
{"id":5156,"date":"2009-09-17T21:18:27","date_gmt":"2009-09-18T00:18:27","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=5156"},"modified":"2009-09-17T21:18:27","modified_gmt":"2009-09-18T00:18:27","slug":"a-espiritualidade-no-conflito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/a-espiritualidade-no-conflito\/","title":{"rendered":"A espiritualidade no conflito"},"content":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Mesquita Galv\u00e3o<\/p>\n<p><em>Vivam em harmonia uns com os outros.<br \/>\nN\u00e3o se deixem levar pela mania de grandeza,<br \/>\nmas se afei\u00e7oem \u00e0s coisas modestas  (Rm 12,6).<\/em><\/p>\n<p>As pessoas, em geral, t\u00eam dificuldade de compreender o sentido da palavra &#8220;espiritualidade&#8221;. E \u00e9 justamente por causa desse equ\u00edvoco que n\u00e3o conseguem desenvolver adequadamente um cristianismo eficaz, de acordo com seu estado de vida. Muitos a confundem com &#8220;espiritismo&#8221; ou &#8220;espiritualismo&#8221; e apontam para algum modo evasivo de vida espiritual, sem saber conceituar nem tampouco avaliar como se desdobra esse tipo de viv\u00eancia. Por ser a espiritualidade uma forma muito rica de rela\u00e7\u00e3o com Deus, ela aponta para um estilo de vida. De vida crist\u00e3.<\/p>\n<p>Nesta reflex\u00e3o vamos estudar a superveni\u00eancia da espiritualidade nos conflitos que atingem os crist\u00e3os no mundo todo, especialmente nas regi\u00f5es de contenda entre os lavradores e o latif\u00fandio. Como envolve uma quest\u00e3o da moral crist\u00e3, vamos iluminar nosso trabalho com a carta de S\u00e3o Paulo aos romanos, um tratado espiritual que privilegia sobremodo a reflex\u00e3o crist\u00e3 \u00e0 luz da Teologia Moral.<\/p>\n<p><strong>A ambig\u00fcidade da vida humana<\/strong><\/p>\n<p>O grande desafio da espiritualidade crist\u00e3 \u00e9 compatibilizar uma vida voltada para os apelos do Esp\u00edrito na ambig\u00fcidade das limita\u00e7\u00f5es da vida material a que todos est\u00e3o sujeitos. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel a ningu\u00e9m, alienar-se de sua vida material, social, profissional, familiar, pol\u00edtica, etc. \u00c9 justamente nessas circunst\u00e2ncias de nossa exist\u00eancia que devemos nos encontrar com Deus, sem fugir do mundo, mas relacionando-nos com o Infinito conforme nosso estado de vida. Reside a\u00ed o desafio: viver uma vida crist\u00e3, espiritualizada e voltada para o alto, sem furtar-se \u00e0 vida material e \u00e0 dimens\u00e3o s\u00f3cio-fraterna inerente a esse tipo de vida.<\/p>\n<p>Na ora\u00e7\u00e3o de despedida Jesus reconhece essa ambig\u00fcidade e pede ao Pai que proteja seus amigos (cf. Jo 17,9). Na magnific\u00eancia da miseric\u00f3rdia, Deus vem ao nosso encontro, ignorando nossas limita\u00e7\u00f5es, incapaz de nos rejeitar, reconhecendo em n\u00f3s a continuidade de seu projeto na hist\u00f3ria. A esse respeito chega-nos a palavra inspirada do ap\u00f3stolo:<\/p>\n<p>\u00c9 o que continua acontecendo at\u00e9 hoje: sobrou um resto, conforme a livre elei\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a.  E isso acontece pela gra\u00e7a, e n\u00e3o pelas obras: do contr\u00e1rio a gra\u00e7a j\u00e1 n\u00e3o seria gra\u00e7a (Rm 11, 5s).