
{"id":78240,"date":"2016-12-19T15:05:32","date_gmt":"2016-12-19T17:05:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=78240"},"modified":"2016-12-19T15:05:32","modified_gmt":"2016-12-19T17:05:32","slug":"dom-paulo-evaristo-arns-o-cardeal-de-uma-igreja-em-movimento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/dom-paulo-evaristo-arns-o-cardeal-de-uma-igreja-em-movimento\/","title":{"rendered":"Dom Paulo Evaristo Arns, o cardeal de uma Igreja em movimento"},"content":{"rendered":"<p><em>Entrevista com o te\u00f3logo Fernando Altemeyer Jr. e Pe. Julio Lancellotti<\/em><\/p>\n<p>A como\u00e7\u00e3o em torno da morte do cardeal dom Paulo Evaristo Arns \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia desse homem para a Hist\u00f3ria do Brasil e da pr\u00f3pria Igreja. Arcebispo em\u00e9rito de S\u00e3o Paulo, esteve \u00e0 frente da arquidiocese da maior metr\u00f3pole brasileira num dos per\u00edodos mais dif\u00edceis do pa\u00eds: a ditadura militar. O catarinense de estatura baixa se agigantava diante das atrocidades da repress\u00e3o. Marcado tamb\u00e9m como o homem que levou a Igreja para a periferia, era duro na busca pela justi\u00e7a social e pelos Direitos Humanos. Ao mesmo tempo, diante de tamanha aridez, n\u00e3o perdia a leveza da vida. \u201cDom Paulo era divertido, jocoso, brincalh\u00e3o, sagaz. Bom, acho que \u00e9 uma caracter\u00edstica de um colono catarinense. Tem esse jogo do homem da ro\u00e7a, mas que, ao mesmo tempo, era doutor na Sorbonne, mas que tamb\u00e9m n\u00e3o ficava \u2018cantando de galo\u2019\u201d, recorda o te\u00f3logo Fernando Altemeyer Junior, que trabalhou diretamente com o arcebispo, em entrevista concedida por telefone \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/563401-dom-paulo-evaristo-arns-o-cardeal-de-uma-igreja-em-movimento-entrevista-especial-com-fernando-altemeyer-junior-e-julio-lancellotti\" target=\"_blank\"><strong>IHU On-Line<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>Para o padre J\u00falio Renato Lancellotti, p\u00e1roco da Igreja S\u00e3o Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de S\u00e3o Paulo, o legado de dom Paulo Evaristo Arns\u00a0pode ser resumido na frase que ilustra a sua trajet\u00f3ria: \u201ca op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres; foi por isso que ele viveu, esse \u00e9 seu legado e seu chamamento prof\u00e9tico para todos\u201d. Ele recorda seu pioneirismo na luta por causas at\u00e9 ent\u00e3o pouco conhecidas. \u201cFoi o primeiro a defender os doentes de Aids, quando criou a Alian\u00e7a para a Esperan\u00e7a. Eu lembro do dia em que estavam questionando na Justi\u00e7a a atua\u00e7\u00e3o da Casa Vida, uma casa que abrimos para as crian\u00e7as com HIV e Aids. Nessa ocasi\u00e3o, dom Paulo fez uma prociss\u00e3o pelas ruas do bairro e abriu as portas da Casa Vida\u201d, recorda Lancellotti.<\/p>\n<p>Altemeyer tamb\u00e9m destaca essa caracter\u00edstica do cardeal, que rec\u00e9m assume como arcebispo e j\u00e1 se p\u00f5e a pensar o Brasil p\u00f3s-ditadura. \u201cEle come\u00e7a a reunir grandes intelectuais, gente de todas as \u00e1reas na casa dele. Eram esses os encontros que dom Paulo chamava de \u2018reuni\u00e3o dos loucos\u2019, porque l\u00e1 se podia falar sobre qualquer ideia, que poderia ser posta em pr\u00e1tica quando acabasse a ditadura. Imagine, a ditadura\u00a0s\u00f3 acabou em 1989 definitivamente e ele promovia esses encontros em meados dos anos 1970\u201d, conta.