
{"id":58913,"date":"2015-02-09T20:56:11","date_gmt":"2015-02-09T22:56:11","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=58913"},"modified":"2015-02-09T20:56:49","modified_gmt":"2015-02-09T22:56:49","slug":"silencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/silencio\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\"><em>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, cs<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 primeira vista, escrever sobre o <em>Sil\u00eancio<\/em> n\u00e3o deixa de parecer uma contradi\u00e7\u00e3o. Mas logo nos damos conta que a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas aparente, superficial. O sil\u00eancio, de fato, constitui a fonte primordial e mais cristalina da palavra: palavra viva, libertadora, criativa e aut\u00eantica. \u00c9 somente no terreno f\u00e9rtil do sil\u00eancio que ela \u2013 a palavra \u2013 cria ra\u00edzes, nasce, cresce, desenvolve-se e produz folhas, flores e frutos. Enquanto a multid\u00e3o rumorosa ou o excesso de palavras tendem a distrair, dispersar e semear confus\u00e3o, a escuta silenciosa \u00e9 capaz de captar os \u201cn\u00e3o ditos\u201d ocultos nas experi\u00eancias in\u00e9ditas e irrepet\u00edveis da pessoa humana. Dessa forma o sil\u00eancio, descendo \u00e0s profundidades mais \u00edntimas e rec\u00f4nditas das entranhas, torna-se fecundo. E assim, em lugar de palavras ocas e vazias ou de discursos in\u00f3cuos, descobre a Palavra nova viva e ativa. Aquela que \u00e9 capaz de um encontro \u00fanico com a natureza, consigo mesmo, com o outro e com o totalmente Outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por isso \u00e9 que nada tem a dizer de novo quem \u00e9 incapaz de fazer sil\u00eancio (cinco, dez, vinte, trinta minutos&#8230; uma hora!). Quem n\u00e3o conhece a silenciosa escuta tampouco est\u00e1 preparado para falar em termos de novidade. Se o fizer, estar\u00e1 irremediavelmente condenado a repetir a si mesmo ou aos outros. Sem o exerc\u00edcio do sil\u00eancio e a capacidade de escuta, tornamo-nos facilmente uma esp\u00e9cie de \u201cpapagaios ou macacos\u201d: com uma rapidez inusitada e surpreendente aprendemos a imitar a fala e os gestos de um e de outro, mas nada de inovador e criativo teremos a transmitir. Com raz\u00e3o diz o ditado que \u201cquem na reflete, se repete\u201d! Somente o sil\u00eancio rejuvenesce as palavras, por um lado conferindo-lhes um significado sempre vivificante, por outro desvendando nelas e em suas entrelinhas o segredo da Palavra. Em outras palavras, o sil\u00eancio \u00e9 o inv\u00f3lucro de um \u201ctesouro oculto\u201d \u2013 do mist\u00e9rio que d\u00e1 sentido \u00e0 exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cO sagrado da exist\u00eancia humana\u201d \u2013 dizia o atormentado escritor russo Dostoi\u00e9vski \u2013 \u201cn\u00e3o est\u00e1 somente em viver, mas especialmente em saber porque se vive\u201d. Em certo sentido vai al\u00e9m do grande dramaturgo ingl\u00eas Shaskepere, na trag\u00e9dia de Hamlet: \u201cto be or not tobe, that is the question\u201d (Ser ou nao serm eis a quest\u00e3o). Ou seja, n\u00e3o nos basta a consci\u00eancia de ser ou n\u00e3o ser. Desde o nascimento at\u00e9 a morte, do ber\u00e7o ao t\u00famulo, de forma consciente ou inconsciente, carregamos sobre os ombros essa <em>pergunta fundamental<\/em>: de saber n\u00e3o apenas quem somos, mas tamb\u00e9m de onde viemos, para onde vamos, e sobretudo saber o \u201cpor qu\u00ea\u201d nos encontramos sobre a face da terra. O que fazer com os dias, meses, anos que nos restam viver? Prgunta fundamental com a qual conseguimos conviver mais ou menos serenamente e