<\/p>\n<p><strong>A espiritualidade de cada estado de vida<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 fundamental que se insista na necessidade que os crist\u00e3os t\u00eam, cada vez mais, de descobrirem eles pr\u00f3prios os caminhos de sua espiritualidade, de acordo com a forma de vida abra\u00e7ada por cada um, sem que um queira viver em sua vida o tipo de espiritualidade do outro, ou simplesmente se omitindo. Deus quer que eu me envolva com ele, sem, no entanto, fechar os olhos \u00e0 injusti\u00e7a que sofre o irm\u00e3o, o vizinho, o companheiro de caminhada. Essa opress\u00e3o \u00e9 uma t\u00f4nica gritante fora do \u00e2mbito das grandes capitais do Sul-Sudeste. Em tudo ocorrem conflitos e desacertos. Na psicologia, vemos conflito, segundo as teorias behavioristas, como um &#8220;estado provocado pela coexist\u00eancia de dois est\u00edmulos que disparam rea\u00e7\u00f5es mutuamente excludentes&#8221;.<\/p>\n<p>Simplificando, h\u00e1 quem defina, igualmente o conflito como &#8220;profunda falta de entendimento entre duas ou mais partes&#8221;. A vida humana e a exist\u00eancia dos crist\u00e3os n\u00e3o est\u00e3o imune, ocorre no meio dos conflitos. O conflito possui diversos est\u00e1gios, desde n\u00e3o-percebido, em potencial, latente e manifesto. Na ant\u00edtese do conflito surgem a miseric\u00f3rdia e a temperan\u00e7a como forma de organizar a vida crist\u00e3, mesmo sob o fogo do conflito. A atitude crist\u00e3, como ensina S\u00e3o Paulo \u00e9 a resposta \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus. Ela abrange toda a exist\u00eancia concreta do homem. As propostas do mundo s\u00e3o variadas. Algumas delas s\u00e3o boas e outras conduzem ao conflito. Nessa conjuntura cabe a cada crist\u00e3o oferecer a si mesmo como sacrif\u00edcio vivo \u00e0 vida e \u00e0 justi\u00e7a, sem se deixar contaminar pelo mal.<\/p>\n<p>N\u00e3o se amoldem \u00e0s estruturas deste mundo, mas transformem-se pela renova\u00e7\u00e3o da mente, a fim de distinguir qual \u00e9 a vontade de Deus: o que \u00e9 bom, o que \u00e9 agrad\u00e1vel e ele, o que \u00e9 perfeito (Rm 12, 2).<\/p>\n<p><strong>O sentido da vida<\/strong><\/p>\n<p>Por sentido de vida entende-se o ato de imprimir \u00e0 exist\u00eancia um rumo que a valorize, que fa\u00e7a a todos felizes e transmita essa alegria aos demais. Esse sentido constr\u00f3i os fundamentos de uma vida feliz e produtiva. Uma vida com sentido \u00e9 algo que se elabora com o tempo, com esfor\u00e7o e dedica\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso saber organiz\u00e1-la para tirar dela o melhor que ela tem a oferecer. A busca de um sentido para nossa vida \u00e9 \u00e1rdua e laboriosa, mas poss\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que o ser humano se conhe\u00e7a. O homem tem tr\u00eas referenciais de encontro: com Deus (que eu te conhe\u00e7a&#8230; conforme Santo Agostinho), consigo (gn\u00f4ti s\u2019eaut\u00f3n = conhece a ti mesmo, de S\u00f3crates) e com o outro, em suas necessidades (eu tive fome e me deste de comer&#8230;). O homem se realiza atrav\u00e9s desses tr\u00eas encontros. A vida com sentido come\u00e7a por esse tipo de atitude. \u00c9 por a\u00ed que come\u00e7a a escolha de um bom caminho.<\/p>\n<p>\u00c1s quest\u00f5es usuais, como &#8220;Por que vivo?&#8221;, &#8220;Tem sentido a minha vida?