<\/p>\n<p>J\u00falio Renato Lancellotti \u00e9 formado em Pedagogia e Teologia, foi professor prim\u00e1rio, professor universit\u00e1rio, membro da Pastoral do Menor da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo e h\u00e1 mais de dez anos \u00e9 o vig\u00e1rio episcopal do povo de rua. \u00c9 p\u00e1roco da Igreja S\u00e3o Miguel Arcanjo, na Mooca, zona leste de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Fernando Altemeyer Junior \u00e9 te\u00f3logo leigo, possui gradua\u00e7\u00e3o em Filosofia e em Teologia, mestrado em Teologia e Ci\u00eancias da Religi\u00e3o pela Universidade Cat\u00f3lica de Louvain-La-Neuve, na B\u00e9lgica, e doutorado em Ci\u00eancias Sociais pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de S\u00e3o Paulo &#8211; PUC. Atualmente \u00e9 professor e integra o Departamento de Ci\u00eancia da Religi\u00e3o, da Faculdade de Ci\u00eancias Sociais da PUC \u2013 SP. Entre suas publica\u00e7\u00f5es, destacamos Aparecida, caminhos da f\u00e9 (S\u00e3o Paulo: Loyola, 1998) e Deus sem poder (In: Centro de Estudos da antiguidade greco-romana &#8211; PUC-SP. (Org.). Hypnos 6. S\u00e3o Paulo: Palas Athena, 2000, v. 6, p. 57-63).<\/p>\n<p>Confira a entrevista.<\/p>\n<p><strong>IIHU On-Line<\/strong> &#8211; Qual a import\u00e2ncia da figura de dom Paulo Evaristo Arns?<\/p>\n<p><strong>Fernando Altemeyer Junior<\/strong> \u2013 Foi um homem imprescind\u00edvel, sem ele teria sido outra hist\u00f3ria. Ele \u00e9 um desses homens que realmente mudam tudo, e n\u00e3o por conta da sua arrog\u00e2ncia ou pela qualifica\u00e7\u00e3o pessoal, mas por estar na hora certa, no lugar certo. Dom Paulo, como Arcebispo de S\u00e3o Paulo por 28 anos, soube dizer uma palavra evang\u00e9lica, pastoral, pol\u00edtica e adequada para o momento hist\u00f3rico do Brasil. Isso \u00e9 o homem no lugar essencial.<\/p>\n<p><strong>IIHU On-Line<\/strong> &#8211; Qual a relev\u00e2ncia da presen\u00e7a de dom Paulo para S\u00e3o Paulo, onde uma entre\u00a0tantas das suas marcas\u00a0est\u00e1\u00a0a de levar a Igreja \u00e0s periferias, construir esses pavilh\u00f5es de uso comum em que eram celebradas as missas?<\/p>\n<p><strong>Fernando Altemeyer Junior<\/strong> &#8211; Essa foi sua grande tarefa por uns anos, chamada Opera\u00e7\u00e3o Periferia, para a qual, inclusive, ele disp\u00f4s de um dinheiro. Decidiu que venderia o Pal\u00e1cio Episcopal, que era um museu totalmente obsoleto, mas que ao ser vendido possibilitou a compra de aproximadamente dois mil terrenos. Juntamente com o apoio da Adveniat, uma associa\u00e7\u00e3o solid\u00e1ria alem\u00e3, permitiu construir esses centros comunit\u00e1rios e, com isso, fazer uma verdadeira presen\u00e7a junto \u00e0s milhares de pessoas migrantes \u2013 nordestinos, mineiros, paranaenses &#8211; que chegavam, durante os anos 1970, a S\u00e3o Paulo. Dom Paulo percebeu esse movimento nas periferias, solicitou autoriza\u00e7\u00e3o ao Papa Paulo VI\u00a0e ganhou a aprova\u00e7\u00e3o imediata de seu projeto. Depois, convocou um col\u00e9gio de bispos para fazer um \u201ctime\u201d com ele, para agir de forma colegial e colocar os dilemas e os dramas do povo migrante da periferia como prioridade da Igreja. Ent\u00e3o, foi realmente uma a\u00e7\u00e3o pastoral, estrat\u00e9gica, pensada, l\u00facida e, sobretudo, firme de dom Paulo em inverter e colocar a periferia no centro, por assim dizer.