
{"id":6005,"date":"2009-11-19T22:01:46","date_gmt":"2009-11-20T01:01:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=6005"},"modified":"2009-11-17T22:05:42","modified_gmt":"2009-11-18T01:05:42","slug":"jesus-formando-e-formador","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/jesus-formando-e-formador\/","title":{"rendered":"JESUS, Formando e Formador"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"background-color: #ffffff;\">Carlos Mesters<\/span><\/p>\n<p><span style=\"background-color: #ffffff;\"><em>Palestra na 3\u00aa Semana Brasileira de Catequese, de 06 a 1\/10\/09, em Itaici, Indaiatuba, SP. Conte\u00fado publicado originalmente no site Adital<\/em><\/span><\/p>\n<p>Geralmente, quando falamos de Jesus, n\u00e3o costumamos ver nele o formando, mas s\u00f3 o formador. Na realidade, Jesus, igual a n\u00f3s em tudo, menos no pecado (Hb 4,15), viveu o mesmo processo de aprendizagem, pr\u00f3prio de todo ser humano. Como todo mundo, crescia em sabedoria, tamanho e gra\u00e7a, diante de Deus e dos homens (Lc 2,52). Naqueles trinta anos em Nazar\u00e9, Jesus &#8220;crescia e ficava forte, cheio de sabedoria, e a gra\u00e7a de Deus estava com ele&#8221; (Lc 2,40). E mesmo depois, ao longo dos tr\u00eas anos da sua vida como formador dos disc\u00edpulos e das disc\u00edpulas, ele ia aprendendo no contato com o povo, com os disc\u00edpulos e com os fatos duros da vida. &#8220;Mesmo sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente atrav\u00e9s de seus sofrimentos&#8221; (Hb 5,8). Como todos n\u00f3s, ele matriculou-se na escola da vida e tornou-se disc\u00edpulo aplicado de Deus e do povo.<\/p>\n<p>Falando de &#8220;Jesus formando e formador&#8221;, n\u00e3o se trata de dois per\u00edodos distintos, como se nos trinta anos em Nazar\u00e9 Jesus fosse s\u00f3 formando, e nos outros tr\u00eas anos fosse s\u00f3 formador. Na realidade, o formando sempre \u00e9 fator de forma\u00e7\u00e3o para seu pr\u00f3prio formador. O formador se forma formando seus disc\u00edpulos. Uma vez tendo formado o disc\u00edpulo, o formador desaparece.<\/p>\n<p>1. Seguir Jesus<\/p>\n<p>2. O amigo que convive e forma para a vida<\/p>\n<p>3. Jesus forma os disc\u00edpulos envolvendo-os na miss\u00e3o<\/p>\n<p>4. O m\u00e9todo participativo das Par\u00e1bolas<\/p>\n<p>5. Atento ao processo de forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos<\/p>\n<p>6. Conte\u00fados e recursos did\u00e1ticos<\/p>\n<p><strong><br \/>\n1. Seguir Jesus<\/strong><\/p>\n<p>Desde o come\u00e7o, o objetivo do seguimento \u00e9 duplo: estar com Jesus, formar comunidade com ele e ir em miss\u00e3o, ou seja, pregar, expulsar os dem\u00f4nios, ser pescador de gente (Mc 1,17; Lc 5,10; Mc 3,13-15). &#8220;Seguir Jesus&#8221; era o termo que fazia parte do sistema educativo da \u00e9poca. Indicava o relacionamento do disc\u00edpulo com o mestre. O relacionamento mestre-disc\u00edpulo \u00e9 diferente do relacionamento professor-aluno. Os alunos assistem \u00e0s aulas do professor sobre uma determinada mat\u00e9ria, mas n\u00e3o convivem com ele. Os disc\u00edpulos &#8220;seguem&#8221; o mestre e se formam na conviv\u00eancia di\u00e1ria com ele, dentro do mesmo estilo de vida.