
{"id":77960,"date":"2016-11-21T10:03:37","date_gmt":"2016-11-21T12:03:37","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=77960"},"modified":"2016-11-21T10:25:15","modified_gmt":"2016-11-21T12:25:15","slug":"papa-francisco-lanca-carta-apostolica-misericordia-e-misera","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/papa-francisco-lanca-carta-apostolica-misericordia-e-misera\/","title":{"rendered":"Papa Francisco lan\u00e7a Carta Apost\u00f3lica &#8220;Miseric\u00f3rdia e M\u00edsera&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone  wp-image-77963\" src=\"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/wp-content\/uploads\/PapaAssinaCartaApostolica.png\" alt=\"PapaAssinaCartaApostolica\" width=\"599\" height=\"354\" srcset=\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/wp-content\/uploads\/PapaAssinaCartaApostolica.png 712w, https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/wp-content\/uploads\/PapaAssinaCartaApostolica-300x177.png 300w, https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/wp-content\/uploads\/PapaAssinaCartaApostolica-600x355.png 600w\" sizes=\"(max-width: 599px) 100vw, 599px\" \/><\/p>\n<p>Ao encerrar o Ano Santo da Miseric\u00f3rdia, o Papa Francisco lan\u00e7ou a nova Carta Apost\u00f3lica, que refor\u00e7a a import\u00e2ncia de dar continuidade \u00e0s pr\u00e1ticas do perd\u00e3o e da caridade.<\/p>\n<p>A carta \u00e9 dividida em 22 pontos e come\u00e7a com a explica\u00e7\u00e3o do t\u00edtulo: miseric\u00f3rdia e m\u00edsera s\u00e3o as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a ad\u00faltera. \u201cEsta p\u00e1gina do Evangelho pode ser considerada como \u00edcone de tudo o que celebramos no Ano Santo. (&#8230;) No centro, n\u00e3o temos a lei e a justi\u00e7a legal, mas o amor de Deus. (&#8230;) N\u00e3o se encontram o pecado e o ju\u00edzo em abstrato, mas uma pecadora e o Salvador. (&#8230;) A mis\u00e9ria do pecado foi revestida pela miseric\u00f3rdia do amor\u201d, escreve o Pont\u00edfice.<\/p>\n<p>Perd\u00e3o e caridade: estes s\u00e3o os dois eixos centrais do documento. O Papa recorda que ningu\u00e9m pode por condi\u00e7\u00f5es \u00e0 miseric\u00f3rdia; \u201cesta permanece sempre um ato de gratuidade do Pai celeste\u201d.<\/p>\n<p>Leia abaixo a \u00edntegra da Carta Apost\u00f3lica <em>&#8220;Misericordia et misera&#8221;<\/em><\/p>\n<p>MISERIC\u00d3RDIA E M\u00cdSERA (misericordia et misera) s\u00e3o as duas palavras que Santo Agostinho utiliza para descrever o encontro de Jesus com a ad\u00faltera (cf. Jo 8, 1-11). N\u00e3o podia encontrar express\u00e3o mais bela e coerente do que esta, para fazer compreender o mist\u00e9rio do amor de Deus quando vem ao encontro do pecador: &#8220;Ficaram apenas eles dois: a m\u00edsera e a miseric\u00f3rdia&#8221;.[1] Quanta piedade e justi\u00e7a divina nesta narra\u00e7\u00e3o! O seu ensinamento, ao mesmo tempo que ilumina a conclus\u00e3o do Jubileu Extraordin\u00e1rio da Miseric\u00f3rdia, indica o caminho que somos chamados a percorrer no futuro.<br \/>\n1. Esta p\u00e1gina do Evangelho pode, com justa raz\u00e3o, ser considerada como \u00edcone de tudo o que celebramos no Ano Santo, um tempo rico em miseric\u00f3rdia, a qual pede para continuar a ser celebrada e vivida nas nossas comunidades. Com efeito, a miseric\u00f3rdia n\u00e3o se pode reduzir a um par\u00eantese na vida da Igreja, mas constitui a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia, que torna vis\u00edvel e palp\u00e1vel a verdade profunda do Evangelho. Tudo se revela na miseric\u00f3rdia; tudo se compendia no amor misericordioso do Pai.<br \/>\nEncontraram-se uma mulher e Jesus: ela, ad\u00faltera e \u2013 segundo a Lei \u2013 julgada pass\u00edvel de lapida\u00e7\u00e3o; Ele que, com a sua prega\u00e7\u00e3o e o dom total de Si mesmo que O levar\u00e1 at\u00e9 \u00e0 cruz, reconduziu a lei mosaica ao seu intento origin\u00e1rio genu\u00edno. No centro, n\u00e3o temos a lei e a justi\u00e7a legal, mas o amor de Deus, que sabe ler no cora\u00e7\u00e3o de cada pessoa incluindo o seu desejo mais oculto e que deve ter a primazia sobre tudo. Entretanto, nesta narra\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, n\u00e3o se encontram o pecado e o ju\u00edzo em abstrato, mas uma pecadora e o Salvador. Jesus fixou nos olhos aquela mulher e leu no seu cora\u00e7\u00e3o: l\u00e1 encontrou o desejo de ser compreendida, perdoada e libertada. A mis\u00e9ria do pecado foi revestida pela miseric\u00f3rdia do amor. Da parte de Jesus, nenhum ju\u00edzo que n\u00e3o estivesse repassado de piedade e compaix\u00e3o pela condi\u00e7\u00e3o da pecadora. A quem pretendia julg\u00e1-la e conden\u00e1-la \u00e0 morte, Jesus responde com um longo sil\u00eancio, cujo intuito \u00e9 deixar emergir a voz de Deus tanto na consci\u00eancia da mulher como nas dos seus acusadores. Estes deixam cair as pedras das m\u00e3os e v\u00e3o-se embora um a um (cf. Jo 8, 9). E, depois daquele sil\u00eancio, Jesus diz: &#8220;Mulher, onde est\u00e3o eles? Ningu\u00e9m te condenou? (&#8230;) Tamb\u00e9m Eu n\u00e3o te condeno. Vai e de agora em diante n\u00e3o tornes a pecar&#8221; (8, 10.11). Desta forma, ajuda-a a olhar para o futuro com esperan\u00e7a, pronta a recome\u00e7ar a sua vida; a partir de agora, se quiser, poder\u00e1 &#8220;proceder no amor&#8221; (Ef 5, 2). Depois que se revestiu da miseric\u00f3rdia, embora permane\u00e7a a condi\u00e7\u00e3o de fraqueza por causa do pecado, tal condi\u00e7\u00e3o \u00e9 dominada pelo amor que consente de olhar mais al\u00e9m e viver de maneira diferente.<br \/>\n2. Ali\u00e1s Jesus ensinara-o claramente quando, em casa dum fariseu que O convidara para almo\u00e7ar, se aproximou d\u2019Ele uma mulher conhecida por todos como pecadora (cf. Lc 7, 36-50). Esta ungira com perfume os p\u00e9s de Jesus, banhara-os com as suas l\u00e1grimas e enxugara-os com os seus cabelos (cf. 7, 37-38). \u00c0 rea\u00e7\u00e3o escandalizada do fariseu, Jesus retorquiu: &#8220;S\u00e3o perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas \u00e0quele a quem pouco se perdoa, pouco ama&#8221; (7, 47).<br \/>\nO perd\u00e3o \u00e9 o sinal mais vis\u00edvel do amor do Pai, que Jesus quis revelar em toda a sua vida. N\u00e3o h\u00e1 p\u00e1gina do Evangelho que possa ser subtra\u00edda a este imperativo do amor que chega at\u00e9 ao perd\u00e3o. At\u00e9 nos \u00faltimos momentos da sua exist\u00eancia terrena, ao ser pregado na cruz, Jesus tem palavras de perd\u00e3o: &#8220;Perdoa-lhes, Pai, porque n\u00e3o sabem o que fazem&#8221; (Lc 23, 34).<br \/>\nNada que um pecador arrependido coloque diante da miseric\u00f3rdia de Deus pode ficar sem o abra\u00e7o do seu perd\u00e3o. \u00c9 por este motivo que nenhum de n\u00f3s pode p\u00f4r condi\u00e7\u00f5es \u00e0 miseric\u00f3rdia; esta permanece sempre um ato de gratuidade do Pai celeste, um amor incondicional e n\u00e3o merecido. Por isso, n\u00e3o podemos correr o risco de nos opor \u00e0 plena liberdade do amor com que Deus entra na vida de cada pessoa.