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> &#8211; Pode nos falar sobre a trajet\u00f3ria de dom Paulo Evaristo Arns na Igreja, sua atua\u00e7\u00e3o como arcebispo de S\u00e3o Paulo e seu trabalho junto \u00e0s pastorais sociais?<\/p>\n<p><strong>J\u00falio Lancellotti<\/strong> \u2013 \u00c0 \u00e9poca em que foi bispo auxiliar de S\u00e3o Paulo, dom Paulo foi ao pres\u00eddio de Tiradentes, onde estavam v\u00e1rios presos pol\u00edticos. Quando chegou l\u00e1, o general perguntou quem ele era, ele se apresentou como bispo auxiliar, e o general respondeu que o bispo auxiliar n\u00e3o poderia entrar no pres\u00eddio. Depois de um tempo, dom Paulo voltou ao pres\u00eddio e o general insistiu que, como bispo auxiliar, ele n\u00e3o poderia entrar l\u00e1, ent\u00e3o ele respondeu que acabava de ser nomeado arcebispo de S\u00e3o Paulo. Estou contando isso para mostrar que a vida de dom Paulo foi marcada por essa coragem em rela\u00e7\u00e3o ao outro, em defesa do outro. Nunca vi dom Paulo se defendendo; sempre o vi defendendo os outros, o menino de rua, como o Jo\u00edlson de Jesus, que foi assassinado nas ruas de S\u00e3o Paulo. Ele sempre defendeu os moradores de rua, e numa ocasi\u00e3o, inclusive, dormiu embaixo de um viaduto com os meninos de rua, deixando a prefeitura perplexa porque o arcebispo estava dormindo embaixo do viaduto com os moradores de rua. Ele tamb\u00e9m foi um defensor dos presos e dos direitos humanos.<\/p>\n<p><strong>IIHU On-Line<\/strong> &#8211; Como era a receptividade do povo em rela\u00e7\u00e3o aos movimentos criados por dom Paulo? Entre os fi\u00e9is, ele recebeu apoio?<\/p>\n<p><strong>Fernando Altemeyer Junior<\/strong> &#8211; A receptividade se dava na contradi\u00e7\u00e3o, porque esse tipo de figura prof\u00e9tica, como era dom Paulo, sempre recebe apoio e tamb\u00e9m \u00f3dio. A periferia via dom Paulo como o novo Paulo de Tarso, andando como nos tempos apost\u00f3licos, animando a f\u00e9 popular. A palavra de dom Paulo foi sempre vigorosa no microfone, uma voz de coragem. \u201cVamos em frente\u201d, dizia ele, sempre presente nas comunidades, \u201cmetendo o p\u00e9 no barro\u201d, indo \u00e0s periferias. Ele tinha essa mesma atua\u00e7\u00e3o no centro da cidade, onde h\u00e1 tamb\u00e9m periferias de corti\u00e7os, moradores de ruas, e nas cadeias.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, a burguesia, os ricos e poderosos, nutriam um \u00f3dio figadal por ele, justamente por conta do fato de ele n\u00e3o ter meias palavras; ele denunciava, enfiava o dedo na ferida e dizia \u201cquem estava pisando em quem\u201d. E mesmo assim, seguia com seus textos fortes e com suas falas no r\u00e1dio sobre as obras em S\u00e3o Paulo e o crescimento da pobreza na cidade, nos anos 1970. Dom Paulo, inclusive, ficou proibido de falar por mais de 20 anos pela censura, porque o governo federal acabou roubando a R\u00e1dio Nove de Julho da Igreja Cat\u00f3lica. Mas dom Paulo ficou fiel as suas causas e foi amado e odiado, amado pelos pobres e odiado pelos poderosos, o que lhe deu a marca de um bom pastor.