<\/p>\n<p>O seguimento de Jesus tinha tr\u00eas dimens\u00f5es que perduram at\u00e9 hoje e que formam o eixo central do processo de forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos:<\/p>\n<p>* Imitar o exemplo do Mestre:<\/p>\n<p>Jesus era o modelo a ser recriado na vida do disc\u00edpulo ou da disc\u00edpula (Jo 13,13-15). A conviv\u00eancia di\u00e1ria com o mestre permitia um confronto constante. Nesta &#8220;escola de Jesus&#8221; s\u00f3 se ensinava uma \u00fanica mat\u00e9ria: o Reino! E este Reino se reconhecia na vida e na pr\u00e1tica do Mestre. Isto exige de n\u00f3s leitura e medita\u00e7\u00e3o constantes do Evangelho para olharmos no espelho da vida de Jesus.<\/p>\n<p>* Participar do destino do Mestre.<\/p>\n<p>A imita\u00e7\u00e3o do Mestre n\u00e3o era um aprendizado te\u00f3rico. Quem seguia Jesus devia comprometer-se com ele e &#8220;estar com ele nas tenta\u00e7\u00f5es&#8221; (Lc 22,28), inclusive na persegui\u00e7\u00e3o (Jo 15,20; Mt 10,24-25). Devia estar disposto a carregar a cruz e a morrer com ele (Mc 8,34-35; Jo 11,16). Isto exige de n\u00f3s um compromisso concreto e di\u00e1rio de fidelidade com o mesmo ideal comunit\u00e1rio com que Jesus, fiel ao Pai, se comprometia.<\/p>\n<p>* Ter a vida de Jesus dentro de si.<\/p>\n<p>Depois da P\u00e1scoa, surge uma terceira dimens\u00e3o, fruto da f\u00e9 na ressurrei\u00e7\u00e3o e da a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito na vida das pessoas. Trata-se da experi\u00eancia pessoal da presen\u00e7a de Jesus ressuscitado, que levava os primeiros crist\u00e3os a dizer: &#8220;Vivo, mas j\u00e1 n\u00e3o sou eu, \u00e9 Cristo que vive em mim&#8221; (Gl 2,20). Eles procuravam refazer em suas vidas a mesma caminhada de Jesus que tinha morrido em defesa da vida e foi ressuscitado pelo poder de Deus (Fl 3,10-11). Isto exige de n\u00f3s uma espiritualidade de entrega cont\u00ednua, alimentada na ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Tanto a conviv\u00eancia comunit\u00e1ria est\u00e1vel ao redor de Jesus e a miss\u00e3o itinerante atrav\u00e9s dos povoados da Galileia, as duas dimens\u00f5es fazem parte do mesmo processo de forma\u00e7\u00e3o. Uma n\u00e3o exclui a outra. Pelo contr\u00e1rio! Elas se completam mutuamente. Uma sem a outra, n\u00e3o se realiza, pois a miss\u00e3o consiste em reconstruir a vida em comunidade.<\/p>\n<p><strong>2. O amigo que convive e forma para a vida<\/strong><\/p>\n<p>Ao longo daqueles tr\u00eas anos, Jesus acompanhava os disc\u00edpulos. Ele era o amigo (Jo 15,15) que convivia com eles, comia com eles, andava com eles, se alegrava com eles, sofria com eles.<\/p>\n<p>Era atrav\u00e9s desta conviv\u00eancia que eles se formavam. Muitos pequenos gestos refletem o testemunho de vida com que Jesus marcava presen\u00e7a na vida dos disc\u00edpulos e das disc\u00edpulas: o seu jeito de ser e de conviver, de relacionar-se com as pessoas e de acolher o povo que vinha falar com ele. Era a maneira de ele dar forma humana \u00e0 sua experi\u00eancia de Deus como Pai:<\/p>\n<p>* Amigo, comparte tudo, at\u00e9 mesmo o segredo do Pai (Jn 15,15).<\/p>\n<p>* Carinhoso, provoca respostas fortes de amor (Lc 7,37-38; 8,2-3; Jo 21,15-17; Mc 14,3-9; Jo 13,1).<\/p>\n<p>* Atencioso, preocupa-se com a alimenta\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos (Jo 21,9), cuida do descanso deles e procura estar a s\u00f3s com eles para repousar (Mc 6,31).<\/p>\n<p>* Pac\u00edfico, ele inspira paz e reconcilia\u00e7\u00e3o: &#8220;A Paz esteja com voc\u00eas!&#8221; (Jn 20,19; Mt 10,26-33; Mt 18,22; Jn 20,23; Mt 16,19; Mt 18,18).