sem maiores preocupa\u00e7\u00f5es, mas que, \u00e0 primeira crise, emerge do fundo das correntes subterr\u00e2neas mais profundas, provoca ondas incontrol\u00e1veis, reclamando uma resposta. Instalam-se as d\u00favidas e as perguntas, os medos e as inquieta\u00e7\u00f5es, ao mesmo que se imp\u00f5e a necessidade de enconrar uma raz\u00e3o, por mais irracional e moment\u00e2nea que seja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o exatamente esses momentos de crise, essas lacunas cheias de interroga\u00e7\u00f5es angustiantes que exigem uma parada para o sil\u00eancio e a escuta. Infelizmente, na grande maioria dos casos, quando essa pergunta fundamental da exist\u00eancia se levanta diante de n\u00f3s, costumamos nos assustar, n\u00e3o raro ca\u00edmos no desespero, procurando a todo custo fugir dela. Inc\u00f4moda como \u201cuma pedra no meio do caminho\u201d \u2013 diz o poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, \u00e9 preciso contorn\u00e1-la e seguir adiante. A tend\u00eancia \u00e9 esconder-nos em meio \u00e0 multid\u00e3o an\u00f4nima ou buscar prote\u00e7\u00e3o na televis\u00e3o, no r\u00e1dio, no computador, no telefone, na presen\u00e7a dos companheiros, na conversa\u00e7\u00e3o despreocupada, quando n\u00e3o no \u00e1lcool, na droga ou na viol\u00eancia! Bem mais f\u00e1cil e mais c\u00f4modo do que parar, refletir, cultivar e digerir em profundidade o sil\u00eancio e suas interpela\u00e7\u00f5es, \u00e9 continuar a caminhar como se nada de grave estivesse acontecendo. Rugas e outros sintomas do tempo e do sofrimento costumam nos afastar do espelho \u2013 esse incorrig\u00edvel delator!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas h\u00e1 sil\u00eancios e sil\u00eancos que, embora entrela\u00e7ados, se diferenciam. E ao dizer isso, logo trope\u00e7amos com o <em>sil\u00eancio despovoado<\/em>. Mais exatamente, o isolamento e a recusa da comunica\u00e7\u00e3o, o ato de encaramuja-se sobre o pr\u00f3prio umbigo. Sil\u00eancio que, em lugar de pontes e rela\u00e7\u00f5es interpessoais, produz muros e guetos intranspon\u00edveis. Encontramo-lo no matrim\u00f4nio, na fam\u00edlia, no conv\u00edvio entre pais e filhos, irm\u00e3os e irm\u00e3s, na vida comunit\u00e1ria e\/ou consagrada, no ambiente de trabalho, nos meios de transporte, nas feiras, nos supermercados, nos pontos de \u00f4nibus e esta\u00e7\u00f5es&#8230; Cada um se fecha sobre si mesmo, faz todo o esfor\u00e7o para ignorar o que se passa ao redor. \u00c9 o sil\u00eancio ensurdecedor da cidade, da indiferen\u00e7a, da aus\u00eancia, do individualismo exacerbado, por exemplo. S\u00edmbolo disso \u00e9 o uso (e abuso) dos fones de ouvido que servem n\u00e3o somente para apreciar a m\u00fasica preferida, mas sobretudo para \u201cn\u00e3o ver, n\u00e3o ouvir, n\u00e3o saber\u201d o que ocorre ao redor. Da\u00ed o conceito hoje recorrente de sociedade atomizada, onde as part\u00edculas (interesses e desejos, esfor\u00e7os e paix\u00f5es), giram em torno do pr\u00f3prio n\u00facleo (sujeito).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Semelhante despovoamento, por\u00e9m, pode contrapor-se ao que poder\u00edamos chamar <em>sil\u00eancio povoado de fantasmas<\/em>. Costuma manisfestar-se em roupagens estranhas, tais como p\u00e2nico, sentimento de persegui\u00e7\u00e3o, pesadelos, medos, frustra\u00e7\u00e3o \u2013 uma verdadeira fobia! Por mais que a essa atitude f\u00f3bica se oponham motiva\u00e7\u00f5es racionais para exorcizar os fantasmas, estes continuam teimosa e persistentemente a visitar suas v\u00edtimas indefesas e impotentes. Tudo e todos, dependendo de uma s\u00e9rie de circunst\u00e2ncias, podem aparecer sob a forma de fantasmas. No fundo, uma atitude doentia e m\u00f3rbida precede qualquer tentativa de ver as coisas \u00e0 luz do dia ou da raz\u00e3o.