
{"id":4199,"date":"2009-07-10T11:20:53","date_gmt":"2009-07-10T14:20:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=4199"},"modified":"2009-07-10T11:20:53","modified_gmt":"2009-07-10T14:20:53","slug":"enciclica-caritas-in-veritate","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/enciclica-caritas-in-veritate\/","title":{"rendered":"Enc\u00edclica &#8220;Caritas in Veritate&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>CARTA ENC\u00cdCLICA CARITAS IN VERITATE<br \/>\nDO SUMO PONT\u00cdFICE BENTO XVI<br \/>\nAOS BISPOS, AOS PRESB\u00cdTEROS E DI\u00c1CONOS, \u00c0S PESSOAS CONSAGRADAS, AOS FI\u00c9IS LEIGOS E A TODOS OS HOMENS DE BOA VONTADE<br \/>\nSOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL NA CARIDADE E NA VERDADE<\/p>\n<p>INTRODU\u00c7\u00c3O<\/p>\n<p>1. A caridade na verdade, que Jesus Cristo testemunhou com a sua vida terrena e sobretudo com a sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o, \u00e9 a for\u00e7a propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira. O amor \u2014&#8221;caritas&#8221;\u2014 \u00e9 uma for\u00e7a extraordin\u00e1ria, que impele as pessoas a comprometerem-se, com coragem e generosidade, no campo da justi\u00e7a e da paz. \u00c9 uma for\u00e7a que tem a sua origem em Deus, Amor eterno e Verdade absoluta. Cada um encontra o bem pr\u00f3prio, aderindo ao projecto que Deus tem para ele a fim de o realizar plenamente: com efeito, \u00e9 em tal projecto que encontra a verdade sobre si mesmo e, aderindo a ela, torna-se livre (cf. Jo 8, 22). Por isso, defender a verdade, prop\u00f4-la com humildade e convic\u00e7\u00e3o e testemunh\u00e1-la na vida s\u00e3o formas exigentes e imprescind\u00edveis de caridade. Esta, de facto,&#8221;rejubila com a verdade&#8221;(1 Cor 13, 6). Todos os homens sentem o impulso interior para amar de maneira aut\u00eantica: amor e verdade nunca desaparecem de todo neles, porque s\u00e3o a voca\u00e7\u00e3o colocada por Deus no cora\u00e7\u00e3o e na mente de cada homem. Jesus Cristo purifica e liberta das nossas car\u00eancias humanas a busca do amor e da verdade e desvenda-nos, em plenitude, a iniciativa de amor e o projecto de vida verdadeira que Deus preparou para n\u00f3s. Em Cristo, a caridade na verdade torna-se o Rosto da sua Pessoa, uma voca\u00e7\u00e3o a n\u00f3s dirigida para amarmos os nossos irm\u00e3os na verdade do seu projecto. De facto, Ele mesmo \u00e9 a Verdade (cf. Jo 14, 6).<\/p>\n<p>2. A caridade \u00e9 a via mestra da doutrina social da Igreja. As diversas responsabilidades e compromissos por ela delineados derivam da caridade, que \u00e9 \u2014 como ensinou Jesus \u2014 a s\u00edntese de toda a Lei (cf. Mt 22, 36-40). A caridade d\u00e1 verdadeira subst\u00e2ncia \u00e0 rela\u00e7\u00e3o pessoal com Deus e com o pr\u00f3ximo; \u00e9 o princ\u00edpio n\u00e3o s\u00f3 das micro-rela\u00e7\u00f5es estabelecidas entre amigos, na fam\u00edlia, no pequeno grupo, mas tamb\u00e9m das macro-rela\u00e7\u00f5es como relacionamentos sociais, econ\u00f3micos, pol\u00edticos. Para a Igreja \u2014 instru\u00edda pelo Evangelho \u2014, a caridade \u00e9 tudo porque, como ensina S. Jo\u00e3o (cf. 1 Jo 4, 8.16) e como recordei na minha primeira carta enc\u00edclica,&#8221;Deus \u00e9 caridade&#8221;(Deus caritas est): da caridade de Deus tudo prov\u00e9m, por ela tudo toma forma, para ela tudo tende. A caridade \u00e9 o dom maior que Deus concedeu aos homens; \u00e9 sua promessa e nossa esperan\u00e7a.<br \/>\nEstou ciente dos desvios e esvaziamento de sentido que a caridade n\u00e3o cessa de enfrentar com o risco, da\u00ed resultante, de ser mal entendida, de exclu\u00ed-la da vida \u00e9tica e, em todo o caso, de impedir a sua correcta valoriza\u00e7\u00e3o. Nos \u00e2mbitos social, jur\u00eddico, cultural, pol\u00edtico e econ\u00f3mico, ou seja, nos contextos mais expostos a tal perigo, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil ouvir declarar a sua irrelev\u00e2ncia para interpretar e orientar as responsabilidades morais. Daqui a necessidade de conjugar a caridade com a verdade, n\u00e3o s\u00f3 na direc\u00e7\u00e3o assinalada por S. Paulo da&#8221;veritas in caritate&#8221;(Ef 4, 15), mas tamb\u00e9m na direc\u00e7\u00e3o inversa e complementar da&#8221;caritas in veritate&#8221;. A verdade h\u00e1-de ser procurada, encontrada e expressa na&#8221;economia&#8221;da caridade, mas esta por sua vez h\u00e1-de ser compreendida, avaliada e praticada sob a luz da verdade. Deste modo teremos n\u00e3o apenas prestado um servi\u00e7o \u00e0 caridade, iluminada pela verdade, mas tamb\u00e9m contribu\u00eddo para acreditar a verdade, mostrando o seu poder de autentica\u00e7\u00e3o e persuas\u00e3o na vida social concreta. Facto este que se deve ter bem em conta hoje, num contexto social e cultural que relativiza a verdade, aparecendo muitas vezes negligente sen\u00e3o mesmo refract\u00e1rio \u00e0 mesma.<\/p>\n<p>3. Pela sua estreita liga\u00e7\u00e3o com a verdade, a caridade pode ser reconhecida como express\u00e3o aut\u00eantica de humanidade e como elemento de import\u00e2ncia fundamental nas rela\u00e7\u00f5es humanas, nomeadamente de natureza p\u00fablica. S\u00f3 na verdade \u00e9 que a caridade refulge e pode ser autenticamente vivida. A verdade \u00e9 luz que d\u00e1 sentido e valor \u00e0 caridade. Esta luz \u00e9 simultaneamente a luz da raz\u00e3o e a da f\u00e9, atrav\u00e9s das quais a intelig\u00eancia chega \u00e0 verdade natural e sobrenatural da caridade: identifica o seu significado de doa\u00e7\u00e3o, acolhimento e comunh\u00e3o. Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um inv\u00f3lucro vazio, que se pode encher arbitrariamente. \u00c9 o risco fatal do amor numa cultura sem verdade; acaba prisioneiro das emo\u00e7\u00f5es e opini\u00f5es contingentes dos indiv\u00edduos, uma palavra abusada e adulterada chegando a significar o oposto do que \u00e9 realmente. A verdade liberta a caridade dos estrangulamentos do emotivismo, que a despoja de conte\u00fados relacionais e sociais, e do fide\u00edsmo, que a priva de amplitude humana e universal. Na verdade, a caridade reflecte a dimens\u00e3o simultaneamente pessoal e p\u00fablica da f\u00e9 no Deus b\u00edblico, que \u00e9 conjuntamente&#8221;Ag\u00e1pe&#8221;e&#8221;L\u00f3gos&#8221;: Caridade e Verdade, Amor e Palavra.<\/p>\n<p>4. Porque repleta de verdade, a caridade pode ser compreendida pelo homem na sua riqueza de valores, partilhada e comunicada. Com efeito, a verdade \u00e9&#8221;l\u00f3gos&#8221;que cria&#8221;di\u00e1-logos&#8221;e, consequentemente, comunica\u00e7\u00e3o e comunh\u00e3o. A verdade, fazendo sair os homens das opini\u00f5es e sensa\u00e7\u00f5es subjectivas, permite-lhes ultrapassar determina\u00e7\u00f5es culturais e hist\u00f3ricas para se encontrarem na avalia\u00e7\u00e3o do valor e subst\u00e2ncia das coisas. A verdade abre e une as intelig\u00eancias no l\u00f3gos do amor: tal \u00e9 o an\u00fancio e o testemunho crist\u00e3o da caridade. No actual contexto social e cultural, em que aparece generalizada a tend\u00eancia de relativizar a verdade, viver a caridade na verdade leva a compreender que a ades\u00e3o aos valores do cristianismo \u00e9 um elemento \u00fatil e mesmo indispens\u00e1vel para a constru\u00e7\u00e3o duma boa sociedade e dum verdadeiro desenvolvimento humano integral. Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, \u00fateis para a conviv\u00eancia social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo. Sem a verdade, a caridade acaba confinada num \u00e2mbito restrito e carecido de rela\u00e7\u00f5es; fica exclu\u00edda dos projectos e processos de constru\u00e7\u00e3o dum desenvolvimento humano de alcance universal, no di\u00e1logo entre o saber e a realiza\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>5. A caridade \u00e9 amor recebido e dado; \u00e9&#8221;gra\u00e7a&#8221;(ch\u00e1ris). A sua nascente \u00e9 o amor fontal do Pai pelo Filho no Esp\u00edrito Santo. \u00c9 amor que, pelo Filho, desce sobre n\u00f3s. \u00c9 amor criador, pelo qual existimos; amor redentor, pelo qual somos recriados. Amor revelado e vivido por Cristo (cf. Jo 13, 1), \u00e9&#8221;derramado em nossos cora\u00e7\u00f5es pelo Esp\u00edrito Santo&#8221;(Rm 5, 5). Destinat\u00e1rios do amor de Deus, os homens s\u00e3o constitu\u00eddos sujeitos de caridade, chamados a fazerem-se eles mesmos instrumentos da gra\u00e7a, para difundir a caridade de Deus e tecer redes de caridade.<br \/>\nA esta din\u00e2mica de caridade recebida e dada, prop\u00f5e-se dar resposta a doutrina social da Igreja.Tal doutrina \u00e9&#8221;caritas in veritate in re sociali&#8221;, ou seja, proclama\u00e7\u00e3o da verdade do amor de Cristo na sociedade; \u00e9 servi\u00e7o da caridade, mas na verdade. Esta preserva e exprime a for\u00e7a libertadora da caridade nas vicissitudes sempre novas da hist\u00f3ria. \u00c9 ao mesmo tempo verdade da f\u00e9 e da raz\u00e3o, na distin\u00e7\u00e3o e, conjuntamente, sinergia destes dois \u00e2mbitos cognitivos. O desenvolvimento, o bem-estar social, uma solu\u00e7\u00e3o adequada dos graves problemas s\u00f3cio-econ\u00f3micos que afligem a humanidade precisam desta verdade. Mais ainda, necessitam que tal verdade seja amada e testemunhada. Sem verdade, sem confian\u00e7a e amor pelo que \u00e9 verdadeiro, n\u00e3o h\u00e1 consci\u00eancia e responsabilidade social, e a actividade social acaba \u00e0 merc\u00ea de interesses privados e l\u00f3gicas de poder, com efeitos desagregadores na sociedade, sobretudo numa sociedade em vias de globaliza\u00e7\u00e3o que atravessa momentos dif\u00edceis como os actuais.<\/p>\n<p>6.&#8221;Caritas in veritate&#8221;\u00e9 um princ\u00edpio \u00e0 volta do qual gira a doutrina social da Igreja, princ\u00edpio que ganha forma operativa em crit\u00e9rios orientadores da ac\u00e7\u00e3o moral. Destes, desejo lembrar dois em particular, requeridos especialmente pelo compromisso em prol do desenvolvimento numa sociedade em vias de globaliza\u00e7\u00e3o: a justi\u00e7a e o bem comum.<br \/>\nEm primeiro lugar, a justi\u00e7a. Ubi societas, ibi ius: cada sociedade elabora um sistema pr\u00f3prio de justi\u00e7a. A caridade supera a justi\u00e7a, porque amar \u00e9 dar, oferecer ao outro do que \u00e9&#8221;meu&#8221;; mas nunca existe sem a justi\u00e7a, que induz a dar ao outro o que \u00e9&#8221;dele&#8221;, o que lhe pertence em raz\u00e3o do seu ser e do seu agir. N\u00e3o posso&#8221;dar&#8221;ao outro do que \u00e9 meu, sem antes lhe ter dado aquilo que lhe compete por justi\u00e7a. Quem ama os outros com caridade \u00e9, antes de mais nada, justo para com eles. A justi\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 alheia \u00e0 caridade, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 um caminho alternativo ou paralelo \u00e0 caridade, mas \u00e9&#8221;insepar\u00e1vel da caridade&#8221;[1], \u00e9-lhe intr\u00ednseca. A justi\u00e7a \u00e9 o primeiro caminho da caridade ou, como chegou a dizer Paulo VI,&#8221;a medida m\u00ednima&#8221;dela[2], parte integrante daquele amor&#8221;por ac\u00e7\u00f5es e em verdade&#8221;(1 Jo 3, 18) a que nos exorta o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o. Por um lado, a caridade exige a justi\u00e7a: o reconhecimento e o respeito dos leg\u00edtimos direitos dos indiv\u00edduos e dos povos. Aquela empenha-se na constru\u00e7\u00e3o da&#8221;cidade do homem&#8221;segundo o direito e a justi\u00e7a. Por outro, a caridade supera a justi\u00e7a e completa-a com a l\u00f3gica do dom e do perd\u00e3o[3]. A&#8221;cidade do homem&#8221;n\u00e3o se move apenas por rela\u00e7\u00f5es feitas de direitos e de deveres, mas antes e sobretudo por rela\u00e7\u00f5es de gratuidade, miseric\u00f3rdia e comunh\u00e3o. A caridade manifesta sempre, mesmo nas rela\u00e7\u00f5es humanas, o amor de Deus; d\u00e1 valor teologal e salv\u00edfico a todo o empenho de justi\u00e7a no mundo.<\/p>\n<p>7. Depois, \u00e9 preciso ter em grande considera\u00e7\u00e3o o bem comum. Amar algu\u00e9m \u00e9 querer o seu bem e trabalhar eficazmente pelo mesmo. Ao lado do bem individual, existe um bem ligado \u00e0 vida social das pessoas: o bem comum. \u00c9 o bem daquele&#8221;n\u00f3s-todos&#8221;, formado por indiv\u00edduos, fam\u00edlias e grupos interm\u00e9dios que se unem em comunidade social[4]. N\u00e3o \u00e9 um bem procurado por si mesmo, mas para as pessoas que fazem parte da comunidade social e que, s\u00f3 nela, podem realmente e com maior efic\u00e1cia obter o pr\u00f3prio bem. Querer o bem comum e trabalhar por ele \u00e9 exig\u00eancia de justi\u00e7a e de caridade. Comprometer-se pelo bem comum \u00e9, por um lado, cuidar e, por outro, valer-se daquele conjunto de institui\u00e7\u00f5es que estruturam jur\u00eddica, civil, pol\u00edtica e culturalmente a vida social, que deste modo toma a forma de p\u00f3lis, cidade. Ama-se tanto mais eficazmente o pr\u00f3ximo, quanto mais se trabalha em prol de um bem comum que d\u00ea resposta tamb\u00e9m \u00e0s suas necessidade reais. Todo o crist\u00e3o \u00e9 chamado a esta caridade, conforme a sua voca\u00e7\u00e3o e segundo as possibilidades que tem de incid\u00eancia nap\u00f3lis. Este \u00e9 o caminho institucional \u2014 podemos mesmo dizer pol\u00edtico \u2014 da caridade, n\u00e3o menos qualificado e incisivo do que o \u00e9 a caridade que vai directamente ao encontro do pr\u00f3ximo, fora das media\u00e7\u00f5es institucionais da p\u00f3lis. Quando o empenho pelo bem comum \u00e9 animado pela caridade, tem uma val\u00eancia superior \u00e0 do empenho simplesmente secular e pol\u00edtico. Aquele, como todo o empenho pela justi\u00e7a, inscreve-se no testemunho da caridade divina que, agindo no tempo, prepara o eterno. A ac\u00e7\u00e3o do homem sobre a terra, quando \u00e9 inspirada e sustentada pela caridade, contribui para a edifica\u00e7\u00e3o daquela cidade universal de Deus que \u00e9 a meta para onde caminha a hist\u00f3ria da fam\u00edlia humana. Numa sociedade em vias de globaliza\u00e7\u00e3o, o bem comum e o empenho em seu favor n\u00e3o podem deixar de assumir as dimens\u00f5es da fam\u00edlia humana inteira, ou seja, da comunidade dos povos e das na\u00e7\u00f5es[5], para dar forma de unidade e paz \u00e0 cidade do homem e torn\u00e1-la em certa medida antecipa\u00e7\u00e3o que prefigura a cidade de Deus sem barreiras.<\/p>\n<p>8. Ao publicar a enc\u00edclica Populorum progressio em 1967, o meu venerado predecessor Paulo VI iluminou o grande tema do desenvolvimento dos povos com o esplendor da verdade e com a luz suave da caridade de Cristo. Afirmou que o an\u00fancio de Cristo \u00e9 o primeiro e principal factor de desenvolvimento [6] e deixou-nos a recomenda\u00e7\u00e3o de caminhar pela estrada do desenvolvimento com todo o nosso cora\u00e7\u00e3o e com toda a nossa intelig\u00eancia[7], ou seja, com o ardor da caridade e a sapi\u00eancia da verdade. \u00c9 a verdade origin\u00e1ria do amor de Deus \u2014 gra\u00e7a a n\u00f3s concedida \u2014 que abre ao dom a nossa vida e torna poss\u00edvel esperar num&#8221;desenvolvimento do homem todo e de todos os homens&#8221;[8], numa passagem&#8221;de condi\u00e7\u00f5es menos humanas a condi\u00e7\u00f5es mais humanas&#8221;[9], que se obt\u00e9m vencendo as dificuldades que inevitavelmente se encontram ao longo do caminho.<br \/>\nPassados mais de quarenta anos da publica\u00e7\u00e3o da referida enc\u00edclica, pretendo prestar homenagem e honrar a mem\u00f3ria do grande Pont\u00edfice Paulo VI, retomando os seus ensinamentos sobre o desenvolvimento humano integral e colocando-me na senda pelos mesmos tra\u00e7ada para os actualizar nos dias que correm. Este processo de actualiza\u00e7\u00e3o teve in\u00edcio com a enc\u00edclica Sollicitudo rei socialis do Servo de Deus Jo\u00e3o Paulo II, que desse modo quis comemorar a Populorum progressio no vig\u00e9simo anivers\u00e1rio da sua publica\u00e7\u00e3o. At\u00e9 ent\u00e3o, semelhante comemora\u00e7\u00e3o tinha-se reservado apenas para a Rerum novarum. Passados outros vinte anos, exprimo a minha convic\u00e7\u00e3o de que a Populorum progressio merece ser considerada como&#8221;a Rerum novarum da \u00e9poca contempor\u00e2nea&#8221;, que ilumina o caminho da humanidade em vias de unifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>9. O amor na verdade \u2014 caritas in veritate \u2014 \u00e9 um grande desafio para a Igreja num mundo em crescente e incisiva globaliza\u00e7\u00e3o. O risco do nosso tempo \u00e9 que, \u00e0 real interdepend\u00eancia dos homens e dos povos, n\u00e3o corresponda a interac\u00e7\u00e3o \u00e9tica das consci\u00eancias e das intelig\u00eancias, da qual possa resultar um desenvolvimento verdadeiramente humano. S\u00f3 atrav\u00e9s da caridade, iluminada pela luz da raz\u00e3o e da f\u00e9, \u00e9 poss\u00edvel alcan\u00e7ar objectivos de desenvolvimento dotados de uma val\u00eancia mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva o aut\u00eantico desenvolvimento, n\u00e3o \u00e9 assegurada pelo simples progresso t\u00e9cnico e por meras rela\u00e7\u00f5es de conveni\u00eancia, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre \u00e0 reciprocidade das consci\u00eancias e das liberdades.<br \/>\nA Igreja n\u00e3o tem solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para oferecer [10] e n\u00e3o pretende&#8221;de modo algum imiscuir-se na pol\u00edtica dos Estados&#8221;[11]; mas tem uma miss\u00e3o ao servi\u00e7o da verdade para cumprir, em todo o tempo e conting\u00eancia, a favor de uma sociedade \u00e0 medida do homem, da sua dignidade, da sua voca\u00e7\u00e3o. Sem verdade, cai-se numa vis\u00e3o empirista e c\u00e9ptica da vida, incapaz de se elevar acima da ac\u00e7\u00e3o porque n\u00e3o est\u00e1 interessada em identificar os valores \u2014 \u00e0s vezes nem sequer os significados \u2014 pelos quais julg\u00e1-la e orient\u00e1-la. A fidelidade ao homem exige a fidelidade \u00e0 verdade, a \u00fanica que \u00e9 garantia de liberdade (cf. Jo 8, 32) e da possibilidade dum desenvolvimento humano integral. \u00c9 por isso que a Igreja a procura, anuncia incansavelmente e reconhece em todo o lado onde a mesma se apresente. Para a Igreja, esta miss\u00e3o ao servi\u00e7o da verdade \u00e9 irrenunci\u00e1vel. A sua doutrina social \u00e9 um momento singular deste an\u00fancio: \u00e9 servi\u00e7o \u00e0 verdade que liberta. Aberta \u00e0 verdade, qualquer que seja o saber donde provenha, a doutrina social da Igreja acolhe-a, comp\u00f5e numa unidade os fragmentos em que frequentemente a encontra, e serve-lhe de medianeira na vida sempre nova da sociedade dos homens e dos povos[12].<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO I<br \/>\nA MENSAGEM DA POPULORUM PROGRESSIO<\/p>\n<p>10. A releitura da Populorum progressio, mais de quarenta anos depois da sua publica\u00e7\u00e3o, incita a permanecer fi\u00e9is \u00e0 sua mensagem de caridade e de verdade, considerando-a no \u00e2mbito do magist\u00e9rio espec\u00edfico de Paulo VI e, mais em geral, dentro da tradi\u00e7\u00e3o da doutrina social da Igreja. Depois h\u00e1 que avaliar os termos diferentes em que hoje, diversamente de ent\u00e3o, se coloca o problema do desenvolvimento. Por isso, o ponto de vista correcto \u00e9 o da Tradi\u00e7\u00e3o da f\u00e9 apost\u00f3lica[13], patrim\u00f3nio antigo e novo, fora do qual a Populorum progressio seria um documento sem ra\u00edzes e as quest\u00f5es do desenvolvimento ficariam reduzidas unicamente a dados sociol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>11. A publica\u00e7\u00e3o da Populorum progressio deu-se imediatamente depois da conclus\u00e3o do Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II. A pr\u00f3pria enc\u00edclica sublinha, nos primeiros par\u00e1grafos, a sua rela\u00e7\u00e3o \u00edntima com o Conc\u00edlio[14]. Vinte anos depois, era Jo\u00e3o Paulo II que destacava, naSollicitudo rei socialis, a fecunda rela\u00e7\u00e3o daquela enc\u00edclica com o Conc\u00edlio, particularmente com a constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes[15]. Desejo, tamb\u00e9m eu, lembrar aqui a import\u00e2ncia que o Conc\u00edlio Vaticano II teve na enc\u00edclica de Paulo VI e em todo o sucessivo magist\u00e9rio social dos Sumos Pont\u00edfices. O Conc\u00edlio aprofundou aquilo que desde sempre pertence \u00e0 verdade da f\u00e9, ou seja, que a Igreja, estando ao servi\u00e7o de Deus, serve o mundo em termos de amor e verdade. Foi precisamente desta perspectiva que partiu Paulo VI para nos comunicar duas grandes verdades. A primeira \u00e9 que a Igreja inteira, em todo o seu ser e agir, quando anuncia, celebra e actua na caridade, tende a promover o desenvolvimento integral do homem. Ela tem um papel p\u00fablico que n\u00e3o se esgota nas suas actividades de assist\u00eancia ou de educa\u00e7\u00e3o, mas revela todas as suas energias ao servi\u00e7o da promo\u00e7\u00e3o do homem e da fraternidade universal quando pode usufruir de um regime de liberdade. Em n\u00e3o poucos casos, tal liberdade v\u00ea-se impedida por proibi\u00e7\u00f5es e persegui\u00e7\u00f5es; ou ent\u00e3o \u00e9 limitada, quando a presen\u00e7a p\u00fablica da Igreja fica reduzida unicamente \u00e0s suas actividades s\u00f3cio-caritativas. A segunda verdade \u00e9 que o aut\u00eantico desenvolvimento do homem diz respeito unitariamente \u00e0 totalidade da pessoa em todas as suas dimens\u00f5es[16]. Sem a perspectiva duma vida eterna, o progresso humano neste mundo fica privado de respiro. Fechado dentro da hist\u00f3ria, est\u00e1 sujeito ao risco de reduzir-se a simples incremento do ter; deste modo, a humanidade perde a coragem de permanecer dispon\u00edvel para os bens mais altos, para as grandes e altru\u00edstas iniciativas solicitadas pela caridade universal. O homem n\u00e3o se desenvolve apenas com as suas pr\u00f3prias for\u00e7as, nem o desenvolvimento \u00e9 algo que se lhe possa dar simplesmente de fora. Muitas vezes, ao longo da hist\u00f3ria, pensou-se que era suficiente a cria\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es para garantir \u00e0 humanidade a satisfa\u00e7\u00e3o do direito ao desenvolvimento. Infelizmente foi depositada excessiva confian\u00e7a em tais institui\u00e7\u00f5es, como se estas pudessem conseguir automaticamente o objectivo desejado. Na realidade, as institui\u00e7\u00f5es sozinhas n\u00e3o bastam, porque o desenvolvimento humano integral \u00e9 primariamente voca\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, exige uma livre e solid\u00e1ria assun\u00e7\u00e3o de responsabilidade por parte de todos. Al\u00e9m disso, tal desenvolvimento requer uma vis\u00e3o transcendente da pessoa, tem necessidade de Deus: sem Ele, o desenvolvimento ou \u00e9 negado ou acaba confiado unicamente \u00e0s m\u00e3os do homem, que cai na presun\u00e7\u00e3o da auto-salva\u00e7\u00e3o e acaba por fomentar um desenvolvimento desumanizado. Ali\u00e1s, s\u00f3 o encontro com Deus permite deixar de&#8221;ver no outro sempre e apenas o outro&#8221;[17], para reconhecer nele a imagem divina, chegando assim a descobrir verdadeiramente o outro e a maturar um amor que&#8221;se torna cuidado do outro e pelo outro&#8221;[18].<\/p>\n<p>12. A liga\u00e7\u00e3o entre a Populorum progressio e o Conc\u00edlio Vaticano II n\u00e3o representa um corte entre o magist\u00e9rio social de Paulo VI e o dos Pont\u00edfices seus predecessores, visto que o Conc\u00edlio constitui um aprofundamento de tal magist\u00e9rio na continuidade da vida da Igreja[19]. Neste sentido, n\u00e3o ajudam \u00e0 clareza certas subdivis\u00f5es abstractas da doutrina social da Igreja, que aplicam ao ensinamento social pontif\u00edcio categorias que lhe s\u00e3o alheias. N\u00e3o existem duas tipologias de doutrina social \u2014 uma pr\u00e9-conciliar e outra p\u00f3s-conciliar \u2014, diversas entre si, mas um \u00fanico ensinamento, coerente e simultaneamente sempre novo[20]. \u00c9 justo evidenciar a peculiaridade de uma ou outra enc\u00edclica, do ensinamento deste ou daquele Pont\u00edfice, mas sem jamais perder de vista a coer\u00eancia do corpus doutrinal inteiro[21]. Coer\u00eancia n\u00e3o significa reclus\u00e3o num sistema, mas sobretudo fidelidade din\u00e2mica a uma luz recebida. A doutrina social da Igreja ilumina, com uma luz imut\u00e1vel, os problemas novos que v\u00e3o aparecendo[22]. Isto salvaguarda o car\u00e1cter quer permanente quer hist\u00f3rico deste&#8221;patrim\u00f3nio&#8221;doutrinal[23], o qual, com as suas caracter\u00edsticas espec\u00edficas, faz parte da Tradi\u00e7\u00e3o sempre viva da Igreja[24]. A doutrina social est\u00e1 constru\u00edda sobre o fundamento que foi transmitido pelos Ap\u00f3stolos aos Padres da Igreja e, depois, acolhido e aprofundado pelos grandes Doutores crist\u00e3os. Tal doutrina remonta, em \u00faltima an\u00e1lise, ao Homem novo, ao&#8221;\u00faltimo Ad\u00e3o que Se tornou esp\u00edrito vivificante&#8221;(1 Cor 15, 45) e \u00e9 princ\u00edpio da caridade que&#8221;nunca acabar\u00e1&#8221;(1 Cor 13, 8). \u00c9 testemunhada pelos Santos e por quantos deram a vida por Cristo Salvador no campo da justi\u00e7a e da paz. Nela se exprime a miss\u00e3o prof\u00e9tica que t\u00eam os Sumos Pont\u00edfices de guiar apostolicamente a Igreja de Cristo e discernir as novas exig\u00eancias da evangeliza\u00e7\u00e3o. Por estas raz\u00f5es, a Populorum progressio, inserida na grande corrente da Tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 capaz de nos falar ainda a n\u00f3s hoje.<\/p>\n<p>13. Al\u00e9m da sua importante liga\u00e7\u00e3o com toda a doutrina social da Igreja, a Populorum progressio est\u00e1 intimamente conexa com o magist\u00e9rio global de Paulo VI e, de modo particular, com o seu magist\u00e9rio social. De grande relevo foi, sem d\u00favida, o seu ensinamento social: reafirmou a exig\u00eancia imprescind\u00edvel do Evangelho para a constru\u00e7\u00e3o da sociedade segundo liberdade e justi\u00e7a, na perspectiva ideal e hist\u00f3rica de uma civiliza\u00e7\u00e3o animada pelo amor. Paulo VI compreendeu claramente como se tinha tornado mundial a quest\u00e3o social[25] e viu a correla\u00e7\u00e3o entre o impulso \u00e0 unifica\u00e7\u00e3o da humanidade e o ideal crist\u00e3o de uma \u00fanica fam\u00edlia dos povos, solid\u00e1ria na fraternidade comum. Indicou o desenvolvimento, humana e crist\u00e3mente entendido, como o cora\u00e7\u00e3o da mensagem social crist\u00e3 e prop\u00f4s a caridade crist\u00e3 como principal for\u00e7a ao servi\u00e7o do desenvolvimento. Movido pelo desejo de tornar o amor de Cristo plenamente vis\u00edvel ao homem contempor\u00e2neo, Paulo VI enfrentou com firmeza importantes quest\u00f5es \u00e9ticas, sem ceder \u00e0s debilidades culturais do seu tempo.<\/p>\n<p>14. Depois, com a carta apost\u00f3lica Octogesima adveniens de 1971, Paulo VI tratou o tema do sentido da pol\u00edtica e do perigo de vis\u00f5es ut\u00f3picas e ideol\u00f3gicas que prejudicavam a sua qualidade \u00e9tica e humana. S\u00e3o argumentos estritamente relacionados com o desenvolvimento. Infelizmente as ideologias negativas florescem continuamente. Contra a ideologia tecnocr\u00e1tica, hoje particularmente radicada, j\u00e1 Paulo VI tinha alertado[26], ciente do grande perigo que era confiar todo o processo do desenvolvimento unicamente \u00e0 t\u00e9cnica, porque assim ficaria sem orienta\u00e7\u00e3o. A t\u00e9cnica, em si mesma, \u00e9 ambivalente. Se, por um lado, h\u00e1 hoje quem seja propenso a confiar-lhe inteiramente tal processo de desenvolvimento, por outro, assiste-se \u00e0 investida de ideologias que negam in toto a pr\u00f3pria utilidade do desenvolvimento, considerado radicalmente anti-humano e portador somente de degrada\u00e7\u00e3o. Mas, deste modo, acaba-se por condenar n\u00e3o apenas a maneira errada e injusta como por vezes os homens orientam o progresso, mas tamb\u00e9m as descobertas cient\u00edficas que entretanto, se bem usadas, constituem uma oportunidade de crescimento para todos. A ideia de um mundo sem desenvolvimento exprime falta de confian\u00e7a no homem e em Deus. Por conseguinte, \u00e9 um grave erro desprezar as capacidades humanas de controlar os extravios do desenvolvimento ou mesmo ignorar que o homem est\u00e1 constitutivamente inclinado para&#8221;ser mais&#8221;. Absolutizar ideologicamente o progresso t\u00e9cnico ou ent\u00e3o afagar a utopia duma humanidade reconduzida ao estado origin\u00e1rio da natureza s\u00e3o dois modos opostos de separar o progresso da sua aprecia\u00e7\u00e3o moral e, consequentemente, da nossa responsabilidade.