<\/p>\n<p>* Compreensivo, aceita os disc\u00edpulos do jeito que s\u00e3o, at\u00e9 mesmo a fuga, a nega\u00e7\u00e3o e a trai\u00e7\u00e3o, sem romper com eles (Mc 14,27-28; Jn 6,67).<\/p>\n<p>* Comprometido, defende os amigos quando s\u00e3o criticados pelos advers\u00e1rios (Mc 2,18-19; 7,5-13).<\/p>\n<p>* Manso e humilde, convida os pobres e oprimidos: &#8220;Venham todos a mim&#8221; (Mt 11,28).<\/p>\n<p>* Exigente, pede para deixar tudo por amor a ele (Mc 10,17-31).<\/p>\n<p>* S\u00e1bio, conhece a fragilidade dos seus disc\u00edpulos, sabe o que se passa no cora\u00e7\u00e3o deles e, por isso, insiste na vigil\u00e2ncia e ensina-os a rezar (Lc 11,1-13; Mt 6,5-15).<\/p>\n<p>* Homem de ora\u00e7\u00e3o, aparece rezando em todos os momentos importantes de sua vida e desperta nos disc\u00edpulos a vontade de rezar: &#8220;Senhor, ensina-nos a rezar!&#8221; (Lc 11,1-4; Lc 4,1-13; 6,12-13; Jn 11,41-42; Mt 11,25; Jn 17,1-26; Lc 23,46; Mc 15,34)<\/p>\n<p>* Humano, Jesus \u00e9 humano, muito humano, &#8220;t\u00e3o humano como s\u00f3 Deus pode ser humano&#8221; dizia o Papa Le\u00e3o Magno (S\u00e9c. V). Ele veio nos mostra o caminho para quem quer ser divino: antes de tudo ser profundamente humano! (cf. Fl 2,6-11)<\/p>\n<p>Deste modo, pelo seu jeito de ser e por este seu testemunho de vida, Jesus encarnava o amor de Deus e o revelava aos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas (Mc 6,31; Mt 10,30; Lc 15,11-32). &#8220;Quem v\u00ea a mim, v\u00ea o Pai&#8221; (Jo 14,9). Tornava-se para eles uma pessoa significativa que os marcou pelo resto de sua vida como &#8220;caminho, verdade e vida&#8221; (Jo 14,6).<\/p>\n<p><strong>3. Jesus forma os disc\u00edpulos envolvendo-os na miss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Desde o primeiro momento do chamado, Jesus envolve os disc\u00edpulos na miss\u00e3o que ele mesmo estava realizando em obedi\u00eancia ao Pai. A participa\u00e7\u00e3o efetiva no an\u00fancio do Reino faz parte do processo formador, pois a miss\u00e3o \u00e9 a raz\u00e3o de ser da vida comunit\u00e1ria ao redor de Jesus. (Lc 9,1-2; 10,1). Eles devem ir, dois a dois, para anunciar a chegada do Reino (Mt 10,7; Lc 10,1.9), curar os doentes (Lc 9,2), expulsar os dem\u00f4nios (Mc 3,15), anunciar a paz (Lc 10,5; Mt 10,13) e rezar pela continuidade da miss\u00e3o (Lc 10,2). Eis alguns aspectos desta sua atitude formadora com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 miss\u00e3o:<\/p>\n<p>* corrige-os quando erram e querem ser os primeiros (Mc 9,33-35; 10,14-15)<\/p>\n<p>* sabe aguardar o momento oportuno para corrigir (Lc 9,46-48; Mc 10,14-15).<\/p>\n<p>* ajuda-os a discernir (Mc 9,28-29),<\/p>\n<p>* interpela-os quando s\u00e3o lentos (Mc 4,13; 8,14-21),<\/p>\n<p>* prepara-os para o conflito e a persegui\u00e7\u00e3o (Jo 16,33; Mt 10,17-25),<\/p>\n<p>* manda observar a realidade (Mc 8,27-29; Jo 4,35; Mt 16,1-3),<\/p>\n<p>* reflete com eles as quest\u00f5es do momento (Lc 13,1-5),<\/p>\n<p>* confronta-os com as necessidades do povo (Jo 6,5),<\/p>\n<p>* ensina que as necessidades do povo est\u00e3o acima das prescri\u00e7\u00f5es rituais (Mt 12,7.12),<\/p>\n<p>* esquece o pr\u00f3prio cansa\u00e7o e acolhe o povo que o procura (Mt 9,36-38).<\/p>\n<p>* tem momentos a s\u00f3s com eles para poder instru\u00ed-los (Mc 4,34; 7,17; 9,30-31; 10,10; 13,3),<\/p>\n<p>* sabe escutar, mesmo quando o di\u00e1logo \u00e9 dif\u00edcil (Jo 4,7-30).