<br \/>\nA miseric\u00f3rdia \u00e9 esta a\u00e7\u00e3o concreta do amor que, perdoando, transforma e muda a vida. \u00c9 assim que se manifesta o seu mist\u00e9rio divino. Deus \u00e9 misericordioso (cf. Ex 34, 6), a sua miseric\u00f3rdia \u00e9 eterna (cf. Sal 136\/135), de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o abra\u00e7a cada pessoa que confia n\u2019Ele e transforma-a, dando-lhe a sua pr\u00f3pria vida.<br \/>\n3. Quanta alegria brotou no cora\u00e7\u00e3o destas duas mulheres: a ad\u00faltera e a pecadora! O perd\u00e3o f\u00ea-las sentirem-se, finalmente, livres e felizes como nunca antes. As l\u00e1grimas da vergonha e do sofrimento transformaram-se no sorriso de quem sabe que \u00e9 amado. A miseric\u00f3rdia suscita alegria, porque o cora\u00e7\u00e3o se abre \u00e0 esperan\u00e7a duma vida nova. A alegria do perd\u00e3o \u00e9 indescrit\u00edvel, mas transparece em n\u00f3s sempre que a experimentamos. Na sua origem, est\u00e1 o amor com que Deus vem ao nosso encontro, rompendo o c\u00edrculo de ego\u00edsmo que nos envolve, para fazer tamb\u00e9m de n\u00f3s instrumentos de miseric\u00f3rdia.<br \/>\nComo s\u00e3o significativas, tamb\u00e9m para n\u00f3s, estas palavras antigas que guiavam os primeiros crist\u00e3os: &#8220;Reveste-te de alegria, que \u00e9 sempre agrad\u00e1vel a Deus e por Ele bem acolhida. Todo o homem alegre trabalha bem, pensa bem e despreza a tristeza. (&#8230;) Viver\u00e3o em Deus todas as pessoas que afastam a tristeza e se revestem de toda a alegria&#8221;.[2] Experimentar a miseric\u00f3rdia d\u00e1 alegria; n\u00e3o no-la deixemos roubar pelas v\u00e1rias afli\u00e7\u00f5es e preocupa\u00e7\u00f5es. Que ela permane\u00e7a bem enraizada no nosso cora\u00e7\u00e3o e sempre nos fa\u00e7a olhar com serenidade a vida do dia-a-dia.<br \/>\nNuma cultura frequentemente dominada pela tecnologia, parecem multiplicar-se as formas de tristeza e solid\u00e3o em que caem as pessoas, incluindo muitos jovens. Com efeito, o futuro parece estar ref\u00e9m da incerteza, que n\u00e3o permite ter estabilidade. \u00c9 assim que muitas vezes surgem sentimentos de melancolia, tristeza e t\u00e9dio, que podem, pouco a pouco, levar ao desespero. H\u00e1 necessidade de testemunhas de esperan\u00e7a e de alegria verdadeira, para expulsar as quimeras que prometem uma felicidade f\u00e1cil com para\u00edsos artificiais. O vazio profundo de tanta gente pode ser preenchido pela esperan\u00e7a que trazemos no cora\u00e7\u00e3o e pela alegria que brota dela. H\u00e1 tanta necessidade de reconhecer a alegria que se revela no cora\u00e7\u00e3o tocado pela miseric\u00f3rdia! Por isso guardemos como um tesouro estas palavras do Ap\u00f3stolo: &#8220;Alegrai-vos sempre no Senhor!&#8221; (Flp 4, 4; cf. 1 Ts 5, 16).<br \/>\n4. Celebramos um Ano intenso, durante o qual nos foi concedida, em abund\u00e2ncia, a gra\u00e7a da miseric\u00f3rdia. Como um vento impetuoso e salutar, a bondade e a miseric\u00f3rdia do Senhor derramaram-se sobre o mundo inteiro. E perante este olhar amoroso de Deus, que se fixou de maneira t\u00e3o prolongada sobre cada um de n\u00f3s, n\u00e3o se pode ficar indiferente, porque muda a vida.<br \/>\nAntes de mais nada, sentimos necessidade de agradecer ao Senhor, dizendo-Lhe: &#8220;V\u00f3s aben\u00e7oastes a vossa terra (\u2026). Perdoastes as culpas do vosso povo&#8221; (Sal 85\/84, 2.3). Foi mesmo assim: Deus esmagou as nossas culpas e lan\u00e7ou ao fundo do mar os nossos pecados (cf. Miq 7, 19); j\u00e1 n\u00e3o Se lembra deles, lan\u00e7ou-os para tr\u00e1s de Si (cf. Is 38, 17); como o Oriente est\u00e1 afastado do Ocidente, assim os nossos pecados est\u00e3o longe d\u2019Ele (cf. Sal 103\/102, 12).<br \/>\nNeste Ano Santo, a Igreja p\u00f4de colocar-se \u00e0 escuta e experimentou com grande intensidade a presen\u00e7a e proximidade do Pai, que, por obra do Esp\u00edrito Santo, lhe tornou mais evidente o dom e o mandato de Jesus Cristo relativo ao perd\u00e3o. Foi realmente uma nova visita do Senhor ao meio de n\u00f3s. Sentimos o seu sopro vital efundir-se sobre a Igreja, enquanto, mais uma vez, as suas palavras indicavam a miss\u00e3o: &#8220;Recebei o Esp\u00edrito Santo. \u00c0queles a quem perdoardes os pecados, ficar\u00e3o perdoados; \u00e0queles a quem os retiverdes, ficar\u00e3o retidos&#8221; (Jo 20, 22-23).<br \/>\n5. Agora, conclu\u00eddo este Jubileu, \u00e9 tempo de olhar para diante e compreender como se pode continuar, com fidelidade, alegria e entusiasmo, a experimentar a riqueza da miseric\u00f3rdia divina. As nossas comunidades ser\u00e3o capazes de permanecer vivas e din\u00e2micas na obra da nova evangeliza\u00e7\u00e3o na medida em que a &#8220;convers\u00e3o pastoral&#8221;, que estamos chamados a viver,[3] for plasmada dia ap\u00f3s dia pela for\u00e7a renovadora da miseric\u00f3rdia. N\u00e3o limitemos a sua a\u00e7\u00e3o; n\u00e3o entriste\u00e7amos o Esp\u00edrito que indica sempre novas sendas a percorrer para levar a todos o Evangelho da salva\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm primeiro lugar, somos chamados a celebrar a miseric\u00f3rdia. Quanta riqueza est\u00e1 presente na ora\u00e7\u00e3o da Igreja, quando invoca a Deus como Pai misericordioso! Na liturgia, n\u00e3o s\u00f3 se evoca repetidamente a miseric\u00f3rdia, mas \u00e9 realmente recebida e vivida. Desde o in\u00edcio at\u00e9 ao fim da Celebra\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica, a miseric\u00f3rdia reaparece v\u00e1rias vezes no di\u00e1logo entre a assembleia orante e o cora\u00e7\u00e3o do Pai, que rejubila quando pode derramar o seu amor misericordioso. Logo na altura do pedido inicial de perd\u00e3o com a invoca\u00e7\u00e3o &#8220;Senhor, tende piedade de n\u00f3s&#8221;, somos tranquilizados: &#8220;Deus todo-poderoso tenha compaix\u00e3o de n\u00f3s, perdoe os nossos pecados e nos conduza \u00e0 vida eterna&#8221;. \u00c9 com esta confian\u00e7a que a comunidade se re\u00fane na presen\u00e7a do Senhor, especialmente no dia semanal que recorda a ressurrei\u00e7\u00e3o. Muitas ora\u00e7\u00f5es ditas &#8220;coletas&#8221; procuram recordar-nos o grande dom da miseric\u00f3rdia. No tempo da Quaresma, por exemplo, rezamos com estas palavras: &#8220;Deus, Pai de miseric\u00f3rdia e fonte de toda a bondade, que nos fizestes encontrar no jejum, na ora\u00e7\u00e3o e no amor fraterno os rem\u00e9dios do pecado, olhai benigno para a confiss\u00e3o da nossa humildade, de modo que, abatidos pela consci\u00eancia da culpa, sejamos confortados pela vossa miseric\u00f3rdia&#8221;.[4] Mais adiante, somos introduzidos na Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica pelo Pref\u00e1cio que proclama: &#8220;Na vossa infinita miseric\u00f3rdia, de tal modo amastes o mundo que nos enviastes Jesus Cristo, nosso Salvador, em tudo semelhante ao homem, menos no pecado&#8221;.