&#8221;, t\u00eam respostas na necessidade de cada um encontrar o significado para a sua exist\u00eancia. Para a descoberta de um sentido, a vida precisa ser plena em seu sentido ontol\u00f3gico, devendo ser constru\u00edda em tr\u00eas planos: a) f\u00edsico &#8211; retrata o lado instintivo, onde s\u00f3 os apelos do corpo decidem e ordenam; b) sens\u00edvel &#8211; enfoca o sentimentalismo: o indiv\u00edduo sonhador forma seu viver e agir em um campo de simpatias, gostos e paix\u00f5es; d) sobrenatural &#8211; consciente de sua origem e destina\u00e7\u00e3o, o esp\u00edrito torna-se livre para tomar as decis\u00f5es mais importantes da vida.<\/p>\n<p>O aspecto espiritual, o lado m\u00edstico do ser humano \u00e9 um importante aliado ao desenvolvimento do projeto da vida. Nosso projeto nunca ter\u00e1 sucesso se n\u00e3o colocarmos vida nele. A nossa vida. N\u00e3o colhe quem n\u00e3o jogou primeiro o gr\u00e3o na terra. Assim ocorre com a nossa felicidade. Deus d\u00e1 seus dons, como sementes f\u00e9rteis e valiosas, mas o ser humano precisa aprimor\u00e1-las, coloc\u00e1-las na terra f\u00e9rtil e ter paci\u00eancia para deixar crescer e frutificar.<\/p>\n<p>Se de um lado a morte \u00e9 o sal\u00e1rio do pecado, de outro, o dom gratuito de Deus \u00e9 a vida eterna em Jesus Cristo (Rm 6,23)<\/p>\n<p><strong>A radiografia dos conflitos<\/strong><\/p>\n<p>Por conflito, como vimos nas medita\u00e7\u00f5es anteriores, se entende aquela profunda falta de entendimento entre duas ou mais partes. Como sin\u00f4nimo de choque ou enfrentamento o conflito subentende um ato, estado ou efeito de grupos estabelecerem diverg\u00eancias que se manifestam acentuadamente ou de se oporem como interesses irreconcili\u00e1veis. No campo social, o conflito de caracteriza pela contesta\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre dois grupos pelos mesmos valores, a que julgam ter direito, compet\u00eancia ou atribui\u00e7\u00e3o. O conflito, segundo a psicologia e a sociologia, pode ser n\u00e3o-percebido, latente ou manifesto.<\/p>\n<p><strong>Os conflitos por causa da terra<\/strong><\/p>\n<p>No meio das comunidades, especialmente no interior do pa\u00eds, e mais ainda no eixo norte-nordeste, ocorre a grilagem e o choque com os posseiros, contrastando com o coronelismo, a extra\u00e7\u00e3o irregular de madeira e min\u00e9rios, a falta de demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas, amea\u00e7as ao meio-ambiente, doen\u00e7as e endemias tropicais, subemprego, viol\u00eancia (e n\u00e3o-raro mortes) contra sindicalistas, l\u00edderes comunit\u00e1rios e ministros da Igreja. Isto sem falar nos &#8220;reflorestamentos&#8221; de \u00e1rvores que s\u00f3 produzem celulose, planta\u00e7\u00f5es de maconha, etc.<\/p>\n<p>A isto se soma a falta de saneamento b\u00e1sico, um sistema educacional deficiente e fam\u00edlias que se desestruturam por problemas sociais, econ\u00f4micos e de migra\u00e7\u00e3o compuls\u00f3ria. H\u00e1, por causa desses conflitos, uma perda de f\u00e9 e de referenciais humanos. Mesmo \u00e0 vista de todos esses problemas, geradores de in\u00fameros conflitos, n\u00e3o se pode esquecer do amor de Deus, que \u00e9 quem nos sustenta.<\/p>\n<p>Quem poder\u00e1 nos separar do amor de Cristo? A tribula\u00e7\u00e3o, a persegui\u00e7\u00e3o, a fome, a nudez, o perigo, a espada? Como diz a Escritura (cf. Sl 44,23): &#8220;Por tua causa somos postos \u00e0 morte o dia todo, somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro&#8221;. Mas, em todas essas coisas somos mais do que vencedores, por meio daquele que nos amou (Rm 8, 35ss).