<\/p>\n<p>* ajuda as pessoas a se aceitarem a si mesmas (Lc 22,32).<\/p>\n<p>* \u00e9 severo com a hipocrisia (Lc 11,37-53).<\/p>\n<p>* faz mais perguntas do que respostas (Mc 8,17-21).<\/p>\n<p>* \u00e9 firme e n\u00e3o se deixa desviar do caminho (Mc 8,33; Lc 9,54).<\/p>\n<p>* desperta liberdade e liberta\u00e7\u00e3o: &#8220;O ser humano n\u00e3o foi feito para o s\u00e1bado, mas o<\/p>\n<p>s\u00e1bado para o ser humano!&#8221; (Mc 2,27; 2,18.23)<\/p>\n<p>* depois de t\u00ea-los enviado em miss\u00e3o, na volta faz revis\u00e3o com eles (Lc 9,1-2;10,1; 10,17-20)<\/p>\n<p>* desperta a aten\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos para as coisas da vida atrav\u00e9s do ensino das Par\u00e1bolas (Lc 8,4-8).<\/p>\n<p><strong>4. O m\u00e9todo participativo das par\u00e1bolas<\/strong><\/p>\n<p>Jesus tinha uma capacidade muito grande de inventar par\u00e1bolas ou pequenas hist\u00f3rias para comparar as coisas de Deus, que n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o evidentes, com as coisas da vida do povo que todos conheciam e experimentavam diariamente na sua luta pela sobreviv\u00eancia. Isto sup\u00f5e duas coisas: estar por dentro das coisas da vida do povo, e estar por dentro das coisas de Deus, do Reino de Deus.<\/p>\n<p>A par\u00e1bola \u00e9 uma forma participativa de ensinar e de educar. N\u00e3o d\u00e1 tudo trocado em mi\u00fado. N\u00e3o faz saber, mas faz descobrir. Ela muda os olhos, faz a pessoa ser contemplativa, observadora da realidade. Leva a pessoa a refletir sobre a sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de vida, e faz com que esta experi\u00eancia a leve a descobrir que Deus est\u00e1 presente no cotidiano da vida de cada dia. Por exemplo, o agricultor que escuta a par\u00e1bola da semente, diz: &#8220;Semente no terreno, eu sei o que \u00e9. Mas Jesus diz que isso tem a ver com o Reino de Deus. O que ser\u00e1 que ele quis dizer com isto?&#8221; E a\u00ed voc\u00ea pode imaginar as longas conversas do povo e dos disc\u00edpulos em torno das par\u00e1bolas que Jesus contava.<\/p>\n<p>A par\u00e1bola provoca. Em algumas par\u00e1bolas acontecem coisas que n\u00e3o costumam acontecer na vida normal. Por exemplo, onde se viu um pastor de cem ovelhas abandonar noventa e nove no deserto para encontrar aquela \u00fanica ovelha que se perdeu? (Lc 15,4) Onde se viu um pai acolher com festa o filho devasso, sem dar nenhuma palavra de censura? (Lc 15,20-24). Onde se viu um samaritano ser melhor que o levita e o sacerdote? (Lc 10,29-37). A par\u00e1bola traz um exagero pedag\u00f3gico. Ela provoca assim para levar o ouvinte a pensar. Ela leva a pessoa a se envolver na hist\u00f3ria a partir da sua pr\u00f3pria experi\u00eancia de vida.<\/p>\n<p>Uma vez um bispo perguntou numa reuni\u00e3o da comunidade: &#8220;Jesus falou que devemos ser como sal. Para que serve o sal?&#8221; Discutiram e, no fim, partilhando entre si suas experi\u00eancias com o sal, encontraram mais de dez finalidades para o sal. A\u00ed eles foram aplicar tudo isto \u00e0 sua pr\u00f3pria vida e descobriram que ser sal \u00e9 dif\u00edcil e exigente! A par\u00e1bola funcionou e ajudou-os a dar um passo. Iniciaram a travessia em dire\u00e7\u00e3o ao Reino!