[5] Ali\u00e1s a pr\u00f3pria Ora\u00e7\u00e3o IV \u00e9 um hino \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus: &#8220;Na vossa miseric\u00f3rdia, a todos socorrestes, para que todos aqueles que Vos procuram Vos encontrem&#8221;.[6] &#8220;Tende miseric\u00f3rdia de n\u00f3s, Senhor&#8221;:[7] \u00e9 a s\u00faplica premente que o sacerdote faz na Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica para implorar a participa\u00e7\u00e3o na vida eterna. Depois do Pai-Nosso, o sacerdote prolonga a ora\u00e7\u00e3o invocando a paz e a liberta\u00e7\u00e3o do pecado, &#8220;ajudados pela vossa miseric\u00f3rdia&#8221; e, antes da sauda\u00e7\u00e3o da paz que os participantes trocam entre si como express\u00e3o de fraternidade e amor m\u00fatuo \u00e0 luz do perd\u00e3o recebido, o celebrante reza de novo: &#8220;N\u00e3o olheis aos nossos pecados, mas \u00e0 f\u00e9 da vossa Igreja&#8221;.[8] Atrav\u00e9s destas palavras, pedimos com humilde confian\u00e7a o dom da unidade e da paz para a Santa M\u00e3e Igreja. Assim a celebra\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia divina culmina no Sacrif\u00edcio Eucar\u00edstico, memorial do mist\u00e9rio pascal de Cristo, do qual brota a salva\u00e7\u00e3o para todo o ser humano, a hist\u00f3ria e o mundo inteiro. Em suma, cada momento da Celebra\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica faz referimento \u00e0 miseric\u00f3rdia de Deus.<br \/>\nMas, em toda a vida sacramental, \u00e9-nos dada com abund\u00e2ncia a miseric\u00f3rdia. Realmente \u00e9 significativo que a Igreja tenha querido fazer explicitamente apelo \u00e0 miseric\u00f3rdia na f\u00f3rmula dos dois sacramentos chamados &#8220;de cura&#8221;: a Reconcilia\u00e7\u00e3o e a Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos. Assim reza a f\u00f3rmula da absolvi\u00e7\u00e3o: &#8220;Deus, Pai de miseric\u00f3rdia, que, pela morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de seu Filho, reconciliou o mundo consigo e infundiu o Esp\u00edrito para a remiss\u00e3o dos pecados, te conceda, pelo minist\u00e9rio da Igreja, o perd\u00e3o e a paz&#8221;;[9] e ao ungir a pessoa doente: &#8220;Por esta santa Un\u00e7\u00e3o e pela sua pi\u00edssima miseric\u00f3rdia, o Senhor venha em teu aux\u00edlio com a gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo&#8221;.[10] Deste modo, a refer\u00eancia \u00e0 miseric\u00f3rdia na ora\u00e7\u00e3o da Igreja, longe de ser apenas paren\u00e9tica, \u00e9 altamente realizadora, ou seja, enquanto a invocamos com f\u00e9, \u00e9-nos concedida; enquanto a confessamos viva e real, efetivamente transforma-nos. Este \u00e9 um conte\u00fado fundamental da nossa f\u00e9, que devemos conservar em toda a sua originalidade: ainda antes e acima da revela\u00e7\u00e3o do pecado, temos a revela\u00e7\u00e3o do amor com que Deus criou o mundo e os seres humanos. O amor \u00e9 o primeiro ato com que Deus Se deu a conhecer e vem ao nosso encontro. Por isso mantenhamos o cora\u00e7\u00e3o aberto \u00e0 confian\u00e7a de ser amados por Deus. O seu amor sempre nos precede, acompanha e permanece connosco, n\u00e3o obstante o nosso pecado.<br \/>\n6. Neste contexto, assume significado particular tamb\u00e9m a escuta da Palavra de Deus. Cada domingo, a Palavra de Deus \u00e9 proclamada na comunidade crist\u00e3, para que o Dia do Senhor seja iluminado pela luz que dimana do mist\u00e9rio pascal.[11] Na Celebra\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica, \u00e9 como se assist\u00edssemos a um verdadeiro di\u00e1logo entre Deus e o seu povo. Com efeito, na proclama\u00e7\u00e3o das Leituras b\u00edblicas, repassa-se a hist\u00f3ria da nossa salva\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da obra incessante de miseric\u00f3rdia que \u00e9 anunciada. Deus fala-nos ainda hoje como a amigos, &#8220;convive&#8221; connosco[12] oferecendo-nos a sua companhia e mostrando-nos a senda da vida. A sua Palavra faz-se int\u00e9rprete dos nossos pedidos e preocupa\u00e7\u00f5es e, simultaneamente, resposta fecunda para podermos experimentar concretamente a sua proximidade. Qu\u00e3o grande import\u00e2ncia adquire a homilia, onde &#8220;a verdade anda de m\u00e3os dadas com a beleza e o bem&#8221;,[13] para fazer vibrar o cora\u00e7\u00e3o dos crentes perante a grandeza da miseric\u00f3rdia! Recomendo vivamente a prepara\u00e7\u00e3o da homilia e o cuidado na sua proclama\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 tanto mais frutuosa quanto mais o sacerdote tiver experimentado em si mesmo a bondade misericordiosa do Senhor. Comunicar a certeza de que Deus nos ama n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de ret\u00f3rica, mas condi\u00e7\u00e3o de credibilidade do pr\u00f3prio sacerd\u00f3cio. Por conseguinte, viver a miseric\u00f3rdia \u00e9 a via mestra para faz\u00ea-la tornar-se um verdadeiro an\u00fancio de consola\u00e7\u00e3o e convers\u00e3o na vida pastoral. A homilia, como tamb\u00e9m a catequese, precisam de ser sempre sustentadas por este cora\u00e7\u00e3o pulsante da vida crist\u00e3.<br \/>\n7. A B\u00edblia \u00e9 a grande narra\u00e7\u00e3o que relata as maravilhas da miseric\u00f3rdia de Deus. Nela, cada p\u00e1gina est\u00e1 imbu\u00edda do amor do Pai, que, desde a cria\u00e7\u00e3o, quis imprimir no universo os sinais de seu amor. O Esp\u00edrito Santo, atrav\u00e9s das palavras dos profetas e dos escritos sapienciais, moldou a hist\u00f3ria de Israel no reconhecimento da ternura e proximidade de Deus, n\u00e3o obstante a infidelidade do povo. A vida de Jesus e a sua prega\u00e7\u00e3o marcam, de forma determinante, a hist\u00f3ria da comunidade crist\u00e3, que compreendeu a sua miss\u00e3o com base no mandato que Cristo lhe confiou de ser instrumento permanente da sua miseric\u00f3rdia e do seu perd\u00e3o (cf. Jo 20, 23). Atrav\u00e9s da Sagrada Escritura, mantida viva pela f\u00e9 da Igreja, o Senhor continua a falar \u00e0 sua Esposa, indicando-lhe as sendas a percorrer para que o Evangelho da salva\u00e7\u00e3o chegue a todos. \u00c9 meu vivo desejo que a Palavra de Deus seja cada vez mais celebrada, conhecida e difundida, para que se possa, atrav\u00e9s dela, compreender melhor o mist\u00e9rio de amor que dimana daquela fonte de miseric\u00f3rdia. Claramente no-lo recorda o Ap\u00f3stolo: &#8220;Toda a Escritura \u00e9 inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justi\u00e7a&#8221; (2 Tm 3, 16).