<\/p>\n<p><strong>IIHU On-Line<\/strong> &#8211; Como foi sua experi\u00eancia ao lado de dom Paulo?<\/p>\n<p><strong>Fernando Altemeyer Junior<\/strong> &#8211; Eu fui o porta-voz da Arquidiocese [de S\u00e3o Paulo] por um per\u00edodo pequeno, no final do mandato dele, em 1994, quando retornei da B\u00e9lgica, at\u00e9 1998, quando ele se aposentou. Antes, claro, t\u00ednhamos contato com dom Paulo\u00a0por ele ser o bispo da cidade, o cardeal. Na periferia, n\u00f3s o encontr\u00e1vamos uma ou duas vezes por ano, quando ele ia \u00e0 comunidade.<\/p>\n<p>Trabalhar com ele na Arquidiocese foi muito importante para mim. Em primeiro lugar, at\u00e9 o fim da vida, dom Paulo sempre confiou nas pessoas. Isso \u00e9 muito importante, pois se fez um grande homem sempre cercado com sua equipe, na qual confiava muito. Ele confiava tanto em n\u00f3s que pedia que escrev\u00eassemos textos, que depois assinaria e publicaria.<\/p>\n<p>Uma vez lembro que ele me pediu para escrever sobre como ele seria aos 80 anos. \u00c0 \u00e9poca ele deveria ter uns 70 e eu, uns 40 anos. E eu perguntei: \u201cdom Paulo, como eu posso escrever um texto de algu\u00e9m de 80 se eu n\u00e3o tenho nem a metade dessa idade? Eu jamais me imaginaria com essa vis\u00e3o geri\u00e1trica, nunca pensei nisso [em ficar velho], sei que vou ficar, mas nunca caiu a ficha\u201d. E ele me disse: \u201cEnt\u00e3o, chegou a boa hora; fa\u00e7a!\u201d. Ele me deu dois ou tr\u00eas dias para pensar na minha velhice e escrever. Pensei muito, pois pensar \u00e9 f\u00e1cil, mas ainda tinha que escrever. No fim, escrevi uma p\u00e1gina, ele gostou e disse: \u201c\u00c9 isso que eu vou querer ter com 80 anos\u201d. Ele assinou e pediu para colocar em um jornal importante da cidade.<\/p>\n<p>Eu ria sabendo que era o \u201cghost writer\u201d do escrito dele, mas ao mesmo tempo ficava orgulhoso por ter confiado em mim. Ele me provocou e fiz uma esp\u00e9cie de deleite espiritual para tentar me colocar na frente de algu\u00e9m com 80 anos. E isso me custou uns 10 livros sobre gerontologia, algumas reflex\u00f5es sobre velhice dos grandes s\u00e1bios do budismo. Ele ria e dizia: \u201cVou querer saber como voc\u00ea fez esse mergulho\u201d. Mas claro, ele j\u00e1 estava 10 quil\u00f4metros \u00e0 frente de mim. Era isso que nos dava uma grande alegria de trabalhar com ele.<\/p>\n<p>Quando o chefe confia em quem trabalha com ele, muda tudo, porque a\u00ed se faz um corpo \u00fanico, n\u00e3o no sentido de corporativismo, mas de coragem, alegria e honra de trabalhar com um homem que era doutor, tinha flu\u00eancia em quatro idiomas, mas alguns ele usava como idiomas operacionais, como Grego, Latim e Aramaico. Foi sempre uma honra poder trabalhar com algu\u00e9m t\u00e3o carinhoso, t\u00e3o vigoroso e inteligente. E sua intelig\u00eancia n\u00e3o \u00e9 aquela que ofusca a dos outros, mas faz o outro mostrar o melhor de si. Essa \u00e9 a verdadeira autoridade, esse foi dom Paulo, uma verdadeira autoridade na Igreja.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> &#8211; Como dom Paulo era nos bastidores, entre os seus?