<\/p>\n<p><strong>Na Igreja urbana<\/strong><\/p>\n<p>Na &#8220;igreja urbana&#8221; os conflitos t\u00eam origem nas discord\u00e2ncias pessoais ou de pequenos grupos, com certa &#8220;disputa de beleza&#8221; para saber quem sabe mais, quem pode mais, quem agrada mais \u00e0 &#8220;chefia&#8221; ou quem trabalha melhor. Isso ocorre, em certos locais, nos &#8220;conselhos&#8221;, nos &#8220;movimentos&#8221; e nos &#8220;servi\u00e7os&#8221; paroquiais e grupos de minist\u00e9rios leigos, onde h\u00e1 muita luta pelo posto de coordenador, etc. O confronto tamb\u00e9m pode surgir em disputas entre leigos e religioso(a)s. Nessas comunidades o conflito pode ter sua g\u00eanese a partir de ideologias pol\u00edticas, perfis religiosos, desejo de conquistar hegemonias ou motivado por algum tipo de diverg\u00eancia ou disparidade socioecon\u00f4mica.<\/p>\n<p>Se for poss\u00edvel, naquilo que depende de voc\u00eas, vivam em paz com todos (Rm 12,8).<\/p>\n<p><strong>Na Igreja das periferias<\/strong><\/p>\n<p>Nas periferias o desafio de viver a f\u00e9 \u00e9 mais complexo, pois a par de um certo abandono espiritual, constata-se a escalada da viol\u00eancia e a marginalidade (tr\u00e1fico de drogas, armas e pessoas), al\u00e9m dos problemas sociais como falta de sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o, escola e seguran\u00e7a. As autoridades parecem n\u00e3o se importar com a vida do povo das periferias, e isto redunda na forma\u00e7\u00e3o de &#8211; em alguns casos &#8211; de uma &#8220;terra de ningu\u00e9m&#8221;, onde impera a lei do mais forte, e onde \u00e1vida humana n\u00e3o tem o valor de sua dignidade. Enquanto as chamadas &#8220;seitas eletr\u00f4nicas&#8221; crescem nessas \u00e1reas, como uma espiritualidade de evas\u00e3o, milagreira e visando quase que exclusivamente a arrecada\u00e7\u00e3o de d\u00edzimos e ofertas, resultando numa ponder\u00e1vel aus\u00eancia de obras, as Igrejas tradicionais, como a nossa, por conta da estrutura pesada das par\u00f3quias n\u00e3o consegue atingir essas regi\u00f5es. A Igreja n\u00e3o vai onde o povo est\u00e1. Esse distanciamento ajuda a fermentar o conflito social.<\/p>\n<p><strong>Na zona rural<\/strong><\/p>\n<p>No campo a atua\u00e7\u00e3o das Igrejas \u00e9 mais t\u00eanue, pois inflete mais no trato espiritual e sacramentalista (batizados, casamentos e ex\u00e9quias) deixando de prestar aquela assist\u00eancia social ao campon\u00eas, que oprimido pela pobreza e pela in\u00e9rcia do Estado, fica a merc\u00ea da viol\u00eancia do latif\u00fandio, dos grileiros e da desastrada pol\u00edtica agr\u00edcola e fundi\u00e1ria dos governos, que s\u00f3 atentam para o bem-estar do produtor, do rico e das cooperativas. Na zona rural o conflito &#8211; como notei aqui no interior da Bahia &#8211; \u00e9 mais percebido, eclodindo em viol\u00eancia, desapropria\u00e7\u00f5es de terras dos pequenos agricultores e desrespeito ao direito dos mais fracos. A resposta a esses desmandos gera conflito que acaba resultando em viol\u00eancia e morte. A atua\u00e7\u00e3o das &#8220;pastorais rurais&#8221; ainda n\u00e3o logrou aquela efic\u00e1cia preconizada pelas &#8220;cartilhas&#8221; da CNBB e Dioceses.