<\/p>\n<p>Certa vez, por ocasi\u00e3o da par\u00e1bola da semente, os disc\u00edpulos perguntaram a Jesus o que ele queria ensinar por meio daquela par\u00e1bola. Jesus disse: &#8220;Para voc\u00eas, foi dado o mist\u00e9rio do Reino de Deus; para os que est\u00e3o fora tudo acontece em par\u00e1bolas, para que olhem, mas n\u00e3o vejam, escutem, mas n\u00e3o compreendam, para que n\u00e3o se convertam e n\u00e3o sejam perdoados.&#8221; (Mc 4,11-12).<\/p>\n<p>Jesus distingue duas categorias de pessoas: &#8220;os de fora&#8221; e os &#8220;de dentro&#8221;. Aos de dentro, isto \u00e9, aos disc\u00edpulos que convivem com Jesus e acreditam nele, \u00e9 dado conhecer o mist\u00e9rio do Reino, pois o mist\u00e9rio do Reino era o pr\u00f3prio Jesus. Jesus \u00e9 a semente do Reino. Aos de fora, isto \u00e9, aos que n\u00e3o faziam parte da &#8220;fam\u00edlia de Jesus&#8221;, tudo \u00e9 dito em par\u00e1bolas, &#8220;para que vendo n\u00e3o vejam&#8221;. Estes, os de fora, sabem o que \u00e9 semente, mas n\u00e3o sabem que o pr\u00f3prio Jesus \u00e9 esta semente. Alguns deles, como por exemplo, aqueles fariseus e os herodianos que queriam matar Jesus (Mc 3,6), nunca aceitariam Jesus ser a semente do Reino. Por isso, mesmo vendo n\u00e3o enxergam e ouvindo n\u00e3o entendem. E por causa desta cegueira eles se excluem a si mesmos do Reino.<\/p>\n<p>S\u00f3 poucas vezes Jesus explica as par\u00e1bolas. Geralmente, ele diz: &#8220;Quem tem ouvidos para ouvir ou\u00e7a!&#8221; (Mt 13,9; 11,15; 13,43; Mc 7,16). Ou seja: &#8220;\u00c9 isso! Voc\u00eas ouviram! Agora tratem de entender!&#8221; De vez em quando, em casa, ele dava explica\u00e7\u00e3o aos disc\u00edpulos (Mc 4,34-34). Isto significa que o ensino em par\u00e1bola era um voto de confian\u00e7a de Jesus na capacidade do povo e dos disc\u00edpulos de entenderem o seu ensinamento. \u00c9 bom para o formando saber e experimentar que o formador acredita nele e na sua capacidade de assimilar e compreender as coisas.<\/p>\n<p><strong>5. Atento ao processo de forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 pelo fato de uma pessoa andar com Jesus e de conviver com ele que ela j\u00e1 seja santa e renovada. O &#8220;fermento de Herodes e dos fariseus&#8221; (Mc 8,15), a ideologia dominante da \u00e9poca, tinha ra\u00edzes profundas na vida daquele povo. A convers\u00e3o que Jesus pedia e a forma\u00e7\u00e3o que ele dava procuravam atingir e erradicar de dentro deles esse &#8220;fermento&#8221; da ideologia dominante.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m hoje, a ideologia do sistema neoliberal renasce sempre de novo na vida das comunidades e dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas. O &#8220;fermento do consumismo&#8221; tem ra\u00edzes profundas na vida, tanto dos formandos como dos formadores, e exige uma vigil\u00e2ncia constante. Jesus ajudava os disc\u00edpulos a viverem num processo permanente de forma\u00e7\u00e3o. Vamos ver alguns casos desta vigil\u00e2ncia com que Jesus os acompanhava e os ajudava a tomarem consci\u00eancia do &#8220;fermento de Herodes e dos fariseus&#8221;. \u00c9 a ajuda fraterna com que ele, atento ao processo de forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos, intervinha para ajud\u00e1-los a dar um passo e criar nova consci\u00eancia:<\/p>\n<p>1. Mentalidade de grupo fechado.<\/p>\n<p>Certo dia, algu\u00e9m que n\u00e3o era da comunidade, usava o nome de Jesus para expulsar os dem\u00f4nios. Jo\u00e3o viu e proibiu. Ele disse a Jesus: &#8220;Impedimos, porque ele n\u00e3o anda conosco&#8221; (Mc 9,38). 