<\/p>\n<p>15. Outros dois documentos de Paulo VI, embora n\u00e3o estritamente ligados com a doutrina social \u2014 a enc\u00edclica Human\u00e6 vit\u00e6, de 25 de Julho de 1968, e a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Evangelii nuntiandi, de 8 de Dezembro de 1975 \u2014, s\u00e3o muito importantes para delinear o sentido plenamente humano do desenvolvimento proposto pela Igreja. Por isso \u00e9 oportuno ler tamb\u00e9m estes textos em rela\u00e7\u00e3o com a Populorum progressio.<br \/>\nA enc\u00edclica Human\u00e6 vit\u00e6 sublinha o significado conjuntamente unitivo e procriativo da sexualidade, pondo assim como fundamento da sociedade o casal de esposos, homem e mulher, que se acolhem reciprocamente na distin\u00e7\u00e3o e na complementaridade; um casal, portanto, aberto \u00e0 vida[27]. N\u00e3o se trata de uma moral meramente individual: a Human\u00e6 vit\u00e6indica os fortes la\u00e7os existentes entre \u00e9tica da vida e \u00e9tica social, inaugurando uma tem\u00e1tica do Magist\u00e9rio que aos poucos foi tomando corpo em v\u00e1rios documentos, sendo o mais recente a enc\u00edclica Evangelium vit\u00e6 de Jo\u00e3o Paulo II[28]. A Igreja prop\u00f5e, com vigor, esta liga\u00e7\u00e3o entre \u00e9tica da vida e \u00e9tica social, ciente de que n\u00e3o pode&#8221;ter s\u00f3lidas bases uma sociedade que afirma valores como a dignidade da pessoa, a justi\u00e7a e a paz, mas contradiz-se radicalmente aceitando e tolerando as mais diversas formas de desprezo e viola\u00e7\u00e3o da vida humana, sobretudo se d\u00e9bil e marginalizada&#8221;[29].<br \/>\nPor sua vez, a exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica Evangelii nuntiandi tem uma rela\u00e7\u00e3o muito forte com o desenvolvimento, visto que&#8221;a evangeliza\u00e7\u00e3o \u2014 escrevia Paulo VI \u2014 n\u00e3o seria completa, se n\u00e3o tomasse em considera\u00e7\u00e3o a interpela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, do homem&#8221;[30].&#8221;Entre evangeliza\u00e7\u00e3o e promo\u00e7\u00e3o humana \u2014 desenvolvimento, liberta\u00e7\u00e3o \u2014 existem de facto la\u00e7os profundos&#8221;[31]: partindo desta certeza, Paulo VI ilustrava claramente a rela\u00e7\u00e3o entre o an\u00fancio de Cristo e a promo\u00e7\u00e3o da pessoa na sociedade. O testemunho da caridade de Cristo atrav\u00e9s de obras de justi\u00e7a, paz e desenvolvimento faz parte da evangeliza\u00e7\u00e3o, pois a Jesus Cristo, que nos ama, interessa o homem inteiro. Sobre estes importantes ensinamentos, est\u00e1 fundado o aspecto mission\u00e1rio [32] da doutrina social da Igreja como elemento essencial de evangeliza\u00e7\u00e3o[33]. A doutrina social da Igreja \u00e9 an\u00fancio e testemunho de f\u00e9; \u00e9 instrumento e lugar imprescind\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o para a mesma.<\/p>\n<p>16. Na Populorum progressio, Paulo VI quis dizer-nos, antes de mais nada, que o progresso \u00e9, na sua origem e na sua ess\u00eancia, uma voca\u00e7\u00e3o:&#8221;Nos des\u00edgnios de Deus, cada homem \u00e9 chamado a desenvolver-se, porque toda a vida \u00e9 voca\u00e7\u00e3o&#8221;[34]. \u00c9 precisamente este facto que legitima a interven\u00e7\u00e3o da Igreja nas problem\u00e1ticas do desenvolvimento. Se este tocasse apenas aspectos t\u00e9cnicos da vida do homem, e n\u00e3o o sentido do seu caminhar na hist\u00f3ria juntamente com seus irm\u00e3os, nem a individua\u00e7\u00e3o da meta de tal caminho, a Igreja n\u00e3o teria t\u00edtulo para falar. Mas Paulo VI, como antes dele Le\u00e3o XIII na Rerum novarum[35], estava consciente de cumprir um dever pr\u00f3prio do seu servi\u00e7o quando iluminava com a luz do Evangelho as quest\u00f5es sociais do seu tempo[36].<br \/>\nDizer que o desenvolvimento \u00e9 voca\u00e7\u00e3o equivale a reconhecer, por um lado, que o mesmo nasce de um apelo transcendente e, por outro, que \u00e9 incapaz por si mesmo de atribuir-se o pr\u00f3prio significado \u00faltimo. N\u00e3o \u00e9 sem motivo que a palavra&#8221;voca\u00e7\u00e3o&#8221;volta a aparecer noutra passagem da enc\u00edclica, onde se afirma:&#8221;N\u00e3o h\u00e1, portanto, verdadeiro humanismo sen\u00e3o o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma voca\u00e7\u00e3o que exprime a ideia exacta do que \u00e9 a vida humana&#8221;[37]. Esta vis\u00e3o do desenvolvimento \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o da Populorum progressio e motiva todas as reflex\u00f5es de Paulo VI sobre a liberdade, a verdade e a caridade no desenvolvimento. \u00c9 tamb\u00e9m a raz\u00e3o principal por que tal enc\u00edclica ainda aparece actual nos nossos dias.<\/p>\n<p>17. A voca\u00e7\u00e3o \u00e9 um apelo que exige resposta livre e respons\u00e1vel. O desenvolvimento humano integral sup\u00f5e a liberdade respons\u00e1vel da pessoa e dos povos: nenhuma estrutura pode garantir tal desenvolvimento, prescindindo e sobrepondo-se \u00e0 responsabilidade humana. Os&#8221;messianismos fascinantes, mas construtores de ilus\u00f5es&#8221;[38] fundam sempre as pr\u00f3prias propostas na nega\u00e7\u00e3o da dimens\u00e3o transcendente do desenvolvimento, seguros de o terem inteiramente \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. Esta falsa seguran\u00e7a converte-se em fraqueza, porque implica a sujei\u00e7\u00e3o do homem, reduzido \u00e0 categoria de meio para o desenvolvimento, enquanto a humildade de quem acolhe uma voca\u00e7\u00e3o se transforma em verdadeira autonomia, porque torna a pessoa livre. Paulo VI n\u00e3o tem d\u00favidas sobre a exist\u00eancia de obst\u00e1culos e condicionamentos que refreiam o desenvolvimento, mas est\u00e1 seguro tamb\u00e9m de que&#8221;cada um, sejam quais forem as influ\u00eancias que sobre ele se exer\u00e7am, permanece o art\u00edfice principal do seu \u00eaxito ou do seu fracasso&#8221;[39]. Esta liberdade diz respeito n\u00e3o s\u00f3 ao desenvolvimento que usufru\u00edmos, mas tamb\u00e9m \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de subdesenvolvimento, que n\u00e3o s\u00e3o fruto do acaso nem de uma necessidade hist\u00f3rica, mas dependem da responsabilidade humana. \u00c9 por isso que&#8221;os povos da fome se dirigem hoje, de modo dram\u00e1tico, aos povos da opul\u00eancia&#8221;[40]. Tamb\u00e9m isto \u00e9 voca\u00e7\u00e3o, um apelo que homens livres dirigem a homens livres em ordem a uma assun\u00e7\u00e3o comum de responsabilidade. Viva era, em Paulo VI, a percep\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia das estruturas econ\u00f3micas e das institui\u00e7\u00f5es, mas era igualmente clara nele a no\u00e7\u00e3o da sua natureza de instrumentos da liberdade humana. Somente se for livre \u00e9 que o desenvolvimento pode ser integralmente humano; apenas num regime de liberdade respons\u00e1vel, pode crescer de maneira adequada.<\/p>\n<p>18. Al\u00e9m de requerer a liberdade, o desenvolvimento humano integral enquanto voca\u00e7\u00e3o exige tamb\u00e9m que se respeite a sua verdade. A voca\u00e7\u00e3o ao progresso impele os homens a&#8221;realizar, conhecer e possuir mais, para ser mais&#8221;[41]. Mas aqui levanta-se o problema: que significa&#8221;ser mais&#8221;? A tal pergunta responde Paulo VI indicando a caracter\u00edstica essencial do&#8221;desenvolvimento aut\u00eantico&#8221;: este&#8221;deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo&#8221;[42]. Na concorr\u00eancia entre as v\u00e1rias concep\u00e7\u00f5es do homem, presentes na sociedade actual ainda mais intensamente do que na de Paulo VI, a vis\u00e3o crist\u00e3 tem a peculiaridade de afirmar e justificar o valor incondicional da pessoa humana e o sentido do seu crescimento. A voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ao desenvolvimento ajuda a empenhar-se na promo\u00e7\u00e3o de todos os homens e do homem todo. Escrevia Paulo VI:&#8221;O que conta para n\u00f3s \u00e9 o homem, cada homem, cada grupo de homens, at\u00e9 se chegar \u00e0 humanidade inteira&#8221;[43]. A f\u00e9 crist\u00e3 ocupa-se do desenvolvimento sem olhar a privil\u00e9gios nem posi\u00e7\u00f5es de poder nem mesmo aos m\u00e9ritos dos crist\u00e3os \u2014 que sem d\u00favida existiram e existem, a par de naturais limita\u00e7\u00f5es[44] \u2014, mas contando apenas com Cristo, a Quem h\u00e1-de fazer refer\u00eancia toda a aut\u00eantica voca\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento humano integral. O Evangelho \u00e9 elemento fundamental do desenvolvimento, porque l\u00e1 Cristo, com&#8221;a pr\u00f3pria revela\u00e7\u00e3o do mist\u00e9rio do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo&#8221;[45]. Instru\u00edda pelo seu Senhor, a Igreja perscruta os sinais dos tempos e interpreta-os, oferecendo ao mundo&#8221;o que possui como pr\u00f3prio: uma vis\u00e3o global do homem e da humanidade&#8221;[46]. Precisamente porque Deus pronuncia o maior&#8221;sim&#8221;ao homem[47], este n\u00e3o pode deixar de se abrir \u00e0 voca\u00e7\u00e3o divina para realizar o pr\u00f3prio desenvolvimento. A verdade do desenvolvimento consiste na sua integralidade: se n\u00e3o \u00e9 desenvolvimento do homem todo e de todo o homem, n\u00e3o \u00e9 verdadeiro desenvolvimento. Esta \u00e9 a mensagem central da Populorum progressio, v\u00e1lida hoje e sempre. O desenvolvimento humano integral no plano natural, enquanto resposta a uma voca\u00e7\u00e3o de Deus criador[48], procura a pr\u00f3pria autentica\u00e7\u00e3o num&#8221;humanismo transcendente, que leva [o homem] a atingir a sua maior plenitude: tal \u00e9 a finalidade suprema do desenvolvimento pessoal&#8221;[49]. Portanto, a voca\u00e7\u00e3o crist\u00e3 a tal desenvolvimento compreende tanto o plano natural como o plano sobrenatural, motivo por que,&#8221;quando Deus fica eclipsado, come\u00e7a a esmorecer a nossa capacidade de reconhecer a ordem natural, o fim e o \u2018\u2018bem&#8221;&#8221;[50].<\/p>\n<p>19. Finalmente, a concep\u00e7\u00e3o do desenvolvimento como voca\u00e7\u00e3o inclui nele a centralidade da caridade. Paulo VI observava, na enc\u00edclica Populorum progressio, que as causas do subdesenvolvimento n\u00e3o s\u00e3o primariamente de ordem material, convidando-nos a procur\u00e1-las noutras dimens\u00f5es do homem. Em primeiro lugar, na vontade, que muitas vezes descuida os deveres da solidariedade. Em segundo, no pensamento, que nem sempre sabe orientar convenientemente o querer; por isso, para a prossecu\u00e7\u00e3o do desenvolvimento, servem&#8221;pensadores capazes de reflex\u00e3o profunda, em busca de um humanismo novo, que permita ao homem moderno o encontro de si mesmo&#8221;[51]. E n\u00e3o \u00e9 tudo; o subdesenvolvimento tem uma causa ainda mais importante do que a car\u00eancia de pensamento: \u00e9&#8221;a falta de fraternidade entre os homens e entre os povos&#8221;[52]. Esta fraternidade poder\u00e1 um dia ser obtida pelos homens simplesmente com as suas for\u00e7as? A sociedade cada vez mais globalizada torna-nos vizinhos, mas n\u00e3o nos faz irm\u00e3os. A raz\u00e3o, por si s\u00f3, \u00e9 capaz de ver a igualdade entre os homens e estabelecer uma conviv\u00eancia c\u00edvica entre eles, mas n\u00e3o consegue fundar a fraternidade. Esta tem origem numa voca\u00e7\u00e3o transcendente de Deus Pai, que nos amou primeiro, ensinando-nos por meio do Filho o que \u00e9 a caridade fraterna. Ao apresentar os v\u00e1rios n\u00edveis do processo de desenvolvimento do homem, Paulo VI colocava no v\u00e9rtice, depois de ter mencionado a f\u00e9,&#8221;a unidade na caridade de Cristo que nos chama a todos a participar como filhos na vida do Deus vivo, Pai de todos os homens&#8221;[53].<\/p>\n<p>20. Abertas pela Populorum progressio, estas perspectivas permanecem fundamentais para dar amplitude e orienta\u00e7\u00e3o ao nosso compromisso a favor do desenvolvimento dos povos. E aPopulorum progressio sublinha repetidamente a urg\u00eancia das reformas[54], pedindo para que, \u00e0 vista dos grandes problemas da injusti\u00e7a no desenvolvimento dos povos, se actue com coragem e sem demora. Esta urg\u00eancia \u00e9 ditada tamb\u00e9m pela caridade na verdade. \u00c9 a caridade de Cristo que nos impele:&#8221;caritas Christi urget nos&#8221;(2 Cor 5, 14). A urg\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 inscrita s\u00f3 nas coisas, n\u00e3o deriva apenas do encal\u00e7ar dos acontecimentos e dos problemas, mas tamb\u00e9m do que est\u00e1 em jogo: a realiza\u00e7\u00e3o de uma aut\u00eantica fraternidade. A relev\u00e2ncia deste objectivo \u00e9 tal que exige a nossa disponibilidade para o compreendermos profundamente e mobilizarmo-nos concretamente, com o&#8221;cora\u00e7\u00e3o&#8221;, a fim de fazer avan\u00e7ar os actuais processos econ\u00f3micos e sociais para metas plenamente humanas.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO II<br \/>\nO DESENVOLVIMENTO HUMANO NO NOSSO TEMPO<\/p>\n<p>21. Paulo VI tinha uma vis\u00e3o articulada do desenvolvimento. Com o termo&#8221;desenvolvimento&#8221;, queria indicar, antes de mais nada, o objectivo de fazer sair os povos da fome, da mis\u00e9ria, das doen\u00e7as end\u00e9micas e do analfabetismo. Isto significava, do ponto de vista econ\u00f3mico, a sua participa\u00e7\u00e3o activa e em condi\u00e7\u00f5es de igualdade no processo econ\u00f3mico internacional; do ponto de vista social, a sua evolu\u00e7\u00e3o para sociedades instru\u00eddas e solid\u00e1rias; do ponto de vista pol\u00edtico, a consolida\u00e7\u00e3o de regimes democr\u00e1ticos capazes de assegurar a liberdade e a paz. Depois de tantos anos e enquanto contemplamos, preocupados, as evolu\u00e7\u00f5es e as perspectivas das crises que foram sucedendo neste per\u00edodo, interrogamo-nos at\u00e9 que ponto as expectativas de Paulo VI tenham sido satisfeitas pelo modelo de desenvolvimento que foi adoptado nos \u00faltimos dec\u00e9nios. E reconhecemos que eram fundadas as preocupa\u00e7\u00f5es da Igreja acerca das capacidades do homem meramente tecnol\u00f3gico conseguir impor-se objectivos realistas e saber gerir, sempre adequadamente, os instrumentos \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. O lucro \u00e9 \u00fatil se, como meio, for orientado para um fim que lhe indique o sentido e o modo como o produzir e utilizar. O objectivo exclusivo de lucro, quando mal produzido e sem ter como fim \u00faltimo o bem comum, arrisca-se a destruir riqueza e criar pobreza. O desenvolvimento econ\u00f3mico desejado por Paulo VI devia ser capaz de produzir um crescimento real, extensivo a todos e concretamente sustent\u00e1vel. \u00c9 verdade que o desenvolvimento foi e continua a ser um factor positivo, que tirou da mis\u00e9ria milh\u00f5es de pessoas e, ultimamente, deu a muitos pa\u00edses a possibilidade de se tornarem actores eficazes da pol\u00edtica internacional. Todavia h\u00e1 que reconhecer que o pr\u00f3prio desenvolvimento econ\u00f3mico foi e continua a ser molestado por anomalias e problemas dram\u00e1ticos, evidenciados ainda mais pela actual situa\u00e7\u00e3o de crise. Esta coloca-nos improrrogavelmente diante de op\u00e7\u00f5es que dizem respeito sempre mais ao pr\u00f3prio destino do homem, o qual ali\u00e1s n\u00e3o pode prescindir da sua natureza. As for\u00e7as t\u00e9cnicas em campo, as inter-rela\u00e7\u00f5es a n\u00edvel mundial, os efeitos delet\u00e9rios sobre a economia real duma actividade financeira mal utilizada e maioritariamente especulativa, os imponentes fluxos migrat\u00f3rios, com frequ\u00eancia provocados e depois n\u00e3o geridos adequadamente, a explora\u00e7\u00e3o desregrada dos recursos da terra, induzem-nos hoje a reflectir sobre as medidas necess\u00e1rias para dar solu\u00e7\u00e3o a problemas que s\u00e3o n\u00e3o apenas novos relativamente aos enfrentados pelo Papa Paulo VI, mas tamb\u00e9m e sobretudo com impacto decisivo no bem presente e futuro da humanidade. Os aspectos da crise e das suas solu\u00e7\u00f5es bem como de um poss\u00edvel novo desenvolvimento futuro est\u00e3o cada vez mais interdependentes, implicam-se reciprocamente, requerem novos esfor\u00e7os de enquadramento global e uma nova s\u00edntese humanista. A complexidade e gravidade da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica actual preocupa-nos, com toda a justi\u00e7a, mas devemos assumir com realismo, confian\u00e7a e esperan\u00e7a as novas responsabilidades a que nos chama o cen\u00e1rio de um mundo que tem necessidade duma renova\u00e7\u00e3o cultural profunda e da redescoberta de valores fundamentais para construir sobre eles um futuro melhor. A crise obriga-nos a projectar de novo o nosso caminho, a impor-nos regras novas e encontrar novas formas de empenhamento, a apostar em experi\u00eancias positivas e rejeitar as negativas. Assim, a crise torna-se ocasi\u00e3o de discernimento e elabora\u00e7\u00e3o de nova planifica\u00e7\u00e3o. Com esta chave, feita mais de confian\u00e7a que resigna\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m enfrentar as dificuldades da hora actual.<\/p>\n<p>22. Actualmente o quadro do desenvolvimento \u00e9 polic\u00eantrico. Os actores e as causas tanto do subdesenvolvimento como do desenvolvimento s\u00e3o m\u00faltiplas, as culpas e os m\u00e9ritos s\u00e3o diferenciados. Este dado deveria induzir a libertar-se das ideologias que simplificam, de forma frequentemente artificiosa, a realidade, e levar a examinar com objectividade a espessura humana dos problemas. Hoje a linha de demarca\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses ricos e pobres j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o n\u00edtida como nos tempos da Populorum progressio, como ali\u00e1s foi assinalado por Jo\u00e3o Paulo II[55]. Cresce a riqueza mundial em termos absolutos, mas aumentam as desigualdades. Nos pa\u00edses ricos, novas categorias sociais empobrecem e nascem novas pobrezas. Em \u00e1reas mais pobres, alguns grupos gozam duma esp\u00e9cie de superdesenvolvimento dissipador e consumista que contrasta, de modo inadmiss\u00edvel, com perdur\u00e1veis situa\u00e7\u00f5es de mis\u00e9ria desumanizadora. Continua&#8221;o esc\u00e2ndalo de despropor\u00e7\u00f5es revoltantes&#8221;[56]. Infelizmente a corrup\u00e7\u00e3o e a ilegalidade est\u00e3o presentes tanto no comportamento de sujeitos econ\u00f3micos e pol\u00edticos dos pa\u00edses ricos, antigos e novos, como nos pr\u00f3prios pa\u00edses pobres. No n\u00famero de quantos n\u00e3o respeitam os direitos humanos dos trabalhadores, contam-se \u00e0s vezes grandes empresas transnacionais e tamb\u00e9m grupos de produ\u00e7\u00e3o local. As ajudas internacionais foram muitas vezes desviadas das suas finalidades, por irresponsabilidades que se escondem tanto na cadeia dos sujeitos doadores como na dos benefici\u00e1rios. Tamb\u00e9m no \u00e2mbito das causas imateriais ou culturais do desenvolvimento e do subdesenvolvimento podemos encontrar a mesma articula\u00e7\u00e3o de responsabilidades: existem formas excessivas de protec\u00e7\u00e3o do conhecimento por parte dos pa\u00edses ricos, atrav\u00e9s duma utiliza\u00e7\u00e3o demasiado r\u00edgida do direito de propriedade intelectual, especialmente no campo sanit\u00e1rio; ao mesmo tempo, em alguns pa\u00edses pobres, persistem modelos culturais e normas sociais de comportamento que retardam o processo de desenvolvimento.<\/p>\n<p>23. Temos hoje muitas \u00e1reas do globo que \u2014 de forma por vezes problem\u00e1tica e n\u00e3o homog\u00e9nea \u2014 evolu\u00edram, entrando na categoria das grandes pot\u00eancias destinadas a jogar um papel importante no futuro. Contudo h\u00e1 que sublinhar que n\u00e3o \u00e9 suficiente progredir do ponto de vista econ\u00f3mico e tecnol\u00f3gico; \u00e9 preciso que o desenvolvimento seja, antes de mais nada, verdadeiro e integral. A sa\u00edda do atraso econ\u00f3mico \u2014 um dado em si mesmo positivo \u2014 n\u00e3o resolve a complexa problem\u00e1tica da promo\u00e7\u00e3o do homem nem nos pa\u00edses protagonistas de tais avan\u00e7os, nem nos pa\u00edses economicamente j\u00e1 desenvolvidos, nem nos pa\u00edses ainda pobres que, al\u00e9m das antigas formas de explora\u00e7\u00e3o, podem vir a sofrer tamb\u00e9m as consequ\u00eancias negativas derivadas de um crescimento marcado por desvios e desequil\u00edbrios.<br \/>\nDepois da queda dos sistemas econ\u00f3micos e pol\u00edticos dos pa\u00edses comunistas da Europa Oriental e do fim dos chamados&#8221;blocos contrapostos&#8221;, havia necessidade duma revis\u00e3o global do desenvolvimento. Pedira-o Jo\u00e3o Paulo II, que em 1987 tinha indicado a exist\u00eancia destes&#8221;blocos&#8221;como uma das principais causas do subdesenvolvimento[57], enquanto a pol\u00edtica subtra\u00eda recursos \u00e0 economia e \u00e0 cultura e a ideologia inibia a liberdade. Em 1991, na sequ\u00eancia dos acontecimentos do ano 1989, o Pont\u00edfice pediu que o fim dos&#8221;blocos&#8221;fosse seguido por uma nova planifica\u00e7\u00e3o global do desenvolvimento, n\u00e3o s\u00f3 em tais pa\u00edses, mas tamb\u00e9m no Ocidente e nas regi\u00f5es do mundo que estavam a evoluir[58]. Isto, por\u00e9m, realizou-se apenas parcialmente, continuando a ser uma obriga\u00e7\u00e3o real que precisa de ser satisfeita, talvez aproveitando-se precisamente das op\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para superar os problemas econ\u00f3micos actuais.<\/p>\n<p>24. O mundo, que Paulo VI tinha diante dos olhos, registava muito menor integra\u00e7\u00e3o do que hoje, embora o processo de sociabiliza\u00e7\u00e3o se apresentasse j\u00e1 t\u00e3o adiantado que ele p\u00f4de falar de uma quest\u00e3o social tornada mundial. Actividade econ\u00f3mica e fun\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desenrolavam-se em grande parte dentro do mesmo \u00e2mbito local e, por conseguinte, podiam inspirar rec\u00edproca confian\u00e7a. A actividade produtiva tinha lugar prevalentemente dentro das fronteiras nacionais e os investimentos financeiros tinham uma circula\u00e7\u00e3o bastante limitada para o estrangeiro, de tal modo que a pol\u00edtica de muitos Estados podia ainda fixar as prioridades da economia e, de alguma maneira, governar o seu andamento com os instrumentos de que ainda dispunha. Por este motivo, a Populorum progressio atribu\u00eda um papel central, embora n\u00e3o exclusivo, aos&#8221;poderes p\u00fablicos&#8221;[59].<br \/>\nActualmente, o Estado encontra-se na situa\u00e7\u00e3o de ter de enfrentar as limita\u00e7\u00f5es que lhe s\u00e3o impostas \u00e0 sua soberania pelo novo contexto econ\u00f3mico comercial e financeiro internacional, caracterizado nomeadamente por uma crescente mobilidade dos capitais financeiros e dos meios de produ\u00e7\u00e3o materiais e imateriais. Este novo contexto alterou o poder pol\u00edtico dos Estados.<br \/>\nHoje, aproveitando inclusivamente a li\u00e7\u00e3o resultante da crise econ\u00f3mica em curso que v\u00ea ospoderes p\u00fablicos do Estado directamente empenhados a corrigir erros e disfun\u00e7\u00f5es, parece mais realista uma renovada avalia\u00e7\u00e3o do seu papel e poder, que h\u00e3o-de ser sapientemente reconsiderados e reavaliados para se tornarem capazes, mesmo atrav\u00e9s de novas modalidades de exerc\u00edcio, de fazer frente aos desafios do mundo actual. Com uma fun\u00e7\u00e3o melhor calibrada dos poderes p\u00fablicos, \u00e9 previs\u00edvel que sejam refor\u00e7adas as novas formas de participa\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica nacional e internacional que se realizam atrav\u00e9s da ac\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es operantes na sociedade civil; nesta linha, \u00e9 desej\u00e1vel que cres\u00e7am uma aten\u00e7\u00e3o e uma participa\u00e7\u00e3o mais sentidas na res publica por parte dos cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>25. Do ponto de vista social, os sistemas de seguran\u00e7a e previd\u00eancia \u2014 j\u00e1 presentes em muitos pa\u00edses nos tempos de Paulo VI \u2014 sentem dificuldade, e poder\u00e3o senti-la ainda mais no futuro, em alcan\u00e7ar os seus objectivos de verdadeira justi\u00e7a social dentro de um quadro de for\u00e7as profundamente alterado. O mercado, \u00e0 medida que se foi tornando global, estimulou antes de mais nada, por parte de pa\u00edses ricos, a busca de \u00e1reas para onde deslocar as actividades produtivas a baixo custo a fim de reduzir os pre\u00e7os de muitos bens, aumentar o poder de compra e deste modo acelerar o \u00edndice de desenvolvimento centrado sobre um maior consumo pelo pr\u00f3prio mercado interno. Consequentemente, o mercado motivou novas formas de competi\u00e7\u00e3o entre Estados procurando atrair centros produtivos de empresas estrangeiras atrav\u00e9s de variados instrumentos tais como impostos favor\u00e1veis e a desregulamenta\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho. Estes processos implicaram a redu\u00e7\u00e3o das redes de seguran\u00e7a social em troca de maiores vantagens competitivas no mercado global, acarretando grave perigo para os direitos dos trabalhadores, os direitos fundamentais do homem e a solidariedade actuada nas formas tradicionais do Estado social. Os sistemas de seguran\u00e7a social podem perder a capacidade de desempenhar a sua fun\u00e7\u00e3o, quer nos pa\u00edses emergentes, quer nos desenvolvidos h\u00e1 mais tempo, quer naturalmente nos pa\u00edses pobres. Aqui, as pol\u00edticas relativas ao or\u00e7amento com os seus cortes na despesa social, muitas vezes fomentados pelas pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es financeiras internacionais, podem deixar os cidad\u00e3os impotentes diante de riscos antigos e novos; e tal impot\u00eancia torna-se ainda maior devido \u00e0 falta de protec\u00e7\u00e3o eficaz por parte das associa\u00e7\u00f5es dos trabalhadores. O conjunto das mudan\u00e7as sociais e econ\u00f3micas faz com que asorganiza\u00e7\u00f5es sindicais sintam maiores dificuldades no desempenho do seu dever de representar os interesses dos trabalhadores, inclusive pelo facto de os governos, por raz\u00f5es de utilidade econ\u00f3mica, muitas vezes limitarem as liberdades sindicais ou a capacidade negociadora dos pr\u00f3prios sindicatos. Assim, as redes tradicionais de solidariedade encontram obst\u00e1culos cada vez maiores a superar. Por isso, o convite feito pela doutrina social da Igreja, a come\u00e7ar da Rerum novarum[60], para se criarem associa\u00e7\u00f5es de trabalhadores em defesa dos seus direitos h\u00e1-de ser honrado, hoje ainda mais do que ontem, dando antes de mais nada uma resposta pronta e clarividente \u00e0 urg\u00eancia de instaurar novas sinergias a n\u00edvel internacional, sem descurar o n\u00edvel local.<br \/>\nA mobilidade laboral, associada \u00e0 generalizada desregulamenta\u00e7\u00e3o, constituiu um fen\u00f3meno importante, n\u00e3o desprovido de aspectos positivos porque capaz de estimular a produ\u00e7\u00e3o de nova riqueza e o interc\u00e2mbio entre culturas diversas. Todavia, quando se torna end\u00e9mica a incerteza sobre as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, resultante dos processos de mobilidade e desregulamenta\u00e7\u00e3o, geram-se formas de instabilidade psicol\u00f3gica, com dificuldade a construir percursos coerentes na pr\u00f3pria vida, incluindo o percurso rumo ao matrim\u00f3nio. Consequ\u00eancia disto \u00e9 o aparecimento de situa\u00e7\u00f5es de degrada\u00e7\u00e3o humana, al\u00e9m de desperd\u00edcio de for\u00e7a social. Comparado com o que sucedia na sociedade industrial do passado, hoje o desemprego provoca aspectos novos de irrelev\u00e2ncia econ\u00f3mica do indiv\u00edduo, e a crise actual pode apenas piorar tal situa\u00e7\u00e3o. A exclus\u00e3o do trabalho por muito tempo ou ent\u00e3o uma prolongada depend\u00eancia da assist\u00eancia p\u00fablica ou privada corroem a liberdade e a criatividade da pessoa e as suas rela\u00e7\u00f5es familiares e sociais, causando enormes sofrimentos a n\u00edvel psicol\u00f3gico e espiritual. Queria recordar a todos, sobretudo aos governantes que est\u00e3o empenhados a dar um perfil renovado aos sistemas econ\u00f3micos e sociais do mundo, que o primeiro capital a preservar e valorizar \u00e9 o homem, a pessoa, na sua integridade:&#8221;com efeito, o homem \u00e9 o protagonista, o centro e o fim de toda a vida econ\u00f3mico-social&#8221;[61].