<\/p>\n<p><strong>Palavra e f\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>O crist\u00e3o, mesmo sob o conflito, deve ser af\u00e1vel, amante da justi\u00e7a e semeador da verdade. Tudo deve ter in\u00edcio, a partir da ilumina\u00e7\u00e3o da f\u00e9, pela Palavra de Deus, numa forma\u00e7\u00e3o b\u00edblica e doutrin\u00e1ria adequada, assim como a descoberta de uma n\u00edtida consci\u00eancia cr\u00edtica, n\u00e3o jungida a outros modelos que n\u00e3o sejam os de vida crist\u00e3, adequados \u00e0 vida concreta de cada pessoa, conforme sua miss\u00e3o no meio do mundo. A f\u00e9 e o estudo da Palavra de Deus s\u00e3o ponder\u00e1veis pilares da espiritualidade dos crist\u00e3os. Hoje em dia o modelo social, pol\u00edtico e econ\u00f4mico pretende impor certos padr\u00f5es, como verdade incontest\u00e1vel, capazes de se tornar paradigma para todos. \u00c9 a esse respeito que Paulo nos adverte:<\/p>\n<p>Ningu\u00e9m pode colocar outro alicerce diferente daquele que j\u00e1 foi posto: Jesus Cristo (1Cor 3,11).<\/p>\n<p>Sendo a espiritualidade a forma como nos relacionamos com Deus, \u00e9 importante que deixemos de lado certo tipo de cristianismo desvinculado com a vida e o mundo, demasiadamente angelista, sem o compromisso com as transforma\u00e7\u00f5es que o evangelho de Jesus n\u00e3o cansa de nos exortar.<\/p>\n<p>A Palavra (de Deus) est\u00e1 perto de voc\u00ea, na sua boca e no seu cora\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 a palavra de f\u00e9 que n\u00f3s pregamos (Rm 10,8).<\/p>\n<p><strong>Ao profeta cabe denunciar<\/strong><\/p>\n<p>Toda a religi\u00e3o vivida de modo alienado torna-se alienante, para quem a pratica e para tantos quantos interajam com pessoas que assim atuam. Al\u00e9m disto, a viv\u00eancia de uma espiritualidade incoerente \u00e9 capaz de, pelo negativo do testemunho, desviar muitas pessoas do caminho reto, da amizade com Deus, da Igreja e do conv\u00edvio com os irm\u00e3os. Os profetas davam alento ao povo sofredor por causa da coragem de seu testemunho e de suas den\u00fancias. Ningu\u00e9m melhor que eles soube sobreviver no meio do conflito. S\u00e3o Paulo denunciou os caminhos do pecado e da dissolu\u00e7\u00e3o da sociedade sob o ego\u00edsmo do poder:<\/p>\n<p>Vivamos honestamente, como em pleno dia: n\u00e3o em orgias e bebedeiras, adult\u00e9rio e libertinagem, brigas e ci\u00fames. Mas vistam-se do Senhor Jesus Cristo e n\u00e3o corram atr\u00e1s dos desejos dos instintos ego\u00edstas (Rm 13,13s).<\/p>\n<p><strong>Diferentes tipos de cultura<\/strong><\/p>\n<p>Para quem conhece o Brasil fica a constata\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia de um conflito, entre o ser-crist\u00e3o de muitos e a figura paulina do &#8220;esp\u00edrito do mundo&#8221;. O conflito se instala, muitas vezes, dentro das Igrejas, com motiva\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-ideol\u00f3gica, social e por causa da busca de poder, intentada por determinados grupos. Para quem, como eu, reside no Sul do pa\u00eds, onde se vive sob o foco de uma religi\u00e3o de corte nitidamente europeu, burocr\u00e1tica, sacramentalista, demasiadamente hier\u00e1rquica, que forma uma &#8220;Igreja sentada&#8221;, est\u00e1tica, pouco mission\u00e1ria e, geralmente acomodada, muitas facetas do conflito passam despercebidas.