<br \/>\nSeria conveniente que cada comunidade pudesse, num domingo do Ano Lit\u00fargico, renovar o compromisso em prol da difus\u00e3o, conhecimento e aprofundamento da Sagrada Escritura: um domingo dedicado inteiramente \u00e0 Palavra de Deus, para compreender a riqueza inesgot\u00e1vel que prov\u00e9m daquele di\u00e1logo constante de Deus com o seu povo. N\u00e3o h\u00e1 de faltar a criatividade para enriquecer o momento com iniciativas que estimulem os crentes a ser instrumentos vivos de transmiss\u00e3o da Palavra. Entre tais iniciativas, conta-se certamente uma difus\u00e3o mais ampla da lectio divina, para que, atrav\u00e9s da leitura orante do texto sagrado, a vida espiritual encontre apoio e crescimento. A lectio divina sobre os temas da miseric\u00f3rdia consentir\u00e1 de verificar a grande fecundidade que deriva do texto sagrado, lido \u00e0 luz de toda a tradi\u00e7\u00e3o espiritual da Igreja, que leva necessariamente a gestos e obras concretas de caridade.[14]<br \/>\n8. A celebra\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia tem lugar, duma forma muito particular, no sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o. Este \u00e9 o momento em que sentimos o abra\u00e7o do Pai, que vem ao nosso encontro para nos restituir a gra\u00e7a de voltarmos a ser seus filhos. N\u00f3s somos pecadores e carregamos connosco o peso da contradi\u00e7\u00e3o entre o que querer\u00edamos fazer e aquilo que, ao inv\u00e9s, acabamos concretamente por fazer (cf. Rm 7, 14-21); mas a gra\u00e7a sempre nos precede e assume o rosto da miseric\u00f3rdia que se torna eficaz na reconcilia\u00e7\u00e3o e no perd\u00e3o. Deus faz-nos compreender o seu amor imenso precisamente \u00e0 vista da nossa realidade de pecadores. A gra\u00e7a \u00e9 mais forte, e supera qualquer poss\u00edvel resist\u00eancia, porque o amor tudo vence (cf. 1 Cor 13, 7).<br \/>\nNo sacramento do Perd\u00e3o, Deus mostra o caminho da convers\u00e3o a Ele e convida a experimentar de novo a sua proximidade. \u00c9 um perd\u00e3o que pode ser obtido, come\u00e7ando antes de mais nada a viver a caridade. Assim no-lo recorda o ap\u00f3stolo Pedro, quando escreve que &#8220;o amor cobre a multid\u00e3o dos pecados&#8221; (1 Ped 4, 8). S\u00f3 Deus perdoa os pecados, mas tamb\u00e9m nos pede que estejamos prontos a perdoar aos outros, como Ele perdoa a n\u00f3s: &#8220;Perdoai-nos as nossas ofensas, assim como n\u00f3s perdoamos a quem nos tem ofendido&#8221; (Mt 6, 12). Como \u00e9 triste quando ficamos fechados em n\u00f3s mesmos, incapazes de perdoar! Prevalecem o ressentimento, a ira, a vingan\u00e7a, tornando a vida infeliz e frustrando o jubiloso compromisso pela miseric\u00f3rdia.<br \/>\n9. Uma experi\u00eancia de gra\u00e7a que a Igreja viveu, com tanta efic\u00e1cia, no Ano Jubilar foi, certamente, o servi\u00e7o dos Mission\u00e1rios da Miseric\u00f3rdia. A sua a\u00e7\u00e3o pastoral pretendeu tornar evidente que Deus n\u00e3o p\u00f5e qualquer barreira a quantos O procuram de cora\u00e7\u00e3o arrependido, mas vai ao encontro de todos como um Pai. Recebi muitos testemunhos de alegria pelo renovado encontro com o Senhor no sacramento da Confiss\u00e3o. N\u00e3o percamos a oportunidade de viver a f\u00e9, inclusive como experi\u00eancia da reconcilia\u00e7\u00e3o. &#8220;Reconciliai-vos com Deus&#8221; (2 Cor 5, 20): \u00e9 o convite que ainda hoje dirige o Ap\u00f3stolo a cada crente para lhe fazer descobrir a for\u00e7a do amor que o torna uma &#8220;nova cria\u00e7\u00e3o&#8221; (2 Cor 5, 17).<br \/>\nQuero expressar a minha gratid\u00e3o a todos os Mission\u00e1rios da Miseric\u00f3rdia pelo valioso servi\u00e7o oferecido para tornar eficaz a gra\u00e7a do perd\u00e3o. Mas este minist\u00e9rio extraordin\u00e1rio n\u00e3o termina com o encerramento da Porta Santa. De facto desejo que permane\u00e7a ainda, at\u00e9 novas ordens, como sinal concreto de que a gra\u00e7a do Jubileu continua a ser viva e eficaz nas v\u00e1rias partes do mundo. Ser\u00e1 responsabilidade do Conselho Pontif\u00edcio para a Promo\u00e7\u00e3o da Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o seguir, neste per\u00edodo, os Mission\u00e1rios da Miseric\u00f3rdia, como express\u00e3o direta da minha solicitude e proximidade e encontrar as formas mais coerentes para o exerc\u00edcio deste precioso minist\u00e9rio.<br \/>\n10. Aos sacerdotes, renovo o convite para se prepararem com grande cuidado para o minist\u00e9rio da Confiss\u00e3o, que \u00e9 uma verdadeira miss\u00e3o sacerdotal. Agrade\u00e7o-vos vivamente pelo vosso servi\u00e7o e pe\u00e7o-vos para serdes acolhedores com todos, testemunhas da ternura paterna n\u00e3o obstante a gravidade do pecado, sol\u00edcitos em ajudar a refletir sobre o mal cometido, claros ao apresentar os princ\u00edpios morais, dispon\u00edveis para acompanhar os fi\u00e9is no caminho penitencial respeitando com paci\u00eancia o seu passo, clarividentes no discernimento de cada um dos casos, generosos na concess\u00e3o do perd\u00e3o de Deus. Como Jesus, perante a ad\u00faltera, optou por permanecer em sil\u00eancio para a salvar da condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, assim tamb\u00e9m o sacerdote no confession\u00e1rio seja magn\u00e2nimo de cora\u00e7\u00e3o, ciente de que cada penitente lhe recorda a sua pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o pessoal: pecador mas ministro da miseric\u00f3rdia.<br \/>\n11. Gostaria que todos n\u00f3s medit\u00e1ssemos as palavras do Ap\u00f3stolo, escritas no final da sua vida, quando confessa a Tim\u00f3teo ser o primeiro dos pecadores, mas &#8220;justamente por isso alcancei miseric\u00f3rdia&#8221; (1 Tm 1, 16). As suas palavras t\u00eam uma for\u00e7a que irrompe tamb\u00e9m em n\u00f3s levando-nos a refletir sobre a nossa exist\u00eancia vendo em a\u00e7\u00e3o a miseric\u00f3rdia de Deus na mudan\u00e7a, convers\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o do nosso cora\u00e7\u00e3o: &#8220;Dou gra\u00e7as \u00c0quele que me conforta, Cristo Jesus Nosso Senhor, por me ter considerado digno de confian\u00e7a, pondo-me ao seu servi\u00e7o, a mim que antes fora blasfemo, perseguidor e violento. Mas alcancei miseric\u00f3rdia&#8221; (1 Tm 1, 12-13).<br \/>\nPor isso lembremos, com paix\u00e3o pastoral sempre renovada, as palavras do Ap\u00f3stolo: &#8220;Tudo isto vem de Deus, que nos reconciliou consigo por meio de Cristo e nos confiou o minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221; (2 Cor 5, 18). N\u00f3s, primeiro, fomos perdoados, tendo em vista este minist\u00e9rio; tornamo-nos testemunhas em primeira m\u00e3o da universalidade do perd\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 lei nem preceito que possa impedir a Deus de reabra\u00e7ar o filho que regressa a Ele reconhecendo que errou, mas decidido a come\u00e7ar de novo. Deter-se apenas na lei equivale a invalidar a f\u00e9 e a miseric\u00f3rdia divina. H\u00e1 um valor preparat\u00f3rio na lei (cf. Gal 3, 24), cujo fim \u00e9 o amor (cf. 1 Tm 1, 5). Mas o crist\u00e3o \u00e9 chamado a viver a novidade do Evangelho, &#8220;a lei do Esp\u00edrito que d\u00e1 vida em Cristo Jesus&#8221; (Rm 8, 2). Mesmo nos casos mais complexos, onde se \u00e9 tentado a fazer prevalecer uma justi\u00e7a que deriva apenas das normas, deve-se crer na for\u00e7a que brota da gra\u00e7a divina.