<\/p>\n<p>26. No plano cultural, as diferen\u00e7as, relativamente aos tempos de Paulo VI, s\u00e3o ainda mais acentuadas. Ent\u00e3o, as culturas apresentavam-se bastante bem definidas e tinham maiores possibilidades para se defender das tentativas de homogeneiza\u00e7\u00e3o cultural. Hoje, cresceram notavelmente as possibilidades de interac\u00e7\u00e3o das culturas, dando espa\u00e7o a novas perspectivas de di\u00e1logo intercultural; um di\u00e1logo que, para ser eficaz, deve ter como ponto de partida uma profunda no\u00e7\u00e3o da espec\u00edfica identidade dos v\u00e1rios interlocutores. No entanto, n\u00e3o se deve descurar o facto de que esta aumentada transac\u00e7\u00e3o de interc\u00e2mbios culturais traz consigo, actualmente, um duplo perigo. Em primeiro lugar, nota-se um ecletismo cultural assumido muitas vezes sem discernimento: as culturas s\u00e3o simplesmente postas lado a lado e vistas como substancialmente equivalentes e intercambi\u00e1veis umas com as outras. Isto favorece a ced\u00eancia a um relativismo que n\u00e3o ajuda ao verdadeiro di\u00e1logo intercultural; no plano social, o relativismo cultural faz com que os grupos culturais se juntem ou convivam, mas separados, sem aut\u00eantico di\u00e1logo e, consequentemente, sem verdadeira integra\u00e7\u00e3o. Depois, temos o perigo oposto que \u00e9 constitu\u00eddo pelo nivelamento cultural e a homogeneiza\u00e7\u00e3o dos comportamentos e estilos de vida. Assim perde-se o significado profundo da cultura das diversas na\u00e7\u00f5es, das tradi\u00e7\u00f5es dos v\u00e1rios povos, no \u00e2mbito das quais a pessoa se confronta com as quest\u00f5es fundamentais da exist\u00eancia[62]. Ecletismo e nivelamento cultural convergem no facto de separar a cultura da natureza humana. Assim, as culturas deixam de saber encontrar a sua medida numa natureza que as transcende[63], acabando por reduzir o homem a simples dado cultural. Quando isto acontece, a humanidade corre novos perigos de servid\u00e3o e manipula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>27. Em muitos pa\u00edses pobres, continua \u2014 com risco de aumentar \u2014 uma inseguran\u00e7a extrema de vida, que deriva da car\u00eancia de alimenta\u00e7\u00e3o: a fome ceifa ainda in\u00fameras v\u00edtimas entre os muitos L\u00e1zaros, a quem n\u00e3o \u00e9 permitido \u2014 como esperara Paulo VI \u2014 sentar-se \u00e0 mesa do rico avarento[64]. Dar de comer aos famintos (cf. Mt 25, 35.37.42) \u00e9 um imperativo \u00e9tico para toda a Igreja, que \u00e9 resposta aos ensinamentos de solidariedade e partilha do seu Fundador, o Senhor Jesus. Al\u00e9m disso, eliminar a fome no mundo tornou-se, na era da globaliza\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m um objectivo a alcan\u00e7ar para preservar a paz e a subsist\u00eancia da terra. A fome n\u00e3o depende tanto de uma escassez material, como sobretudo da escassez de recursos sociais, o mais importante dos quais \u00e9 de natureza institucional; isto \u00e9, falta um sistema de institui\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas que seja capaz de garantir um acesso regular e adequado, do ponto de vista nutricional, \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 \u00e1gua e tamb\u00e9m de enfrentar as car\u00eancias relacionadas com as necessidades prim\u00e1rias e com a emerg\u00eancia de reais e verdadeiras crises alimentares provocadas por causas naturais ou pela irresponsabilidade pol\u00edtica nacional e internacional. O problema da inseguran\u00e7a alimentar h\u00e1-de ser enfrentado numa perspectiva a longo prazo, eliminando as causas estruturais que o provocam e promovendo o desenvolvimento agr\u00edcola dos pa\u00edses mais pobres por meio de investimentos em infra-estruturas rurais, sistemas de irriga\u00e7\u00e3o, transportes, organiza\u00e7\u00e3o dos mercados, forma\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de t\u00e9cnicas agr\u00edcolas apropriadas, isto \u00e9, capazes de utilizar o melhor poss\u00edvel os recursos humanos, naturais e s\u00f3cio-econ\u00f3micos mais acess\u00edveis a n\u00edvel local, para garantir a sua manuten\u00e7\u00e3o a longo prazo. Tudo isto h\u00e1-de ser realizado, envolvendo as comunidades locais nas op\u00e7\u00f5es e nas decis\u00f5es relativas ao uso da terra cultiv\u00e1vel. Nesta perspectiva, poderia revelar-se \u00fatil considerar as novas fronteiras abertas por um correcto emprego das t\u00e9cnicas de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola, tanto as tradicionais como as inovadoras, desde que as mesmas tenham sido, depois de adequada verifica\u00e7\u00e3o, reconhecidas oportunas, respeitadoras do ambiente e tendo em conta as popula\u00e7\u00f5es mais desfavorecidas. Ao mesmo tempo n\u00e3o deveria ser transcurada a quest\u00e3o de uma equitativa reforma agr\u00e1ria nos pa\u00edses em vias de desenvolvimento. Os direitos \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e \u00e0 \u00e1gua revestem um papel importante para a consecu\u00e7\u00e3o de outros direitos, a come\u00e7ar pelo direito prim\u00e1rio \u00e0 vida. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio a matura\u00e7\u00e3o duma consci\u00eancia solid\u00e1ria que considere a alimenta\u00e7\u00e3o e o acesso \u00e0 \u00e1gua como direitos universais de todos os seres humanos, sem distin\u00e7\u00f5es nem discrimina\u00e7\u00f5es[65]. Al\u00e9m disso, \u00e9 importante p\u00f4r em evid\u00eancia que o caminho da solidariedade com o desenvolvimento dos pa\u00edses pobres pode constituir um projecto de solu\u00e7\u00e3o para a presente crise global, como homens pol\u00edticos e respons\u00e1veis de institui\u00e7\u00f5es internacionais t\u00eam intu\u00eddo nos \u00faltimos tempos. Sustentando, atrav\u00e9s de planos de financiamento inspirados pela solidariedade, os pa\u00edses economicamente pobres, para que provejam eles mesmos \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das solicita\u00e7\u00f5es de bens de consumo e de desenvolvimento dos pr\u00f3prios cidad\u00e3os, \u00e9 poss\u00edvel n\u00e3o apenas gerar verdadeiro crescimento econ\u00f3mico mas tamb\u00e9m concorrer para sustentar as capacidades produtivas dos pa\u00edses ricos que correm o risco de ficar comprometidas pela crise.<\/p>\n<p>28. Um dos aspectos mais evidentes do desenvolvimento actual \u00e9 a import\u00e2ncia do tema dorespeito pela vida, que n\u00e3o pode ser de modo algum separado das quest\u00f5es relativas ao desenvolvimento dos povos. Trata-se de um aspecto que, nos \u00faltimos tempos, est\u00e1 a assumir uma relev\u00e2ncia sempre maior, obrigando-nos a alargar os conceitos de pobreza [66] e subdesenvolvimento \u00e0s quest\u00f5es relacionadas com o acolhimento da vida, sobretudo onde o mesmo \u00e9 de v\u00e1rias maneiras impedido.<br \/>\nN\u00e3o s\u00f3 a situa\u00e7\u00e3o de pobreza provoca ainda altas taxas de mortalidade infantil em muitas regi\u00f5es, mas perduram tamb\u00e9m, em v\u00e1rias partes do mundo, pr\u00e1ticas de controle demogr\u00e1fico por parte dos governos, que muitas vezes difundem a contracep\u00e7\u00e3o e chegam mesmo a impor o aborto. Nos pa\u00edses economicamente mais desenvolvidos, s\u00e3o muito difusas as legisla\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 vida, condicionando j\u00e1 o costume e a pr\u00e1xis e contribuindo para divulgar uma mentalidade antinatalista que muitas vezes se procura transmitir a outros Estados como se fosse um progresso cultural.<br \/>\nTamb\u00e9m algumas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais trabalham activamente pela difus\u00e3o do aborto, promovendo nos pa\u00edses pobres a adop\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica da esteriliza\u00e7\u00e3o, mesmo sem as mulheres o saberem. Al\u00e9m disso, h\u00e1 a fundada suspeita de que \u00e0s vezes as pr\u00f3prias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadas pol\u00edticas sanit\u00e1rias que realmente implicam a imposi\u00e7\u00e3o de um forte controle dos nascimentos. Igualmente preocupantes s\u00e3o as legisla\u00e7\u00f5es que prev\u00eaem a eutan\u00e1sia e as press\u00f5es de grupos nacionais e internacionais que reivindicam o seu reconhecimento jur\u00eddico.<br \/>\nA abertura \u00e0 vida est\u00e1 no centro do verdadeiro desenvolvimento. Quando uma sociedade come\u00e7a a negar e a suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar as motiva\u00e7\u00f5es e energias necess\u00e1rias para trabalhar ao servi\u00e7o do verdadeiro bem do homem. Se se perde a sensibilidade pessoal e social ao acolhimento duma nova vida, definham tamb\u00e9m outras formas de acolhimento \u00fateis \u00e0 vida social[67]. O acolhimento da vida revigora as energias morais e torna-nos capazes de ajuda rec\u00edproca. Os povos ricos, cultivando a abertura \u00e0 vida, podem compreender melhor as necessidades dos pa\u00edses pobres, evitar o emprego de enormes recursos econ\u00f3micos e intelectuais para satisfazer desejos ego\u00edstas dos pr\u00f3prios cidad\u00e3os e promover, ao inv\u00e9s, ac\u00e7\u00f5es virtuosas na perspectiva duma produ\u00e7\u00e3o moralmente sadia e solid\u00e1ria, no respeito do direito fundamental de cada povo e de cada pessoa \u00e0 vida.<\/p>\n<p>29. Outro aspecto da vida actual, intimamente relacionado com o desenvolvimento, \u00e9 a nega\u00e7\u00e3o do direito \u00e0 liberdade religiosa. N\u00e3o me refiro s\u00f3 \u00e0s lutas e conflitos que ainda se disputam no mundo por motiva\u00e7\u00f5es religiosas, embora estas \u00e0s vezes sejam apenas a cobertura para raz\u00f5es de outro g\u00e9nero, tais como a sede de dom\u00ednio e de riqueza. Na realidade, com frequ\u00eancia hoje se faz apelo ao santo nome de Deus para matar, como diversas vezes foi sublinhado e deplorado publicamente pelo meu predecessor Jo\u00e3o Paulo II e por mim pr\u00f3prio[68]. As viol\u00eancias refreiam o desenvolvimento aut\u00eantico e impedem a evolu\u00e7\u00e3o dos povos para um bem-estar s\u00f3cio-econ\u00f3mico e espiritual maior. Isto aplica-se de modo especial ao terrorismo de \u00edndole fundamentalista[69], que gera sofrimento, devasta\u00e7\u00e3o e morte, bloqueia o di\u00e1logo entre as na\u00e7\u00f5es e desvia grandes recursos do seu uso pac\u00edfico e civil. Mas h\u00e1 que acrescentar que, se o fanatismo religioso impede em alguns contextos o exerc\u00edcio do direito de liberdade de religi\u00e3o, tamb\u00e9m a promo\u00e7\u00e3o programada da indiferen\u00e7a religiosa ou do ate\u00edsmo pr\u00e1tico por parte de muitos pa\u00edses contrasta com as necessidades do desenvolvimento dos povos, subtraindo-lhes recursos espirituais e humanos. Deus \u00e9 o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, j\u00e1 que, tendo-o criado \u00e0 sua imagem, fundamenta de igual forma a sua dignidade transcendente e alimenta o seu anseio constitutivo de&#8221;ser mais&#8221;. O homem n\u00e3o \u00e9 um \u00e1tomo perdido num universo casual[70], mas \u00e9 uma criatura de Deus, \u00e0 qual quis dar uma alma imortal e que desde sempre amou. Se o homem fosse fruto apenas do acaso ou da necessidade, se as suas aspira\u00e7\u00f5es tivessem de reduzir-se ao horizonte restrito das situa\u00e7\u00f5es em que vive, se tudo fosse somente hist\u00f3ria e cultura e o homem n\u00e3o tivesse uma natureza destinada a transcender-se numa vida sobrenatural, ent\u00e3o poder-se-ia falar de incremento ou de evolu\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o de desenvolvimento. Quando o Estado promove, ensina ou at\u00e9 imp\u00f5e formas de ate\u00edsmo pr\u00e1tico, tira aos seus cidad\u00e3os a for\u00e7a moral e espiritual indispens\u00e1vel para se empenhar no desenvolvimento humano integral e impede-os de avan\u00e7arem com renovado dinamismo no pr\u00f3prio compromisso de uma resposta humana mais generosa ao amor divino[71]. Sucede tamb\u00e9m que os pa\u00edses economicamente desenvolvidos ou os emergentes exportem para os pa\u00edses pobres, no \u00e2mbito das suas rela\u00e7\u00f5es culturais, comerciais e pol\u00edticas, esta vis\u00e3o redutiva da pessoa e do seu destino. \u00c9 o dano que o&#8221;superdesenvolvimento&#8221;[72]acarreta ao desenvolvimento aut\u00eantico, quando \u00e9 acompanhado pelo&#8221;subdesenvolvimento moral&#8221;[73].<\/p>\n<p>30. Nesta linha, o tema do desenvolvimento humano integral atinge um ponto ainda mais complexo: a correla\u00e7\u00e3o entre os seus v\u00e1rios elementos requer que nos empenhemos por fazer interagir os diversos n\u00edveis do saber humano tendo em vista a promo\u00e7\u00e3o de um verdadeiro desenvolvimento dos povos. Muitas vezes pensa-se que o desenvolvimento ou as relativas medidas s\u00f3cio-econ\u00f3micas necessitam apenas de ser postos em pr\u00e1tica como fruto de um agir comum, ignorando que este agir comum precisa de ser orientado, porque&#8221;toda a ac\u00e7\u00e3o social implica uma doutrina&#8221;[74]. Vista a complexidade dos problemas, \u00e9 \u00f3bvio que as v\u00e1rias disciplinas devem colaborar atrav\u00e9s de uma ordenada interdisciplinaridade. A caridade n\u00e3o exclui o saber, antes reclama-o, promove-o e anima-o a partir de dentro. O saber nunca \u00e9 obra apenas da intelig\u00eancia; pode, sem d\u00favida, ser reduzido a c\u00e1lculo e a experi\u00eancia, mas se quer ser sapi\u00eancia capaz de orientar o homem \u00e0 luz dos princ\u00edpios primeiros e dos seus fins \u00faltimos, deve ser&#8221;temperado&#8221;com o&#8221;sal&#8221;da caridade. A ac\u00e7\u00e3o \u00e9 cega sem o saber, e este \u00e9 est\u00e9ril sem o amor. De facto,&#8221;aquele que est\u00e1 animado de verdadeira caridade \u00e9 engenhoso em descobrir as causas da mis\u00e9ria, encontrar os meios de a combater e venc\u00ea-la resolutamente&#8221;[75]. Relativamente aos fen\u00f3menos que analisamos, a caridade na verdade requer, antes de mais nada, conhecer e compreender no respeito consciencioso da compet\u00eancia espec\u00edfica de cada n\u00edvel do saber. A caridade n\u00e3o \u00e9 uma jun\u00e7\u00e3o posterior, como se fosse um ap\u00eandice ao trabalho j\u00e1 conclu\u00eddo das v\u00e1rias disciplinas, mas dialoga com elas desde o in\u00edcio. As exig\u00eancias do amor n\u00e3o contradizem as da raz\u00e3o. O saber humano \u00e9 insuficiente e as conclus\u00f5es das ci\u00eancias n\u00e3o poder\u00e3o sozinhas indicar o caminho para o desenvolvimento integral do homem. Sempre \u00e9 preciso lan\u00e7ar-se mais al\u00e9m: exige-o a caridade na verdade[76]. Todavia ir mais al\u00e9m nunca significa prescindir das conclus\u00f5es da raz\u00e3o, nem contradizer os seus resultados. N\u00e3o aparece a intelig\u00eancia e depois o amor: h\u00e1 o amor rico de intelig\u00eancia e a intelig\u00eancia cheia de amor.<\/p>\n<p>31. Isto significa que as pondera\u00e7\u00f5es morais e a pesquisa cient\u00edfica devem crescer juntas e que a caridade as deve animar num todo interdisciplinar harm\u00f3nico, feito de unidade e distin\u00e7\u00e3o. A doutrina social da Igreja, que tem&#8221;uma importante dimens\u00e3o interdisciplinar&#8221;[77], pode desempenhar, nesta perspectiva, uma fun\u00e7\u00e3o de extraordin\u00e1ria efic\u00e1cia. Ela permite \u00e0 f\u00e9, \u00e0 teologia, \u00e0 metaf\u00edsica e \u00e0s ci\u00eancias encontrarem o pr\u00f3prio lugar no \u00e2mbito de uma colabora\u00e7\u00e3o ao servi\u00e7o do homem; \u00e9 sobretudo aqui que a doutrina social da Igreja actua a sua dimens\u00e3o sapiencial. Paulo VI tinha visto claramente que, entre as causas do subdesenvolvimento, conta-se uma car\u00eancia de sabedoria, de reflex\u00e3o, de pensamento capaz de realizar uma s\u00edntese orientadora[78], que requer&#8221;uma vis\u00e3o clara de todos os aspectos econ\u00f3micos, sociais, culturais e espirituais&#8221;[79]. A excessiva fragmenta\u00e7\u00e3o do saber[80], o isolamento das ci\u00eancias humanas relativamente \u00e0 metaf\u00edsica[81], as dificuldades no di\u00e1logo entre as ci\u00eancias e a teologia danificam n\u00e3o s\u00f3 o avan\u00e7o do saber mas tamb\u00e9m o desenvolvimento dos povos, porque, quando isso se verifica, fica obstaculizada a vis\u00e3o do bem completo do homem nas v\u00e1rias dimens\u00f5es que o caracterizam. \u00c9 indispens\u00e1vel o&#8221;alargamento do nosso conceito de raz\u00e3o e do uso da mesma&#8221;[82] para se conseguir sopesar adequadamente todos os termos da quest\u00e3o do desenvolvimento e da solu\u00e7\u00e3o dos problemas s\u00f3cio-econ\u00f3micos.<\/p>\n<p>32. As grandes novidades, que o quadro actual do desenvolvimento dos povos apresenta, exigem em muitos casos novas solu\u00e7\u00f5es. Estas h\u00e3o-de ser procuradas conjuntamente no respeito das leis pr\u00f3prias de cada realidade e \u00e0 luz duma vis\u00e3o integral do homem, que espelhe os v\u00e1rios aspectos da pessoa humana, contemplada com o olhar purificado pela caridade. Descobrir-se-\u00e3o ent\u00e3o singulares converg\u00eancias e concretas possibilidades de solu\u00e7\u00e3o, sem renunciar a qualquer componente fundamental da vida humana.<br \/>\nA dignidade da pessoa e as exig\u00eancias da justi\u00e7a requerem, sobretudo hoje, que as op\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas n\u00e3o fa\u00e7am aumentar, de forma excessiva e moralmente inaceit\u00e1vel, as diferen\u00e7as de riqueza [83] e que se continue a perseguir como priorit\u00e1rio o objectivo do acesso ao trabalho para todos, ou da sua manuten\u00e7\u00e3o. Bem vistas as coisas, isto \u00e9 exigido tamb\u00e9m pela&#8221;raz\u00e3o econ\u00f3mica&#8221;. O aumento sistem\u00e1tico das desigualdades entre grupos sociais no interior de um mesmo pa\u00eds e entre as popula\u00e7\u00f5es dos diversos pa\u00edses, ou seja, o aumento maci\u00e7o da pobreza em sentido relativo, tende n\u00e3o s\u00f3 a minar a coes\u00e3o social \u2014 e, por este caminho, p\u00f5e em risco a democracia \u2014, mas tem tamb\u00e9m um impacto negativo no plano econ\u00f3mico com a progressiva corros\u00e3o do&#8221;capital social&#8221;, isto \u00e9, daquele conjunto de rela\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a, de credibilidade, de respeito das regras, indispens\u00e1veis em qualquer conviv\u00eancia civil.<br \/>\nE \u00e9 ainda a ci\u00eancia econ\u00f3mica a dizer-nos que uma situa\u00e7\u00e3o estrutural de inseguran\u00e7a gera comportamentos antiprodutivos e de desperd\u00edcio de recursos humanos, j\u00e1 que o trabalhador tende a adaptar-se passivamente aos mecanismos autom\u00e1ticos, em vez de dar largas \u00e0 criatividade. Tamb\u00e9m neste ponto se verifica uma converg\u00eancia entre ci\u00eancia econ\u00f3mica e pondera\u00e7\u00e3o moral. Os custos humanos s\u00e3o sempre tamb\u00e9m custos econ\u00f3micos, e as disfun\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas acarretam sempre tamb\u00e9m custos humanos.<br \/>\nH\u00e1 ainda que recordar que o nivelamento das culturas \u00e0 dimens\u00e3o tecnol\u00f3gica, se a curto prazo pode favorecer a obten\u00e7\u00e3o de lucros, a longo prazo dificulta o enriquecimento rec\u00edproco e as din\u00e2micas de coopera\u00e7\u00e3o. \u00c9 importante distinguir entre considera\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas ou sociol\u00f3gicas a curto prazo e a longo prazo. A diminui\u00e7\u00e3o do n\u00edvel de tutela dos direitos dos trabalhadores ou a ren\u00fancia a mecanismos de redistribui\u00e7\u00e3o do rendimento, para fazer o pa\u00eds ganhar maior competitividade internacional, impede a afirma\u00e7\u00e3o de um desenvolvimento de longa dura\u00e7\u00e3o. Por isso, h\u00e1 que avaliar atentamente as consequ\u00eancias que podem ter sobre as pessoas as tend\u00eancia actuais para uma economia a curto sen\u00e3o mesmo curt\u00edssimo prazo. Isto requer uma nova e profunda reflex\u00e3o sobre o sentido da economia e dos seus fins[84], bem como uma revis\u00e3o profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento, para se corrigirem as suas disfun\u00e7\u00f5es e desvios. Na realidade, exige-o o estado de sa\u00fade ecol\u00f3gica da terra; pede-o sobretudo a crise cultural e moral do homem, cujos sintomas s\u00e3o evidentes por toda a parte.<\/p>\n<p>33. Passados mais de quarenta anos da publica\u00e7\u00e3o da Populorum progressio, o seu tema de fundo \u2014 precisamente o progresso \u2014 permanece ainda um problema em aberto, que se tornou mais agudo e premente com a crise econ\u00f3mico-financeira em curso. Se algumas \u00e1reas do globo, outrora oprimidas pela pobreza, registaram mudan\u00e7as not\u00e1veis em termos de crescimento econ\u00f3mico e de participa\u00e7\u00e3o na produ\u00e7\u00e3o mundial, h\u00e1 outras zonas que vivem ainda numa situa\u00e7\u00e3o de mis\u00e9ria compar\u00e1vel \u00e0 existente nos tempos de Paulo VI; antes, em qualquer caso pode-se mesmo falar de agravamento. \u00c9 significativo que algumas causas desta situa\u00e7\u00e3o tivessem sido j\u00e1 identificadas na Populorum progressio, como, por exemplo, as altas tarifas aduaneiras impostas pelos pa\u00edses economicamente desenvolvidos que ainda impedem aos produtos origin\u00e1rios dos pa\u00edses pobres de chegar aos mercados dos pa\u00edses ricos. Entretanto, outras causas que a enc\u00edclica tinha apenas pressentido, apareceram depois com maior evid\u00eancia; \u00e9 o caso da avalia\u00e7\u00e3o do processo de descoloniza\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o em pleno curso. Paulo VI almejava um percurso de autonomia que havia de realizar-se na liberdade e na paz; quarenta anos depois, temos de reconhecer como foi dif\u00edcil tal percurso, tanto por causa de novas formas de colonialismo e depend\u00eancia de antigos e novos pa\u00edses hegem\u00f3nicos, como por graves irresponsabilidades internas aos pr\u00f3prios pa\u00edses que se tornaram independentes.<br \/>\nA novidade principal foi a explos\u00e3o da interdepend\u00eancia mundial, j\u00e1 conhecida comummente por globaliza\u00e7\u00e3o. Paulo VI tinha-a em parte previsto, mas os termos e a impetuosidade com que aquela evoluiu s\u00e3o surpreendentes. Nascido no \u00e2mbito dos pa\u00edses economicamente desenvolvidos, este processo por sua pr\u00f3pria natureza causou um envolvimento de todas as economias. Foi o motor principal para a sa\u00edda do subdesenvolvimento de regi\u00f5es inteiras e, por si mesmo, constitui uma grande oportunidade. Contudo, sem a guia da caridade na verdade, este \u00edmpeto mundial pode concorrer para criar riscos de danos at\u00e9 agora desconhecidos e de novas divis\u00f5es na fam\u00edlia humana. Por isso, a caridade e a verdade colocam diante de n\u00f3s um compromisso in\u00e9dito e criativo, sem d\u00favida muito vasto e complexo. Trata-se de dilatar a raz\u00e3o e torn\u00e1-la capaz de conhecer e orientar estas novas e imponentes din\u00e2micas, animando-as na perspectiva daquela&#8221;civiliza\u00e7\u00e3o do amor&#8221;, cuja semente Deus colocou em todo o povo e cultura.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO III<br \/>\nFRATERNIDADE, DESENVOLVIMENTO ECON\u00d3MICO E SOCIEDADE CIVIL<\/p>\n<p>34. A caridade na verdade coloca o homem perante a admir\u00e1vel experi\u00eancia do dom. A gratuidade est\u00e1 presente na sua vida sob m\u00faltiplas formas, que frequentemente lhe passam despercebidas por causa duma vis\u00e3o meramente produtiva e utilarista da exist\u00eancia. O ser humano est\u00e1 feito para o dom, que exprime e realiza a sua dimens\u00e3o de transcend\u00eancia. Por vezes o homem moderno convence-se, erroneamente, de que \u00e9 o \u00fanico autor de si mesmo, da sua vida e da sociedade. Trata-se de uma presun\u00e7\u00e3o, resultante do encerramento ego\u00edsta em si mesmo, que prov\u00e9m \u2014 se queremos exprimi-lo em termos de f\u00e9 \u2014 do pecado das origens. Na sua sabedoria, a Igreja sempre prop\u00f4s que se tivesse em conta o pecado original mesmo na interpreta\u00e7\u00e3o dos fen\u00f3menos sociais e na constru\u00e7\u00e3o da sociedade.&#8221;Ignorar que o homem tem uma natureza ferida, inclinada para o mal, d\u00e1 lugar a graves erros no dom\u00ednio da educa\u00e7\u00e3o, da pol\u00edtica, da ac\u00e7\u00e3o social e dos costumes&#8221;[85]. No elenco dos campos onde se manifestam os efeitos perniciosos do pecado, h\u00e1 muito tempo que se acrescentou tamb\u00e9m o da economia. Temos uma prova evidente disto mesmo nos dias que correm. Primeiro, a convic\u00e7\u00e3o de ser auto-suficiente e de conseguir eliminar o mal presente na hist\u00f3ria apenas com a pr\u00f3pria ac\u00e7\u00e3o induziu o homem a identificar a felicidade e a salva\u00e7\u00e3o com formas imanentes de bem-estar material e de ac\u00e7\u00e3o social. Depois, a convic\u00e7\u00e3o da exig\u00eancia de autonomia para a economia, que n\u00e3o deve aceitar&#8221;influ\u00eancias&#8221;de car\u00e1cter moral, impeliu o homem a abusar dos instrumentos econ\u00f3micos at\u00e9 mesmo de forma destrutiva. Com o passar do tempo, estas convic\u00e7\u00f5es levaram a sistemas econ\u00f3micos, sociais e pol\u00edticos que espezinharam a liberdade da pessoa e dos corpos sociais e, por isso mesmo, n\u00e3o foram capazes de assegurar a justi\u00e7a que prometiam. Deste modo, como afirmei na enc\u00edclica Spe salvi[86], elimina-se da hist\u00f3ria aesperan\u00e7a crist\u00e3, a qual, ao inv\u00e9s, constitui um poderoso recurso social ao servi\u00e7o do desenvolvimento humano integral, procurado na liberdade e na justi\u00e7a. A esperan\u00e7a encoraja a raz\u00e3o e d\u00e1-lhe a for\u00e7a para orientar a vontade[87]. J\u00e1 est\u00e1 presente na f\u00e9, pela qual ali\u00e1s \u00e9 suscitada. Dela se nutre a caridade na verdade e, ao mesmo tempo, manifesta-a. Sendo dom de Deus absolutamente gratuito, irrompe na nossa vida como algo n\u00e3o devido, que transcende qualquer norma de justi\u00e7a. Por sua natureza, o dom ultrapassa o m\u00e9rito; a sua regra \u00e9 a exced\u00eancia. Aquele precede-nos, na nossa pr\u00f3pria alma, como sinal da presen\u00e7a de Deus em n\u00f3s e das suas expectativas a nosso respeito. A verdade, que \u00e9 dom tal como a caridade, \u00e9 maior do que n\u00f3s, conforme ensina Santo Agostinho[88]. Tamb\u00e9m a verdade acerca de n\u00f3s mesmos, da nossa consci\u00eancia pessoal \u00e9-nos primariamente&#8221;dada&#8221;; com efeito, em qualquer processo cognoscitivo, a verdade n\u00e3o \u00e9 produzida por n\u00f3s, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida. Tal como o amor, ela&#8221;n\u00e3o nasce da intelig\u00eancia e da vontade, mas de certa forma imp\u00f5e-se ao ser humano&#8221;[89].<br \/>\nEnquanto dom recebido por todos, a caridade na verdade \u00e9 uma for\u00e7a que constitui a comunidade, unifica os homens segundo modalidades que n\u00e3o conhecem barreiras nem confins. A comunidade dos homens pode ser constitu\u00edda por n\u00f3s mesmos; mas, com as nossas simples for\u00e7as, nunca poder\u00e1 ser uma comunidade plenamente fraterna nem alargada para al\u00e9m de qualquer fronteira, ou seja, n\u00e3o poder\u00e1 tornar-se uma comunidade verdadeiramente universal: a unidade do g\u00e9nero humano, uma comunh\u00e3o fraterna para al\u00e9m de qualquer divis\u00e3o, nasce da convoca\u00e7\u00e3o da palavra de Deus-Amor. Ao enfrentar esta quest\u00e3o decisiva, devemos especificar, por um lado, que a l\u00f3gica do dom n\u00e3o exclui a justi\u00e7a nem se justap\u00f5e a ela num segundo tempo e de fora; e, por outro, que o desenvolvimento econ\u00f3mico, social e pol\u00edtico precisa, se quiser ser autenticamente humano, de dar espa\u00e7o ao princ\u00edpio da gratuidade como express\u00e3o de fraternidade.