<\/p>\n<p><strong>O poder que gera conflito<\/strong><\/p>\n<p>Em alguns lugares do Norte, Nordeste e Centro-Oeste do Brasil viver a f\u00e9 \u00e9 estar no meio do conflito, pois os obst\u00e1culos, como a natureza hostil, as press\u00f5es pol\u00edticas, o descaso oficial e as amea\u00e7as dos poderes sociais contra as pessoas, especialmente pobres, humildes e sem voz, faz emergir a necessidade de um profetismo militante.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia com os negros e os \u00edndios, cada um segregados \u00e0 sua maneira, a sobreviv\u00eancia sob o tac\u00e3o da opress\u00e3o, seja ela representada pelo patr\u00e3o, pelo senhor dos engenhos ou do latif\u00fandio, imp\u00f5e a esses grupos de exclu\u00eddos, certas necessidades de viver a f\u00e9, de relacionar-se com Deus,<\/p>\n<p>Por conta desses problemas, o povo deve ir se organizando, fomentando um esp\u00edrito cr\u00edtico, sem apelar para a viol\u00eancia e sem a tenta\u00e7\u00e3o de quebrar os paradigmas da paz e do perd\u00e3o. A pr\u00f3pria Justi\u00e7a, que em tese deveria ser cega, dispensa a cada grupo um quinh\u00e3o proporcional a sua representatividade social.<\/p>\n<p><strong>Dois tipos de erro<\/strong><\/p>\n<p>Querendo devolver olho-por-olho as injusti\u00e7as sofridas, muitos abandonam a f\u00e9, por n\u00e3o saberem desenvolver uma &#8220;espiritualidade no conflito&#8221;. Muitos erram alienando-se dos problemas; outros por querer revidar as agress\u00f5es. Em alguns lugares do Brasil, os crentes vivem uma espiritualidade c\u00f4moda, sem riscos; em outros, t\u00eam que desenvolv\u00ea-la no meio do conflito. S\u00f3 com f\u00e9, esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o, e desejo de conc\u00f3rdia \u00e9 poss\u00edvel conviver com o conflito sem se deixar contaminar por seus efeitos negativos. Caso contr\u00e1rio estar\u00edamos, ao inv\u00e9s de pacificadores, nos tornando incentivadores do conflito e da disc\u00f3rdia, gerando \u00f3dios e confrontos, que nos afastam totalmente da piedade crist\u00e3.<\/p>\n<p>A vida humana, por causa do pecado que existe no mundo, nos imp\u00f5e sofrimentos a partir dos tantos conflitos que s\u00e3o deflagrados no dia-a-dia. Uma espiritualidade discernida e orientada pela Palavra \u00e9 capaz de nortear os rumos de quem insiste em ser crist\u00e3o e viver sua f\u00e9 no meio do conflito que, por exemplo, nas regi\u00f5es mais \u00ednvias, \u00e9 permanente.<\/p>\n<p>Vivam em harmonia uns com os outros.<br \/>\nN\u00e3o se deixem levar pela mania de grandeza,<br \/>\nmas se afei\u00e7oem \u00e0s coisas modestas<\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o para entender o conflito est\u00e1 em refletir a Palavra de Deus e sua aplica\u00e7\u00e3o aos fatos do cotidiano. A forma de resolver as quest\u00f5es da viol\u00eancia indica a necessidade de o povo se organizar para defender, na justi\u00e7a, os seus direitos. A espiritualidade no conflito indica a necessidade desse tipo de provid\u00eancias.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-5156\" data-postid=\"5156\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-5156 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f4nio Mesquita Galv\u00e3o Vivam em harmonia uns com os outros. N\u00e3o se deixem levar pela mania de grandeza, mas se afei\u00e7oem \u00e0s coisas modestas (Rm 12,6). As pessoas, em geral, t\u00eam dificuldade de compreender o sentido da palavra &#8220;espiritualidade&#8221;. 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