<br \/>\nN\u00f3s, confessores, temos experi\u00eancia de muitas convers\u00f5es que ocorrem diante dos nossos olhos. Sintamos, portanto, a responsabilidade de gestos e palavras que possam chegar ao fundo do cora\u00e7\u00e3o do penitente, para que descubra a proximidade e a ternura do Pai que perdoa. N\u00e3o invalidemos estes momentos com comportamentos que possam contradizer a experi\u00eancia da miseric\u00f3rdia que se procura; mas, antes, ajudemos a iluminar o espa\u00e7o da consci\u00eancia pessoal com o amor infinito de Deus (cf. 1 Jo 3, 20).<br \/>\nO sacramento da Reconcilia\u00e7\u00e3o precisa de voltar a ter o seu lugar central na vida crist\u00e3; para isso requerem-se sacerdotes que ponham a sua vida ao servi\u00e7o do &#8220;minist\u00e9rio da reconcilia\u00e7\u00e3o&#8221; (2 Cor 5, 18), de tal modo que a ningu\u00e9m sinceramente arrependido seja impedido de aceder ao amor do Pai que espera o seu regresso e, ao mesmo tempo, a todos seja oferecida a possibilidade de experimentar a for\u00e7a libertadora do perd\u00e3o.<br \/>\nUma ocasi\u00e3o prop\u00edcia pode ser a celebra\u00e7\u00e3o da iniciativa 24 horas para o Senhor nas proximidades do IV domingo da Quaresma, que goza j\u00e1 de amplo consenso nas dioceses e continua a ser um forte apelo pastoral para viver intensamente o sacramento da Confiss\u00e3o.<br \/>\n12. Em virtude desta exig\u00eancia, para que nenhum obst\u00e1culo exista entre o pedido de reconcilia\u00e7\u00e3o e o perd\u00e3o de Deus, concedo a partir de agora a todos os sacerdotes, em virtude do seu minist\u00e9rio, a faculdade de absolver a todas as pessoas que incorreram no pecado do aborto. Aquilo que eu concedera de forma limitada ao per\u00edodo jubilar[15] fica agora alargado no tempo, n\u00e3o obstante qualquer disposi\u00e7\u00e3o em contr\u00e1rio. Quero reiterar com todas as minhas for\u00e7as que o aborto \u00e9 um grave pecado, porque p\u00f5e fim a uma vida inocente; mas, com igual for\u00e7a, posso e devo afirmar que n\u00e3o existe algum pecado que a miseric\u00f3rdia de Deus n\u00e3o possa alcan\u00e7ar e destruir, quando encontra um cora\u00e7\u00e3o arrependido que pede para se reconciliar com o Pai. Portanto, cada sacerdote fa\u00e7a-se guia, apoio e conforto no acompanhamento dos penitentes neste caminho de especial reconcilia\u00e7\u00e3o.<br \/>\nNo Ano do Jubileu, aos fi\u00e9is que por variados motivos frequentam as igrejas oficiadas pelos sacerdotes da Fraternidade de S\u00e3o Pio X, tinha-lhes concedido receber v\u00e1lida e licitamente a absolvi\u00e7\u00e3o sacramental dos seus pecados.[16] Para o bem pastoral destes fi\u00e9is e confiando na boa vontade dos seus sacerdotes para que se possa recuperar, com a ajuda de Deus, a plena comunh\u00e3o na Igreja Cat\u00f3lica, estabele\u00e7o por minha pr\u00f3pria decis\u00e3o de estender esta faculdade para al\u00e9m do per\u00edodo jubilar, at\u00e9 novas disposi\u00e7\u00f5es sobre o assunto, a fim de que a ningu\u00e9m falte jamais o sinal sacramental da reconcilia\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do perd\u00e3o da Igreja.<br \/>\n13. A miseric\u00f3rdia possui tamb\u00e9m o rosto da consola\u00e7\u00e3o. &#8220;Consolai, consolai o meu povo&#8221; (Is 40, 1): s\u00e3o as palavras sinceras que o profeta faz ouvir ainda hoje, para que possa chegar uma palavra de esperan\u00e7a a quantos est\u00e3o no sofrimento e na afli\u00e7\u00e3o. Nunca deixemos que nos roubem a esperan\u00e7a que prov\u00e9m da f\u00e9 no Senhor ressuscitado. \u00c9 verdade que muitas vezes somos sujeitos a dura prova, mas n\u00e3o deve jamais esmorecer a certeza de que o Senhor nos ama. A sua miseric\u00f3rdia expressa-se tamb\u00e9m na proximidade, no carinho e no apoio que muitos irm\u00e3os e irm\u00e3s podem oferecer quando sobrev\u00eam os dias da tristeza e da afli\u00e7\u00e3o. Enxugar as l\u00e1grimas \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o concreta que rompe o c\u00edrculo de solid\u00e3o onde muitas vezes se fica encerrado.<br \/>\nTodos precisamos de consola\u00e7\u00e3o, porque ningu\u00e9m est\u00e1 imune do sofrimento, da tribula\u00e7\u00e3o e da incompreens\u00e3o. Quanta dor pode causar uma palavra maldosa, fruto da inveja, do ci\u00fame e da ira! Quanto sofrimento provoca a experi\u00eancia da trai\u00e7\u00e3o, da viol\u00eancia e do abandono! Quanta amargura perante a morte das pessoas queridas! E, todavia, Deus nunca est\u00e1 longe quando se vivem estes dramas. Uma palavra que anima, um abra\u00e7o que te faz sentir compreendido, uma car\u00edcia que deixa perceber o amor, uma ora\u00e7\u00e3o que permite ser mais forte&#8230; s\u00e3o todas express\u00f5es da proximidade de Deus atrav\u00e9s da consola\u00e7\u00e3o oferecida pelos irm\u00e3os.<br \/>\n\u00c0s vezes, poder\u00e1 ser de grande ajuda tamb\u00e9m o sil\u00eancio; porque em certas ocasi\u00f5es n\u00e3o h\u00e1 palavras para responder \u00e0s perguntas de quem sofre. Mas, \u00e0 falta da palavra, pode suprir a compaix\u00e3o de quem est\u00e1 presente, pr\u00f3ximo, ama e estende a m\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 verdade que o sil\u00eancio seja um ato de rendi\u00e7\u00e3o; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 um momento de for\u00e7a e de amor. O pr\u00f3prio sil\u00eancio pertence \u00e0 nossa linguagem de consola\u00e7\u00e3o, porque se transforma num gesto concreto de partilha e participa\u00e7\u00e3o no sofrimento do irm\u00e3o.<br \/>\n14. Num momento particular como o nosso que, entre muitas crises, regista tamb\u00e9m a da fam\u00edlia, \u00e9 importante fazer chegar uma palavra de for\u00e7a consoladora \u00e0s nossas fam\u00edlias. O dom do matrim\u00f3nio \u00e9 uma grande voca\u00e7\u00e3o, que se h\u00e1 de viver, com a gra\u00e7a de Cristo, no amor generoso, fiel e paciente. A beleza da fam\u00edlia permanece inalterada, apesar de tantas sombras e propostas alternativas: &#8220;a alegria do amor que se vive nas fam\u00edlias \u00e9 tamb\u00e9m o j\u00fabilo da Igreja&#8221;.[17] A senda da vida que leva um homem e uma mulher a encontrarem-se, amarem-se e prometerem reciprocamente, diante de Deus, uma fidelidade para sempre, \u00e9 muitas vezes interrompida pelo sofrimento, a trai\u00e7\u00e3o e a solid\u00e3o. A alegria pelo dom dos filhos n\u00e3o est\u00e1 imune das preocupa\u00e7\u00f5es sentidas pelos pais com o seu crescimento e forma\u00e7\u00e3o, com um futuro digno de ser vivido intensamente.<br \/>\nA gra\u00e7a do sacramento do Matrim\u00f3nio n\u00e3o s\u00f3 fortalece a fam\u00edlia, para que seja o lugar privilegiado onde se vive a miseric\u00f3rdia, mas tamb\u00e9m compromete a comunidade crist\u00e3 e toda a atividade pastoral para p\u00f4r em realce o grande valor propositivo da fam\u00edlia. Por isso, este Ano Jubilar n\u00e3o pode perder de vista a complexidade da realidade familiar atual. A experi\u00eancia da miseric\u00f3rdia torna-nos capazes de encarar todas as dificuldades humanas com a atitude do amor de Deus, que n\u00e3o Se cansa de acolher e acompanhar.