<\/p>\n<p><strong>Fernando Altemeyer Junior<\/strong> &#8211; Divertido, jocoso, brincalh\u00e3o, sagaz. Acho que \u00e9 uma caracter\u00edstica de um colono catarinense. Eu sou paulistano, n\u00e3o entendo muito esse jeito. Ele tinha esse jogo do homem da ro\u00e7a, mas que, ao mesmo tempo, era doutor pela Sorbonne, mas tamb\u00e9m n\u00e3o ficava \u201ccantando de galo\u201d por ter sido doutor e escrito uma tese sobre S\u00e3o Jer\u00f4nimo, que \u00e9 uma preciosidade. Ele demonstrava que sabia que o mais importante era a fala do pai dele, da m\u00e3e dele, dos companheiros de Forquilhinha [cidade natal, em Santa Catarina]. Tamb\u00e9m era um homem muito af\u00e1vel, muito direto e que detestava \u201clambe-botas\u201d e pessoas que ficavam querendo vangl\u00f3rias. Essa coisa do holofote, por exemplo, dom Paulo n\u00e3o gostava. Ele se dava bem na multid\u00e3o, gostava do pov\u00e3o.<\/p>\n<p>Dom Paulo sabia que tinha esse papel prof\u00e9tico, por isso era muito gostoso tomar caf\u00e9 com ele. Se organizavam uma festa do pov\u00e3o na periferia, com \u201ccarne louca\u201d \u2013 n\u00e3o sei como chama isso no Rio Grande do Sul, aquela carne seca que usam para fazer sandu\u00edche -, l\u00e1 est\u00e1vamos n\u00f3s. Ele comia sandu\u00edche com todo mundo, em uma paz profunda, e isso n\u00e3o era populismo, ao contr\u00e1rio, era verdadeiro, era franciscano. Ele trouxe essa caracter\u00edstica dos morros de Petr\u00f3polis, das aulas de Agudos. No seu gabinete entravam homens e mulheres isl\u00e2micos, judeus e ele falava com todos como um amigo.<\/p>\n<p>Ele era o\u00a0grande cardeal, embora fosse de pequenina estatura. Mas ele n\u00e3o se prendia ao cargo, embora o respeitasse muito. Uma vez, brincando, eu disse a ele que nunca o tinha visto na praia e perguntei se o cardeal n\u00e3o ia \u00e0 praia. E ele respondeu: \u201cClaro que vou, l\u00e1 no Paran\u00e1 [onde familiares tinham resid\u00eancia]. Mas eu vou muito cedo, quando n\u00e3o tem ningu\u00e9m, porque n\u00e3o podem tirar uma foto de um cardeal de cal\u00e7\u00e3o. Isso seria uma afronta \u00e0 liturgia do cargo\u201d.<\/p>\n<p>Eu achava isso interessante. Ele sabia o papel e o lugar do cargo que exercia, mas usava desse papel e desse lugar para defender os \u00faltimos e a Igreja. Ele n\u00e3o defendia o clericalismo, defendia a Igreja do evangelho de Jesus. Trabalhar com ele foi importante para a forma\u00e7\u00e3o dos meus valores pessoais. Hoje sou casado, e passo esses valores para os meus filhos, quero que eles sempre tenham orgulho por eu ter trabalhado com dom Paulo e ter aprendido muito com esse homem. Ele vai fazer falta para o Brasil, ainda mais hoje, nesse per\u00edodo de desgoverno e mediocridades.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> &#8211; Dom Paulo sempre foi um homem bastante combativo e convicto nas suas posi\u00e7\u00f5es. Pode nos contar algumas das causas que ele defendeu em rela\u00e7\u00e3o aos direitos humanos?<\/p>\n<p><strong>J\u00falio Lancellotti<\/strong> \u2013 Sim, inclusive foi ele quem levou a documenta\u00e7\u00e3o dos desaparecidos pol\u00edticos \u00e0 Argentina para o Papa Jo\u00e3o Paulo II, porque ele estava \u00e0 frente do grupo de defesa dos direitos humanos\u00a0do Cone Sul. Ele tamb\u00e9m esteve na origem do Projeto Brasil: Nunca Mais, junto com o pastor presbiteriano Jaime Wright, e foi ele quem chamou os rabinos para fazer um momento de ora\u00e7\u00e3o pelo Vladimir Herzog, na ocasi\u00e3o da sua morte, naquele dia em que a catedral estava cercada pelo ex\u00e9rcito. Al\u00e9m disso, era ele quem telefonava para o Golbery do Couto e Silva\u00a0com a lista dos presos na m\u00e3o, dizendo que gostaria de saber onde eles estavam.