<\/p>\n<p>35. O mercado, se houver confian\u00e7a rec\u00edproca e generalizada, \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que permite o encontro entre as pessoas, na sua dimens\u00e3o de operadores econ\u00f3micos que usam o contrato como regra das suas rela\u00e7\u00f5es e que trocam bens e servi\u00e7os entre si fung\u00edveis, para satisfazer as suas car\u00eancias e desejos. O mercado est\u00e1 sujeito aos princ\u00edpios da chamada justi\u00e7a comutativa, que regula precisamente as rela\u00e7\u00f5es do dar e receber entre sujeitos iguais. Mas a doutrina social nunca deixou de p\u00f4r em evid\u00eancia a import\u00e2ncia que tem a justi\u00e7a distributiva e a justi\u00e7a social para a pr\u00f3pria economia de mercado, n\u00e3o s\u00f3 porque integrada nas malhas de um contexto social e pol\u00edtico mais vasto, mas tamb\u00e9m pela teia das rela\u00e7\u00f5es em que se realiza. De facto, deixado unicamente ao princ\u00edpio da equival\u00eancia de valor dos bens trocados, o mercado n\u00e3o consegue gerar a coes\u00e3o social de que necessita para bem funcionar. Sem formas internas de solidariedade e de confian\u00e7a rec\u00edproca, o mercado n\u00e3o pode cumprir plenamente a pr\u00f3pria fun\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica. E, hoje, foi precisamente esta confian\u00e7a que veio a faltar; e a perda da confian\u00e7a \u00e9 uma perda grave.<br \/>\nNa Populorum progressio, Paulo VI sublinhava oportunamente o facto de que seria o pr\u00f3prio sistema econ\u00f3mico a tirar vantagem da pr\u00e1tica generalizada da justi\u00e7a, uma vez que os primeiros a beneficiar do desenvolvimento dos pa\u00edses pobres teriam sido os pa\u00edses ricos[90]. N\u00e3o se tratava apenas de corrigir disfun\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s da assist\u00eancia. Os pobres n\u00e3o devem ser considerados um&#8221;fardo&#8221;[91] mas um recurso, mesmo do ponto de vista estritamente econ\u00f3mico. H\u00e1 que considerar errada a vis\u00e3o de quantos pensam que a economia de mercado tenha estruturalmente necessidade duma certa quota de pobreza e subdesenvolvimento para poder funcionar do melhor modo. O mercado tem interesse em promover emancipa\u00e7\u00e3o, mas, para o fazer verdadeiramente, n\u00e3o pode contar apenas consigo mesmo, porque n\u00e3o \u00e9 capaz de produzir por si aquilo que est\u00e1 para al\u00e9m das suas possibilidades; tem de haurir energias morais de outros sujeitos, que sejam capazes de as gerar.<\/p>\n<p>36. A actividade econ\u00f3mica n\u00e3o pode resolver todos os problemas sociais atrav\u00e9s da simples extens\u00e3o da l\u00f3gica mercantil. Esta h\u00e1-de ter como finalidade a prossecu\u00e7\u00e3o do bem comum, do qual se deve ocupar tamb\u00e9m e sobretudo a comunidade pol\u00edtica. Por isso, tenha-se presente que \u00e9 causa de graves desequil\u00edbrios separar o agir econ\u00f3mico \u2014 ao qual competiria apenas produzir riqueza \u2014 do agir pol\u00edtico, cuja fun\u00e7\u00e3o seria buscar a justi\u00e7a atrav\u00e9s da redistribui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nDesde sempre a Igreja defende que n\u00e3o se h\u00e1-de considerar o agir econ\u00f3mico como anti-social. De per si o mercado n\u00e3o \u00e9, nem se deve tornar, o lugar da prepot\u00eancia do forte sobre o d\u00e9bil. A sociedade n\u00e3o tem que se proteger do mercado, como se o desenvolvimento deste implicasseipso facto a morte das rela\u00e7\u00f5es autenticamente humanas. \u00c9 verdade que o mercado pode ser orientado de modo negativo, n\u00e3o porque isso esteja na sua natureza, mas porque uma certa ideologia pode dirigi-lo em tal sentido. N\u00e3o se deve esquecer que o mercado, em estado puro, n\u00e3o existe; mas toma forma a partir das configura\u00e7\u00f5es culturais que o especificam e orientam. Com efeito, a economia e as finan\u00e7as, enquanto instrumentos, podem ser mal utilizadas se quem as gere tiver apenas referimentos ego\u00edstas. Deste modo \u00e9 poss\u00edvel conseguir transformar instrumentos de per si bons em instrumentos danosos; mas \u00e9 a raz\u00e3o obscurecida do homem que produz estas consequ\u00eancias, n\u00e3o o instrumento por si mesmo. Por isso, n\u00e3o \u00e9 o instrumento que deve ser chamado em causa, mas o homem, a sua consci\u00eancia moral e a sua responsabilidade pessoal e social.<br \/>\nA doutrina social da Igreja considera poss\u00edvel viver rela\u00e7\u00f5es autenticamente humanas de amizade e camaradagem, de solidariedade e reciprocidade, mesmo no \u00e2mbito da actividade econ\u00f3mica e n\u00e3o apenas fora dela ou&#8221;depois&#8221;dela. A \u00e1rea econ\u00f3mica n\u00e3o \u00e9 nem eticamente neutra nem de natureza desumana e anti-social. Pertence \u00e0 actividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada.<br \/>\nO grande desafio que temos diante de n\u00f3s \u2014 resultante das problem\u00e1ticas do desenvolvimento neste tempo de globaliza\u00e7\u00e3o, mas revestindo-se de maior exig\u00eancia com a crise econ\u00f3mico-financeira \u2014 \u00e9 mostrar, a n\u00edvel tanto de pensamento como de comportamentos, que n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o podem ser transcurados ou atenuados os princ\u00edpios tradicionais da \u00e9tica social, como a transpar\u00eancia, a honestidade e a responsabilidade, mas tamb\u00e9m que, nas rela\u00e7\u00f5es comerciais, oprinc\u00edpio de gratuidade e a l\u00f3gica do dom como express\u00e3o da fraternidade podem e devemencontrar lugar dentro da actividade econ\u00f3mica normal. Isto \u00e9 uma exig\u00eancia do homem no tempo actual, mas tamb\u00e9m da pr\u00f3pria raz\u00e3o econ\u00f3mica. Trata-se de uma exig\u00eancia simultaneamente da caridade e da verdade.<\/p>\n<p>37. A doutrina social da Igreja sempre defendeu que a justi\u00e7a diz respeito a todas as fases da actividade econ\u00f3mica, porque esta sempre tem a ver com o homem e com as suas exig\u00eancias. A angaria\u00e7\u00e3o dos recursos, os financiamentos, a produ\u00e7\u00e3o, o consumo e todas as outras fases do ciclo econ\u00f3mico t\u00eam inevitavelmente implica\u00e7\u00f5es morais. Deste modo cada decis\u00e3o econ\u00f3mica tem consequ\u00eancias de car\u00e1cter moral. Tudo isto encontra confirma\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m nas ci\u00eancias sociais e nas tend\u00eancias da economia actual. Outrora talvez se pudesse pensar, primeiro, em confiar \u00e0 economia a produ\u00e7\u00e3o de riqueza para, depois, atribuir \u00e0 pol\u00edtica a tarefa de a distribuir; hoje tudo isto se apresenta mais dif\u00edcil, porque, enquanto as actividades econ\u00f3micas deixaram de estar circunscritas no \u00e2mbito dos limites territoriais, a autoridade dos governos continua a ser sobretudo local. Por isso, os c\u00e2nones da justi\u00e7a devem ser respeitados desde o in\u00edcio enquanto se desenrola o processo econ\u00f3mico, e n\u00e3o depois ou marginalmente. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso que, no mercado, se abram espa\u00e7os para actividades econ\u00f3micas realizadas por sujeitos que livremente escolhem configurar o pr\u00f3prio agir segundo princ\u00edpios diversos do puro lucro, sem por isso renunciar a produzir valor econ\u00f3mico. As numerosas express\u00f5es de economia que tiveram origem em iniciativas religiosas e laicas demonstram que isto \u00e9 concretamente poss\u00edvel.<br \/>\nNa \u00e9poca da globaliza\u00e7\u00e3o, a economia denota a influ\u00eancia de modelos competitivos ligados a culturas muito diversas entre si. Os comportamentos econ\u00f3mico-empresariais da\u00ed resultantes possuem, na sua maioria, um ponto de encontro no respeito da justi\u00e7a comutativa. A vida econ\u00f3mica tem, sem d\u00favida, necessidade do contrato, para regular as rela\u00e7\u00f5es de transac\u00e7\u00e3o entre valores equivalentes; mas precisa igualmente de leis justas e de formas de redistribui\u00e7\u00e3oguiadas pela pol\u00edtica, para al\u00e9m de obras que tragam impresso o esp\u00edrito do dom. A economia globalizada parece privilegiar a primeira l\u00f3gica, ou seja, a da transac\u00e7\u00e3o contratual, mas directa ou indirectamente d\u00e1 provas de necessitar tamb\u00e9m das outras duas: a l\u00f3gica pol\u00edtica e a l\u00f3gica do dom sem contrapartidas.<\/p>\n<p>38. O meu antecessor Jo\u00e3o Paulo II sublinhara esta problem\u00e1tica, quando, na Centesimus annus, destacou a necessidade de um sistema com tr\u00eas sujeitos: o mercado, o Estado e asociedade civil[92]. Ele tinha identificado na sociedade civil o \u00e2mbito mais apropriado para uma economia da gratuidade e da fraternidade, mas sem pretender neg\u00e1-la nos outros dois \u00e2mbitos. Hoje, podemos dizer que a vida econ\u00f3mica deve ser entendida como uma realidade com v\u00e1rias dimens\u00f5es: em todas deve estar presente, embora em medida diversa e com modalidades espec\u00edficas, o aspecto da reciprocidade fraterna. Na \u00e9poca da globaliza\u00e7\u00e3o, a actividade econ\u00f3mica n\u00e3o pode prescindir da gratuidade, que difunde e alimenta a solidariedade e a responsabilidade pela justi\u00e7a e o bem comum em seus diversos sujeitos e actores. Trata-se, em \u00faltima an\u00e1lise, de uma forma concreta e profunda de democracia econ\u00f3mica. A solidariedade consiste primariamente em que todos se sintam respons\u00e1veis por todos[93] e, por conseguinte, n\u00e3o pode ser delegada s\u00f3 no Estado. Se, no passado, era poss\u00edvel pensar que havia necessidade primeiro de procurar a justi\u00e7a e que a gratuidade intervinha depois como um complemento, hoje \u00e9 preciso afirmar que, sem a gratuidade, n\u00e3o se consegue sequer realizar a justi\u00e7a. Assim, temos necessidade de um mercado, no qual possam operar, livremente e em condi\u00e7\u00f5es de igual oportunidade, empresas que persigam fins institucionais diversos. Ao lado da empresa privada orientada para o lucro e dos v\u00e1rios tipos de empresa p\u00fablica, devem poder-se radicar e exprimir as organiza\u00e7\u00f5es produtivas que perseguem fins mutualistas e sociais. Do seu rec\u00edproco confronto no mercado, pode-se esperar uma esp\u00e9cie de hibridiza\u00e7\u00e3o dos comportamentos de empresa e, consequentemente, uma aten\u00e7\u00e3o sens\u00edvel \u00e0civiliza\u00e7\u00e3o da economia. Neste caso, caridade na verdade significa que \u00e9 preciso dar forma e organiza\u00e7\u00e3o \u00e0quelas iniciativas econ\u00f3micas que, embora sem negar o lucro, pretendam ir mais al\u00e9m da l\u00f3gica da troca de equivalentes e do lucro como fim em si mesmo.<\/p>\n<p>39. Na Populorum progressio, Paulo VI pedia que se configurasse um modelo de economia de mercado capaz de incluir, pelo menos intencionalmente, todos os povos e n\u00e3o apenas aqueles adequadamente habilitados. Solicitava que nos empenh\u00e1ssemos na promo\u00e7\u00e3o de um mundo mais humano para todos, um mundo no qual&#8221;todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obst\u00e1culo ao desenvolvimento dos outros&#8221;[94]. Estendia assim ao plano universal as mesmas inst\u00e2ncias e aspira\u00e7\u00f5es contidas na Rerum novarum, escrita quando pela primeira vez, em consequ\u00eancia da revolu\u00e7\u00e3o industrial, se afirmou a ideia \u2014 seguramente avan\u00e7ada para aquele tempo \u2014 de que a ordem civil, para subsistir, tinha necessidade tamb\u00e9m da interven\u00e7\u00e3o distributiva do Estado. Hoje esta vis\u00e3o, al\u00e9m de ser posta em crise pelos processos de abertura dos mercados e das sociedades, revela-se incompleta para satisfazer as exig\u00eancias duma economia plenamente humana. Aquilo que a doutrina social da Igreja, partindo da sua vis\u00e3o do homem e da sociedade, sempre defendeu, \u00e9 hoje requerido tamb\u00e9m pelas din\u00e2micas caracter\u00edsticas da globaliza\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuando a l\u00f3gica do mercado e a do Estado se p\u00f5em de acordo entre si para continuar no monop\u00f3lio dos respectivos \u00e2mbitos de influ\u00eancia, com o passar do tempo definha a solidariedade nas rela\u00e7\u00f5es entre os cidad\u00e3os, a participa\u00e7\u00e3o e a ades\u00e3o, o servi\u00e7o gratuito, que s\u00e3o realidades diversas do&#8221;dar para ter&#8221;, pr\u00f3prio da l\u00f3gica da transac\u00e7\u00e3o, e do&#8221;dar por dever&#8221;, pr\u00f3prio da l\u00f3gica dos comportamentos p\u00fablicos impostos por lei do Estado. A vit\u00f3ria sobre o subdesenvolvimento exige que se actue n\u00e3o s\u00f3 sobre a melhoria das transac\u00e7\u00f5es fundadas sobre o interc\u00e2mbio, nem apenas sobre as transfer\u00eancias das estruturas assistenciais de natureza p\u00fablica, mas sobretudo sobre a progressiva abertura, em contexto mundial, para formas de actividade econ\u00f3mica caracterizadas por quotas de gratuidade e de comunh\u00e3o. O bin\u00f3mio exclusivo mercado-Estado corr\u00f3i a sociabilidade, enquanto as formas econ\u00f3micas solid\u00e1rias, que encontram o seu melhor terreno na sociedade civil sem contudo se reduzir a ela, criam sociabilidade. O mercado da gratuidade n\u00e3o existe, tal como n\u00e3o se podem estabelecer por lei comportamentos gratuitos, e todavia tanto o mercado como a pol\u00edtica precisam de pessoas abertas ao dom rec\u00edproco.<\/p>\n<p>40. As actuais din\u00e2micas econ\u00f3micas internacionais, caracterizadas por graves desvios e disfun\u00e7\u00f5es, requerem profundas mudan\u00e7as inclusivamente no modo de conceber a empresa. Antigas modalidades da vida empresarial declinam, mas outras prometedoras se esbo\u00e7am no horizonte. Um dos riscos maiores \u00e9, sem d\u00favida, que a empresa preste contas quase exclusivamente a quem nela investe, acabando assim por reduzir a sua val\u00eancia social. Devido ao seu crescimento de dimens\u00e3o e \u00e0 necessidade de capitais sempre maiores, s\u00e3o cada vez menos as empresas que fazem referimento a um empres\u00e1rio est\u00e1vel que se sinta respons\u00e1vel n\u00e3o apenas a curto mas a longo prazo da vida e dos resultados da sua empresa, tal como diminui o n\u00famero das que dependem de um \u00fanico territ\u00f3rio. Al\u00e9m disso, a chamada deslocaliza\u00e7\u00e3o da actividade produtiva pode atenuar no empres\u00e1rio o sentido da responsabilidade para com os interessados, como os trabalhadores, os fornecedores, os consumidores, o ambiente natural e a sociedade circundante mais ampla, em benef\u00edcio dos accionistas, que n\u00e3o est\u00e3o ligados a um espa\u00e7o espec\u00edfico, gozando por isso duma extraordin\u00e1ria mobilidade; de facto, o mercado internacional dos capitais oferece hoje uma grande liberdade de ac\u00e7\u00e3o. Mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que est\u00e1 a aumentar a consci\u00eancia sobre a necessidade de uma mais ampla&#8221;responsabilidade social&#8221;da empresa. Apesar de os par\u00e2metros \u00e9ticos que guiam actualmente o debate sobre a responsabilidade social da empresa n\u00e3o serem, segundo a perspectiva da doutrina social da Igreja, todos aceit\u00e1veis, \u00e9 um facto que se vai difundindo cada vez mais a convic\u00e7\u00e3o de que a gest\u00e3o da empresa n\u00e3o pode ter em conta unicamente os interesses dos propriet\u00e1rios da mesma, mas deve preocupar-se tamb\u00e9m com as outras diversas categorias de sujeitos que contribuem para a vida da empresa: os trabalhadores, os clientes, os fornecedores dos v\u00e1rios factores de produ\u00e7\u00e3o, a comunidade de referimento. Nos \u00faltimos anos, notou-se o crescimento duma classe cosmopolita de gerentes, que muitas vezes respondem s\u00f3 \u00e0s indica\u00e7\u00f5es dos accionistas da empresa constitu\u00eddos geralmente por fundos an\u00f3nimos que estabelecem de facto as suas remunera\u00e7\u00f5es. Todavia, hoje, h\u00e1 tamb\u00e9m muitos gerentes que, atrav\u00e9s de an\u00e1lises clarividentes, se d\u00e3o conta cada vez mais dos profundos la\u00e7os que a sua empresa tem com o territ\u00f3rio ou territ\u00f3rios, onde opera. Paulo VI convidava a avaliar seriamente o dano que a transfer\u00eancia de capitais para o estrangeiro, com exclusivas vantagens pessoais, pode causar \u00e0 pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o[95]. E Jo\u00e3o Paulo II advertia que investir tem sempre um significado moral, para al\u00e9m de econ\u00f3mico[96]. Tudo isto \u2014 h\u00e1 que reafirm\u00e1-lo \u2014 \u00e9 v\u00e1lido tamb\u00e9m hoje, n\u00e3o obstante o mercado dos capitais tenha sido muito liberalizado e as mentalidades tecnol\u00f3gicas modernas possam induzir a pensar que investir seja apenas um facto t\u00e9cnico, e n\u00e3o humano e \u00e9tico. N\u00e3o h\u00e1 motivo para negar que um certo capital possa ser ocasi\u00e3o de bem, se investido no estrangeiro antes que na p\u00e1tria; mas devem-se ressalvar os v\u00ednculos de justi\u00e7a, tendo em conta tamb\u00e9m o modo como aquele capital se formou e os danos que causar\u00e1 \u00e0s pessoas o seu n\u00e3o investimento nos lugares onde o mesmo foi gerado[97]. \u00c9 preciso evitar que o motivo para o emprego dos recursos financeiros seja especulativo, cedendo \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de procurar apenas o lucro a breve prazo sem cuidar igualmente da sustentabilidade da empresa a longo prazo, do seu servi\u00e7o concreto \u00e0 economia real e duma adequada e oportuna promo\u00e7\u00e3o de iniciativas econ\u00f3micas tamb\u00e9m nos pa\u00edses necessitados de desenvolvimento. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 motivo para negar que a deslocaliza\u00e7\u00e3o, quando compreende investimentos e forma\u00e7\u00e3o, possa fazer bem \u00e0s popula\u00e7\u00f5es do pa\u00eds que a acolhe \u2014 o trabalho e o conhecimento t\u00e9cnico s\u00e3o uma necessidade universal \u2013; mas n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito deslocalizar somente para gozar de especiais condi\u00e7\u00f5es de favor ou, pior ainda, para explora\u00e7\u00e3o, sem prestar uma verdadeira contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade local para o nascimento de um robusto sistema produtivo e social, factor imprescind\u00edvel para um desenvolvimento est\u00e1vel.<\/p>\n<p>41. Dentro do mesmo tema, \u00e9 \u00fatil observar que o esp\u00edrito empresarial tem, e deve assumir cada vez mais, um significado polivalente. A longa preval\u00eancia do bin\u00f3mio mercado-Estado habituou-nos a pensar exclusivamente, por um lado, no empres\u00e1rio privado de tipo capitalista e, por outro, no director estatal. Na realidade, o esp\u00edrito empresarial h\u00e1-de ser entendido de modo articulado, como se depreende duma s\u00e9rie de motiva\u00e7\u00f5es meta-econ\u00f3micas. O esp\u00edrito empresarial, antes de ter significado profissional, possui um significado humano[98]; est\u00e1 inscrito em cada trabalho, visto como&#8221;actus person\u00e6&#8221;[99], pelo que \u00e9 bom oferecer a cada trabalhador a possibilidade de prestar a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o, de tal modo que ele mesmo&#8221;saiba trabalhar \u2018\u2018por conta pr\u00f3pria&#8221;&#8221;[100]. Ensinava Paulo VI, n\u00e3o sem motivo, que&#8221;todo o trabalhador \u00e9 um criador&#8221;[101]. Precisamente para dar resposta \u00e0s exig\u00eancias e \u00e0 dignidade de quem trabalha e \u00e0s necessidades da sociedade \u00e9 que existem v\u00e1rios tipos de empresa, muito para al\u00e9m da simples distin\u00e7\u00e3o entre&#8221;privado&#8221;e&#8221;p\u00fablico&#8221;. Cada uma requer e exprime um esp\u00edrito empresarial espec\u00edfico. A fim de realizar uma economia que, num futuro pr\u00f3ximo, saiba colocar-se ao servi\u00e7o do bem comum nacional e mundial, conv\u00e9m ter em conta este significado amplo de esp\u00edrito empresarial. Tal concep\u00e7\u00e3o mais ampla favorece o interc\u00e2mbio e a forma\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre as diversas tipologias de empresariado, com transfer\u00eancia de compet\u00eancias do mundo sem lucro para aquele com lucro e vice-versa, do sector p\u00fablico para o \u00e2mbito pr\u00f3prio da sociedade civil, do mundo das economias avan\u00e7adas para aquele dos pa\u00edses em vias de desenvolvimento.<br \/>\nTamb\u00e9m a&#8221;autoridade pol\u00edtica&#8221;tem um significado polivalente, que n\u00e3o se pode esquecer quando se procede \u00e0 realiza\u00e7\u00e3o duma nova ordem econ\u00f3mico-produtiva, respons\u00e1vel socialmente e \u00e0 medida do homem. Assim como se pretende fomentar um esp\u00edrito empresarial diferenciado no plano mundial, assim tamb\u00e9m se deve promover uma autoridade pol\u00edtica repartida e activa a v\u00e1rios n\u00edveis. A economia integrada de nossos dias n\u00e3o elimina a fun\u00e7\u00e3o dos Estados, antes obriga os governos a uma colabora\u00e7\u00e3o rec\u00edproca mais intensa. Raz\u00f5es de sabedoria e prud\u00eancia sugerem que n\u00e3o se proclame depressa demais o fim do Estado; relativamente \u00e0 solu\u00e7\u00e3o da crise actual, a sua fun\u00e7\u00e3o parece destinada a crescer, readquirindo muitas das suas compet\u00eancias. Al\u00e9m disso, existem na\u00e7\u00f5es, cuja edifica\u00e7\u00e3o ou reconstru\u00e7\u00e3o do Estado continua a ser um elemento-chave do seu desenvolvimento. A ajuda internacional, precisamente no \u00e2mbito de um projecto de solidariedade que tivesse em vista a solu\u00e7\u00e3o dos problemas econ\u00f3micos actuais, deveria sobretudo apoiar a consolida\u00e7\u00e3o de sistemas constitucionais, jur\u00eddicos, administrativos nos pa\u00edses que ainda n\u00e3o gozam de tais bens. A par das ajudas econ\u00f3micas, devem existir outros apoios tendentes a refor\u00e7ar as garantias pr\u00f3prias do Estado de direito, um sistema de ordem p\u00fablica e carcer\u00e1rio eficiente no respeito dos direitos humanos, institui\u00e7\u00f5es verdadeiramente democr\u00e1ticas. N\u00e3o \u00e9 preciso que o Estado tenha, em todo o lado, as mesmas caracter\u00edsticas: o apoio para refor\u00e7o dos sistemas constitucionais d\u00e9beis pode muito bem ser acompanhado pelo desenvolvimento de outros sujeitos pol\u00edticos de natureza cultural, social, territorial ou religiosa, ao lado do Estado. A articula\u00e7\u00e3o da autoridade pol\u00edtica a n\u00edvel local, nacional e internacional \u00e9, para al\u00e9m do mais, uma das vias mestras para se chegar a poder orientar a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica; e \u00e9 tamb\u00e9m o modo de evitar que esta mine realmente os alicerces da democracia.<\/p>\n<p>42. Notam-se \u00e0s vezes atitudes fatalistas a respeito da globaliza\u00e7\u00e3o, como se as din\u00e2micas em acto fossem produzidas por for\u00e7as impessoais an\u00f3nimas e por estruturas independentes da vontade humana[102]. A tal prop\u00f3sito, \u00e9 bom recordar que a globaliza\u00e7\u00e3o h\u00e1-de ser entendida, sem d\u00favida, como um processo s\u00f3cio-econ\u00f3mico, mas esta sua dimens\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica. Sob o processo mais vis\u00edvel, h\u00e1 a realidade duma humanidade que se torna cada vez mais interligada; tal realidade \u00e9 constitu\u00edda por pessoas e povos, para quem o referido processo deve ser de utilidade e desenvolvimento[103], gra\u00e7as \u00e0 assun\u00e7\u00e3o das respectivas responsabilidades por parte tanto dos indiv\u00edduos como da colectividade. A supera\u00e7\u00e3o das fronteiras \u00e9 um dado n\u00e3o apenas material mas tamb\u00e9m cultural nas suas causas e efeitos. Se a globaliza\u00e7\u00e3o for lida de maneira determinista, perdem-se os crit\u00e9rios para a avaliar e orientar. Trata-se de uma realidade humana que pode ter, na sua fonte, v\u00e1rias orienta\u00e7\u00f5es culturais, sobre as quais \u00e9 preciso fazer discernimento. A verdade da globaliza\u00e7\u00e3o enquanto processo e o seu crit\u00e9rio \u00e9tico fundamental prov\u00eam da unidade da fam\u00edlia humana e do seu desenvolvimento no bem. Por isso \u00e9 preciso empenhar-se sem cessar por favorecer uma orienta\u00e7\u00e3o cultural personalista e comunit\u00e1ria, aberta \u00e0 transcend\u00eancia, do processo de integra\u00e7\u00e3o mundial.<br \/>\nN\u00e3o obstante algumas limita\u00e7\u00f5es estruturais, que n\u00e3o se h\u00e3o-de negar nem absolutizar,&#8221;a globaliza\u00e7\u00e3o a priori n\u00e3o \u00e9 boa nem m\u00e1. Ser\u00e1 aquilo que as pessoas fizerem dela&#8221;[104]. N\u00e3o devemos ser v\u00edtimas dela, mas protagonistas, actuando com razoabilidade, guiados pela caridade e a verdade. Opor-se-lhe cegamente seria uma atitude errada, fruto de preconceito, que acabaria por ignorar um processo marcado tamb\u00e9m por aspectos positivos, com o risco de perder uma grande ocasi\u00e3o de se inserir nas m\u00faltiplas oportunidades de desenvolvimento por ele oferecidas. Adequadamente concebidos e geridos, os processos de globaliza\u00e7\u00e3o oferecem a possibilidade duma grande redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza a n\u00edvel mundial, como antes nunca tinha acontecido; se mal geridos, podem, pelo contr\u00e1rio, fazer crescer pobreza e desigualdade, bem como contagiar com uma crise o mundo inteiro. \u00c9 preciso corrigir as suas disfun\u00e7\u00f5es, tantas vezes graves, que introduzem novas divis\u00f5es entre os povos e no interior dos mesmos, e fazer com que a redistribui\u00e7\u00e3o da riqueza n\u00e3o se verifique \u00e0 custa de uma redistribui\u00e7\u00e3o da pobreza ou at\u00e9 com o seu agravamento, como uma m\u00e1 gest\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o actual poderia fazer-nos temer. Durante muito tempo, pensou-se que os povos pobres deveriam permanecer ancorados a um est\u00e1dio predeterminado de desenvolvimento, contentando-se com a filantropia dos povos desenvolvidos. Contra esta mentalidade, tomou posi\u00e7\u00e3o Paulo VI na Populorum progressio. Hoje, as for\u00e7as materiais de que se pode dispor para fazer aqueles povos sair da mis\u00e9ria s\u00e3o potencialmente maiores do que outrora, mas acabaram por se aproveitar delas prevalentemente os povos dos pa\u00edses desenvolvidos, que conseguiram desfrutar melhor o processo de liberaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos de capitais e do trabalho. Por isso a difus\u00e3o dos ambientes de bem-estar a n\u00edvel mundial n\u00e3o deve ser refreada por projectos ego\u00edstas, proteccionistas ou ditados por interesses particulares. De facto, hoje, o envolvimento dos pa\u00edses emergentes ou em vias de desenvolvimento permite gerir melhor a crise. A transi\u00e7\u00e3o inerente ao processo de globaliza\u00e7\u00e3o apresenta grandes dificuldades e perigos, que poder\u00e3o ser superados apenas se se souber tomar consci\u00eancia daquela alma antropol\u00f3gica e \u00e9tica que, do mais fundo, impele a pr\u00f3pria globaliza\u00e7\u00e3o para metas de humaniza\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria. Infelizmente esta alma \u00e9 muitas vezes abafada e condicionada por perspectivas \u00e9tico-culturais de imposta\u00e7\u00e3o individualista e utilitarista. A globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 um fen\u00f3meno pluridimensional e polivalente, que exige ser compreendido na diversidade e unidade de todas as suas dimens\u00f5es, incluindo a teol\u00f3gica. Isto permitir\u00e1 viver e orientar a globaliza\u00e7\u00e3o da humanidade em termos de relacionamento, comunh\u00e3o e partilha.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO IV<br \/>\nDESENVOLVIMENTO DOS POVOS, DIREITOS E DEVERES, AMBIENTE<\/p>\n<p>43.