[18]<br \/>\nN\u00e3o podemos esquecer que cada um traz consigo a riqueza e o peso da sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria, que nos distingue de qualquer outra pessoa. A nossa vida, com as suas alegrias e os seus sofrimentos, \u00e9 algo \u00fanico e irrepet\u00edvel que se desenrola sob o olhar misericordioso de Deus. Isto requer, sobretudo por parte do sacerdote, um discernimento espiritual atento, profundo e clarividente, para que toda a pessoa sem exce\u00e7\u00e3o, em qualquer situa\u00e7\u00e3o que viva, possa sentir-se concretamente acolhida por Deus, participar ativamente na vida da comunidade e estar inserida naquele Povo de Deus que incansavelmente caminha para a plenitude do reino de Deus, reino de justi\u00e7a, de amor, de perd\u00e3o e de miseric\u00f3rdia.<br \/>\n15. Reveste-se de particular import\u00e2ncia o momento da morte. A Igreja viveu sempre esta dram\u00e1tica passagem \u00e0 luz da ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, que abriu a estrada para a certeza da vida futura. Temos aqui um grande desafio a abra\u00e7ar, sobretudo na cultura contempor\u00e2nea que, muitas vezes, tende a banalizar a morte at\u00e9 reduzi-la a simples fic\u00e7\u00e3o ou a ocult\u00e1-la. Ao contr\u00e1rio, a morte h\u00e1 de ser enfrentada e preparada como uma passagem que, embora dolorosa e inevit\u00e1vel, \u00e9 cheia de sentido: o ato extremo de amor para com as pessoas que se deixam e para com Deus a cujo encontro se vai. Em todas as religi\u00f5es, o momento da morte \u2013 como ali\u00e1s o do nascimento \u2013 \u00e9 acompanhado por uma presen\u00e7a religiosa. N\u00f3s vivemos a experi\u00eancia das ex\u00e9quias como uma ora\u00e7\u00e3o cheia de esperan\u00e7a para a alma da pessoa falecida e para dar consola\u00e7\u00e3o \u00e0queles que sofrem a separa\u00e7\u00e3o da pessoa amada.<br \/>\nEstou convencido de que h\u00e1 necessidade, na pastoral animada por uma f\u00e9 viva, de tornar palp\u00e1vel como os sinais lit\u00fargicos e as nossas ora\u00e7\u00f5es s\u00e3o express\u00e3o da miseric\u00f3rdia do Senhor. \u00c9 Ele pr\u00f3prio que oferece palavras de esperan\u00e7a, porque nada nem ningu\u00e9m poder\u00e1 separar-nos jamais do seu amor (cf. Rm 8, 35.38-39). A partilha deste momento pelo sacerdote \u00e9 um acompanhamento importante, porque lhe permite viver a proximidade \u00e0 comunidade crist\u00e3 no momento de fraqueza, solid\u00e3o, incerteza e pranto.<br \/>\n16. Termina o Jubileu e fecha-se a Porta Santa. Mas a porta da miseric\u00f3rdia do nosso cora\u00e7\u00e3o permanece sempre aberta de par em par. Aprendemos que Deus Se inclina sobre n\u00f3s (cf. Os 11, 4), para que tamb\u00e9m n\u00f3s possamos imit\u00e1-Lo inclinando-nos sobre os irm\u00e3os. A saudade que muitos sentem de regressar \u00e0 casa do Pai, que aguarda a sua chegada, \u00e9 suscitada tamb\u00e9m por testemunhas sinceras e generosas da ternura divina. A Porta Santa, que cruzamos neste Ano Jubilar, introduziu-nos no caminho da caridade, que somos chamados a percorrer todos os dias com fidelidade e alegria. \u00c9 a estrada da miseric\u00f3rdia que torna poss\u00edvel encontrar tantos irm\u00e3os e irm\u00e3s que estendem a m\u00e3o para que algu\u00e9m a possa agarrar a fim de caminharem juntos.<br \/>\nQuerer estar perto de Cristo exige fazer-se pr\u00f3ximo dos irm\u00e3os, porque nada \u00e9 mais agrad\u00e1vel ao Pai do que um sinal concreto de miseric\u00f3rdia. Por sua pr\u00f3pria natureza, a miseric\u00f3rdia torna-se vis\u00edvel e palp\u00e1vel numa a\u00e7\u00e3o concreta e din\u00e2mica. Uma vez que se experimentou a miseric\u00f3rdia em toda a sua verdade, nunca mais se volta atr\u00e1s: cresce continuamente e transforma a vida. \u00c9, na verdade, uma nova cria\u00e7\u00e3o que faz um cora\u00e7\u00e3o novo, capaz de amar plenamente, e purifica os olhos para reconhecerem as necessidades mais ocultas. Como s\u00e3o verdadeiras as palavras com que a Igreja reza na Vig\u00edlia Pascal, depois da leitura da narra\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o: &#8220;Senhor nosso Deus, que de modo admir\u00e1vel criastes o homem e de modo mais admir\u00e1vel o redimistes\u2026&#8221;![19]<br \/>\nA miseric\u00f3rdia renova e redime, porque \u00e9 o encontro de dois cora\u00e7\u00f5es: o de Deus que vem ao encontro do cora\u00e7\u00e3o do homem. Este inflama-se e o primeiro cura-o: o cora\u00e7\u00e3o de pedra fica transformado em cora\u00e7\u00e3o de carne (cf. Ez 36, 26), capaz de amar, n\u00e3o obstante o seu pecado. Nisto se nota que somos verdadeiramente uma &#8220;nova cria\u00e7\u00e3o&#8221; (Gal 6, 15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renas\u00e7o para uma vida nova; fui &#8220;misericordiado&#8221; e, consequentemente, feito instrumento da miseric\u00f3rdia.<br \/>\n17. Durante o Ano Santo, especialmente nas &#8220;sextas-feiras da miseric\u00f3rdia&#8221;, pude verificar concretamente a grande quantidade de bem que existe no mundo. Com frequ\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 conhecido porque se realiza diariamente de forma discreta e silenciosa. Embora n\u00e3o fa\u00e7am not\u00edcia, existem muitos sinais concretos de bondade e ternura para com os mais humildes e indefesos, os que vivem mais sozinhos e abandonados. H\u00e1 verdadeiros protagonistas da caridade, que n\u00e3o deixam faltar a solidariedade aos mais pobres e infelizes. Agradecemos ao Senhor por estes dons preciosos, que convidam a descobrir a alegria de aproximar-se da humanidade ferida. Com gratid\u00e3o, penso nos in\u00fameros volunt\u00e1rios que diariamente dedicam o seu tempo a manifestar a presen\u00e7a e proximidade de Deus com a sua entrega. O seu servi\u00e7o \u00e9 uma genu\u00edna obra de miseric\u00f3rdia, que ajuda muitas pessoas a aproximar-se da Igreja.<br \/>\n18. \u00c9 a hora de dar espa\u00e7o \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o a prop\u00f3sito da miseric\u00f3rdia para dar vida a muitas obras novas, fruto da gra\u00e7a. A Igreja precisa de narrar hoje aqueles &#8220;muitos outros sinais&#8221; que Jesus realizou e que &#8220;n\u00e3o est\u00e3o escritos&#8221; (Jo 20, 30), de modo que sejam express\u00e3o eloquente da fecundidade do amor de Cristo e da comunidade que vive d\u2019Ele. J\u00e1 se passaram mais de dois mil anos, e todavia as obras de miseric\u00f3rdia continuam a tornar vis\u00edvel a bondade de Deus.