00e3o estava sendo infiel ao seu povo, nem estava deixando de ser judeu, mas se tornava mais judeu ainda. No fundo, foi a vontade de ser fiel ao seu povo e \u00e0s suas esperan\u00e7as, suscitadas pelas promesas de Deus, que o obrigava a aceitar Jesus como Messias. A sua fidelidade a Cristo e a sua experi\u00eancia de Cristo de um lado, e a sua fidelidade ao seu povo e a sua experi\u00eancia de povo de outro lado, eram como dois lados da mesma medalha.<br \/>\nPaulo nunca se sentiu traidor do seu povo, por mais que o acusassem disso. Ao contr\u00e1rio, vivendo em Cristo, sentia-se mais judeu do que antes, possuidor da esperan\u00e7a do seu povo. Era a fidelidade ao Antigo Testamento que o levou a aceitar o Novo Testamento.<\/p>\n<p>33. Voc\u00ea brigou com Barnab\u00e9 no come\u00e7o da segunda viagem mission\u00e1ria. Por qu\u00ea?<br \/>\nJo\u00e3o Marcos, sobrinho de Barnab\u00e9, acompanhou Paulo e Barnab\u00e9 na primeira viagem, mas o abandonou na metade (At 13,13). Quando Paulo convidou Barnab\u00e9 para uma segunda viagem, este quis que Jo\u00e3o Marcos fosse junto outra vez (At 15,37). &#8220;Mas Paulo era de opini\u00e3o que n\u00e3o se devia levar junto aquele que os havia abandonado na Panf\u00edlia e n\u00e3o os acompanhara no trabalho&#8221; (At 15,38). Foi a\u00ed que os dois brigaram e se separaram, um do outro, por causa de Marcos (At 15,38-40).<\/p>\n<p>Mais tarde houve a reconcilia\u00e7\u00e3o. Paulo tornou-se, novamente, amigo de Marcos e reconheceu o valor dele para o an\u00fancio do Evangelho, pois ele escreve a Tim\u00f3teo: &#8220;Procure Marcos e traga-o com voc\u00ea, porque ele pode ajudar-me no minist\u00e9rio&#8221; (2Tm 4,11). E na Carta aos Cor\u00edntios, Barnab\u00e9 \u00e9 lembrado como companheiro fiel e exemplar de Paulo (1Cor 9,6).<\/p>\n<p>34. Voc\u00ea brigou tamb\u00e9m com Pedro. Foi pelo mesmo motivo?<br \/>\nA crise mais profunda das primeiras comunidades surgiu por ocasi\u00e3o da entrada dos pag\u00e3os na igreja. No come\u00e7o, ningu\u00e9m pensava em converter os pag\u00e3os. S\u00f3 se anunciava o Evangelho aos judeus (At 11,19). Caso um pag\u00e3o quisesse entrar na igreja, aplicava-se o costume antigo. Desde s\u00e9culos, quando um pag\u00e3o se convertia para o Deus de Israel, ele devia assumir tamb\u00e9m todos os compromissos da Alian\u00e7a que este Deus tinha conclu\u00eddo com o seu povo, a saber, a observ\u00e2ncia da lei de Mois\u00e9s, a circuncis\u00e3o, os costumes, etc. Esta era a teoria antiga que continuava em vigor, aceita por todos. Mas a pr\u00e1tica dos crist\u00e3os correu na frente da teoria e modificou o quadro.<\/p>\n<p>Em Antioquia, os crist\u00e3os, todos eles judeus convertidos, fugidos de Jerusal\u00e9m na \u00e9poca da grande persegui\u00e7\u00e3o, come\u00e7aram a falar de Jesus tamb\u00e9m aos pag\u00e3os (At 11,19-20). &#8220;A m\u00e3o do Senhor estava com eles, e bom n\u00famero abra\u00e7ou a f\u00e9 e converteu-se ao Senhor&#8221; (At 11,21). Fato consumado! Os pag\u00e3os entraram, sem passar pelas observ\u00e2ncias judaicas! A\u00ed surgiu o problema te\u00f3rico: N\u00e3o pode! &#8220;Se n\u00e3o forem circuncidados como ordena a lei de Mois\u00e9s, voc\u00eas n\u00e3o poder\u00e3o salvar-se!&#8221; (At 15,1).<br \/>\nDividiu-se a igreja! Um grupo, concentrado em Antioquia, tomou a defesa da entrada direta dos pag\u00e3os, sem passar pela observ\u00e2ncia da lei de Mois\u00e9s. Paulo e Barnab\u00e9 faziam parte deste grupo. Um outro grupo, concentrado em Jerusal\u00e9m, dizia o contr\u00e1rio: &#8220;\u00c9 preciso circuncidar os pag\u00e3os e impor-lhes a observ\u00e2ncia da lei de Mois\u00e9s&#8221; (At 15,5). Alguns deste grupo eram fariseus convertidos (At 15,5).