&#8221;A solidariedade universal \u00e9 para n\u00f3s n\u00e3o s\u00f3 um facto e um benef\u00edcio, mas tamb\u00e9m um dever&#8221;[105]. Hoje, muitas pessoas tendem a alimentar a pretens\u00e3o de que n\u00e3o devem nada a ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser a si mesmas. Considerando-se titulares s\u00f3 de direitos, frequentemente deparam-se com fortes obst\u00e1culos para maturar uma responsabilidade no \u00e2mbito do desenvolvimento integral pr\u00f3prio e alheio. Por isso, \u00e9 importante invocar uma nova reflex\u00e3o que fa\u00e7a ver como os direitos pressup\u00f5em deveres, sem os quais o seu exerc\u00edcio se transforma em arb\u00edtrio[106]. Assiste-se hoje a uma grave contradi\u00e7\u00e3o: enquanto, por um lado, se reivindicam presuntos direitos, de car\u00e1cter arbitr\u00e1rio e libertino, querendo v\u00ea-los reconhecidos e promovidos pelas estruturas p\u00fablicas, por outro existem direitos elementares e fundamentais violados e negados a boa parte da humanidade[107]. Aparece com frequ\u00eancia assinalada uma rela\u00e7\u00e3o entre a reivindica\u00e7\u00e3o do direito ao sup\u00e9rfluo, sen\u00e3o mesmo \u00e0 transgress\u00e3o e ao v\u00edcio, nas sociedades opulentes e a falta de alimento, \u00e1gua pot\u00e1vel, instru\u00e7\u00e3o b\u00e1sica, cuidados sanit\u00e1rios elementares em certas regi\u00f5es do mundo do subdesenvolvimento e tamb\u00e9m nas periferias de grandes metr\u00f3poles. A rela\u00e7\u00e3o est\u00e1 no facto de que os direitos individuais, desvinculados de um quadro de deveres que lhes confira um sentido completo, enlouquecem e alimentam uma espiral de exig\u00eancias praticamente ilimitada e sem crit\u00e9rios. A exaspera\u00e7\u00e3o dos direitos desemboca no esquecimento dos deveres. Estes delimitam os direitos porque remetem para o quadro antropol\u00f3gico e \u00e9tico cuja verdade \u00e9 o \u00e2mbito onde os mesmos se inserem e, deste modo, n\u00e3o descambam no arb\u00edtrio. Por este motivo, os deveres refor\u00e7am os direitos e prop\u00f5em a sua defesa e promo\u00e7\u00e3o como um compromisso a assumir ao servi\u00e7o do bem. Se, pelo contr\u00e1rio, os direitos do homem encontram o seu fundamento apenas nas delibera\u00e7\u00f5es duma assembleia de cidad\u00e3os, podem ser alterados em qualquer momento e, assim, o dever de os respeitar e promover atenua-se na consci\u00eancia comum. Ent\u00e3o os governos e os organismos internacionais podem esquecer a objectividade e&#8221;indisponibilidade&#8221;dos direitos. Quando isto acontece, p\u00f5e-se em perigo o verdadeiro desenvolvimento dos povos[108]. Semelhantes posi\u00e7\u00f5es comprometem a autoridade dos organismos internacionais, sobretudo aos olhos dos pa\u00edses mais carecidos de desenvolvimento. De facto, estes pedem que a comunidade internacional assuma como um dever ajud\u00e1-los a serem&#8221;art\u00edfices do seu destino&#8221;[109], ou seja, a assumirem por sua vez deveres. A partilha dos deveres rec\u00edprocos mobiliza muito mais do que a mera reivindica\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n<p>44. A concep\u00e7\u00e3o dos direitos e dos deveres no desenvolvimento deve ter em conta tamb\u00e9m as problem\u00e1ticas ligadas com o crescimento demogr\u00e1fico. Trata-se de um aspecto muito importante do verdadeiro desenvolvimento, porque diz respeito aos valores irrenunci\u00e1veis da vida e da fam\u00edlia[110]. Considerar o aumento da popula\u00e7\u00e3o como a primeira causa do subdesenvolvimento \u00e9 errado, inclusive do ponto de vista econ\u00f3mico: basta pensar, por um lado, na consider\u00e1vel diminui\u00e7\u00e3o da mortalidade infantil e no alongamento m\u00e9dio da vida que se regista nos pa\u00edses economicamente desenvolvidos, e, por outro, nos sinais de crise que se observam nas sociedades onde se regista uma preocupante queda da natalidade. Obviamente \u00e9 for\u00e7oso prestar a devida aten\u00e7\u00e3o a uma procria\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel, que constitui, para al\u00e9m do mais, uma real contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento integral. A Igreja, que tem a peito o verdadeiro desenvolvimento do homem, recomenda-lhe o respeito dos valores humanos tamb\u00e9m no uso da sexualidade: o mesmo n\u00e3o pode ser reduzido a um mero facto hedonista e l\u00fadico, do mesmo modo que a educa\u00e7\u00e3o sexual n\u00e3o se pode limitar \u00e0 instru\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, tendo como \u00fanica preocupa\u00e7\u00e3o defender os interessados de eventuais cont\u00e1gios ou do&#8221;risco&#8221;procriador. Isto equivaleria a empobrecer e negligenciar o significado profundo da sexualidade, que deve, pelo contr\u00e1rio, ser reconhecido e assumido responsavelmente tanto pela pessoa como pela comunidade. Com efeito, a responsabilidade impede que se considere a sexualidade como uma simples fonte de prazer ou que seja regulada com pol\u00edticas de planifica\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos nascimentos. Em ambos os casos, estamos perante concep\u00e7\u00f5es e pol\u00edticas materialistas, no \u00e2mbito das quais as pessoas acabam por sofrer v\u00e1rias formas de viol\u00eancia. A tudo isto h\u00e1 que contrapor a compet\u00eancia prim\u00e1ria das fam\u00edlias neste campo[111], relativamente ao Estado e \u00e0s suas pol\u00edticas restritivas, e tamb\u00e9m uma apropriada educa\u00e7\u00e3o dos pais.<br \/>\nA abertura moralmente respons\u00e1vel \u00e0 vida \u00e9 uma riqueza social e econ\u00f3mica. Grandes na\u00e7\u00f5es puderam sair da mis\u00e9ria, justamente gra\u00e7as ao grande n\u00famero e \u00e0s capacidades dos seus habitantes. Pelo contr\u00e1rio, na\u00e7\u00f5es outrora pr\u00f3speras atravessam agora uma fase de incerteza e, em alguns casos, de decl\u00ednio precisamente por causa da diminui\u00e7\u00e3o da natalidade, problema crucial para as sociedades de proeminente bem-estar. A diminui\u00e7\u00e3o dos nascimentos, situando-se por vezes abaixo do chamado&#8221;\u00edndice de substitui\u00e7\u00e3o&#8221;, p\u00f5e em crise tamb\u00e9m os sistemas de assist\u00eancia social, aumenta os seus custos, contrai a acumula\u00e7\u00e3o de poupan\u00e7as e, consequentemente, os recursos financeiros necess\u00e1rios para os investimentos, reduz a disponibiliza\u00e7\u00e3o de trabalhadores qualificados, restringe a reserva aonde ir buscar os&#8221;c\u00e9rebros&#8221;para as necessidades da na\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, as fam\u00edlias de pequena e, \u00e0s vezes, pequen\u00edssima dimens\u00e3o correm o risco de empobrecer as rela\u00e7\u00f5es sociais e de n\u00e3o garantir formas eficazes de solidariedade. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que apresentam sintomas de escassa confian\u00e7a no futuro e de cansa\u00e7o moral. Deste modo, torna-se uma necessidade social, e mesmo econ\u00f3mica, continuar a propor \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es a beleza da fam\u00edlia e do matrim\u00f3nio, a correspond\u00eancia de tais institui\u00e7\u00f5es \u00e0s exig\u00eancias mais profundas do cora\u00e7\u00e3o e da dignidade da pessoa. Nesta perspectiva, os Estados s\u00e3o chamados a instaurar pol\u00edticas que promovam a centralidade e a integridade da fam\u00edlia, fundada no matrim\u00f3nio entre um homem e uma mulher, c\u00e9lula primeira e vital da sociedade[112], preocupando-se tamb\u00e9m com os seus problemas econ\u00f3micos e fiscais, no respeito da sua natureza relacional.<\/p>\n<p>45. Dar resposta \u00e0s exig\u00eancias morais mais profundas da pessoa tem tamb\u00e9m importantes e ben\u00e9ficas consequ\u00eancias no plano econ\u00f3mico. De facto, a economia tem necessidade da \u00e9tica para o seu correcto funcionamento; n\u00e3o de uma \u00e9tica qualquer, mas de uma \u00e9tica amiga da pessoa. Hoje fala-se muito de \u00e9tica em campo econ\u00f3mico, financeiro, empresarial. Nascem centros de estudo e percursos formativos de neg\u00f3cios \u00e9ticos; difunde-se no mundo desenvolvido o sistema das certifica\u00e7\u00f5es \u00e9ticas, na esteira do movimento de ideias nascido \u00e0 volta da responsabilidade social da empresa. Os bancos prop\u00f5em contas e fundos de investimento chamados&#8221;\u00e9ticos&#8221;. Desenvolvem-se as&#8221;finan\u00e7as \u00e9ticas&#8221;, sobretudo atrav\u00e9s do micro-cr\u00e9dito e, mais em geral, de micro-financiamentos. Tais processos suscitam apre\u00e7o e merecem amplo apoio. Os seus efeitos positivos fazem-se sentir tamb\u00e9m nas \u00e1reas menos desenvolvidas da terra. Todavia, \u00e9 bom formar tamb\u00e9m um v\u00e1lido crit\u00e9rio de discernimento, porque se nota um certo abuso do adjectivo&#8221;\u00e9tico&#8221;, o qual, se usado vagamente, presta-se a designar conte\u00fados muito diversos, chegando-se a fazer passar \u00e0 sua sombra decis\u00f5es e op\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias \u00e0 justi\u00e7a e ao verdadeiro bem do homem.<br \/>\nCom efeito, muito depende do sistema moral em que se baseia. Sobre este argumento, a doutrina social da Igreja tem um contributo pr\u00f3prio e espec\u00edfico para dar, que se funda na cria\u00e7\u00e3o do homem&#8221;\u00e0 imagem de Deus&#8221;(Gn 1, 27), um dado do qual deriva a dignidade inviol\u00e1vel da pessoa humana e tamb\u00e9m o valor transcendente das normas morais naturais. Uma \u00e9tica econ\u00f3mica que prescinda destes dois pilares arrisca-se inevitavelmente a perder o seu cunho espec\u00edfico e a prestar-se a instrumentaliza\u00e7\u00f5es; mais concretamente, arrisca-se a aparecer em fun\u00e7\u00e3o dos sistemas econ\u00f3mico-financeiros existentes, em vez de servir de correc\u00e7\u00e3o \u00e0s disfun\u00e7\u00f5es dos mesmos. Al\u00e9m do mais, acabaria at\u00e9 por justificar o financiamento de projectos que n\u00e3o s\u00e3o \u00e9ticos. Por outro lado, n\u00e3o se deve recorrer ao termo&#8221;\u00e9tico&#8221;de modo ideologicamente discriminat\u00f3rio, dando a perceber que n\u00e3o seriam \u00e9ticas as iniciativas n\u00e3o dotadas formalmente de tal qualifica\u00e7\u00e3o. Um dado \u00e9 essencial: a necessidade de trabalhar n\u00e3o s\u00f3 para que nas\u00e7am sectores ou segmentos&#8221;\u00e9ticos&#8221;da economia ou das finan\u00e7as, mas tamb\u00e9m para que toda a economia e as finan\u00e7as sejam \u00e9ticas: e n\u00e3o por uma rotula\u00e7\u00e3o exterior, mas pelo respeito de exig\u00eancias intr\u00ednsecas \u00e0 sua pr\u00f3pria natureza. A tal respeito, se pronuncia com clareza a doutrina social da Igreja, que recorda como a economia, em todas as suas extens\u00f5es, seja um sector da actividade humana[113].<\/p>\n<p>46. Considerando as tem\u00e1ticas referentes \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre empresa e \u00e9tica e tamb\u00e9m a evolu\u00e7\u00e3o que o sistema produtivo est\u00e1 a fazer, parece que a distin\u00e7\u00e3o usada at\u00e9 agora entre empresas que t\u00eam por finalidade o lucro (profit) e organiza\u00e7\u00f5es que n\u00e3o buscam o lucro (non profit) j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 capaz de dar cabalmente conta da realidade, nem de orientar eficazmente o futuro. Nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, foi surgindo entre as duas tipologias de empresa uma ampla \u00e1rea interm\u00e9dia. Esta \u00e9 constitu\u00edda por empresas tradicionais mas que subscrevem pactos de ajuda aos pa\u00edses atrasados, por funda\u00e7\u00f5es que s\u00e3o express\u00e3o de empresas individuais, por grupos de empresas que se prop\u00f5em objectivos de utilidade social, pelo mundo diversificado dos sujeitos da chamada economia civil e de comunh\u00e3o. N\u00e3o se trata apenas de um&#8221;terceiro sector&#8221;, mas de uma nova e ampla realidade complexa, que envolve o privado e o p\u00fablico e que n\u00e3o exclui o lucro mas considera-o como instrumento para realizar finalidades humanas e sociais. O facto de tais empresas distribu\u00edrem ou n\u00e3o os ganhos ou de assumirem uma ou outra das configura\u00e7\u00f5es previstas pelas normas jur\u00eddicas torna-se secund\u00e1rio relativamente \u00e0 sua disponibilidade a conceber o lucro como um instrumento para alcan\u00e7ar finalidades de humaniza\u00e7\u00e3o do mercado e da sociedade. \u00c9 desej\u00e1vel que estas novas formas de empresa tamb\u00e9m encontrem, em todos os pa\u00edses, adequada configura\u00e7\u00e3o jur\u00eddica e fiscal. Sem nada tirar \u00e0 import\u00e2ncia e utilidade econ\u00f3mica e social das formas tradicionais de empresa, fazem evoluir o sistema para uma assun\u00e7\u00e3o mais clara e perfeita dos deveres por parte dos sujeitos econ\u00f3micos. E n\u00e3o s\u00f3&#8230; A pr\u00f3pria pluralidade das formas institucionais de empresa gera um mercado mais humano e simultaneamente mais competitivo.<\/p>\n<p>47. O fortalecimento das diversas tipologias de empresa, mormente das que s\u00e3o capazes de conceber o lucro como um instrumento para alcan\u00e7ar finalidades de humaniza\u00e7\u00e3o do mercado e das sociedades, deve ser procurado tamb\u00e9m nos pa\u00edses que sofrem exclus\u00e3o ou marginaliza\u00e7\u00e3o dos circuitos da economia global, onde \u00e9 muito importante avan\u00e7ar com projectos de subsidiariedade devidamente concebida e gerida que tendam a potenciar os direitos, mas prevendo sempre tamb\u00e9m a assun\u00e7\u00e3o das correlativas responsabilidades. Nasinterven\u00e7\u00f5es em prol do desenvolvimento, h\u00e1 que salvaguardar o princ\u00edpio da centralidade da pessoa humana, que \u00e9 o sujeito que primariamente deve assumir o dever do desenvolvimento. A preocupa\u00e7\u00e3o principal \u00e9 a melhoria das situa\u00e7\u00f5es de vida das pessoas concretas duma certa regi\u00e3o, para que possam desempenhar aqueles deveres que actualmente a indig\u00eancia n\u00e3o lhes permite respeitar. A solicitude nunca pode ser uma atitude abstracta. Para poderem adaptar-se \u00e0s diversas situa\u00e7\u00f5es, os programas de desenvolvimento devem ser flex\u00edveis; e as pessoas benefici\u00e1rias deveriam estar envolvidas directamente na sua delinea\u00e7\u00e3o e tornar-se protagonistas da sua actua\u00e7\u00e3o. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m aplicar os crit\u00e9rios da progress\u00e3o e do acompanhamento \u2014 incluindo a monitoriza\u00e7\u00e3o dos resultados \u2014 porque n\u00e3o h\u00e1 receitas v\u00e1lidas universalmente; depende muito da gest\u00e3o concreta das interven\u00e7\u00f5es.&#8221;S\u00e3o os povos os autores e primeiros respons\u00e1veis do pr\u00f3prio desenvolvimento. Mas n\u00e3o o poder\u00e3o realizar isolados&#8221;[114]. Esta advert\u00eancia de Paulo VI \u00e9 ainda mais v\u00e1lida hoje, com o processo de progressiva integra\u00e7\u00e3o que se vai consolidando na terra. As din\u00e2micas de inclus\u00e3o n\u00e3o t\u00eam nada de mec\u00e2nico. As solu\u00e7\u00f5es h\u00e3o-de ser calibradas olhando a vida dos povos e das pessoas concretas com base numa ponderada avalia\u00e7\u00e3o de cada situa\u00e7\u00e3o. Ao lado dos macro-projectos servem os micro-projectos, e sobretudo serve a mobiliza\u00e7\u00e3o real de todos os sujeitos da sociedade civil, das pessoas tanto jur\u00eddicas como f\u00edsicas.<br \/>\nA coopera\u00e7\u00e3o internacional precisa de pessoas que partilhem o processo de desenvolvimento econ\u00f3mico e humano, atrav\u00e9s da solidariedade feita de presen\u00e7a, acompanhamento, forma\u00e7\u00e3o e respeito. Sob este ponto de vista, os pr\u00f3prios organismos internacionais deveriam interrogar-se sob a real efic\u00e1cia dos seus aparatos burocr\u00e1ticos e administrativos, frequentemente muito dispendiosos. \u00c0s vezes sucede que o destinat\u00e1rio das ajudas seja utilizado em fun\u00e7\u00e3o de quem o ajuda e que os pobres sirvam para manter de p\u00e9 dispendiosas organiza\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas que reservam para sua pr\u00f3pria conserva\u00e7\u00e3o percentagens demasiado elevadas dos recursos que, ao inv\u00e9s, deveriam ser aplicados no desenvolvimento. Nesta perspectiva, seria desej\u00e1vel que todos os organismos internacionais e as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais se comprometessem a uma plena transpar\u00eancia, informando os doadores e a opini\u00e3o p\u00fablica acerca da percentagem de fundos recebidos destinada aos programas de coopera\u00e7\u00e3o, acerca do verdadeiro conte\u00fado de tais programas e, por \u00faltimo, acerca da configura\u00e7\u00e3o das despesas da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>48. O tema do desenvolvimento aparece, hoje, estreitamente associado tamb\u00e9m com os deveres que nascem do relacionamento do homem com o ambiente natural. Este foi dado por Deus a todos, constituindo o seu uso uma responsabilidade que temos para com os pobres, as gera\u00e7\u00f5es futuras e a humanidade inteira. Quando a natureza, a come\u00e7ar pelo ser humano, \u00e9 considerada como fruto do acaso ou do determinismo evolutivo, a no\u00e7\u00e3o da referida responsabilidade debilita-se nas consci\u00eancias. Na natureza, o crente reconhece o resultado maravilhoso da interven\u00e7\u00e3o criadora de Deus, de que o homem se pode responsavelmente servir para satisfazer as suas leg\u00edtimas exig\u00eancias \u2014 materiais e imateriais \u2014 no respeito dos equil\u00edbrios intr\u00ednsecos da pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. Se falta esta perspectiva, o homem acaba ou por considerar a natureza um tabu intoc\u00e1vel ou, ao contr\u00e1rio, por abusar dela. Nem uma nem outra destas atitudes corresponde \u00e0 vis\u00e3o crist\u00e3 da natureza, fruto da cria\u00e7\u00e3o de Deus.<br \/>\nA natureza \u00e9 express\u00e3o de um des\u00edgnio de amor e de verdade. Precede-nos, tendo-nos sido dada por Deus como ambiente de vida. Fala-nos do Criador (cf. Rm 1, 20) e do seu amor pela humanidade. Est\u00e1 destinada, no fim dos tempos, a ser&#8221;instaurada&#8221;em Cristo (cf. Ef 1, 9-10;Col 1, 19-20). Por conseguinte, tamb\u00e9m ela \u00e9 uma&#8221;voca\u00e7\u00e3o&#8221;[115]. A natureza est\u00e1 \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o como&#8221;um monte de lixo espalhado ao acaso&#8221;[116], mas como um dom do Criador que tra\u00e7ou os seus ordenamentos intr\u00ednsecos dos quais o homem h\u00e1-de tirar as devidas orienta\u00e7\u00f5es para a&#8221;guardar e cultivar&#8221;(Gn 2, 15). Mas \u00e9 preciso sublinhar tamb\u00e9m que \u00e9 contr\u00e1rio ao verdadeiro desenvolvimento considerar a natureza mais importante do que a pr\u00f3pria pessoa humana. Esta posi\u00e7\u00e3o induz a comportamentos neo-pag\u00e3os ou a um novo pante\u00edsmo: s\u00f3 da natureza, entendida em sentido puramente naturalista, n\u00e3o pode derivar a salva\u00e7\u00e3o para o homem. Por outro lado, h\u00e1 que rejeitar tamb\u00e9m a posi\u00e7\u00e3o oposta, que visa a sua completa tecniciza\u00e7\u00e3o, porque o ambiente natural n\u00e3o \u00e9 apenas mat\u00e9ria de que dispor a nosso bel-prazer, mas obra admir\u00e1vel do Criador, contendo nela uma&#8221;gram\u00e1tica&#8221;que indica finalidades e crit\u00e9rios para uma utiliza\u00e7\u00e3o sapiente, n\u00e3o instrumental nem arbitr\u00e1ria. Adv\u00eam, hoje, muitos danos ao desenvolvimento precisamente destas concep\u00e7\u00f5es deformadas. Reduzir completamente a natureza a um conjunto de simples dados reais acaba por ser fonte de viol\u00eancia contra o ambiente e at\u00e9 por motivar ac\u00e7\u00f5es desrespeitadoras da pr\u00f3pria natureza do homem. Esta, constitu\u00edda n\u00e3o s\u00f3 de mat\u00e9ria mas tamb\u00e9m de esp\u00edrito e, como tal, rica de significados e de fins transcendentes a alcan\u00e7ar, tem um car\u00e1cter normativo tamb\u00e9m para a cultura. O homem interpreta e modela o ambiente natural atrav\u00e9s da cultura, a qual, por sua vez, \u00e9 orientada por meio da liberdade respons\u00e1vel, atenta aos ditames da lei moral. Por isso, os projectos para um desenvolvimento humano integral n\u00e3o podem ignorar os vindouros, mas devem ser animados pela solidariedade e a justi\u00e7a entre as gera\u00e7\u00f5es, tendo em conta os diversos \u00e2mbitos: ecol\u00f3gico, jur\u00eddico, econ\u00f3mico, pol\u00edtico, cultural[117].<\/p>\n<p>49. Hoje, as quest\u00f5es relacionadas com o cuidado e a preserva\u00e7\u00e3o do ambiente devem ter na devida considera\u00e7\u00e3o as problem\u00e1ticas energ\u00e9ticas. De facto, o a\u00e7ambarcamento dos recursos energ\u00e9ticos n\u00e3o renov\u00e1veis por parte de alguns Estados, grupos de poder e empresas constitui um grave impedimento para o desenvolvimento dos pa\u00edses pobres. Estes n\u00e3o t\u00eam os meios econ\u00f3micos para chegar \u00e0s fontes energ\u00e9ticas n\u00e3o renov\u00e1veis que existem, nem para financiar a pesquisa de fontes novas e alternativas. A monopoliza\u00e7\u00e3o dos recursos naturais, que em muitos casos se encontram precisamente nos pa\u00edses pobres, gera explora\u00e7\u00e3o e frequentes conflitos entre as na\u00e7\u00f5es e dentro das mesmas. E muitas vezes estes conflitos s\u00e3o travados precisamente no territ\u00f3rio de tais pa\u00edses, com um pesado balan\u00e7o em termos de mortes, destrui\u00e7\u00f5es e maior degrada\u00e7\u00e3o. A comunidade internacional tem o imperioso dever de encontrar as vias institucionais para regular a explora\u00e7\u00e3o dos recursos n\u00e3o renov\u00e1veis, com a participa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dos pa\u00edses pobres, de modo a planificar em conjunto o futuro.<br \/>\nTamb\u00e9m sobre este aspecto, h\u00e1 urgente necessidade moral de uma renovada solidariedade, especialmente nas rela\u00e7\u00f5es entre os pa\u00edses em vias de desenvolvimento e os pa\u00edses altamente industrializados[118]. As sociedades tecnicamente avan\u00e7adas podem e devem diminuir o consumo energ\u00e9tico seja porque as actividades manufactureiras evoluem, seja porque entre os seus cidad\u00e3os reina maior sensibilidade ecol\u00f3gica. Al\u00e9m disso h\u00e1 que acrescentar que, actualmente, \u00e9 poss\u00edvel melhorar a efici\u00eancia energ\u00e9tica e fazer avan\u00e7ar a pesquisa de energias alternativas; mas \u00e9 necess\u00e1ria tamb\u00e9m uma redistribui\u00e7\u00e3o mundial dos recursos energ\u00e9ticos, de modo que os pr\u00f3prios pa\u00edses desprovidos possam ter acesso aos mesmos. O seu destino n\u00e3o pode ser deixado nas m\u00e3os do primeiro a chegar nem estar sujeito \u00e0 l\u00f3gica do mais forte. Trata-se de problemas relevantes que, para ser enfrentados de modo adequado, requerem da parte de todos uma respons\u00e1vel tomada de consci\u00eancia das consequ\u00eancias que recair\u00e3o sobre as novas gera\u00e7\u00f5es, principalmente sobre a imensidade de jovens presentes nos povos pobres, que&#8221;reclamam a sua parte activa na constru\u00e7\u00e3o de um mundo melhor&#8221;[119].<\/p>\n<p>50. Esta responsabilidade \u00e9 global, porque n\u00e3o diz respeito somente \u00e0 energia, mas a toda a cria\u00e7\u00e3o, que n\u00e3o devemos deixar \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es depauperada dos seus recursos. \u00c9 l\u00edcito ao homem exercer um governo respons\u00e1vel sobre a natureza para a guardar, fazer frutificar e cultivar inclusive com formas novas e tecnologias avan\u00e7adas, para que possa acolher e alimentar condignamente a popula\u00e7\u00e3o que a habita. H\u00e1 espa\u00e7o para todos nesta nossa terra: aqui a fam\u00edlia humana inteira deve encontrar os recursos necess\u00e1rios para viver decorosamente, com a ajuda da pr\u00f3pria natureza, dom de Deus aos seus filhos, e com o empenho do seu pr\u00f3prio trabalho e inventiva. Devemos, por\u00e9m, sentir como grav\u00edssimo o dever de entregar a terra \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es num estado tal que tamb\u00e9m elas possam dignamente habit\u00e1-la e continuar a cultiv\u00e1-la. Isto implica&#8221;o empenho de decidir juntos depois de ter ponderado responsavelmente qual a estrada a percorrer, com o objectivo de refor\u00e7ar aquela alian\u00e7a entre ser humano e ambiente que deve ser espelho do amor criador de Deus, de Quem provimos e para Quem estamos a caminho&#8221;[120]. \u00c9 desej\u00e1vel que a comunidade internacional e os diversos governos saibam contrastar, de maneira eficaz, as modalidades de utiliza\u00e7\u00e3o do ambiente que sejam danosas para o mesmo. \u00c9 igualmente for\u00e7oso que se empreendam, por parte das autoridades competentes, todos os esfor\u00e7os necess\u00e1rios para que os custos econ\u00f3micos e sociais derivados do uso dos recursos ambientais comuns sejam reconhecidos de maneira transparente e plenamente suportados por quem deles usufrui e n\u00e3o por outras popula\u00e7\u00f5es nem pelas gera\u00e7\u00f5es futuras: a protec\u00e7\u00e3o do ambiente, dos recursos e do clima requer que todos os respons\u00e1veis internacionais actuem conjuntamente e se demonstrem prontos a agir de boa f\u00e9, no respeito da lei e da solidariedade para com as regi\u00f5es mais d\u00e9beis da terra[121]. Uma das maiores tarefas da economia \u00e9 precisamente um uso mais eficiente dos recursos, n\u00e3o o abuso, tendo sempre presente que a no\u00e7\u00e3o de efici\u00eancia n\u00e3o \u00e9 axiologicamente neutra.<\/p>\n<p>51. As modalidades com que o homem trata o ambiente influem sobre as modalidades com que se trata a si mesmo, e vice-versa. Isto chama a sociedade actual a uma s\u00e9ria revis\u00e3o do seu estilo de vida que, em muitas partes do mundo, pende para o hedonismo e o consumismo, sem olhar aos danos que da\u00ed derivam[122]. \u00c9 necess\u00e1ria uma real mudan\u00e7a de mentalidade que nos induza a adoptar novos estilos de vida,&#8221;nos quais a busca do verdadeiro, do belo e do bom e a comunh\u00e3o com os outros homens para um crescimento comum sejam os elementos que determinam as op\u00e7\u00f5es dos consumos, das poupan\u00e7as e dos investimentos&#8221;[123]. Toda a les\u00e3o da solidariedade e da amizade c\u00edvica provoca danos ambientais, assim como a degrada\u00e7\u00e3o ambiental por sua vez gera insatisfa\u00e7\u00e3o nas rela\u00e7\u00f5es sociais. A natureza, especialmente no nosso tempo, est\u00e1 t\u00e3o integrada nas din\u00e2micas sociais e culturais que quase j\u00e1 n\u00e3o constitui uma vari\u00e1vel independente. A desertifica\u00e7\u00e3o e a pen\u00faria produtiva de algumas \u00e1reas agr\u00edcolas s\u00e3o fruto tamb\u00e9m do empobrecimento das popula\u00e7\u00f5es que as habitam e do seu atraso. Incentivando o desenvolvimento econ\u00f3mico e cultural daquelas popula\u00e7\u00f5es, tutela-se tamb\u00e9m a natureza. Al\u00e9m disso, quantos recursos naturais s\u00e3o devastados pela guerra! A paz dos povos e entre os povos permitiria tamb\u00e9m uma maior preserva\u00e7\u00e3o da natureza. O a\u00e7ambarcamento dos recursos, especialmente da \u00e1gua, pode provocar graves conflitos entre as popula\u00e7\u00f5es envolvidas. Um acordo pac\u00edfico sobre o uso dos recursos pode salvaguardar a natureza e, simultaneamente, o bem-estar das sociedades interessadas.<br \/>\nA Igreja sente o seu peso de responsabilidade pela cria\u00e7\u00e3o e deve fazer valer esta responsabilidade tamb\u00e9m em p\u00fablico. Ao faz\u00ea-lo, n\u00e3o tem apenas de defender a terra, a \u00e1gua e o ar como dons da cria\u00e7\u00e3o que pertencem a todos, mas deve sobretudo proteger o homem da destrui\u00e7\u00e3o de si mesmo. Requer-se uma esp\u00e9cie de ecologia do homem, entendida no justo sentido. De facto, a degrada\u00e7\u00e3o da natureza est\u00e1 estreitamente ligada \u00e0 cultura que molda a conviv\u00eancia humana: quando a&#8221;ecologia humana&#8221;[124] \u00e9 respeitada dentro da sociedade, beneficia tamb\u00e9m a ecologia ambiental. Tal como as virtudes humanas s\u00e3o intercomunicantes, de modo que o enfraquecimento de uma p\u00f5e em risco tamb\u00e9m as outras, assim tamb\u00e9m o sistema ecol\u00f3gico se rege sobre o respeito de um projecto que se refere tanto \u00e0 s\u00e3 conviv\u00eancia em sociedade como ao bom relacionamento com a natureza.<br \/>\nPara preservar a natureza n\u00e3o basta intervir com incentivos ou penaliza\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, nem \u00e9 suficiente uma instru\u00e7\u00e3o adequada. Trata-se de instrumentos importantes, mas o problema decisivo \u00e9 a solidez moral da sociedade em geral. Se n\u00e3o \u00e9 respeitado o direito \u00e0 vida e \u00e0 morte natural, se se torna artificial a concep\u00e7\u00e3o, a gesta\u00e7\u00e3o e o nascimento do homem, se s\u00e3o sacrificados embri\u00f5es humanos na pesquisa, a consci\u00eancia comum acaba por perder o conceito de ecologia humana e, com ele, o de ecologia ambiental. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o pedir \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es o respeito do ambiente natural, quando a educa\u00e7\u00e3o e as leis n\u00e3o as ajudam a respeitar-se a si mesmas. O livro da natureza \u00e9 uno e indivis\u00edvel, tanto sobre a vertente do ambiente como sobre a vertente da vida, da sexualidade, do matrim\u00f3nio, da fam\u00edlia, das rela\u00e7\u00f5es sociais, numa palavra, do desenvolvimento humano integral. Os deveres que temos para com o ambiente est\u00e3o ligados com os deveres que temos para com a pessoa considerada em si mesma e em rela\u00e7\u00e3o com os outros; n\u00e3o se podem exigir uns e espezinhar os outros. Esta \u00e9 uma grave antinomia da mentalidade e do costume actual, que avilta a pessoa, transtorna o ambiente e prejudica a sociedade.