5 Jo\u00e3o pensava ter o monop\u00f3lio de Jesus e queria proibir que outros usassem o nome dele para realizar o bem. Era a mentalidade antiga de &#8220;Povo eleito, Povo separado!&#8221;. Jesus responde: &#8220;N\u00e3o impe\u00e7am! Quem n\u00e3o \u00e9 contra \u00e9 a favor!&#8221; (Lc 9,39-40). Para Jesus, o que importa n\u00e3o \u00e9 se a pessoa faz ou n\u00e3o faz parte da comunidade, mas sim se ela faz ou n\u00e3o o bem que a comunidade anuncia a todos em nome de Deus.<\/p>\n<p>2. Mentalidade do grupo que se considera superior aos outros. Certa vez, os samaritanos n\u00e3o queriam dar hospedagem a Jesus. A rea\u00e7\u00e3o de alguns disc\u00edpulos foi violenta: &#8220;Que um fogo do c\u00e9u acabe com esse povo!&#8221; (Lc 9,54). Queriam imitar o profeta Elias (cf. 2Rs 1,10-11). Achavam que, pelo fato de estarem com Jesus, todos deviam acolh\u00ea-los. Pensavam ter Deus do seu lado para defend\u00ea-los. Era a mentalidade antiga de &#8220;Povo eleito, Povo privilegiado!&#8221;. Jesus os repreende: &#8220;Voc\u00eas n\u00e3o sabem de que esp\u00edrito est\u00e3o sendo animados&#8221; (Lc 9,55).<\/p>\n<p>3. Mentalidade de competi\u00e7\u00e3o e de prest\u00edgio.<\/p>\n<p>Os disc\u00edpulos brigavam entre si pelo primeiro lugar (Mc 9,33-34). Era a mentalidade de classe e de competi\u00e7\u00e3o, que caracterizava a sociedade do Imp\u00e9rio Romano. Ela j\u00e1 se infiltrava na pequena comunidade que estava apenas nascendo ao redor de Jesus. Jesus reage e manda ter a mentalidade contr\u00e1ria: &#8220;O primeiro seja o \u00faltimo&#8221; (Mc 9,35). \u00c9 o ponto em que ele mais insistiu e em que mais deu o pr\u00f3prio testemunho: &#8220;N\u00e3o vim para ser servido, mas para servir&#8221; (Mc 10,45; Mt 20,28; Jo 13,1-16).<\/p>\n<p>4. Mentalidade de quem marginaliza o pequeno.<\/p>\n<p>M\u00e3es com crian\u00e7as querem chegar perto de Jesus. Os disc\u00edpulos as afastam. Era a mentalidade da cultura da \u00e9poca na qual crian\u00e7a n\u00e3o contava e devia ser disciplinada pelos adultos. Era ainda o medo de que as m\u00e3es e as crian\u00e7as, tocando em Jesus com m\u00e3os impuras, causassem alguma impureza em Jesus. Mas Jesus os repreende: &#8220;Deixem vir a mim as crian\u00e7as!&#8221; (Mc 10,14). Ele os acolhe, abra\u00e7a e aben\u00e7oa. Coloca a crian\u00e7a como professora de adulto: &#8220;Quem n\u00e3o receber o Reino como uma crian\u00e7a, n\u00e3o pode entrar nele&#8221; (Lc 18,17). Transgride aquelas normas da pureza legal que impedem o acolhimento e a ternura.<\/p>\n<p>5. Mentalidade de quem segue a opini\u00e3o da ideologia dominante.<\/p>\n<p>Certo dia, vendo um cego, os disc\u00edpulos perguntaram a Jesus: &#8220;Quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego?&#8221; (Jo 9,2). Como hoje, o poder da opini\u00e3o p\u00fablica era muito forte. Fazia todo mundo pensar do mesmo jeito de acordo com a ideologia dominante. Enquanto se pensa assim n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel perceber todo o alcance da Boa Nova do Reino. Jesus os ajuda a ter uma vis\u00e3o mais cr\u00edtica: &#8220;Nem ele, nem os pais dele, mas para que nele se manifestem as obras de Deus&#8221; (cf Jo 9,3). A resposta de Jesus sup\u00f5e uma consci\u00eancia nova e uma leitura diferente da realidade.