<br \/>\nConvocou-se uma reuni\u00e3o, um Conc\u00edlio, para resolver o problema e decidir a quest\u00e3o (At 15,6).<\/p>\n<p>O Conc\u00edlio decidiu em favor da entrada dos pag\u00e3os, sem a imposi\u00e7\u00e3o da lei de Mois\u00e9s e da circunsi\u00e7\u00e3o. A decis\u00e3o estava baseada na pr\u00e1tica, nos fatos e na experi\u00eancia. A pr\u00e1tica: tudo aquilo que acontecera nas viagens de Paulo e Bamab\u00e9 (At 15,3-4.12); os fatos: a convers\u00e3o de Corn\u00e9lio e o seu batismo por Pedro (At 15,7-9); a experi\u00eancia: a incapacidade sentida pelos judeus de conseguirem a justi\u00e7a atrav\u00e9s da observ\u00e2ncia da lei (At 15,10). Foi deste modo que o Conc\u00edlio releu e atualizou a teoria antiga e chegou \u00e0 conclus\u00e3o: &#8220;\u00c9 pela gra\u00e7a do Senhor Jesus que acreditamos ser salvos&#8221; (At 15,11).A decis\u00e3o do Conc\u00edlio foi um marco importante na hist\u00f3ria das primeiras comunidades. Mas nem todos entenderam o seu alcance.<\/p>\n<p>Alguns se apegavam \u00e0 letra do documento conciliar (At 15,23-29) e negavam o seu esp\u00edrito. Ora, \u00e9 dentro deste contexto das tens\u00f5es p\u00f3s-conciliares, que vai aparecer a briga de Paulo com Pedro.Certa vez, Pedro chegou de visita na comunidade de Antioquia. Fiel ao esp\u00edrito do Conc\u00edlio, convivia com todo mundo, sem fazer distin\u00e7\u00e3o entre pag\u00e3o e judeu (Gl 2,12). A essa altura chegou de Jerusal\u00e9m um grupo de gente mais conservadora que n\u00e3o se misturava com os pag\u00e3os. Com medo das cr\u00edticas deste grupo, Pedro se afastou dos pag\u00e3os (Gl 2,12). A mudan\u00e7a no comportamento de Pedro levou muita gente a fazer o mesmo. &#8220;At\u00e9 Barnab\u00e9 se deixou levar pela hipocrisia&#8221; (Gl 2,13). Foi um impacto muito grande na comunidade.<\/p>\n<p>Por causa de Pedro, os pag\u00e3os ficavam com a impress\u00e3o de serem crist\u00e3os de segunda categoria. Crist\u00e3o mesmo, cem por cento, de primeira categoria, seria s\u00f3 o judeu convertido que observava toda a lei de Mois\u00e9s! Fiel \u00e0 letra do Conc\u00edlio, Pedro, sem se dar conta, negava o seu esp\u00edrito na pr\u00e1tica. O seu comportamento era, &#8220;digno de censura&#8221; (Gl 2,11). Quando Paulo percebeu a gravidade da situa\u00e7\u00e3o, reagiu fortemente e brigou com Pedro. Ele mesmo descreve o fato: &#8220;Quando vi que eles n\u00e3o estavam agindo direito conforme a verdade do Evangelho, eu disse a Pedro, na frente de todos: Voc\u00ea \u00e9 judeu, mas j\u00e1 viveu como os pag\u00e3os e n\u00e3o como os judeus. Como ent\u00e3o pode, agora, obrigar os pag\u00e3os a viverem como judeus?&#8221; (Gl 2,14).<\/p>\n<p>A rea\u00e7\u00e3o de Paulo revela a profundidade da experi\u00eancia que ele teve no caminho de Damasco. Foi l\u00e1 que ele experimentou, de um lado, a pr\u00f3pria incapacidade de atingir a justi\u00e7a pela observ\u00e2ncia da lei e, do outro lado, a miseric\u00f3rdia de Deus que o acolhia de gra\u00e7a e lhe comunicava a justi\u00e7a pela f\u00e9 em Jesus Cristo. Reagindo contra Pedro, Paulo, de certo modo, estava defendendo a experi\u00eancia que teve de Deus no caminho de Damasco, e tirava dela uma li\u00e7\u00e3o para a vida de toda a igreja.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-3007\" data-postid=\"3007\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-3007 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Mesters III Parte 20. Qual a sua nacionalidade? Mudou alguma vez? 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