<\/p>\n<p>52. A verdade e o amor que a mesma desvenda n\u00e3o se podem produzir, mas apenas acolher. A sua fonte \u00faltima n\u00e3o \u00e9 \u2014 nem pode ser \u2014 o homem, mas Deus, ou seja, Aquele que \u00e9 Verdade e Amor. Este princ\u00edpio \u00e9 muito importante para a sociedade e para o desenvolvimento, enquanto nem uma nem outro podem ser somente produtos humanos; a pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento das pessoas e dos povos n\u00e3o se funda sobre a simples delibera\u00e7\u00e3o humana, mas est\u00e1 inscrita num plano que nos precede e constitui para todos n\u00f3s um dever que h\u00e1-de ser livremente assumido. Aquilo que nos precede e constitui \u2014 o Amor e a Verdade subsistentes \u2014 indica-nos o que \u00e9 o bem e em que consiste a nossa felicidade. E, por conseguinte, aponta-nos o caminho para o verdadeiro desenvolvimento.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO V<br \/>\nA COLABORA\u00c7\u00c3O DA FAM\u00cdLIA HUMANA<\/p>\n<p>53. Uma das pobrezas mais profundas que o homem pode experimentar \u00e9 a solid\u00e3o. Vistas bem as coisas, as outras pobrezas, incluindo a material, tamb\u00e9m nascem do isolamento, de n\u00e3o ser amado ou da dificuldade de amar. As pobrezas frequentemente nasceram da recusa do amor de Deus, de uma origin\u00e1ria e tr\u00e1gica reclus\u00e3o do homem em si pr\u00f3prio, que pensa que se basta a si mesmo ou ent\u00e3o que \u00e9 s\u00f3 um facto insignificante e passageiro, um&#8221;estrangeiro&#8221;num universo formado por acaso. O homem aliena-se quando fica sozinho ou se afasta da realidade, quando renuncia a pensar e a crer num Fundamento[125]. A humanidade inteira aliena-se quando se entrega a projectos unicamente humanos, a ideologias e a falsas utopias[126]. A humanidade aparece, hoje, muito mais interactiva do que no passado: esta maior proximidade deve transformar-se em verdadeira comunh\u00e3o. O desenvolvimento dos povos depende sobretudo do reconhecimento que s\u00e3o uma s\u00f3 fam\u00edlia, a qual colabora em verdadeira comunh\u00e3o e \u00e9 formada por sujeitos que n\u00e3o se limitam a viver uns ao lado dos outros[127].<br \/>\nObservava Paulo VI que&#8221;o mundo sofre por falta de convic\u00e7\u00f5es&#8221;[128]. A afirma\u00e7\u00e3o quer exprimir n\u00e3o apenas uma constata\u00e7\u00e3o, mas sobretudo um voto: serve um novo \u00edmpeto do pensamento para compreender melhor as implica\u00e7\u00f5es do facto de sermos uma fam\u00edlia; a interac\u00e7\u00e3o entre os povos da terra chama-nos a este \u00edmpeto, para que a integra\u00e7\u00e3o se verifique sob o signo da solidariedade[129], e n\u00e3o da marginaliza\u00e7\u00e3o. Tal pensamento obriga a umaprofundamento cr\u00edtico e axiol\u00f3gico da categoria rela\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma tarefa que n\u00e3o pode ser desempenhada s\u00f3 pelas ci\u00eancias sociais, mas requer a contribui\u00e7\u00e3o de ci\u00eancias como a metaf\u00edsica e a teologia para ver lucidamente a dignidade transcendente do homem.<br \/>\nDe natureza espiritual, a criatura humana realiza-se nas rela\u00e7\u00f5es interpessoais: quanto mais as vive de forma aut\u00eantica, tanto mais amadurece a pr\u00f3pria identidade pessoal. N\u00e3o \u00e9 isolando-se que o homem se valoriza a si mesmo, mas relacionando-se com os outros e com Deus, pelo que estas rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o de import\u00e2ncia fundamental. Isto vale tamb\u00e9m para os povos; por isso \u00e9 muito \u00fatil para o seu desenvolvimento uma vis\u00e3o metaf\u00edsica da rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas. A tal respeito, a raz\u00e3o encontra inspira\u00e7\u00e3o e orienta\u00e7\u00e3o na revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3, segundo a qual a comunidade dos homens n\u00e3o absorve em si a pessoa aniquilando a sua autonomia, como acontece nas v\u00e1rias formas de totalitarismo, mas valoriza-a ainda mais porque a rela\u00e7\u00e3o entre pessoa e comunidade \u00e9 feita de um todo para outro todo[130]. Do mesmo modo que a comunidade familiar n\u00e3o anula em si as pessoas que a comp\u00f5em e a pr\u00f3pria Igreja valoriza plenamente a&#8221;nova criatura&#8221;(Gal 6, 15; 2 Cor 5, 17) que pelo baptismo se insere no seu Corpo vivo, assim tamb\u00e9m a unidade da fam\u00edlia humana n\u00e3o anula em si as pessoas, os povos e as culturas, mas torna-os mais transparentes reciprocamente, mais unidos nas suas leg\u00edtimas diversidades.<\/p>\n<p>54. O tema do desenvolvimento coincide com o da inclus\u00e3o relacional de todas as pessoas e de todos os povos na \u00fanica comunidade da fam\u00edlia humana, que se constr\u00f3i na solidariedade tendo por base os valores fundamentais da justi\u00e7a e da paz. Esta perspectiva encontra um decisivo esclarecimento na rela\u00e7\u00e3o entre as Pessoas da Trindade na \u00fanica Subst\u00e2ncia divina. A Trindade \u00e9 absoluta unidade, enquanto as tr\u00eas Pessoas divinas s\u00e3o pura rela\u00e7\u00e3o. A transpar\u00eancia rec\u00edproca entre as Pessoas divinas \u00e9 plena, e a liga\u00e7\u00e3o de uma com a outra total, porque constituem uma unidade e unicidade absoluta. Deus quer-nos associar tamb\u00e9m a esta realidade de comunh\u00e3o:&#8221;para que sejam um como N\u00f3s somos um&#8221;(Jo 17, 22). A Igreja \u00e9 sinal e instrumento desta unidade[131]. As pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es entre os homens, ao longo da hist\u00f3ria, s\u00f3 podem ganhar com a refer\u00eancia a este Modelo divino. De modo particular compreende-se, \u00e0 luz do mist\u00e9rio revelado da Trindade, que a verdadeira abertura n\u00e3o significa dispers\u00e3o centr\u00edfuga, mas profunda compenetra\u00e7\u00e3o. O mesmo resulta das experi\u00eancias humanas comuns do amor e da verdade. Como o amor sacramental entre os esposos os une espiritualmente a ponto de formarem&#8221;uma s\u00f3 carne&#8221;(Gn 2, 24; Mt 19, 5; Ef 5, 31) e, de dois que eram, faz uma unidade relacional e real, de forma an\u00e1loga a verdade une os esp\u00edritos entre si e f\u00e1-los pensar em un\u00edssono, atraindo-os e unindo-os nela.<\/p>\n<p>55. A revela\u00e7\u00e3o crist\u00e3 sobre a unidade do g\u00e9nero humano pressup\u00f5e uma interpreta\u00e7\u00e3o metaf\u00edsica do humanum na qual a rela\u00e7\u00e3o seja elemento essencial. Tamb\u00e9m outras culturas e outras religi\u00f5es ensinam a fraternidade e a paz, revestindo-se, por isso, de grande import\u00e2ncia para o desenvolvimento humano integral; mas n\u00e3o faltam comportamentos religiosos e culturais em que n\u00e3o se assume plenamente o princ\u00edpio do amor e da verdade, e acaba-se assim por refrear o verdadeiro desenvolvimento humano ou mesmo impedi-lo. O mundo actual regista a presen\u00e7a de algumas culturas de matiz religioso que n\u00e3o empenham o homem na comunh\u00e3o, mas isolam-no na busca do bem-estar individual, limitando-se a satisfazer os seus anseios psicol\u00f3gicos. Tamb\u00e9m uma certa prolifera\u00e7\u00e3o de percursos religiosos de pequenos grupos ou mesmo de pessoas individuais e o sincretismo religioso podem ser factores de dispers\u00e3o e de apatia. Um poss\u00edvel efeito negativo do processo de globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 a tend\u00eancia a favorecer tal sincretismo[132], alimentando formas de&#8221;religi\u00e3o&#8221;que, em vez de fazer as pessoas encontrarem-se, alheiam-nas umas das outras e afastam-nas da realidade. Simultaneamente \u00e0s vezes perduram legados culturais e religiosos que bloqueiam a sociedade em castas sociais est\u00e1ticas, em cren\u00e7as m\u00e1gicas n\u00e3o respeitadoras da dignidade da pessoa, em comportamentos de sujei\u00e7\u00e3o a for\u00e7as ocultas. Nestes contextos, o amor e a verdade encontram dificuldade em afirmar-se, com preju\u00edzo para o aut\u00eantico desenvolvimento.<br \/>\nPor este motivo, se \u00e9 verdade, por um lado, que o desenvolvimento tem necessidade das religi\u00f5es e das culturas dos diversos povos, por outro, n\u00e3o o \u00e9 menos a necessidade de um adequado discernimento. A liberdade religiosa n\u00e3o significa indiferentismo religioso, nem implica que todas as religi\u00f5es sejam iguais[133]. Para a constru\u00e7\u00e3o da comunidade social no respeito do bem comum, torna-se necess\u00e1rio, sobretudo para quem exerce o poder pol\u00edtico, o discernimento sobre o contributo das culturas e das religi\u00f5es. Tal discernimento dever\u00e1 basear-se sobre o crit\u00e9rio da caridade e da verdade. Dado que est\u00e1 em jogo o desenvolvimento das pessoas e dos povos, aquele h\u00e1-de ter em conta a possibilidade de emancipa\u00e7\u00e3o e de inclus\u00e3o na perspectiva de uma comunidade humana verdadeiramente universal. O crit\u00e9rio&#8221;o homem todo e todos os homens&#8221;serve para avaliar tamb\u00e9m as culturas e as religi\u00f5es. O cristianismo, religi\u00e3o do&#8221;Deus de rosto humano&#8221;[134], traz em si mesmo tal crit\u00e9rio.<\/p>\n<p>56. A religi\u00e3o crist\u00e3 e as outras religi\u00f5es s\u00f3 podem dar o seu contributo para o desenvolvimento, se Deus encontrar lugar tamb\u00e9m na esfera p\u00fablica, nomeadamente nas dimens\u00f5es cultural, social, econ\u00f3mica e particularmente pol\u00edtica. A doutrina social da Igreja nasceu para reivindicar este&#8221;estatuto de cidadania&#8221;[135] da religi\u00e3o crist\u00e3. A nega\u00e7\u00e3o do direito de professar publicamente a pr\u00f3pria religi\u00e3o e de fazer com que as verdades da f\u00e9 moldem a vida p\u00fablica, acarreta consequ\u00eancias negativas para o verdadeiro desenvolvimento. A exclus\u00e3o da religi\u00e3o do \u00e2mbito p\u00fablico e, na vertente oposta, o fundamentalismo religioso impedem o encontro entre as pessoas e a sua colabora\u00e7\u00e3o para o progresso da humanidade. A vida p\u00fablica torna-se pobre de motiva\u00e7\u00f5es, e a pol\u00edtica assume um rosto oprimente e agressivo. Os direitos humanos correm o risco de n\u00e3o ser respeitados, ou porque ficam privados do seu fundamento transcendente ou porque n\u00e3o \u00e9 reconhecida a liberdade pessoal. No laicismo e no fundamentalismo, perde-se a possibilidade de um di\u00e1logo fecundo e de uma prof\u00edcua colabora\u00e7\u00e3o entre a raz\u00e3o e a f\u00e9 religiosa. A raz\u00e3o tem sempre necessidade de ser purificada pela f\u00e9; e isto vale tamb\u00e9m para a raz\u00e3o pol\u00edtica, que n\u00e3o se deve crer omnipotente. A religi\u00e3o, por sua vez, precisa sempre de ser purificada pela raz\u00e3o, para mostrar o seu aut\u00eantico rosto humano. A ruptura deste di\u00e1logo implica um custo muito gravoso para o desenvolvimento da humanidade.<\/p>\n<p>57. O di\u00e1logo fecundo entre f\u00e9 e raz\u00e3o n\u00e3o pode deixar de tornar mais eficaz a ac\u00e7\u00e3o da caridade na sociedade, e constitui o quadro mais apropriado para incentivar a colabora\u00e7\u00e3o fraterna entre crentes e n\u00e3o crentes na perspectiva comum de trabalhar pela justi\u00e7a e a paz da humanidade. Na constitui\u00e7\u00e3o pastoral Gaudium et spes, os Padres conciliares afirmavam:&#8221;Tudo quanto existe sobre a terra deve ser ordenado em fun\u00e7\u00e3o do homem, como seu centro e seu termo: neste ponto existe um acordo quase geral entre crentes e n\u00e3o crentes&#8221;[136]. Segundo os crentes, o mundo n\u00e3o \u00e9 fruto do acaso nem da necessidade, mas de um projecto de Deus. Daqui nasce o dever que os crentes t\u00eam de unir os seus esfor\u00e7os com todos os homens e mulheres de boa vontade de outras religi\u00f5es ou n\u00e3o crentes, para que este nosso mundo corresponda efectivamente ao projecto divino: viver como uma fam\u00edlia, sob o olhar do seu Criador. Particular manifesta\u00e7\u00e3o da caridade e crit\u00e9rio orientador para a colabora\u00e7\u00e3o fraterna de crentes e n\u00e3o crentes \u00e9, sem d\u00favida, o princ\u00edpio de subsidiariedade[137], express\u00e3o da inalien\u00e1vel liberdade humana. A subsidiariedade \u00e9, antes de mais nada, uma ajuda \u00e0 pessoa, na autonomia dos corpos interm\u00e9dios. Tal ajuda \u00e9 oferecida quando a pessoa e os sujeitos sociais n\u00e3o conseguem operar por si s\u00f3s, e implica sempre finalidades emancipativas, porque favorece a liberdade e a participa\u00e7\u00e3o enquanto assun\u00e7\u00e3o de responsabilidades. A subsidiariedade respeita a dignidade da pessoa, na qual v\u00ea um sujeito sempre capaz de dar algo aos outros. Ao reconhecer na reciprocidade a constitui\u00e7\u00e3o \u00edntima do ser humano, a subsidiariedade \u00e9 o ant\u00eddoto mais eficaz contra toda a forma de assistencialismo paternalista. Pode motivar tanto a m\u00faltipla articula\u00e7\u00e3o dos v\u00e1rios n\u00edveis e consequentemente a pluralidade dos sujeitos, como a sua coordena\u00e7\u00e3o. Trata-se, pois, de um princ\u00edpio particularmente id\u00f3neo para governar a globaliza\u00e7\u00e3o e orient\u00e1-la para um verdadeiro desenvolvimento humano. Para n\u00e3o se gerar um perigoso poder universal de tipo monocr\u00e1tico, o governo da globaliza\u00e7\u00e3o deve ser de tipo subsidi\u00e1rio, articulado segundo v\u00e1rios e diferenciados n\u00edveis que colaborem reciprocamente. A globaliza\u00e7\u00e3o tem necessidade, sem d\u00favida, de autoridade, enquanto p\u00f5e o problema de um bem comum global a alcan\u00e7ar; mas tal autoridade dever\u00e1 ser organizada de modo subsidi\u00e1rio e poli\u00e1rquico[138], seja para n\u00e3o lesar a liberdade, seja para resultar concretamente eficaz.<\/p>\n<p>58. O princ\u00edpio de subsidiariedade h\u00e1-de ser mantido estritamente ligado com o princ\u00edpio de solidariedade e vice-versa, porque, se a subsidiariedade sem a solidariedade decai no particularismo social, a solidariedade sem a subsidiariedade decai no assistencialismo que humilha o sujeito necessitado. Esta regra de car\u00e1cter geral deve ser tida em grande considera\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m quando se enfrentam as tem\u00e1ticas referentes \u00e0s ajudas internacionais destinadas ao desenvolvimento. Estas, independentemente das inten\u00e7\u00f5es dos doadores, podem por vezes manter um povo num estado de depend\u00eancia e at\u00e9 favorecer situa\u00e7\u00f5es de sujei\u00e7\u00e3o local e de explora\u00e7\u00e3o dentro do pa\u00eds ajudado. Para serem verdadeiramente tais, as ajudas econ\u00f3micas n\u00e3o devem visar segundos fins. H\u00e3o-de ser concedidas envolvendo n\u00e3o s\u00f3 os governos dos pa\u00edses interessados, mas tamb\u00e9m os agentes econ\u00f3micos locais e os sujeitos da sociedade civil portadores de cultura, incluindo as Igrejas locais. Os programas de ajuda devem assumir sempre mais as caracter\u00edsticas de programas integrados e participados a partir de baixo. A verdade \u00e9 que o maior recurso a valorizar nos pa\u00edses que s\u00e3o assistidos no desenvolvimento \u00e9 o recurso humano: este \u00e9 o aut\u00eantico capital que se h\u00e1-de fazer crescer para assegurar aos pa\u00edses mais pobres um verdadeiro futuro aut\u00f3nomo. H\u00e1 que recordar tamb\u00e9m que, no campo econ\u00f3mico, a principal ajuda de que t\u00eam necessidade os pa\u00edses em vias de desenvolvimento \u00e9 a de permitir e favorecer a progressiva inser\u00e7\u00e3o dos seus produtos nos mercados internacionais, tornando poss\u00edvel assim a sua plena participa\u00e7\u00e3o na vida econ\u00f3mica internacional. Muitas vezes, no passado, as ajudas serviram apenas para criar mercados marginais para os produtos destes pa\u00edses. Isto, frequentemente, fica a dever-se \u00e0 falta de uma verdadeira procura destes produtos; por isso, \u00e9 necess\u00e1rio ajudar tais pa\u00edses a melhorar os seus produtos e a adapt\u00e1-los melhor \u00e0 procura. Al\u00e9m disso, alguns temem a concorr\u00eancia das importa\u00e7\u00f5es de produtos, normalmente agr\u00edcolas, provenientes dos pa\u00edses economicamente pobres; contudo devem-se recordar que, para estes pa\u00edses, a possibilidade de comercializar tais produtos significa muitas vezes garantir a sua sobreviv\u00eancia a breve e longo prazo. Um com\u00e9rcio internacional justo e equilibrado no campo agr\u00edcola pode trazer benef\u00edcios a todos, quer do lado da oferta quer do lado da procura. Por este motivo, \u00e9 preciso n\u00e3o s\u00f3 orientar comercialmente estas produ\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m estabelecer regras comerciais internacionais que as apoiem e refor\u00e7ar o financiamento ao desenvolvimento para tornar mais produtivas estas economias.<\/p>\n<p>59. A coopera\u00e7\u00e3o no desenvolvimento n\u00e3o deve limitar-se apenas \u00e0 dimens\u00e3o econ\u00f3mica, mas h\u00e1-de tornar-se uma grande ocasi\u00e3o de encontro cultural e humano. Se os sujeitos da coopera\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses economicamente desenvolvidos n\u00e3o t\u00eam em conta \u2014 como \u00e0s vezes sucede \u2014 a identidade cultural, pr\u00f3pria e alheia, feita de valores humanos, n\u00e3o podem instaurar algum di\u00e1logo profundo com os cidad\u00e3os dos pa\u00edses pobres. Se estes, por sua vez, se abrem indiferentemente e sem discernimento a qualquer proposta cultural, ficam sem condi\u00e7\u00f5es para assumir a responsabilidade do seu aut\u00eantico desenvolvimento[139]. As sociedades tecnologicamente avan\u00e7adas n\u00e3o devem confundir o pr\u00f3prio desenvolvimento tecnol\u00f3gico com uma suposta superioridade cultural, mas h\u00e3o-de descobrir em si pr\u00f3prias virtudes, por vezes esquecidas, que as fizeram florescer ao longo da hist\u00f3ria. As sociedades em crescimento devem permanecer fi\u00e9is a tudo o que h\u00e1 de verdadeiramente humano nas suas tradi\u00e7\u00f5es, evitando de lhe sobrepor automaticamente os mecanismos da civiliza\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica globalizada. Existem, em todas as culturas, singulares e variadas converg\u00eancias \u00e9ticas, express\u00e3o de uma mesma natureza humana querida pelo Criador e que a sabedoria \u00e9tica da humanidade chama lei natural[140]. Esta lei moral universal \u00e9 um fundamento firme de todo o di\u00e1logo cultural, religioso e pol\u00edtico e permite que o multiforme pluralismo das v\u00e1rias culturas n\u00e3o se desvie da busca comum da verdade, do bem e de Deus. Por isso, a ades\u00e3o a esta lei escrita nos cora\u00e7\u00f5es \u00e9 o pressuposto de qualquer colabora\u00e7\u00e3o social construtiva. Em todas as culturas existem pesos de que libertar-se, sombras a que subtrair-se. A f\u00e9 crist\u00e3, que se encarna nas culturas transcendendo-as, pode ajud\u00e1-las a crescer na fraterniza\u00e7\u00e3o e solidariedade universais com benef\u00edcio para o desenvolvimento comunit\u00e1rio e mundial.<\/p>\n<p>60. Quando se procurarem solu\u00e7\u00f5es para a crise econ\u00f3mica actual, a ajuda ao desenvolvimento dos pa\u00edses pobres deve ser considerada como verdadeiro instrumento de cria\u00e7\u00e3o de riqueza para todos. Que projecto de ajuda pode abrir perspectivas t\u00e3o significativas de mais valia \u2014 mesmo da economia mundial \u2014 como o apoio a popula\u00e7\u00f5es que se encontram ainda numa fase inicial ou pouco avan\u00e7ada do seu processo de desenvolvimento econ\u00f3mico? Nesta linha, os Estados economicamente mais desenvolvidos h\u00e3o-de fazer o poss\u00edvel por destinar quotas maiores do seu produto interno bruto para as ajudas ao desenvolvimento, respeitando os compromissos que, sobre este ponto, foram tomados a n\u00edvel de comunidade internacional. Poder\u00e3o faz\u00ea-lo inclusivamente revendo as pol\u00edticas internas de assist\u00eancia e de solidariedade social, aplicando-lhes o princ\u00edpio de subsidiariedade e criando sistemas mais integrativos de previd\u00eancia social, com a participa\u00e7\u00e3o activa dos sujeitos privados e da sociedade civil. Deste modo, pode-se at\u00e9 melhorar os servi\u00e7os sociais e de assist\u00eancia e simultaneamente poupar recursos, eliminando desperd\u00edcios e subven\u00e7\u00f5es abusivas, para destinar \u00e0 solidariedade internacional. Um sistema de solidariedade social melhor comparticipado e organizado, menos burocr\u00e1tico sem ficar menos coordenado, permitiria valorizar muitas energias, hoje adormecidas, em benef\u00edcio tamb\u00e9m da solidariedade entre os povos.<br \/>\nUma possibilidade de ajuda para o desenvolvimento poderia derivar da aplica\u00e7\u00e3o eficaz da chamada subsidiariedade fiscal, que permitiria aos cidad\u00e3os decidirem a destina\u00e7\u00e3o de quotas dos seus impostos versados ao Estado. Evitando degenera\u00e7\u00f5es particularistas, isso pode servir de incentivo para formas de solidariedade social a partir de baixo, com \u00f3bvios benef\u00edcios tamb\u00e9m na vertente da solidariedade para o desenvolvimento.<\/p>\n<p>61. Uma solidariedade mais ampla a n\u00edvel internacional exprime-se, antes de mais nada, continuando a promover, mesmo em condi\u00e7\u00f5es de crise econ\u00f3mica, maior acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que esta \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial para a efic\u00e1cia da pr\u00f3pria coopera\u00e7\u00e3o internacional. Com o termo&#8221;educa\u00e7\u00e3o&#8221;, n\u00e3o se pretende referir apenas \u00e0 instru\u00e7\u00e3o escolar ou \u00e0 forma\u00e7\u00e3o para o trabalho \u2014 ambas, causas importantes de desenvolvimento \u2014 mas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o completa da pessoa. A este prop\u00f3sito, deve-se sublinhar um aspecto do problema: para educar, \u00e9 preciso saber quem \u00e9 a pessoa humana, conhecer a sua natureza. A progressiva difus\u00e3o de uma vis\u00e3o relativista desta coloca s\u00e9rios problemas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, sobretudo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o moral, prejudicando a sua extens\u00e3o a n\u00edvel universal. Cedendo a tal relativismo, ficam todos mais pobres, com consequ\u00eancias negativas tamb\u00e9m sobre a efic\u00e1cia da ajuda \u00e0s popula\u00e7\u00f5es mais carecidas, que n\u00e3o t\u00eam necessidade apenas de meios econ\u00f3micos ou t\u00e9cnicos, mas tamb\u00e9m de m\u00e9todos e meios pedag\u00f3gicos que ajudem as pessoas a chegar \u00e0 sua plena realiza\u00e7\u00e3o humana.<br \/>\nUm exemplo da relev\u00e2ncia deste problema temo-lo no fen\u00f3meno do turismo internacional[141], que pode constituir not\u00e1vel factor de desenvolvimento econ\u00f3mico e de crescimento cultural, mas pode tamb\u00e9m transformar-se em ocasi\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o e degrada\u00e7\u00e3o moral. A situa\u00e7\u00e3o actual oferece singulares oportunidades para que os aspectos econ\u00f3micos do desenvolvimento, ou seja, os fluxos de dinheiro e o nascimento em sede local de significativas experi\u00eancias empresariais, cheguem a combinar-se com os aspectos culturais, sendo o educativo o primeiro deles. H\u00e1 casos onde isso ocorre, mas em muitos outros o turismo internacional \u00e9 fen\u00f3meno deseducativo tanto para o turista como para as popula\u00e7\u00f5es locais. Com frequ\u00eancia, estas s\u00e3o confrontadas com comportamentos imorais ou mesmo perversos, como no caso do chamado turismo sexual, em que s\u00e3o sacrificados muitos seres humanos, mesmo de tenra idade. \u00c9 doloroso constatar que isto acontece frequentemente com o aval dos governos locais, com o sil\u00eancio dos governos donde prov\u00eam os turistas e com a cumplicidade de muitos agentes do sector. Mesmo quando n\u00e3o se chega t\u00e3o longe, o turismo internacional n\u00e3o raramente \u00e9 vivido de modo consumista e hedonista, como evas\u00e3o e com modalidades de organiza\u00e7\u00e3o t\u00edpicas dos pa\u00edses de proveni\u00eancia, e assim n\u00e3o se favorece um verdadeiro encontro entre pessoas e culturas. Por isso, \u00e9 preciso pensar num turismo diverso, capaz de promover verdadeiro conhecimento rec\u00edproco, sem tirar espa\u00e7o ao repouso e ao s\u00e3o divertimento: um turismo deste g\u00e9nero h\u00e1-de ser incrementado, gra\u00e7as tamb\u00e9m a uma liga\u00e7\u00e3o mais estreita com as experi\u00eancias de coopera\u00e7\u00e3o internacional e de empresariado para o desenvolvimento.<\/p>\n<p>62. Outro aspecto merecedor de aten\u00e7\u00e3o, ao tratar do desenvolvimento humano integral, \u00e9 o fen\u00f3meno das migra\u00e7\u00f5es. \u00c9 um fen\u00f3meno impressionante pela quantidade de pessoas envolvidas, pelas problem\u00e1ticas sociais, econ\u00f3micas, pol\u00edticas, culturais e religiosas que levanta, pelos desafios dram\u00e1ticos que coloca \u00e0s comunidades nacional e internacional. Pode-se dizer que estamos perante um fen\u00f3meno social de natureza epocal, que requer uma forte e clarividente pol\u00edtica de coopera\u00e7\u00e3o internacional para ser convenientemente enfrentado. Esta pol\u00edtica h\u00e1-de ser desenvolvida a partir de uma estreita colabora\u00e7\u00e3o entre os pa\u00edses donde partem os emigrantes e os pa\u00edses de chegada; h\u00e1-de ser acompanhada por adequadas normativas internacionais capazes de harmonizar os diversos sistemas legislativos, na perspectiva de salvaguardar as exig\u00eancias e os direitos das pessoas e das fam\u00edlias emigradas e, ao mesmo tempo, os das sociedades de chegada dos pr\u00f3prios emigrantes. Nenhum pa\u00eds se pode considerar capaz de enfrentar, sozinho, os problemas migrat\u00f3rios do nosso tempo. Todos somos testemunhas da carga de sofrimentos, contrariedades e aspira\u00e7\u00f5es que acompanha os fluxos migrat\u00f3rios. Como \u00e9 sabido, o fen\u00f3meno \u00e9 de gest\u00e3o complicada; todavia \u00e9 certo que os trabalhadores estrangeiros, n\u00e3o obstante as dificuldades relacionadas com a sua integra\u00e7\u00e3o, prestam com o seu trabalho um contributo significativo para o desenvolvimento econ\u00f3mico do pa\u00eds de acolhimento e tamb\u00e9m do pa\u00eds de origem com as remessas monet\u00e1rias. Obviamente, tais trabalhadores n\u00e3o podem ser considerados como simples mercadoria ou mera for\u00e7a de trabalho; por isso, n\u00e3o devem ser tratados como qualquer outro factor de produ\u00e7\u00e3o. Todo o imigrante \u00e9 uma pessoa humana e, enquanto tal, possui direitos fundamentais inalien\u00e1veis que h\u00e3o-de ser respeitados por todos em qualquer situa\u00e7\u00e3o[142].<\/p>\n<p>63. Ao considerar os problemas do desenvolvimento, n\u00e3o se pode deixar de p\u00f4r em evid\u00eancia o nexo directo entre pobreza e desemprego. Em muitos casos, os pobres s\u00e3o o resultado daviola\u00e7\u00e3o da dignidade do trabalho humano, seja porque as suas possibilidades s\u00e3o limitadas (desemprego, subemprego), seja porque s\u00e3o desvalorizados&#8221;os direitos que dele brotam, especialmente o direito ao justo sal\u00e1rio, \u00e0 seguran\u00e7a da pessoa do trabalhador e da sua fam\u00edlia&#8221;[143]. Por isso, j\u00e1 no dia 1 de Maio de 2000, o meu predecessor Jo\u00e3o Paulo II, de venerada mem\u00f3ria, lan\u00e7ou um apelo, por ocasi\u00e3o do Jubileu dos Trabalhadores, para&#8221;uma coliga\u00e7\u00e3o mundial em favor do trabalho decente&#8221;[144], encorajando a estrat\u00e9gia da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho. Conferia, assim, uma forte val\u00eancia moral a este objectivo, enquanto aspira\u00e7\u00e3o das fam\u00edlias em todos os pa\u00edses do mundo. Qual \u00e9 o significado da palavra&#8221;dec\u00eancia&#8221;aplicada ao trabalho? Significa um trabalho que, em cada sociedade, seja a express\u00e3o da dignidade essencial de todo o homem e mulher: um trabalho escolhido livremente, que associe eficazmente os trabalhadores, homens e mulheres, ao desenvolvimento da sua comunidade; um trabalho que, deste modo, permita aos trabalhadores serem respeitados sem qualquer discrimina\u00e7\u00e3o; um trabalho que consinta satisfazer as necessidades das fam\u00edlias e dar a escolaridade aos filhos, sem que estes sejam constrangidos a trabalhar; um trabalho que permita aos trabalhadores organizarem-se livremente e fazerem ouvir a sua voz; um trabalho que deixe espa\u00e7o suficiente para reencontrar as pr\u00f3prias ra\u00edzes a n\u00edvel pessoal familiar e espiritual; um trabalho que assegure aos trabalhadores aposentados uma condi\u00e7\u00e3o decorosa.