<br \/>\nAinda hoje popula\u00e7\u00f5es inteiras padecem a fome e a sede, sendo grande a preocupa\u00e7\u00e3o suscitada pelas imagens de crian\u00e7as que n\u00e3o t\u00eam nada para se alimentar. Multid\u00f5es de pessoas continuam a emigrar dum pa\u00eds para outro \u00e0 procura de alimento, trabalho, casa e paz. A doen\u00e7a, nas suas v\u00e1rias formas, \u00e9 um motivo permanente de afli\u00e7\u00e3o que requer ajuda, consola\u00e7\u00e3o e apoio. Os estabelecimentos prisionais s\u00e3o lugares onde muitas vezes, \u00e0 pena restritiva da liberdade, se juntam transtornos por vezes graves devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es desumanas de vida. O analfabetismo ainda \u00e9 muito difuso, impedindo aos meninos e meninas de se formarem, expondo-os a novas formas de escravid\u00e3o. A cultura do individualismo exacerbado, sobretudo no Ocidente, leva a perder o sentido de solidariedade e responsabilidade para com os outros. O pr\u00f3prio Deus continua a ser hoje um desconhecido para muitos; isto constitui a maior pobreza e o maior obst\u00e1culo para o reconhecimento da dignidade inviol\u00e1vel da vida humana.<br \/>\nEm suma, as obras de miseric\u00f3rdia corporal e espiritual constituem at\u00e9 aos nossos dias a verifica\u00e7\u00e3o da grande e positiva incid\u00eancia da miseric\u00f3rdia como valor social. Com efeito, esta impele a arrega\u00e7ar as mangas para restituir dignidade a milh\u00f5es de pessoas que s\u00e3o nossos irm\u00e3os e irm\u00e3s, chamados connosco a construir uma &#8220;cidade fi\u00e1vel&#8221;.[20]<br \/>\n19. Muitos sinais concretos de miseric\u00f3rdia foram realizados durante este Ano Santo. Comunidades, fam\u00edlias e indiv\u00edduos crentes redescobriram a alegria da partilha e a beleza da solidariedade. Mas n\u00e3o basta. O mundo continua a gerar novas formas de pobreza espiritual e material, que comprometem a dignidade das pessoas. \u00c9 por isso que a Igreja deve permanecer vigilante e pronta para individuar novas obras de miseric\u00f3rdia e implement\u00e1-las com generosidade e entusiasmo.<br \/>\nAssim, ponhamos todo o esfor\u00e7o em dar formas concretas \u00e0 caridade e, ao mesmo tempo, entender melhor as obras de miseric\u00f3rdia. Com efeito, esta possui um efeito inclusivo pelo que tende a difundir-se como uma n\u00f3doa de azeite e n\u00e3o conhece limites. E, neste sentido, somos chamados a dar um novo rosto \u00e0s obras de miseric\u00f3rdia que conhecemos desde sempre. De facto a miseric\u00f3rdia extravasa; vai sempre mais al\u00e9m, \u00e9 fecunda. \u00c9 como o fermento que faz levedar a massa (cf. Mt 13, 33), e como o gr\u00e3o de mostarda que se transforma numa \u00e1rvore (cf. Lc 13, 19).<br \/>\nA t\u00edtulo de exemplo, basta pensar na obra de miseric\u00f3rdia corporal vestir quem est\u00e1 nu (cf. Mt 25, 36.38.43.44). A mesma nos reconduz aos prim\u00f3rdios, ao jardim do \u00c9den, quando Ad\u00e3o e Eva descobriram que estavam nus e, ouvindo aproximar-Se o Senhor, tiveram vergonha e esconderam-se (cf. Gn 3, 7-8). Sabemos que o Senhor castigou-os; no entanto, Ele &#8220;fez a Ad\u00e3o e \u00e0 sua mulher t\u00fanicas de peles e vestiu-os&#8221; (Gn 3, 21). A vergonha \u00e9 superada e a dignidade restitu\u00edda.<br \/>\nFixemos o olhar tamb\u00e9m em Jesus no G\u00f3lgota. Na cruz, o Filho de Deus est\u00e1 nu; a sua t\u00fanica foi sorteada e levada pelos soldados (cf. Jo 19, 23-24); Ele n\u00e3o tem mais nada. Na cruz, manifesta-se ao m\u00e1ximo a partilha de Jesus com as pessoas que perderam a dignidade, por terem sido privadas do necess\u00e1rio. Assim como a Igreja \u00e9 chamada a ser a &#8220;t\u00fanica de Cristo&#8221;[21] para revestir o seu Senhor, assim tamb\u00e9m ela se comprometeu a tornar-se solid\u00e1ria com os nus da terra a fim de recuperarem a dignidade de que foram despojados. Assim as palavras de Jesus \u2013 &#8220;estava nu e destes-me que vestir&#8221; (Mt 25, 36) \u2013 obrigam-nos a n\u00e3o desviar o olhar das novas formas de pobreza e marginaliza\u00e7\u00e3o que impedem \u00e0s pessoas de viverem com dignidade.<br \/>\nN\u00e3o ter trabalho nem receber um sal\u00e1rio justo, n\u00e3o poder ter uma casa ou uma terra onde habitar, ser discriminados pela f\u00e9, a ra\u00e7a, a posi\u00e7\u00e3o social&#8230; estas e muitas outras s\u00e3o condi\u00e7\u00f5es que atentam contra a dignidade da pessoa; frente a elas, a a\u00e7\u00e3o misericordiosa dos crist\u00e3os responde, antes de mais nada, com a vigil\u00e2ncia e a solidariedade. Hoje s\u00e3o tantas as situa\u00e7\u00f5es em que podemos restituir dignidade \u00e0s pessoas, consentindo-lhes uma vida humana. Basta pensar em tantos meninos e meninas que sofrem viol\u00eancias de v\u00e1rios tipos, que lhes roubam a alegria da vida. Os seus rostos tristes e desorientados permanecem impressos na minha mente; pedem a nossa ajuda para serem libertados da escravid\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo. Estas crian\u00e7as s\u00e3o os jovens de amanh\u00e3; como estamos a prepar\u00e1-las para viverem com dignidade e responsabilidade? Com que esperan\u00e7a podem elas enfrentar o seu presente e o seu futuro?<br \/>\nO car\u00e1ter social da miseric\u00f3rdia exige que n\u00e3o permane\u00e7amos inertes mas afugentemos a indiferen\u00e7a e a hipocrisia para que os planos e os projetos n\u00e3o fiquem letra morta. Que o Esp\u00edrito Santo nos ajude a estar sempre prontos a prestar de forma efetiva e desinteressada a nossa contribui\u00e7\u00e3o, para que a justi\u00e7a e uma vida digna n\u00e3o permane\u00e7am meras palavras de circunst\u00e2ncia, mas sejam o compromisso concreto de quem pretende testemunhar a presen\u00e7a do Reino de Deus.<br \/>\n20. Somos chamados a fazer crescer uma cultura de miseric\u00f3rdia, com base na redescoberta do encontro com os outros: uma cultura na qual ningu\u00e9m olhe para o outro com indiferen\u00e7a, nem vire a cara quando v\u00ea o sofrimento dos irm\u00e3os. As obras de miseric\u00f3rdia s\u00e3o &#8220;artesanais&#8221;: nenhuma delas \u00e9 c\u00f3pia da outra; as nossas m\u00e3os podem mold\u00e1-las de mil modos e, embora seja \u00fanico o Deus que as inspira e \u00fanica a &#8220;mat\u00e9ria&#8221; de que s\u00e3o feitas, ou seja, a pr\u00f3pria miseric\u00f3rdia, cada uma adquire uma forma distinta.<br \/>\nCom efeito, as obras de miseric\u00f3rdia, tocam toda a vida duma pessoa. Por isso, temos possibilidade de criar uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o cultural precisamente a partir da simplicidade de gestos que podem alcan\u00e7ar o corpo e o esp\u00edrito, isto \u00e9, a vida das pessoas. \u00c9 um compromisso que a comunidade crist\u00e3 pode assumir, na certeza de que a Palavra do Senhor n\u00e3o cessa de a chamar para sair da indiferen\u00e7a e do individualismo em que somos tentados a fechar-nos levando uma exist\u00eancia c\u00f3moda e sem problemas. &#8220;Os pobres, sempre os tendes convosco&#8221; (Jo 12, 8): disse Jesus aos seus disc\u00edpulos. N\u00e3o h\u00e1 desculpa que possa justificar a inc\u00faria, quando sabemos que Ele Se identificou com cada um deles.