\u00a0 Os fantasmas sempre retornam, falam uma linguagem de sons estranhos, promovem dan\u00e7as macabras, que s\u00f3 a pessoa \u00e9 capaz de ver, ouvir e sentir. Traumas, m\u00e1goas e situa\u00e7\u00f5es n\u00e3o resolvidas s\u00e3o, em geral, o combust\u00edvel de tais \u201cvis\u00f5es\u201d, sejam elas noturnas ou diurnas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vem depois o <em>sil\u00eancio envenenado<\/em>. Caracteriza-se por olhares obl\u00edquos e atravessadas, poucas palavras e sempre de duplo sentido, express\u00f5es mudas e mais afiadas que as armas prontas ao combate. Neste caso, em lugar de sil\u00eancio, seria mais adequado falar de mutismo. O ambiente torna-se excessivamente carregado, o ar pesado e irrespir\u00e1vel. Dois fill\u00f3sofos nos ajudam a comprender esse veneno que se interp\u00f5e entre pessoas, grupos, povos e na\u00e7\u00f5es. De um lado, o ing\u00eas Thomas Hobbes, autor do famoso <em>Leviat\u00e3<\/em>, mostra que \u201co homem \u00e9 o lobo do pr\u00f3prio homem\u201d; de outro, o franc\u00eas Jean-Paulo Sartre lembra que \u201co inferno s\u00e3o os outros\u201d. Disso resulta uma vigil\u00e2ncia constante contra tudo e contra todos, onde a autodefesa se reduz a um permanente ataque, passivo ou ativo. A disputa profissional e carreirista na pol\u00edtica e em outros \u00e2mbitos (academia, religi\u00e3o, etc.) podem ser exemplos desse sil\u00eancio permeado de veneno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, o <em>sil\u00eancio povoado por um tesouro<\/em>. \u00c9 a contempla\u00e7\u00e3o silenciosa de feitos, encontros e recorda\u00e7\u00f5es sadias e saud\u00e1veis. Coisas, pessoas e fatos que formam um \u201ctesouro\u201d, do qual podemos destilar um verdadeiro elixir para a sa\u00fade do corpo e da mente, da alma e do esp\u00edrito. Consiste na lembran\u00e7a e no cultivo da mem\u00f3ria em dimens\u00e3o positiva. Um olhar retrospectivo e repleto de gratid\u00e3o e reconhecimento, capaz de descobrir e recolher as pedras preciosas sepultadas pelo p\u00f3 e as cinzas do tempo, reavivando seu brilho luminoso. Os pr\u00f3prios traumas, sofrimentos e m\u00e1goas, vistos sob os raios de uma nova luz, convertem-se em um tesouro de li\u00e7\u00f5es a serem apreendidas e ensinadas \u00e0 posteridade. Numa palavra, \u00e9 a arte de rever e resgatar a hist\u00f3ria (pessoal e familiar, comunit\u00e1ria ou coletiva) numa perspectiva simultaneamente fiel e criativa. Em lugar de repetir seus erros, estes mesmos podem ensinar a superar os novos desafios que vir\u00e3o pela frente. Talvez seja a verdadeira alquimia da ora\u00e7\u00e3o! Para concluir, s\u00f3 este sil\u00eancio ser\u00e1 capaz de garimpar, em meio aos escombros e ru\u00ednas do passado, uma Palavra viva, capaz de iluminar os caminhos do presente e, ao mesmo tempo, conferir novo vigor \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um futuro justo, fraterno e solid\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Roma, 09 de fevereiro de 2015<\/em><\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-58913\" data-postid=\"58913\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-58913 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. Alfredo J. Gon\u00e7alves, cs \u00c0 primeira vista, escrever sobre o Sil\u00eancio n\u00e3o deixa de parecer uma contradi\u00e7\u00e3o. Mas logo nos damos conta que a contradi\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas aparente, superficial. 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