<\/p>\n<p>64. Ao reflectir sobre este tema do trabalho, \u00e9 oportuna uma chamada de aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m para a urgente necessidade de as organiza\u00e7\u00f5es sindicais dos trabalhadores \u2013 desde sempre encorajadas e apoiadas pela Igreja \u2014 se abrirem \u00e0s novas perspectivas que surgem no \u00e2mbito laboral. Superando as limita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias dos sindicatos de categoria, as organiza\u00e7\u00f5es sindicais s\u00e3o chamadas a responsabilizar-se pelos novos problemas das nossas sociedades: refiro-me, por exemplo, ao conjunto de quest\u00f5es que os peritos de ci\u00eancias sociais identificam no conflito entre pessoa-trabalhadora e pessoa-consumidora. Sem ter necessariamente de abra\u00e7ar a tese duma efectiva passagem da centralidade do trabalhador para a do consumidor, parece em todo o caso que tamb\u00e9m este seja um terreno para experi\u00eancias sindicais inovadoras. O contexto global em que se realiza o trabalho requer igualmente que as organiza\u00e7\u00f5es sindicais nacionais, fechadas prevalentemente na defesa dos interesses dos pr\u00f3prios inscritos, volvam o olhar tamb\u00e9m para os n\u00e3o inscritos, particularmente para os trabalhadores dos pa\u00edses em vias de desenvolvimento, onde frequentemente os direitos sociais s\u00e3o violados. A defesa destes trabalhadores, promovida com oportunas iniciativas tamb\u00e9m nos pa\u00edses de origem, permitir\u00e1 \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es sindicais porem em evid\u00eancia as aut\u00eanticas raz\u00f5es \u00e9ticas e culturais que lhes consentiram, em contextos sociais e laborais diferentes, ser um factor decisivo para o desenvolvimento. Continua sempre v\u00e1lido o ensinamento da Igreja que prop\u00f5e a distin\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is e fun\u00e7\u00f5es entre sindicato e pol\u00edtica. Esta distin\u00e7\u00e3o possibilitar\u00e1 \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es sindicais individualizarem na sociedade civil o \u00e2mbito mais ajustado para a sua ac\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria de defesa e promo\u00e7\u00e3o do mundo do trabalho, sobretudo a favor dos trabalhadores explorados e n\u00e3o representados, cuja amarga condi\u00e7\u00e3o resulta frequentemente ignorada pelo olhar distra\u00eddo da sociedade.<\/p>\n<p>65. Em seguida, \u00e9 preciso que as finan\u00e7as enquanto tais \u2014 com estruturas e modalidades de funcionamento necessariamente renovadas depois da sua m\u00e1 utiliza\u00e7\u00e3o que prejudicou a economia real \u2014 voltem a ser um instrumento que tenha em vista a melhor produ\u00e7\u00e3o de riqueza e o desenvolvimento. Enquanto instrumentos, a economia e as finan\u00e7as em toda a respectiva extens\u00e3o, e n\u00e3o apenas em alguns dos seus sectores, devem ser utilizadas de modo \u00e9tico a fim de criar as condi\u00e7\u00f5es adequadas para o desenvolvimento do homem e dos povos. \u00c9 certamente \u00fatil, sen\u00e3o mesmo indispens\u00e1vel em certas circunst\u00e2ncias, dar vida a iniciativas financeiras nas quais predomine a dimens\u00e3o humanit\u00e1ria. Isto, por\u00e9m, n\u00e3o deve fazer esquecer que o inteiro sistema financeiro deve ser orientado para dar apoio a um verdadeiro desenvolvimento. Sobretudo, \u00e9 necess\u00e1rio que n\u00e3o se contraponha o intuito de fazer o bem ao da efectiva capacidade de produzir bens. Os operadores das finan\u00e7as devem redescobrir o fundamento \u00e9tico pr\u00f3prio da sua actividade, para n\u00e3o abusarem de instrumentos sofisticados que possam atrai\u00e7oar os aforradores. Recta inten\u00e7\u00e3o, transpar\u00eancia e busca de bons resultados s\u00e3o compat\u00edveis entre si e n\u00e3o devem jamais ser separados. Se o amor \u00e9 inteligente, sabe encontrar tamb\u00e9m os modos para agir segundo uma previdente e justa conveni\u00eancia, como significativamente indicam muitas experi\u00eancias no campo do cr\u00e9dito cooperativo.<br \/>\nTanto uma regulamenta\u00e7\u00e3o do sector capaz de assegurar os sujeitos mais d\u00e9beis e impedir escandalosas especula\u00e7\u00f5es, como a experimenta\u00e7\u00e3o de novas formas de financiamento destinadas a favorecer projectos de desenvolvimento, s\u00e3o experi\u00eancias positivas que h\u00e3o-de ser aprofundadas e encorajadas, invocando a responsabilidade pr\u00f3pria do aforrador. Tamb\u00e9m aexperi\u00eancia do micro-financiamento, que mergulha as pr\u00f3prias ra\u00edzes na reflex\u00e3o e nas obras dos humanistas civis (penso nomeadamente no nascimento dos montepios), h\u00e1-de ser revigorada e sistematizada, sobretudo nestes tempos em que os problemas financeiros podem tornar-se dram\u00e1ticos para muitos sectores mais vulner\u00e1veis da popula\u00e7\u00e3o, que devem ser tutelados dos riscos de usura ou do desespero. Os sujeitos mais d\u00e9beis h\u00e3o-de ser educados para se defender da usura, do mesmo modo que os povos pobres devem ser educados para tirar real vantagem do micro-cr\u00e9dito, desencorajando assim as formas de explora\u00e7\u00e3o poss\u00edveis nestes dois campos. Uma vez que existem novas formas de pobreza tamb\u00e9m nos pa\u00edses ricos, o micro-financiamento pode proporcionar ajudas concretas para a cria\u00e7\u00e3o de iniciativas e sectores novos em favor das classes d\u00e9beis da sociedade mesmo numa fase de poss\u00edvel empobrecimento da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p>66. A interliga\u00e7\u00e3o mundial fez surgir um novo poder pol\u00edtico: o dos consumidores e das suas associa\u00e7\u00f5es. Trata-se de um fen\u00f3meno carecido de aprofundamento, com elementos positivos que h\u00e3o-de ser incentivados e excessos que se devem evitar. \u00c9 bom que as pessoas ganhem consci\u00eancia de que a ac\u00e7\u00e3o de comprar \u00e9 sempre um acto moral, para al\u00e9m de econ\u00f3mico. Por isso, ao lado da responsabilidade social da empresa, h\u00e1 uma espec\u00edfica responsabilidade social do consumidor. Este h\u00e1-de ser educado[145], sem cessar, para o papel que exerce diariamente e que pode desempenhar no respeito dos princ\u00edpios morais, sem diminuir a racionalidade econ\u00f3mica intr\u00ednseca ao acto de comprar. Tamb\u00e9m no sector das compras \u2014 precisamente em tempos como os que se est\u00e3o experimentando e que v\u00eaem o poder de compra reduzir-se, devendo por conseguinte consumir com maior sobriedade \u2014 \u00e9 necess\u00e1rio percorrer outras estradas como, por exemplo, formas de coopera\u00e7\u00e3o para as compras \u00e0 semelhan\u00e7a das cooperativas de consumo activas a partir do s\u00e9culo XIX gra\u00e7as \u00e0 iniciativa dos cat\u00f3licos. Al\u00e9m disso, \u00e9 \u00fatil favorecer formas novas de comercializa\u00e7\u00e3o de produtos provenientes de \u00e1reas pobres da terra para garantir uma retribui\u00e7\u00e3o decente aos produtores, contanto que se trate de um mercado verdadeiramente transparente, que os produtores n\u00e3o usufruam apenas de uma margem maior de lucro mas tamb\u00e9m de maior forma\u00e7\u00e3o, profissionaliza\u00e7\u00e3o e tecnologia, e que, enfim, n\u00e3o se incluam em tais experi\u00eancias de economia vis\u00f5es ideol\u00f3gicas de parte. Um papel mais incisivo dos consumidores, desde que n\u00e3o sejam eles pr\u00f3prios manipulados por associa\u00e7\u00f5es n\u00e3o verdadeiramente representativas, \u00e9 desej\u00e1vel como factor de democracia econ\u00f3mica.<\/p>\n<p>67. Perante o crescimento incessante da interdepend\u00eancia mundial, sente-se imenso \u2014 mesmo no meio de uma recess\u00e3o igualmente mundial \u2014 a urg\u00eancia de uma reforma quer daOrganiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas quer da arquitectura econ\u00f3mica e financeira internacional, para que seja poss\u00edvel uma real concretiza\u00e7\u00e3o do conceito de fam\u00edlia de na\u00e7\u00f5es. De igual modo sente-se a urg\u00eancia de encontrar formas inovadoras para actuar o princ\u00edpio da responsabilidade de proteger [146] e para atribuir tamb\u00e9m \u00e0s na\u00e7\u00f5es mais pobres uma voz eficaz nas decis\u00f5es comuns. Isto revela-se necess\u00e1rio precisamente no \u00e2mbito de um ordenamento pol\u00edtico, jur\u00eddico e econ\u00f3mico que incremente e guie a colabora\u00e7\u00e3o internacional para o desenvolvimento solid\u00e1rio de todos os povos. Para o governo da economia mundial, para sanar as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da mesma e em consequ\u00eancia maiores desequil\u00edbrios, para realizar um oportuno e integral desarmamento, a seguran\u00e7a alimentar e a paz, para garantir a salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migrat\u00f3rios urge a presen\u00e7a de uma verdadeira Autoridade pol\u00edtica mundial, delineada j\u00e1 pelo meu predecessor, o Beato Jo\u00e3o XXIII. A referida Autoridade dever\u00e1 regular-se pelo direito, ater-se coerentemente aos princ\u00edpios de subsidiariedade e solidariedade, estar orientada para a consecu\u00e7\u00e3o do bem comum[147], comprometer-se na realiza\u00e7\u00e3o de um aut\u00eantico desenvolvimento humano integral inspirado nos valores da caridade na verdade. Al\u00e9m disso, uma tal Autoridade dever\u00e1 ser reconhecida por todos, gozar de poder efectivo para garantir a cada um a seguran\u00e7a, a observ\u00e2ncia da justi\u00e7a, o respeito dos direitos[148]. Obviamente, deve gozar da faculdade de fazer com que as partes respeitem as pr\u00f3prias decis\u00f5es, bem como as medidas coordenadas e adoptadas nos diversos f\u00f3runs internacionais. \u00c9 que, se isso faltasse, o direito internacional, n\u00e3o obstante os grandes progressos realizados nos v\u00e1rios campos, correria o risco de ser condicionado pelos equil\u00edbrios de poder entre os mais fortes. O desenvolvimento integral dos povos e a colabora\u00e7\u00e3o internacional exigem que seja institu\u00eddo um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidi\u00e1rio para o governo da globaliza\u00e7\u00e3o [149] e que se d\u00ea finalmente actua\u00e7\u00e3o a uma ordem social conforme \u00e0 ordem moral e \u00e0quela liga\u00e7\u00e3o entre esfera moral e social, entre pol\u00edtica e esfera econ\u00f3mica e civil que aparece j\u00e1 perspectivada no Estatuto das Na\u00e7\u00f5es Unidas.<\/p>\n<p>CAP\u00cdTULO VI<br \/>\nO DESENVOLVIMENTO DOS POVOS E A T\u00c9CNICA<\/p>\n<p>68. O tema do desenvolvimento dos povos est\u00e1 intimamente ligado com o do desenvolvimento de cada indiv\u00edduo. Por sua natureza, a pessoa humana est\u00e1 dinamicamente orientada para o pr\u00f3prio desenvolvimento. N\u00e3o se trata de um desenvolvimento garantido por mecanismos naturais, porque cada um de n\u00f3s sabe que \u00e9 capaz de realizar op\u00e7\u00f5es livres e respons\u00e1veis; tamb\u00e9m n\u00e3o se trata de um desenvolvimento \u00e0 merc\u00ea do nosso capricho, enquanto todos sabemos que somos dom e n\u00e3o resultado de auto-gera\u00e7\u00e3o. Em n\u00f3s, a liberdade \u00e9 originariamente caracterizada pelo nosso ser e pelos seus limites. Ningu\u00e9m plasma arbitrariamente a pr\u00f3pria consci\u00eancia, mas todos formam a pr\u00f3pria personalidade sobre a base duma natureza que lhe foi dada. N\u00e3o s\u00e3o apenas as outras pessoas que s\u00e3o indispon\u00edveis; tamb\u00e9m n\u00f3s n\u00e3o podemos dispor arbitrariamente de n\u00f3s mesmos. O desenvolvimento da pessoa degrada-se, se ela pretende ser a \u00fanica produtora de si mesma. De igual modo, degenera o desenvolvimento dos povos, se a humanidade pensa que se pode re-criar valendo-se dos&#8221;prod\u00edgios&#8221;da tecnologia. Analogamente, o progresso econ\u00f3mico revela-se fict\u00edcio e danoso quando se abandona aos&#8221;prod\u00edgios&#8221;das finan\u00e7as para apoiar incrementos artificiais e consumistas. Perante esta pretens\u00e3o prometeica, devemos robustecer o amor por uma liberdade n\u00e3o arbitr\u00e1ria, mas tornada verdadeiramente humana pelo reconhecimento do bem que a precede. Com tal objectivo, \u00e9 preciso que o homem reentre em si mesmo, para reconhecer as normas fundamentais da lei moral natural que Deus inscreveu no seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>69. Hoje, o problema do desenvolvimento est\u00e1 estreitamente unido com o progresso tecnol\u00f3gico, com as suas deslumbrantes aplica\u00e7\u00f5es no campo biol\u00f3gico. A t\u00e9cnica \u2014 \u00e9 bom sublinh\u00e1-lo \u2014 \u00e9 um dado profundamente humano, ligado \u00e0 autonomia e \u00e0 liberdade do homem. Nela exprime-se e confirma-se o dom\u00ednio do esp\u00edrito sobre a mat\u00e9ria. O esp\u00edrito,&#8221;tornando-se assim \u2018\u2018mais liberto da escravid\u00e3o das coisas, pode facilmente elevar-se ao culto e \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o do Criador&#8221;&#8221;[150]. A t\u00e9cnica permite dominar a mat\u00e9ria, reduzir os riscos, poupar fadigas, melhorar as condi\u00e7\u00f5es de vida. D\u00e1 resposta \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o do trabalho humano: na t\u00e9cnica, considerada como obra do g\u00e9nio pessoal, o homem reconhece-se a si mesmo e realiza a pr\u00f3pria humanidade. A t\u00e9cnica \u00e9 o aspecto objectivo do agir humano[151], cuja origem e raz\u00e3o de ser est\u00e3o no elemento subjectivo: o homem que actua. Por isso, aquela nunca \u00e9 simplesmente t\u00e9cnica; mas manifesta o homem e as suas aspira\u00e7\u00f5es ao desenvolvimento, exprime a tens\u00e3o do \u00e2nimo humano para uma gradual supera\u00e7\u00e3o de certos condicionamentos materiais. Assim, a t\u00e9cnica insere-se no mandato de&#8221;cultivar e guardar a terra&#8221;(Gn 2, 15) que Deus confiou ao homem, e h\u00e1-de ser orientada para refor\u00e7ar aquela alian\u00e7a entre ser humano e ambiente em que se deve reflectir o amor criador de Deus.<\/p>\n<p>70. O desenvolvimento tecnol\u00f3gico pode induzir \u00e0 ideia de auto-sufici\u00eancia da pr\u00f3pria t\u00e9cnica, quando o homem, interrogando-se apenas sobre o como, deixa de considerar os muitosporqu\u00eas pelos quais \u00e9 impelido a agir. Por isso, a t\u00e9cnica apresenta-se com uma fisionomia amb\u00edgua. Nascida da criatividade humana como instrumento da liberdade da pessoa, pode ser entendida como elemento de liberdade absoluta; aquela liberdade que quer prescindir dos limites que as coisas trazem consigo. O processo de globaliza\u00e7\u00e3o poderia substituir as ideologias com a t\u00e9cnica[152], passando esta a ser um poder ideol\u00f3gico que exporia a humanidade ao risco de se ver fechada dentro de um a priori do qual n\u00e3o poderia sair para encontrar o ser e a verdade. Em tal caso, todos n\u00f3s conhecer\u00edamos, avaliar\u00edamos e decidir\u00edamos as situa\u00e7\u00f5es da nossa vida a partir do interior de um horizonte cultural tecnocr\u00e1tico, ao qual pertencer\u00edamos estruturalmente, sem poder jamais encontrar um sentido que n\u00e3o fosse produzido por n\u00f3s. Esta vis\u00e3o torna hoje t\u00e3o forte a mentalidade tecnicista que faz coincidir a verdade com o fact\u00edvel. Mas, quando o \u00fanico crit\u00e9rio da verdade \u00e9 a efici\u00eancia e a utilidade, o desenvolvimento acaba automaticamente negado. De facto, o verdadeiro desenvolvimento n\u00e3o consiste primariamente no fazer; a chave do desenvolvimento \u00e9 uma intelig\u00eancia capaz de pensar a t\u00e9cnica e de individualizar o sentido plenamente humano do agir do homem, no horizonte de sentido da pessoa vista na globalidade do seu ser. Mesmo quando actua mediante um sat\u00e9lite ou um comando electr\u00f3nico \u00e0 dist\u00e2ncia, o seu agir continua sempre humano, express\u00e3o de uma liberdade respons\u00e1vel. A t\u00e9cnica seduz intensamente o homem, porque o livra das limita\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e alarga o seu horizonte. Mas a liberdade humana s\u00f3 o \u00e9 propriamente quando responde \u00e0 sedu\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica com decis\u00f5es que sejam fruto de responsabilidade moral. Daqui, a urg\u00eancia de uma forma\u00e7\u00e3o para a responsabilidade \u00e9tica no uso da t\u00e9cnica. A partir do fasc\u00ednio que a t\u00e9cnica exerce sobre o ser humano, deve-se recuperar o verdadeiro sentido da liberdade, que n\u00e3o consiste no inebriamento de uma autonomia total, mas na resposta ao apelo do ser, a come\u00e7ar pelo ser que somos n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p>71. Esta possibilidade da mentalidade t\u00e9cnica se desviar do seu origin\u00e1rio \u00e1lveo humanista ressalta, hoje, nos fen\u00f3menos da tecniciza\u00e7\u00e3o do desenvolvimento e da paz. Frequentemente o desenvolvimento dos povos \u00e9 considerado um problema de engenharia financeira, de abertura dos mercados, de redu\u00e7\u00e3o das tarifas aduaneiras, de investimentos produtivos, de reformas institucionais; em suma, um problema apenas t\u00e9cnico. Todos estes \u00e2mbitos s\u00e3o muito importantes, mas n\u00e3o podemos deixar de interrogar-nos por que motivo, at\u00e9 agora, as op\u00e7\u00f5es de tipo t\u00e9cnico tenham resultado apenas de modo relativo. A raz\u00e3o h\u00e1-de ser procurada mais profundamente. O desenvolvimento n\u00e3o ser\u00e1 jamais garantido completamente por for\u00e7as de certo modo autom\u00e1ticas e impessoais, sejam elas as do mercado ou as da pol\u00edtica internacional.O desenvolvimento \u00e9 imposs\u00edvel sem homens rectos, sem operadores econ\u00f3micos e homens pol\u00edticos que sintam intensamente em suas consci\u00eancias o apelo do bem comum. S\u00e3o necess\u00e1rias tanto a prepara\u00e7\u00e3o profissional como a coer\u00eancia moral. Quando prevalece a absolutiza\u00e7\u00e3o da t\u00e9cnica, verifica-se uma confus\u00e3o entre fins e meios: como \u00fanico crit\u00e9rio de ac\u00e7\u00e3o, o empres\u00e1rio considerar\u00e1 o m\u00e1ximo lucro da produ\u00e7\u00e3o; o pol\u00edtico, a consolida\u00e7\u00e3o do poder; o cientista, o resultado das suas descobertas. Deste modo sucede frequentemente que, sob a rede das rela\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, financeiras ou pol\u00edticas, persistem incompreens\u00f5es, contrariedades e injusti\u00e7as; os fluxos dos conhecimentos t\u00e9cnicos multiplicam-se, mas em benef\u00edcio dos seus propriet\u00e1rios, enquanto a situa\u00e7\u00e3o real das popula\u00e7\u00f5es que vivem sob tais influxos, e quase sempre na sua ignor\u00e2ncia, permanece imut\u00e1vel e sem efectivas possibilidades de emancipa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>72. \u00c0s vezes, tamb\u00e9m a paz corre o risco de ser considerada como uma produ\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, fruto apenas de acordos entre governos ou de iniciativas tendentes a assegurar ajudas econ\u00f3micas eficientes. \u00c9 verdade que a constru\u00e7\u00e3o da paz exige um constante tecimento de contactos diplom\u00e1ticos, interc\u00e2mbios econ\u00f3micos e tecnol\u00f3gicos, encontros culturais, acordos sobre projectos comuns, e tamb\u00e9m a assun\u00e7\u00e3o de empenhos compartilhados para conter as amea\u00e7as de tipo b\u00e9lico e cercear \u00e0 nascen\u00e7a eventuais tenta\u00e7\u00f5es terroristas. Mas, para que tais esfor\u00e7os possam produzir efeitos duradouros, \u00e9 necess\u00e1rio que se apoiem sobre valores radicados na verdade da vida. Por outras palavras, \u00e9 preciso ouvir a voz das popula\u00e7\u00f5es interessadas e atender \u00e0 situa\u00e7\u00e3o delas para interpretar adequadamente os seus anseios. De certo modo, deve-se colocar em continuidade com o esfor\u00e7o an\u00f3nimo de tantas pessoas decididamente comprometidas a promover o encontro entre os povos e a favorecer o desenvolvimento partindo do amor e da compreens\u00e3o rec\u00edproca. Entre tais pessoas, contam-se tamb\u00e9m fi\u00e9is crist\u00e3os, empenhados na grande tarefa de dar ao desenvolvimento e \u00e0 paz um sentido plenamente humano.<\/p>\n<p>73. Ligada ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico est\u00e1 a crescente presen\u00e7a dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social. J\u00e1 \u00e9 quase imposs\u00edvel imaginar a exist\u00eancia da fam\u00edlia humana sem eles. No bem e no mal, est\u00e3o de tal modo encarnados na vida do mundo, que parece verdadeiramente absurda a posi\u00e7\u00e3o de quantos defendem a sua neutralidade, reivindicando em consequ\u00eancia a sua autonomia relativamente \u00e0 moral que diria respeito \u00e0s pessoas. Muitas vezes tais perspectivas, que enfatizam a natureza estritamente t\u00e9cnica dos mass-media, de facto favorecem a sua subordina\u00e7\u00e3o a c\u00e1lculos econ\u00f3micos, ao intuito de dominar os mercados e, n\u00e3o \u00faltimo, ao desejo de impor par\u00e2metros culturais em fun\u00e7\u00e3o de projectos de poder ideol\u00f3gico e pol\u00edtico. Dada a import\u00e2ncia fundamental que t\u00eam na determina\u00e7\u00e3o de altera\u00e7\u00f5es no modo de ler e conhecer a realidade e a pr\u00f3pria pessoa humana, torna-se necess\u00e1ria uma atenta reflex\u00e3o sobre a sua influ\u00eancia principalmente na dimens\u00e3o \u00e9tico-cultural da globaliza\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento solid\u00e1rio dos povos. Como requerido por uma correcta gest\u00e3o da globaliza\u00e7\u00e3o e do desenvolvimento, o sentido e a finalidade dos mass-media devem ser buscados no fundamento antropol\u00f3gico. Isto quer dizer que os mesmos podem tornar-seocasi\u00e3o de humaniza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 quando, gra\u00e7as ao desenvolvimento tecnol\u00f3gico, oferecem maiores possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m e sobretudo quando s\u00e3o organizados e orientados \u00e0 luz de uma imagem da pessoa e do bem comum que traduza os seus valores universais. Os meios de comunica\u00e7\u00e3o social n\u00e3o favorecem a liberdade nem globalizam o desenvolvimento e a democracia para todos, simplesmente porque multiplicam as possibilidades de interliga\u00e7\u00e3o e circula\u00e7\u00e3o das ideias; para alcan\u00e7ar tais objectivos, \u00e9 preciso que estejam centrados na promo\u00e7\u00e3o da dignidade das pessoas e dos povos, animados expressamente pela caridade e colocados ao servi\u00e7o da verdade, do bem e da fraternidade natural e sobrenatural. De facto, na humanidade, a liberdade est\u00e1 intrinsecamente ligada a estes valores superiores. Os mass-media podem constituir uma v\u00e1lida ajuda para fazer crescer a comunh\u00e3o da fam\u00edlia humana e o ethos das sociedades, quando se tornam instrumentos de promo\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o universal na busca comum daquilo que \u00e9 justo.<\/p>\n<p>74. Hoje, um campo prim\u00e1rio e crucial da luta cultural entre o absolutismo da t\u00e9cnica e a responsabilidade moral do homem \u00e9 o da bio\u00e9tica, onde se joga radicalmente a pr\u00f3pria possibilidade de um desenvolvimento humano integral. Trata-se de um \u00e2mbito delicad\u00edssimo e decisivo, onde irrompe, com dram\u00e1tica intensidade, a quest\u00e3o fundamental de saber se o homem se produziu por si mesmo ou depende de Deus. As descobertas cient\u00edficas neste campo e as possibilidades de interven\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica parecem t\u00e3o avan\u00e7adas que imp\u00f5em a escolha entre estas duas concep\u00e7\u00f5es: a da raz\u00e3o aberta \u00e0 transcend\u00eancia ou a da raz\u00e3o fechada na iman\u00eancia. Est\u00e1-se perante uma op\u00e7\u00e3o decisiva. No entanto a concep\u00e7\u00e3o racional da tecnologia centrada sobre si mesma apresenta-se como irracional, porque implica uma decidida rejei\u00e7\u00e3o do sentido e do valor. N\u00e3o \u00e9 por acaso que a posi\u00e7\u00e3o fechada \u00e0 transcend\u00eancia se defronta com a dificuldade de pensar como tenha sido poss\u00edvel do nada ter brotado o ser e do acaso ter nascido a intelig\u00eancia[153]. Face a estes dram\u00e1ticos problemas, raz\u00e3o e f\u00e9 ajudam-se mutuamente; e s\u00f3 conjuntamente salvar\u00e3o o homem: fascinada pela pura tecnologia, a raz\u00e3o sem a f\u00e9 est\u00e1 destinada a perder-se na ilus\u00e3o da pr\u00f3pria omnipot\u00eancia, enquanto a f\u00e9 sem a raz\u00e3o corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas[154].<\/p>\n<p>75. Paulo VI j\u00e1 tinha reconhecido e indicado o horizonte mundial da quest\u00e3o social[155]. Prosseguindo por esta estrada, \u00e9 preciso afirmar que hoje a quest\u00e3o social tornou-se radicalmente antropol\u00f3gica, enquanto toca o pr\u00f3prio modo n\u00e3o s\u00f3 de conceber mas tamb\u00e9m de manipular a vida, colocada cada vez mais nas m\u00e3os do homem pelas biotecnologias. A fecunda\u00e7\u00e3o in vitro, a pesquisa sobre os embri\u00f5es, a possibilidade da clonagem e hibrida\u00e7\u00e3o humana nascem e promovem-se na actual cultura do desencanto total, que pensa ter desvendado todos os mist\u00e9rios porque j\u00e1 se chegou \u00e0 raiz da vida. Aqui o absolutismo da t\u00e9cnica encontra a sua m\u00e1xima express\u00e3o. Em tal cultura, a consci\u00eancia \u00e9 chamada apenas a registar uma mera possibilidade t\u00e9cnica. Contudo n\u00e3o se pode minimizar os cen\u00e1rios inquietantes para o futuro do homem e os novos e poderosos instrumentos que a&#8221;cultura da morte&#8221;tem \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o. \u00c0 difusa e tr\u00e1gica chaga do aborto poder-se-ia juntar no futuro \u2014 embora sub-repticiamente j\u00e1 esteja presente in nuce \u2014 uma sistem\u00e1tica planifica\u00e7\u00e3o eugen\u00e9tica dos nascimentos. No extremo oposto, vai abrindo caminho uma mens eutanasica, manifesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o menos abusiva de dom\u00ednio sobre a vida, que \u00e9 considerada, em certas condi\u00e7\u00f5es, como n\u00e3o digna de ser vivida. Por detr\u00e1s destes cen\u00e1rios encontram-se posi\u00e7\u00f5es culturais negacionistas da dignidade humana. Por sua vez, estas pr\u00e1ticas est\u00e3o destinadas a alimentar uma concep\u00e7\u00e3o material e mecanicista da vida humana. Quem poder\u00e1 medir os efeitos negativos de tal mentalidade sobre o desenvolvimento? Como poder\u00e1 algu\u00e9m maravilhar-se com a indiferen\u00e7a diante de situa\u00e7\u00f5es humanas de degrada\u00e7\u00e3o, quando se comporta indiferentemente com o que \u00e9 humano e com aquilo que n\u00e3o o \u00e9? Maravilha a selec\u00e7\u00e3o arbitr\u00e1ria do que hoje \u00e9 proposto como digno de respeito: muitos, prontos a escandalizar-se por coisas marginais, parecem tolerar injusti\u00e7as inauditas. Enquanto os pobres do mundo batem \u00e0s portas da opul\u00eancia, o mundo rico corre o risco de deixar de ouvir tais apelos \u00e0 sua porta por causa de uma consci\u00eancia j\u00e1 incapaz de reconhecer o humano. Deus revela o homem ao homem; a raz\u00e3o e a f\u00e9 colaboram para lhe mostrar o bem, desde que o queira ver; a lei natural, na qual reluz a Raz\u00e3o criadora, indica a grandeza do homem, mas tamb\u00e9m a sua mis\u00e9ria quando ele desconhece o apelo da verdade moral.<\/p>\n<p>76. Um dos aspectos do esp\u00edrito tecnicista moderno \u00e9 palp\u00e1vel na propens\u00e3o a considerar os problemas e as mo\u00e7\u00f5es ligados \u00e0 vida interior somente do ponto de vista psicol\u00f3gico, chegando-se mesmo ao reducionismo neurol\u00f3gico. Assim esvazia-se a interioridade do homem e, progressivamente, vai-se perdendo a no\u00e7\u00e3o da consist\u00eancia ontol\u00f3gica da alma humana, com as profundidades que os Santos souberam p\u00f4r a descoberto. O problema do desenvolvimento est\u00e1 estritamente ligado tamb\u00e9m com a nossa concep\u00e7\u00e3o da alma do homem, uma vez que o nosso eu acaba muitas vezes reduzido ao ps\u00edquico, e a sa\u00fade da alma \u00e9 confundida com o bem-estar emotivo. Na base, estas redu\u00e7\u00f5es t\u00eam uma profunda incompreens\u00e3o da vida espiritual e levam-nos a ignorar que o desenvolvimento do homem e dos povos depende verdadeiramente tamb\u00e9m da solu\u00e7\u00e3o dos problemas de car\u00e1cter espiritual. Al\u00e9m do crescimento material, o desenvolvimento deve incluir o espiritual, porque a pessoa humana \u00e9&#8221;um ser uno, composto de alma e corpo&#8221;[156], nascido do amor criador de Deus e destinado a viver eternamente. O ser humano desenvolve-se quando cresce no esp\u00edrito, quando a sua alma se conhece a si mesma e apreende as verdades que Deus nela imprimiu em g\u00e9rmen, quando dialoga consigo mesma e com o seu Criador. Longe de Deus, o homem vive inquieto e est\u00e1 mal. A aliena\u00e7\u00e3o social e psicol\u00f3gica e as in\u00fameras neuroses que caracterizam as sociedades opulentas devem-se tamb\u00e9m a causas de ordem espiritual. Uma sociedade do bem-estar, materialmente desenvolvida mas oprimente para a alma, de per si n\u00e3o est\u00e1 orientada para o aut\u00eantico desenvolvimento. As novas formas de escravid\u00e3o da droga e o desespero em que caiem tantas pessoas t\u00eam uma explica\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 sociol\u00f3gica e psicol\u00f3gica, mas essencialmente espiritual. O vazio em que a alma se sente abandonada, embora no meio de tantas terapias para o corpo e para o ps\u00edquico, gera sofrimento. N\u00e3o h\u00e1 desenvolvimento pleno nem bem comum universal sem o bem espiritual e moral das pessoas, consideradas na sua totalidade de alma e corpo.