<br \/>\nA cultura da miseric\u00f3rdia forma-se na ora\u00e7\u00e3o ass\u00eddua, na abertura d\u00f3cil \u00e0 a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, na familiaridade com a vida dos Santos e na solidariedade concreta para com os pobres. \u00c9 um convite premente para n\u00e3o se equivocar onde \u00e9 determinante comprometer-se. A tenta\u00e7\u00e3o de se limitar a fazer a &#8220;teoria da miseric\u00f3rdia&#8221; \u00e9 superada na medida em que esta se faz vida di\u00e1ria de participa\u00e7\u00e3o e partilha. Ali\u00e1s, nunca devemos esquecer as palavras com que o ap\u00f3stolo Paulo \u2013 ao contar o encontro depois da sua convers\u00e3o com Pedro, Tiago e Jo\u00e3o \u2013 p\u00f5e em realce um aspeto essencial da sua miss\u00e3o e de toda a vida crist\u00e3: &#8220;S\u00f3 nos disseram que nos dev\u00edamos lembrar dos pobres \u2013 o que procurei fazer com o maior empenho&#8221; (Gal 2, 10). N\u00e3o podemos esquecer-nos dos pobres: trata-se dum convite hoje mais atual do que nunca, que se imp\u00f5e pela sua evid\u00eancia evang\u00e9lica.<br \/>\n21. Que a experi\u00eancia do Jubileu imprima em n\u00f3s estas palavras do ap\u00f3stolo Pedro: outrora &#8220;n\u00e3o t\u00ednheis alcan\u00e7ado miseric\u00f3rdia e agora alcan\u00e7astes miseric\u00f3rdia&#8221; (1 Ped 2, 10). N\u00e3o guardemos ciosamente s\u00f3 para n\u00f3s tudo o que recebemos; saibamos partilh\u00e1-lo com os irm\u00e3os atribulados, para que sejam sustentados pela for\u00e7a da miseric\u00f3rdia do Pai. As nossas comunidades abram-se para alcan\u00e7ar a todas as pessoas que vivem no seu territ\u00f3rio, para que chegue a todas a car\u00edcia de Deus atrav\u00e9s do testemunho dos crentes.<br \/>\nEste \u00e9 o tempo da miseric\u00f3rdia. Cada dia da nossa caminhada \u00e9 marcado pela presen\u00e7a de Deus, que guia os nossos passos com a for\u00e7a da gra\u00e7a que o Esp\u00edrito infunde no cora\u00e7\u00e3o para o plasmar e torn\u00e1-lo capaz de amar. \u00c9 o tempo da miseric\u00f3rdia para todos e cada um, para que ningu\u00e9m possa pensar que \u00e9 alheio \u00e0 proximidade de Deus e \u00e0 for\u00e7a da sua ternura. \u00c9 o tempo da miseric\u00f3rdia para que quantos se sentem fracos e indefesos, afastados e sozinhos possam individuar a presen\u00e7a de irm\u00e3os e irm\u00e3s que os sustentam nas suas necessidades. \u00c9 o tempo da miseric\u00f3rdia para que os pobres sintam pousado sobre si o olhar respeitoso mas atento daqueles que, vencida a indiferen\u00e7a, descobrem o essencial da vida. \u00c9 o tempo da miseric\u00f3rdia para que cada pecador n\u00e3o se canse de pedir perd\u00e3o e sentir a m\u00e3o do Pai, que sempre acolhe e abra\u00e7a.<br \/>\n\u00c0 luz do &#8220;Jubileu das Pessoas Exclu\u00eddas Socialmente&#8221;, celebrado quando j\u00e1 se iam fechando as Portas da Miseric\u00f3rdia em todas as catedrais e santu\u00e1rios do mundo, intu\u00ed que, como mais um sinal concreto deste Ano Santo extraordin\u00e1rio, se deve celebrar em toda a Igreja, na ocorr\u00eancia do XXXIII Domingo do Tempo Comum, o Dia Mundial dos Pobres. Ser\u00e1 a mais digna prepara\u00e7\u00e3o para bem viver a solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo, que Se identificou com os mais pequenos e os pobres e nos h\u00e1 de julgar sobre as obras de miseric\u00f3rdia (cf. Mt 25, 31-46). Ser\u00e1 um Dia que vai ajudar as comunidades e cada batizado a refletir como a pobreza est\u00e1 no \u00e2mago do Evangelho e tomar consci\u00eancia de que n\u00e3o poder\u00e1 haver justi\u00e7a nem paz social enquanto L\u00e1zaro jazer \u00e0 porta da nossa casa (cf. Lc 16, 19-21). Al\u00e9m disso este Dia constituir\u00e1 uma forma genu\u00edna de nova evangeliza\u00e7\u00e3o (cf. Mt 11, 5), procurando renovar o rosto da Igreja na sua perene a\u00e7\u00e3o de convers\u00e3o pastoral para ser testemunha da miseric\u00f3rdia.<br \/>\n22. Sobre n\u00f3s permanecem pousados os olhos misericordiosos da Santa M\u00e3e de Deus. Ela \u00e9 a primeira que abre a prociss\u00e3o e nos acompanha no testemunho do amor. A M\u00e3e da Miseric\u00f3rdia re\u00fane a todos sob a prote\u00e7\u00e3o do seu manto, como A quis frequentemente representar a arte. Confiemos na sua ajuda materna e sigamos a indica\u00e7\u00e3o perene que nos d\u00e1 de olhar para Jesus, rosto radiante da miseric\u00f3rdia de Deus.<br \/>\nDado em Roma, junto de S\u00e3o Pedro, em 20 de novembro \u2013 Solenidade de Cristo Rei \u2013 do Ano do Senhor de 2016, quarto do meu pontificado.<br \/>\nFRANCISCO<br \/>\n[1] In Johannis 33, 5.<br \/>\n[2] HERMAS, O Pastor, 42, 1-4.<br \/>\n[3] Cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 27.<br \/>\n[4] Missal Romano, III Domingo da Quaresma.<br \/>\n[5] Ibid., Pref\u00e1cio VII dos Domingos do Tempo Comum.<br \/>\n[6] Ibid., Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica IV.<br \/>\n[7] Ibid., Ora\u00e7\u00e3o Eucar\u00edstica II.<br \/>\n[8] Ibid., Ritos da Comunh\u00e3o.<br \/>\n[9] Ritual da Penit\u00eancia, n. 46.<br \/>\n[10] Ritual da Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos, n. 76.<br \/>\n[11] Cf. Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico Vaticano II, Const. Sacrosanctum Concilium, 106.<br \/>\n[12] Idem, Const. dogm. Dei Verbum, 2.<br \/>\n[13] Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 142.<br \/>\n[14] Cf. Bento XVI, Exort. ap. p\u00f3s-sinodal Verbum Domini, 86-87.<br \/>\n[15] Cf. Carta pela qual se concede a indulg\u00eancia por ocasi\u00e3o do Jubileu da Miseric\u00f3rdia, 1 de setembro de 2015.<br \/>\n[16] Cf. ibidem.<br \/>\n[17] Francisco, Exort. ap. p\u00f3s-sinodal Amoris laetitia, 1.<br \/>\n[18] Cf. ibid., 291-300.<br \/>\n[19] Missal Romano, Vig\u00edlia Pascal, Ora\u00e7\u00e3o depois da Primeira Leitura.<br \/>\n[20] Bento XVI, Carta enc. Lumen fidei, 50.<br \/>\n[21] Cipriano, A unidade da Igreja Cat\u00f3lica, 7.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-77960\" data-postid=\"77960\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-77960 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documento dividido em 22 pontos tem como eixos a caridade e o perd\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":77963,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"ngg_post_thumbnail":0,"footnotes":""},"categories":[3235,3,8],"tags":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Papa Francisco lan\u00e7a Carta Apost\u00f3lica &quot;Miseric\u00f3rdia e M\u00edsera&quot; - O Arcanjo no ar<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/papa-francisco-lanca-carta-apostolica-misericordia-e-misera\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Papa Francisco lan\u00e7a Carta Apost\u00f3lica &quot;Miseric\u00f3rdia e M\u00edsera&quot; - 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