<\/p>\n<p>Estes e muitos outros epis\u00f3dios mostram como Jesus estava atento ao processo de convers\u00e3o e de forma\u00e7\u00e3o em que se encontravam seus disc\u00edpulos. Isto revela duas caracter\u00edsticas em Jesus: 1) Possu\u00eda uma vis\u00e3o cr\u00edtica, tanto da sociedade em que ele vivia, como da ideologia ou &#8220;fermento&#8221; que os grandes comunicavam aos s\u00faditos. 2) Tinha uma percep\u00e7\u00e3o clara de como este &#8220;fermento&#8221;, disfar\u00e7adamente, se infiltrava na vida das pessoas. Pois de certo modo, eles pensavam agradar a Jesus quando proibiam as m\u00e3es aproximar-se de Jesus ou quando pediam para Deus fazer baixar o fogo do c\u00e9u.<\/p>\n<p><strong>6. Conte\u00fados e Recursos did\u00e1ticos<\/strong><\/p>\n<p>O sistema educativo da \u00e9poca era bem diferente de hoje. Jesus era Mestre, Rabino. N\u00e3o era professor. Seus formandos n\u00e3o eram alunos, mas sim disc\u00edpulos e disc\u00edpulas. Mesmo assim, apesar de ser diferente de hoje, vamos arriscar uma resposta para a seguinte pergunta: Quais eram os conte\u00fados e recursos did\u00e1ticos em que Jesus mais insistia e a que dava mais aten\u00e7\u00e3o no processo de forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos?<\/p>\n<p>* O testemunho de vida.<\/p>\n<p>O recurso b\u00e1sico que Jesus utiliza na forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos \u00e9 o testemunho de sua vida: &#8220;Segue-me&#8221; (Lc 5,27). &#8220;Venham e vejam&#8221; (Jo 1,39). &#8220;Eu sou o caminho, a verdade e a vida&#8221; (Jn 6 14,16). O disc\u00edpulo tem na vida do Mestre uma norma (Mt 10,24-25). Neste seu testemunho de vida Jesus reflete para os disc\u00edpulos os tra\u00e7os do rosto de Deus: &#8220;Quem me v\u00ea, v\u00ea o Pai&#8221; (Jo 14,9). A raiz da Boa Nova \u00e9 Deus, o Pai. A raiz da transpar\u00eancia de Jesus \u00e9 a sua fidelidade ao Pai e a sua coer\u00eancia com a Boa Nova que anuncia e irradia.<\/p>\n<p>* A Vida e a natureza.<\/p>\n<p>Jesus descobre a vontade do Pai nos fen\u00f4menos mais comuns da natureza e a transmite aos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas: na chuva que cai sobre bons e maus ele descobre a miseric\u00f3rdia do Pai que acolhe a todos (Mt 5,45); nos p\u00e1ssaros do c\u00e9u e nos l\u00edrios do campo ele descobre os sinais da Divina Provid\u00eancia (Mt 6,26-30). A sua maneira de ensinar em par\u00e1bolas provoca os disc\u00edpulos a refletirem sobre as coisas mais comuns do dia a dia da sua vida (Mt 13,1-52; Mc 4,1-34). As par\u00e1bolas de Jesus s\u00e3o um retrato da vida do povo e da realidade confusa e conflituosa da \u00e9poca.<\/p>\n<p>* As grandes quest\u00f5es do momento e as perguntas do povo.<\/p>\n<p>O crime de Pilatos contra alguns romeiros da Galileia, a queda da torre de Silo\u00e9 em constru\u00e7\u00e3o que matou 18 oper\u00e1rios (Lc 13,1-4), a discuss\u00e3o dos disc\u00edpulos em torno de quem deles era o maior (Mc 9,33-36), a fome do povo (Lc 9,13), o ensinamento dos escribas (Mc 12,35-37) e tantos outros problemas, fatos e perguntas do povo funcionavam como gancho para Jesus levar os disc\u00edpulos a refletir, a cair em si e a descobrir algum ensinamento ou apelo de Deus.<\/p>\n<p>* O jeito de ensinar em qualquer lugar.