<\/p>\n<p>77. O absolutismo da t\u00e9cnica tende a produzir uma incapacidade de perceber aquilo que n\u00e3o se explica meramente pela mat\u00e9ria; e, no entanto, todos os homens experimentam os numerosos aspectos imateriais e espirituais da sua vida. Conhecer n\u00e3o \u00e9 um acto apenas material, porque o conhecido esconde sempre algo que est\u00e1 para al\u00e9m do dado emp\u00edrico. Todo o nosso conhecimento, mesmo o mais simples, \u00e9 sempre um pequeno prod\u00edgio, porque nunca se explica completamente com os instrumentos materiais que utilizamos. Em cada verdade, h\u00e1 sempre mais do que n\u00f3s mesmos ter\u00edamos esperado; no amor que recebemos, h\u00e1 sempre qualquer coisa que nos surpreende. N\u00e3o deveremos cessar jamais de maravilhar-nos diante destes prod\u00edgios. Em cada conhecimento e em cada acto de amor, a alma do homem experimenta um&#8221;extra&#8221;que se assemelha muito a um dom recebido, a uma altura para a qual nos sentimos atra\u00eddos. Tamb\u00e9m o desenvolvimento do homem e dos povos se coloca a uma tal altura, se considerarmos a dimens\u00e3o espiritual que deve necessariamente conotar aquele para que possa ser aut\u00eantico. Este requer olhos novos e um cora\u00e7\u00e3o novo, capaz de superar a vis\u00e3o materialista dos acontecimentos humanos e entrever no desenvolvimento um&#8221;mais al\u00e9m&#8221;que a t\u00e9cnica n\u00e3o pode dar. Por este caminho, ser\u00e1 poss\u00edvel perseguir aquele desenvolvimento humano integral que tem o seu crit\u00e9rio orientador na for\u00e7a propulsora da caridade na verdade.<\/p>\n<p>CONCLUS\u00c3O<\/p>\n<p>78. Sem Deus, o homem n\u00e3o sabe para onde ir e n\u00e3o consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao des\u00e2nimo e \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o, vem em nosso aux\u00edlio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental:&#8221;Sem Mim, nada podeis fazer&#8221;(Jo 15, 5), e encoraja:&#8221;Eu estarei sempre convosco, at\u00e9 ao fim do mundo&#8221;(Mt 28, 20). Diante da vastid\u00e3o do trabalho a realizar, somos apoiados pela f\u00e9 na presen\u00e7a de Deus junto daqueles que se unem no seu nome e trabalham pela justi\u00e7a. Paulo VI recordou-nos, na Populorum progressio, que o homem n\u00e3o \u00e9 capaz de gerir sozinho o pr\u00f3prio progresso, porque n\u00e3o pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo. Somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indiv\u00edduos e comunidade, a fazer parte da fam\u00edlia de Deus como seus filhos, \u00e9 que seremos capazes de produzir um novo pensamento e exprimir novas energias ao servi\u00e7o de um verdadeiro humanismo integral. Por isso, a maior for\u00e7a ao servi\u00e7o do desenvolvimento \u00e9 um humanismo crist\u00e3o [157] que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus. A disponibilidade para Deus abre \u00e0 disponibilidade para os irm\u00e3os e para uma vida entendida como tarefa solid\u00e1ria e jubilosa. Pelo contr\u00e1rio, a reclus\u00e3o ideol\u00f3gica a Deus e o ate\u00edsmo da indiferen\u00e7a, que esquecem o Criador e correm o risco de esquecer tamb\u00e9m os valores humanos, contam-se hoje entre os maiores obst\u00e1culos ao desenvolvimento. O humanismo que exclui Deus \u00e9 um humanismo desumano. S\u00f3 um humanismo aberto ao Absoluto pode guiar-nos na promo\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o de formas de vida social e civil \u2014 no \u00e2mbito das estruturas, das institui\u00e7\u00f5es, da cultura, do ethos \u2014 preservando-nos do risco de cairmos prisioneiros das modas do momento. \u00c9 a consci\u00eancia do Amor indestrut\u00edvel de Deus que nos sustenta no fadigoso e exaltante compromisso a favor da justi\u00e7a, do desenvolvimento dos povos, por entre \u00eaxitos e fracassos, na busca incessante de ordenamentos rectos para as realidades humanas. O amor de Deus chama-nos a sair daquilo que \u00e9 limitado e n\u00e3o definitivo, d\u00e1-nos coragem de agir continuando a procurar o bem de todos, ainda que n\u00e3o se realize imediatamente e aquilo que conseguimos actuar \u2014 n\u00f3s e as autoridades pol\u00edticas e os operadores econ\u00f3micos \u2014 seja sempre menos de quanto anelamos[158]. Deus d\u00e1-nos a for\u00e7a de lutar e sofrer por amor do bem comum, porque Ele \u00e9 o nosso Tudo, a nossa esperan\u00e7a maior.<\/p>\n<p>79. O desenvolvimento tem necessidade de crist\u00e3os com os bra\u00e7os levantados para Deus em atitude de ora\u00e7\u00e3o, crist\u00e3os movidos pela consci\u00eancia de que o amor cheio de verdade \u2014 caritas in veritate \u2013, do qual procede o desenvolvimento aut\u00eantico, n\u00e3o o produzimos n\u00f3s, mas \u00e9-nos dado. Por isso, inclusive nos momentos mais dif\u00edceis e complexos, al\u00e9m de reagir conscientemente devemos sobretudo referir-nos ao seu amor. O desenvolvimento implica aten\u00e7\u00e3o \u00e0 vida espiritual, uma s\u00e9ria considera\u00e7\u00e3o das experi\u00eancias de confian\u00e7a em Deus, de fraternidade espiritual em Cristo, de entrega \u00e0 provid\u00eancia e \u00e0 miseric\u00f3rdia divina, de amor e de perd\u00e3o, de ren\u00fancia a si mesmos, de acolhimento do pr\u00f3ximo, de justi\u00e7a e de paz. Tudo isto \u00e9 indispens\u00e1vel para transformar os&#8221;cora\u00e7\u00f5es de pedra&#8221;em&#8221;cora\u00e7\u00f5es de carne&#8221;(Ez 36, 26), para tornar&#8221;divina&#8221;e consequentemente mais digna do homem a vida sobre a terra. Tudoisto \u00e9 do homem, porque o homem \u00e9 sujeito da pr\u00f3pria exist\u00eancia; e ao mesmo tempo \u00e9 de Deus, porque Deus est\u00e1 no princ\u00edpio e no fim de tudo aquilo que tem valor e redime:&#8221;quer o mundo, quer a vida, quer a morte, quer o presente, quer o futuro, tudo \u00e9 vosso; mas v\u00f3s sois de Cristo, e Cristo \u00e9 de Deus&#8221;(1 Cor 3, 22-23). A \u00e2nsia do crist\u00e3o \u00e9 que toda a fam\u00edlia humana possa invocar a Deus como o&#8221;Pai nosso&#8221;. Juntamente com o Filho unig\u00e9nito, possam todos os homens aprender a rezar ao Pai e a pedir-Lhe, com as palavras que o pr\u00f3prio Jesus nos ensinou, para sab\u00ea-Lo santificar vivendo segundo a sua vontade, e depois ter o p\u00e3o necess\u00e1rio para cada dia, a compreens\u00e3o e a generosidade com quem nos ofendeu, n\u00e3o ser postos \u00e0 prova al\u00e9m das suas for\u00e7as e ver-se livres do mal (cf. Mt 6, 9-13).<br \/>\nNo final do Ano Paulino, apraz-me formular os seguintes votos com palavras do Ap\u00f3stolo tiradas da sua Carta aos Romanos:&#8221;Que a vossa caridade seja sincera, aborrecendo o mal e aderindo ao bem. Amai-vos uns aos outros com amor fraternal, adiantando-vos em honrar uns aos outros&#8221;(12, 9-10). Que a Virgem Maria, proclamada por Paulo VI Mater Ecclesi\u00e6 e honrada pelo povo crist\u00e3o como Speculum Iustiti\u00e6 e Regina Pacis, nos proteja e obtenha, com a sua intercess\u00e3o celeste, a for\u00e7a, a esperan\u00e7a e a alegria necess\u00e1rias para continuarmos a dedicar-nos com generosidade ao compromisso de realizar o&#8221;desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens&#8221;[159].<br \/>\nDado em Roma, junto de S\u00e3o Pedro, no dia 29 de Junho \u2014 Solenidade dos Santos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo \u2014 do ano 2009, quinto do meu Pontificado.<\/p>\n<p>BENEDICTUS PP. XVI<\/p>\n<p>[1] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 22: AAS 59 (1967), 268; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 69.<br \/>\n[2] Discurso na Jornada do Desenvolvimento (23 de Agosto de 1968): AAS 60 (1968), 626-627.<br \/>\n[3] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002: AAS 94 (2002), 132-140.<br \/>\n[4] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 26.<br \/>\n[5] Cf. Jo\u00e3o XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 268-270.<br \/>\n[6] Cf. n. 16: AAS 59 (1967), 265.<br \/>\n[7] Cf. ibid., 82: o.c., 297.<br \/>\n[8] Ibid., 42: o.c., 278.<br \/>\n[9] Ibid., 20: o.c., 267.<br \/>\n[10] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 36; Paulo VI, Carta ap. Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 4: AAS 63 (1971), 403-404; Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 43: AAS 83 (1991), 847.<br \/>\n[11] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 13: AAS 59 (1967), 263-264.<br \/>\n[12] Cf. Pont. Conselho&#8221;Justi\u00e7a e Paz&#8221;, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, n. 76.<br \/>\n[13] Cf. Bento XVI, Discurso na Sess\u00e3o inaugural dos trabalhos da V Confer\u00eancia Geral do Episcopado Latino-Americano e das Cara\u00edbas (13 de Maio de 2007): Insegnamenti III\/1 (2007), 854-870.<br \/>\n[14] Cf. nn. 3-5: AAS 59 (1967), 258-260.<br \/>\n[15] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 6-7: AAS80 (1988), 517-519.<br \/>\n[16] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967) 14: AAS 59 (1967), 264.<br \/>\n[17] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 18: AAS 98 (2006), 232.<br \/>\n[18] Ibid., 6: o.c., 222.<br \/>\n[19] Cf. Bento XVI, Discurso \u00e0 C\u00faria Romana durante a apresenta\u00e7\u00e3o de votos natal\u00edcios(22 de Dezembro de 2005): Insegnamenti I (2005), 1023-1032.<br \/>\n[20] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 3: AAS 80 (1988), 515.<br \/>\n[21] Cf. ibid., 1: o.c., 513-514.<br \/>\n[22] Cf. ibid., 3: o.c., 515.<br \/>\n[23] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 3: AAS 73 (1981), 583-584.<br \/>\n[24] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 3: AAS 83 (1991), 794-796.<br \/>\n[25] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 3: AAS 59 (1967), 258.<br \/>\n[26] Cf. ibid., 34: o.c., 274.<br \/>\n[27] Cf. nn. 8-9: AAS 60 (1968), 485-487; Bento XVI, Discurso aos participantes no Congresso Internacional organizado no 40\u00ba anivers\u00e1rio da&#8221;Humanae vitae&#8221;(10 de Maio de 2008): Insegnamenti IV\/1 (2008), 753-756.<br \/>\n[28] Cf. Carta enc. Evangelium vitae (25 de Mar\u00e7o de 1995), 93: AAS 87 (1995), 507-508.<br \/>\n[29] Ibid., 101: o.c., 516-518.<br \/>\n[30] N. 29: AAS 68 (1976), 25.<br \/>\n[31] Ibid., 31: o.c., 26.<br \/>\n[32] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 41: AAS80 (1988), 570-572.<br \/>\n[33] Cf. ibid., 41: o.c., 570-572; Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5.54: AAS83 (1991), 799.859-860.<br \/>\n[34] N. 15: AAS 59 (1967), 265.<br \/>\n[35] Cf. ibid., 2: o.c., 481-482; Le\u00e3o XIII, Carta enc. Rerum novarum (15 de Maio de 1891):Leonis XIII P. M. Acta, XI (1892), 97-144; Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 8: AAS 80 (1988), 519-520; Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS 83 (1991), 799.<br \/>\n[36] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 2.13: AAS 59 (1967), 258.263-264.<br \/>\n[37] Ibid., 42: o.c., 278.<br \/>\n[38] Ibid., 11: o.c., 262; cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 25: AAS 83 (1991), 822-824.<br \/>\n[39] Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 15: AAS 59 (1967), 265.<br \/>\n[40] Ibid., 3: o.c., 258.<br \/>\n[41] Ibid., 6: o.c., 260.<br \/>\n[42] Ibid., 14: o.c., 264.<br \/>\n[43] Ibid., 14: o.c., 264; cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 53-62: AAS 83 (1991), 859-867; Carta enc. Redemptor hominis (4 de Mar\u00e7o de 1979), 13-14:AAS 71 (1979), 282-286.<br \/>\n[44] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 12: AAS 59 (1967), 262-263.<br \/>\n[45] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 22.<br \/>\n[46] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 13: AAS 59 (1967), 263-264.<br \/>\n[47] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est\u00e1 em It\u00e1lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 465-477.<br \/>\n[48] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 16: AAS 59 (1967), 265.<br \/>\n[49] Ibid., 16: o.c., 265.<br \/>\n[50] Bento XVI, Discurso aos jovens no cais de Barangaroo (17 de Julho de 2008):L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 19\/\/VII\/2008), 4.<br \/>\n[51] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 20: AAS 59 (1967), 267.<br \/>\n[52] Ibid., 66: o.c., 289-290.<br \/>\n[53] Ibid., 21: o.c., 267-268.<br \/>\n[54] Cf. nn. 3.29.32: o.c., 258.272.273.<br \/>\n[55] Cf. Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 28: AAS 80 (1988), 548-550.<br \/>\n[56] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 9: AAS 59 (1967), 261-262.<br \/>\n[57] Cf. Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 20: AAS 80 (1988), 536-537.<br \/>\n[58] Cf. Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 22-29: AAS 83 (1991), 819-830.<br \/>\n[59] Cf. nn. 23.33: AAS 59 (1967), 268-269.273-274.<br \/>\n[60] Cf. Leonis XIII P. M. Acta, XI (1892), 135.<br \/>\n[61] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 63.<br \/>\n[62] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 24: AAS 83 (1991), 821-822.<br \/>\n[63] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Veritatis splendor (6 de Agosto de 1993), 33.46.51: AAS 85 (1993), 1160.1169-1171.1174-1175; Discurso \u00e0 Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas na comemora\u00e7\u00e3o do cinquenten\u00e1rio de funda\u00e7\u00e3o (5 de Outubro de 1995), 3: InsegnamentiXVIII\/2 (1995), 732-733.<br \/>\n[64] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 47: AAS 59 (1967), 280-281; Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 42: AAS 80 (1988), 572-574.<br \/>\n[65] Cf. Bento XVI, Mensagem por ocasi\u00e3o do Dia Mundial da Alimenta\u00e7\u00e3o 2007: AAS 99 (2007), 933-935.<br \/>\n[66] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Evangelium vitae (25 de Mar\u00e7o de 1995), 18.59.63-64: AAS87 (1995), 419-421.467-468.472-475.<br \/>\n[[67] Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 5: Insegnamenti II\/2 (2006), 778.<br \/>\n[68] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 4-7.12-15: AAS 94 (2002), 134-136.138-140; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2004, 8: AAS 96 (2004), 119; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2005, 4: AAS 97 (2005), 177-178; Bento XVI,Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006, 9-10: AAS 98 (2006), 60-61; Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 5.14: Insegnamenti II\/2 (2006), 778.782-783.<br \/>\n[69] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2002, 6: AAS 94 (2002), 135; Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2006, 9-10: AAS 98 (2006), 60-61.<br \/>\n[70] Cf. Bento XVI, Homilia da Santa Missa no&#8221;Islinger Feld&#8221;di Regensburg (12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 252-256.<br \/>\n[71] Cf. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 1: AAS 98 (2006), 217-218.<br \/>\n[72] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 28: AAS 80 (1988), 548-550.<br \/>\n[73] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 19: AAS 59 (1967), 266-267.<br \/>\n[74] Ibid., 39: o.c., 276-277.<br \/>\n[75] Ibid., 75: o.c., 293-294.<br \/>\n[76] Cf. Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 28: AAS 98 (2006), 238-240.<br \/>\n[77] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 59: AAS 83 (1991), 864.<br \/>\n[78] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 40.85: AAS 59 (1967), 277.298-299.<br \/>\n[79] Ibid., 13: o.c., 263-264.<br \/>\n[80] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Fides et ratio (14 de Setembro de 1998), 85: AAS 91 (1999), 72-73.<br \/>\n[81] Cf. ibid., 83: o.c., 70-71.<br \/>\n[82] Bento XVI, Discurso na Universidade de Regensburg (12 de Setembro de 2006):Insegnamenti II\/2 (2006), 265.<br \/>\n[83] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 33: AAS 59 (1967), 273-274.<br \/>\n[84] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2000, 15: AAS 92 (2000), 366.<br \/>\n[85] Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, 407; cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 25: AAS 83 (1991), 822-824.<br \/>\n[86] Cf. n. 17: AAS 99 (2007), 1000.<br \/>\n[87] Cf. ibid., 23: o.c., 1004-1005.<br \/>\n[88] Santo Agostinho exp\u00f5e, de maneira detalhada, este ensinamento no di\u00e1logo sobre o livre arb\u00edtrio (De libero arbitrio, II, 3, 8s.). Aponta para a exist\u00eancia de um&#8221;sentido interno&#8221;dentro da alma humana. Este sentido consiste num acto que se realiza fora das fun\u00e7\u00f5es normais da raz\u00e3o, um acto n\u00e3o reflexo e quase instintivo, pelo qual a raz\u00e3o, ao dar-se conta da sua condi\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria e fal\u00edvel, admite acima de si mesma a exist\u00eancia de algo de eterno, absolutamente verdadeiro e certo. O nome, que Santo Agostinho d\u00e1 a esta verdade interior, umas vezes \u00e9 Deus (Confiss\u00f5es X, 24, 35; XII, 25, 35; De libero arbitrio, II, 3, 8, 27), outras e mais frequentemente \u00e9 Cristo (De magistro 11, 38; Confiss\u00f5es VII, 18, 24; XI, 2, 4).<br \/>\n[89] Bento XVI, Carta enc. Deus caritas est (25 de Dezembro de 2005), 3: AAS 98 (2006), 219.<br \/>\n[90] Cf. n. 49: AAS 59 (1967), 281.<br \/>\n[91] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 28: AAS 83 (1991), 827-828.<br \/>\n[92] Cf. n. 35: AAS 83 (1991), 836-838.<br \/>\n[93] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 38: AAS80 (1988), 565-566.<br \/>\n[94] N. 44: AAS 59 (1967), 279.<br \/>\n[95] Cf. ibid., 24: o.c., 269.<br \/>\n[96] Cf. Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS 83 (1991), 838-840.<br \/>\n[97] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 24: AAS 59 (1967), 269.<br \/>\n[98] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32: AAS 83 (1991), 832-833; Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 25: AAS 59 (1967), 269-270.<br \/>\n[99] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 24: AAS 73 (1981), 637-638.<br \/>\n[100] Ibid., 15: o.c., 616-618.<br \/>\n[101] Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 27: AAS 59 (1967), 271.<br \/>\n[102] Cf. Congr. da Doutrina da F\u00e9, Instr. sobre a liberdade crist\u00e3 e a liberta\u00e7\u00e3o Libertatis conscientia (22 de Mar\u00e7o de 1987), 74: AAS 79 (1987), 587.<br \/>\n[103] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Entrevista ao di\u00e1rio cat\u00f3lico&#8221;La Croix&#8221;de 20 de Agosto de 1997.<br \/>\n[104] Jo\u00e3o Paulo II, Discurso \u00e0 Pontif\u00edcia Academia das Ci\u00eancias Sociais (27 de Abril de 2001): Insegnamenti XXIV\/1 (2001), 800.<br \/>\n[105] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 17: AAS 59 (1967), 265-266.<br \/>\n[106] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2003, 5: AAS 95 (2003), 343.<br \/>\n[107] Cf. ibid., 5: o.c., 343.<br \/>\n[108] Cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 13: Insegnamenti II\/2 (2006), 781-782.<br \/>\n[109] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.<br \/>\n[110] Cf. ibid., 36-37: o.c., 275-276.<br \/>\n[111] Cf. ibid., 37: o.c., 275-276.<br \/>\n[112] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Decr. sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, 11.<br \/>\n[113] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 14: AAS 59 (1967), 264; Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 32: AAS 83 (1991), 832-833.<br \/>\n[114] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 77: AAS 59 (1967), 295.<br \/>\n[115] Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 6: AAS 82 (1990), 150.<br \/>\n[116] Her\u00e1clito de \u00c9feso (\u00b1 535-475 a.C.), Fragmento 22B124, in H. Diels-W. Kranz, Die Fragmente der Vorsokratiker (Weidmann, Berlim [6]1952).<br \/>\n[117] Cf. Pont. Conselho&#8221;Justi\u00e7a e Paz&#8221;, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, nn.451-487.<br \/>\n[118] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 10: AAS 82 (1990), 152-153.<br \/>\n[119] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 65: AAS 59 (1967), 289.<br \/>\n[120] Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2008, 7: AAS 100 (2008), 41.<br \/>\n[121] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (18 de Abril de 2008): Insegnamenti IV\/\/1 (2008), 618-626.<br \/>\n[122] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1990, 13: AAS 82 (1990), 154-155.<br \/>\n[123] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1967), 36: AAS 83 (1991), 838-840.<br \/>\n[124] Ibid., 38: o.c., 840-841; cf. Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2007, 8:Insegnamenti II\/2 (2006), 779.<br \/>\n[125] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 2009), 41: AAS 83 (1991), 843-845.<br \/>\n[126] Cf. ibid., 41: o.c., 843-845.<br \/>\n[127] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Evangelium vitae (25 de Mar\u00e7o de 1995), 20: AAS 87 (1995), 422-424.<br \/>\n[128] Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 85: AAS 59 (1967), 298-299.<br \/>\n[129] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz 1998, 3: AAS 90 (1998), 150;Discurso aos Membros da Funda\u00e7\u00e3o&#8221;Centesimus annus&#8221;(9 de Maio de 1998), 2:Insegnamenti XXI\/1 (1998), 873-874; Discurso \u00e0s Autoridades Civis e Pol\u00edticas e ao Corpo Diplom\u00e1tico durante o encontro no&#8221;Wiener Hofburg&#8221;(20 de Junho de 1998), 8:Insegnamenti XXI\/1 (1998), 1435-1436; Mensagem ao Reitor Magn\u00edfico da Universidade Cat\u00f3lica&#8221;Sacro Cuore&#8221;por ocasi\u00e3o do Dia Anual desta Institui\u00e7\u00e3o (5 de Maio de 2000), 6:Insegnamenti XXIII\/1 (2000), 759-760.<br \/>\n[130] Segundo S\u00e3o Tom\u00e1s,&#8221;ratio partis contrariatur rationi personae&#8221;, in III Sent. d. 5, 3, 2; e ainda&#8221;homo non ordinatur ad communitatem politicam secundum se totum et secundum omnia sua&#8221;, in Summa Theologiae I-II, q. 21, a. 4, ad 3um.<br \/>\n[131] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. dogm. sobre a Igreja Lumen gentium, 1.<br \/>\n[132] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Discurso aos participantes na Sess\u00e3o P\u00fablica das Academias Pontif\u00edcias de Teologia e de S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino (8 de Novembro de 2001), 3: InsegnamentiXXIX\/2 (2001), 676-677.<br \/>\n[133] Cf. Congr. da Doutrina da F\u00e9, Decl. sobre a unicidade e universalidade salv\u00edfica de Jesus Cristo e da Igreja Dominus Iesus (6 de Agosto 2000), 22: AAS 92 (2000), 763-764; Nota doutrinal sobre algumas quest\u00f5es relativas \u00e0 participa\u00e7\u00e3o e comportamento dos cat\u00f3licos na vida pol\u00edtica (24 de Novembro de 2002) 8: L&#8217;Osservatore Romano (ed. portuguesa de 25\/I\/2005), 11.<br \/>\n[134] Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 31: AAS 99 (2007), 1010;Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est\u00e1 em It\u00e1lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 465-477.<br \/>\n[135] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 5: AAS 83 (1991), 798-800; cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est\u00e1 em It\u00e1lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 471.<br \/>\n[136] N. 12.<br \/>\n[137] Cf. Pio XI, Carta enc. Quadragesimo anno (15 de Maio de 1931): AAS 23 (1931), 203; Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 48: AAS 83 (1991), 852-854;Catecismo da Igreja Cat\u00f3lica, n. 1883.<br \/>\n[138] Cf. Jo\u00e3o XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 274.<br \/>\n[139] Cf. Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 10.41: AAS 59 (1967), 262.277-278.<br \/>\n[140] Cf. Bento XVI, Discurso aos membros da Comiss\u00e3o Teol\u00f3gica Internacional (5 de Outubro de 2007): Insegnamenti III\/2 (2007), 418-421; Discurso aos participantes no Congresso internacional sobre&#8221;Lei Moral Natural&#8221;promovido pelo Pontif\u00edcia Universidade Lateranense (12 de Fevereiro de 2007): Insegnamenti III\/1 (2007), 209-212.<br \/>\n[141] Cf. Bento XVI, Discurso aos membros da Confer\u00eancia Episcopal da Tail\u00e2ndia em&#8221;Visita ad Limina&#8221;(16 de Maio de 2008): Insegnamenti IV\/1 (2008), 798-801.<br \/>\n[142] Cf. Pont. Conselho da Pastoral para os Migrantes e os Itinerantes, Instr. Erga migrantes caritas Christi (3 de Maio de 2004): AAS 96 (2004), 762-822.<br \/>\n[143] Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 8: AAS 73 (1981), 594-598.<br \/>\n[144] Discurso no final da Concelebra\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica por ocasi\u00e3o do Jubileu dos Trabalhadores (1 de Maio de 2000): Insegnamenti XXIII\/1 (2000), 720.<br \/>\n[145] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Centesimus annus (1 de Maio de 1991), 36: AAS 83 (1991), 838-840.<br \/>\n[146] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes na Assembleia Geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas (18 de Abril de 2008): Insegnamenti IV\/1 (2008), 618-626.<br \/>\n[147] Cf. Jo\u00e3o XXIII, Carta enc. Pacem in terris (11 de Abril de 1963): AAS 55 (1963), 293; Pont. Conselho&#8221;Justi\u00e7a e Paz&#8221;, Comp\u00eandio da Doutrina Social da Igreja, n. 441.<br \/>\n[148] Cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 82.<br \/>\n[149] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Sollicitudo rei socialis (30 de Dezembro de 1987), 43: AAS80 (1988), 574-575.<br \/>\n[150] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 41: AAS 59 (1967), 277-278; cf. Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neoGaudium et spes, 57.<br \/>\n[151] Cf. Jo\u00e3o Paulo II, Carta enc. Laborem exercens (14 de Setembro de 1981), 5: AAS 73 (1981), 586-589.<br \/>\n[152] Cf. Paulo VI, Carta ap. Octogesima adveniens (14 de Maio de 1971), 29: AAS 63 (1971), 420.<br \/>\n[153] Cf. Bento XVI, Discurso aos participantes no IV Congresso Eclesial Nacional da Igreja que est\u00e1 em It\u00e1lia (19 de Outubro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 465-477; Homilia da Santa Missa no&#8221;Islinger Feld&#8221;di Regensburg (12 de Setembro de 2006): Insegnamenti II\/2 (2006), 252-256.<br \/>\n[154] Cf. Congr. da Doutrina da F\u00e9, Instr. sobre algumas quest\u00f5es de bio\u00e9tica Dignitas personae (8 de Setembro de 2008): AAS 100 (2008), 858-887.<br \/>\n[155] Cf. Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 3: AAS 59 (1967), 258.<br \/>\n[156] Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor\u00e2neo Gaudium et spes, 14.<br \/>\n[157] Cf. n. 42: AAS 59 (1967), 278.<br \/>\n[158] Cf. Bento XVI, Carta enc. Spe salvi (30 de Novembro de 2007), 35: AAS 99 (2007), 1013-1014.<br \/>\n[159] Paulo VI, Carta enc. Populorum progressio (26 de Mar\u00e7o de 1967), 42: AAS 59 (1967), 278.<\/p>\n<p>\u00a9 Copyright 2009 &#8211; Libreria Editrice Vaticana<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-4199\" data-postid=\"4199\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-4199 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CARTA ENC\u00cdCLICA CARITAS IN VERITATE DO SUMO PONT\u00cdFICE BENTO XVI AOS BISPOS, AOS PRESB\u00cdTEROS E DI\u00c1CONOS, \u00c0S PESSOAS CONSAGRADAS, AOS FI\u00c9IS LEIGOS E A TODOS OS HOMENS DE BOA VONTADE SOBRE O DESENVOLVIMENTO HUMANO INTEGRAL NA CARIDADE E NA VERDADE INTRODU\u00c7\u00c3O 1. 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