<\/p>\n<p>Dom Paulo e dom Alo\u00edsio Lorscheider, os dois franciscanos, acompanharam Leonardo Boff, quando o frei\u00a0sentou no \u201cbanquinho do Galileu\u201d \u2013 como ele gostava de dizer \u2013, ou seja, quando o Leonardo foi chamado ao Vaticano para dar explica\u00e7\u00f5es. Dom Paulo\u00a0era um homem combativo na defesa de quem estava sendo oprimido, sofrendo e passando por dificuldades. Um dos aspectos que chama muita aten\u00e7\u00e3o \u00e9 que ele foi o primeiro a defender os doentes de Aids, quando criou a Alian\u00e7a para a Esperan\u00e7a. Eu lembro do dia em que estavam questionando na Justi\u00e7a a atua\u00e7\u00e3o da Casa Vida, uma casa que abrimos para as crian\u00e7as com HIV e Aids. Nessa ocasi\u00e3o, dom Paulo fez uma prociss\u00e3o pelas ruas do bairro e abriu as portas da Casa Vida, sempre defendendo os doentes. Nesse sentido, onde estivesse algu\u00e9m sofrendo, era l\u00e1 que ele estava. Ele nunca estava ao lado dos poderosos, mas dos fracos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-line<\/strong> &#8211; Qual era o pensamento de dom Paulo a respeito do atual momento do pa\u00eds?<\/p>\n<p><strong>Fernando Altemeyer Junior<\/strong> &#8211; N\u00e3o conversei com ele recentemente. Mas suas \u00faltimas falas eram sobre manter aqueles compromissos que teve durante toda a vida: a democracia como um valor. Ela sempre vir\u00e1 da organiza\u00e7\u00e3o social bem articulada, da base, do povo e sem corrup\u00e7\u00e3o. Ele acreditava muito nisso, com coer\u00eancia, e n\u00e3o com o idealismo de achar que tudo \u00e9 perfeito.<\/p>\n<p>Desde que come\u00e7ou a aparecer toda essa cena nacional dram\u00e1tica, dom Paulo ficava horrorizado. Quando houve a ditadura, que foi dur\u00edssima, ele ainda era bispo auxiliar, tornando-se arcebispo em 1970. Esse foi um momento forte de transi\u00e7\u00e3o na ditadura, onde houve a entrada do [Em\u00edlio Garrastazu] M\u00e9dici e depois do [Ernesto] Geisel, que foi dur\u00edssimo, e dom Paulo se colocava nesse miolo.<\/p>\n<p>Nesse per\u00edodo, ele reunia grandes intelectuais, como\u00a0frei [Gilberto] Gorgulho, [Marcos]\u00a0Vin\u00edcius Caldeira Brant, Fernando Henrique Cardoso, na casa dele, sempre com o risco de ter aparelhos de escuta. Eles tinham um pacto para evitar que fossem \u201cmarionetados\u201d ou presos pelo governo. A esses encontros, dom Paulo dava o nome de \u201creuni\u00e3o dos loucos\u201d, porque l\u00e1 se podia falar sobre qualquer ideia, que poderia ser posta em pr\u00e1tica quando acabasse a ditadura. Imagine, a ditadura s\u00f3 acabou em 1989 definitivamente e ele fazia isso em meados dos anos 1970, um pouquinho antes dos 1980 ainda. Ou seja, ele j\u00e1 estava vislumbrando o Brasil depois que acabasse o per\u00edodo da opress\u00e3o c\u00edvico-militar.