<\/p>\n<p>Em qualquer lugar onde encontrava gente para escut\u00e1-lo, Jesus transmitia a Boa Nova de Deus: nas sinagogas durante a celebra\u00e7\u00e3o da Palavra nos s\u00e1bados (Mc 1, 21; 3,1; 6,2); em reuni\u00f5es informais nas casas de amigos (Mc 2,1.15; 7,17; 9,28; 10,10); andando pelo caminho com os disc\u00edpulos (Mc 2,23); ao longo do mar na praia, sentado num barco (Mc 4,1); no deserto para onde se refugiou e onde o povo o procurava (Mc 1,45; 6,32-34); na montanha, de onde proclamou as bem aventuran\u00e7as (Mt 5,1); nas pra\u00e7as das aldeias e cidades, onde povo carregava seus doentes (Mc 6,55- 56); no Templo de Jerusal\u00e9m, por ocasi\u00e3o das romarias, diariamente, sem medo (Mc 14,49).<\/p>\n<p>* Memoriza\u00e7\u00e3o na base da repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia livros, nem manuais como hoje. O ensina era baseado na repeti\u00e7\u00e3o do conte\u00fado a fim de favorecer a memoriza\u00e7\u00e3o. Isto ainda transparece em algumas partes dos discursos de Jesus, conservados nos evangelhos. O final do Serm\u00e3o da Montanha, por exemplo, repete duas vezes, de maneira r\u00edtmica, com poucas diferen\u00e7as, a mesma frase (Mt 7,24-25 e 26-27).<\/p>\n<p>* Momentos a s\u00f3s com os disc\u00edpulos.<\/p>\n<p>V\u00e1rias vezes, Jesus convida os disc\u00edpulos para ir com ele a um lugar distante, seja para instruir (Mc 4,34; 7,17; 9,30-31; 10,10; 13,3), seja para descansar (Mc 6,31). Ele chegou a fazer uma longa viagem ao exterior na terra de Tiro e Sid\u00f4nia para poder estar a s\u00f3s com eles e instru\u00ed-los a respeito da Cruz (Mc 8,22-10,52).<\/p>\n<p>* A B\u00edblia e a hist\u00f3ria do povo.<\/p>\n<p>Nem sempre \u00e9 poss\u00edvel discernir se o uso que os evangelhos fazem do AT vem do pr\u00f3prio Jesus ou se \u00e9 uma explicita\u00e7\u00e3o dos primeiros crist\u00e3os que, assim, expressavam o alcance da sua f\u00e9 em Jesus. Seja como for, \u00e9 ineg\u00e1vel o uso constante e frequente que Jesus fazia da B\u00edblia. Ele conhecia a B\u00edblia de cor e salteado. Como ainda veremos, Jesus se orientava pela Sagrada Escritura para realizar sua miss\u00e3o e ele a usava para instruir os disc\u00edpulos e o povo.<\/p>\n<p>* A Cruz e o sofrimento.<\/p>\n<p>Quando ficou claro para Jesus que as autoridades religiosas n\u00e3o iam aceitar a sua mensagem e que decidiram mat\u00e1-lo, ele come\u00e7ou a falar da cruz que o esperava em Jerusal\u00e9m (Lc 9,31). Isto provocou rea\u00e7\u00f5es fortes nos disc\u00edpulos (Mc 8,31-33), pois na lei estava escrito que um crucificado era um &#8220;maldito de Deus&#8221; (Dt 21,22-23). Como um maldito de Deus poderia ser o Messias? Por isso, a partir deste momento cr\u00edtico, o eixo da forma\u00e7\u00e3o que Jesus dava aos disc\u00edpulos consistia em ajud\u00e1-los a superar o esc\u00e2ndalo da Cruz (Mc 8,31-34; 9,31-32; 10,33-34). Estes s\u00e3o alguns dos recursos did\u00e1ticos usados por Jesus na forma\u00e7\u00e3o dos disc\u00edpulos e disc\u00edpulas. Alguns destes recursos eram diferentes de hoje, outros eram iguais.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-6005\" data-postid=\"6005\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-6005 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carlos Mesters Palestra na 3\u00aa Semana Brasileira de Catequese, de 06 a 1\/10\/09, em Itaici, Indaiatuba, SP. Conte\u00fado publicado originalmente no site Adital Geralmente, quando falamos de Jesus, n\u00e3o costumamos ver nele o formando, mas s\u00f3 o formador. 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