<\/p>\n<p>Para dom Paulo, deve ter sido dram\u00e1tico ver os rumos que o pa\u00eds tomou, pois depois de ter pensado e projetado um Brasil democr\u00e1tico, com direitos humanos, justi\u00e7a e paz, articula\u00e7\u00e3o social, ele viu, em poucos meses, esse ideal ficar para tr\u00e1s. Recentemente eu n\u00e3o conversei com ele para saber se estava reclamando ou n\u00e3o da atual situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Com certeza n\u00e3o estaria contente com esse cen\u00e1rio. Nenhum brasileiro digno estaria, ainda menos ele.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> &#8211; Como dom Paulo estava se posicionando sobre a atual conjuntura do pa\u00eds nos \u00faltimos anos? O que o sil\u00eancio de dom Paulo significava?<\/p>\n<p><strong>J\u00falio Lancellotti<\/strong> \u2013 Dom Paulo passou os \u00faltimos anos de sua vida com bastante discri\u00e7\u00e3o. Quando foi instalada a Comiss\u00e3o da Verdade, a ex-presidente Dilma Rousseff foi visit\u00e1-lo em sua resid\u00eancia, mas ele viveu esse momento muito discretamente.<\/p>\n<p>Na v\u00e9spera do falecimento eu o vi na UTI, por volta das 23 horas. O sil\u00eancio que vem com a morte dele \u00e9 um sil\u00eancio bastante eloquente diante de tanta corrup\u00e7\u00e3o, e nesse sil\u00eancio est\u00e1 a eloqu\u00eancia de uma voz que nunca foi silenciada, que nunca se calou na defesa dos mais fracos.<\/p>\n<p>Quando eu e outros estivemos com ele nas \u00faltimas vezes, era de um encantamento v\u00ea-lo, e beb\u00edamos a luz dos olhos dele enquanto ele continuava nos encorajando a lutar e a trabalhar. Ele sabia que \u00e9ramos aqueles que ele formou e preparou para serem defensores da vida, da liberdade, da justi\u00e7a e da fraternidade. Ele olhava para n\u00f3s como quem sabia o que est\u00e1vamos fazendo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> \u2013 Que legado ele deixa para a Igreja e para o pa\u00eds?<\/p>\n<p><strong>J\u00falio Lancellotti<\/strong> \u2013 Ele sempre quis uma Igreja aliada do povo, que estivesse junto do povo, n\u00e3o acima, nem separada. Este \u00e9 o grande legado de dom Paulo: a op\u00e7\u00e3o preferencial pelos pobres; foi por isso que ele viveu, esse \u00e9 seu legado e seu chamamento prof\u00e9tico para todos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line<\/strong> &#8211; Deseja acrescentar algo?<\/p>\n<p><strong>Fernando Altemeyer Junior<\/strong> \u2013 \u00c9 importante destacar que ele sempre acreditou no di\u00e1logo inter-religioso. Assim, dialogou com os budistas, com os isl\u00e2micos e com os judeus, desde o caso [Vladimir] Herzog. Dom Paulo sempre foi uma pessoa aberta a todas as f\u00e9s, aos\u00a0cultos africanos e m\u00e3es de santo. Temos a imagem do Dalai Lama na Catedral e o pr\u00eamio Nirvana, que ele ganhou dos budistas no Jap\u00e3o. Dom Paulo, realmente, lembrando a hist\u00f3ria de S\u00e3o Francisco de Assis, era mesmo um irm\u00e3o universal entre as religi\u00f5es.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-78240\" data-postid=\"78240\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-78240 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com o te\u00f3logo Fernando Altemeyer Jr. e Pe. Julio Lancellotti A como\u00e7\u00e3o em torno da morte do cardeal dom Paulo Evaristo Arns \u00e9 uma demonstra\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia desse homem para a Hist\u00f3ria do Brasil e da pr\u00f3pria Igreja. 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