
{"id":85945,"date":"2017-12-09T14:50:48","date_gmt":"2017-12-09T16:50:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/?p=85945"},"modified":"2017-12-09T14:50:48","modified_gmt":"2017-12-09T16:50:48","slug":"o-que-significa-igreja-em-saida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.oarcanjo.net\/site\/o-que-significa-igreja-em-saida\/","title":{"rendered":"O que significa &#8220;Igreja em sa\u00edda&#8221;?"},"content":{"rendered":"<p><em>Eduardo Hoornaert<\/em><\/p>\n<p>O Papa Francisco sabe o que est\u00e1 dizendo.<\/p>\n<p>O Papa Francisco sabe o que est\u00e1 dizendo e \u00e9 exatamente isso que faz com que encontre oposi\u00e7\u00e3o em determinados setores da igreja. No in\u00edcio n\u00e3o se dava muita aten\u00e7\u00e3o ao que ele dizia, pois ele tem um jeito manso e calmo de falar sem levantar tempestades. Assim, por exemplo, n\u00e3o se prestou muita aten\u00e7\u00e3o \u00e0 fala do ent\u00e3o Cardeal Bergoglio diante de seus colegas cardeais, no dia 9 de mar\u00e7o de 2013, poucos dias antes do in\u00edcio do conclave que o elegeria papa:<\/p>\n<p><em>A igreja deve sair de si mesma, rumo \u00e0s periferias existenciais.<\/em><br \/>\n<em> Uma igreja auto-referencial prende Jesus Cristo dentro de si<\/em><br \/>\n<em> e n\u00e3o o deixa sair.<\/em><br \/>\n<em> \u00c9 a igreja mundana, que vive para si mesma.<\/em><\/p>\n<p>O texto se encontra no livro \u2018Grandes Metas do Papa Francisco\u2019, escrito pelo Cardeal Hummes (Paulus, S\u00e3o Paulo, 2017). Aqui j\u00e1 se prenuncia a express\u00e3o \u2018igreja em sa\u00edda\u2019, que, imagino, muita gente n\u00e3o entende bem. Aqui procuro colocar esse modo de falar diante de um amplo painel hist\u00f3rico, pensando que isso ajuda a compreender sua import\u00e2ncia.<\/p>\n<p><strong>Como se comporta a igreja cat\u00f3lica, da Idade M\u00e9dia para c\u00e1?<\/strong><\/p>\n<p>Quando colocadas diante do amplo painel da hist\u00f3ria da igreja cat\u00f3lica, as palavras do papa ganham sua verdadeira dimens\u00e3o. Temos de recuar at\u00e9 os s\u00e9culos XII e XIII, ir at\u00e9 os tr\u00eas grandes papas da Idade M\u00e9dia: Greg\u00f3rio VII (1073-1085), Inoc\u00eancio III (1198-1216) e Bonif\u00e1cio VIII (1294-1303). Assim entenderem de que se trata. Esses tr\u00eas papas eram grandes organizadores e fizeram com que a igreja virasse uma grande empresa, que exercia controle sobre a vida das pessoas e as institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Quem n\u00e3o seguia as regras era excomungado (condenado ao inferno). Esses papas, e toda corte que os rodeava, se imaginava que o crescimento da institui\u00e7\u00e3o crist\u00e3 implicava automaticamente na maior divulga\u00e7\u00e3o do evangelho. Esse era o postulado. As autoridades se compraziam em verificar que a empresa da igreja sobre as sociedades se consolidava sempre mais. Desse modo, a igreja se tornava sempre mais auto-referencial (para falar como Papa Francisco), autocentrada, triunfalista, narcisista (outro termo do Papa Francisco). L\u00edderes eclesi\u00e1sticos eram valorizados na medida em que se mostravam bons empres\u00e1rios, como comprova a hist\u00f3ria dos tr\u00eas pontificados acima mencionados. Sempre mais se valorizava a efici\u00eancia administrativa. A igreja estava num c\u00edrculo vicioso e n\u00e3o se dava conta. Olhava para si mesma e s\u00f3 enxergava o mundo a partir de si mesma. O clericalismo crescia exponencialmente, seu controle sobre a popula\u00e7\u00e3o aumentava sempre mais. Quando autoridades eclesi\u00e1sticas falavam em \u2018reforma da igreja\u2019 (e falavam muito), era sempre no sentido de aperfei\u00e7oar os instrumentos de controle sobre a sociedade. Tudo era direcionado para esse fim: os sacramentos, as par\u00f3quias, as indulg\u00eancias, as devo\u00e7\u00f5es, as peregrina\u00e7\u00f5es. Orgulhosa de seus grandes feitos de engenharia administrativa, a igreja alimentava, em seus colaboradores, tend\u00eancias ao carreirismo. Cl\u00e9rigos eficientes podiam contar com um futuro esplendoroso, inclusive com aceita\u00e7\u00e3o garantida por parte do \u2018povo fiel\u2019.<\/p>\n<p>Tudo isso acabou criando uma neurose que se expressou de forma aguda na t\u00e3o falada Inquisi\u00e7\u00e3o. Essa decorria da extremada vontade de controlar tudo, at\u00e9 os rec\u00f4nditos da consci\u00eancia e da imagina\u00e7\u00e3o. Durante s\u00e9culos, uma mentalidade inquisicional se instalou na igreja e se apoderou da hierarquia. A mentalidade inquisicional virou um mostro, devorava tudo e nem poupava os pr\u00f3prios inquisidores. Pois, n\u00e3o raramente, os inquisidores morriam de medo uns dos outros, j\u00e1 que todos eram potencialmente suspeitos de heresia (os pais, os av\u00f3s, algum dia, andaram com um herege ou ouviram alguma palavra her\u00e9tica?). Era um inferno. Todos tinham medo de todos, ningu\u00e9m confiava em ningu\u00e9m. A hist\u00f3ria da igreja virou um emaranhado inextric\u00e1vel de tramas, hist\u00f3rias, intrigas, conspira\u00e7\u00f5es e corrup\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Movimentos hist\u00f3ricos contr\u00e1rios a essa situa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Gra\u00e7as a Deus, nos mesmos s\u00e9culos XII e XIII surgiram movimentos contr\u00e1rios \u00e0 igreja auto-referencial, que prende Jesus Cristo dentro de si, que \u2018sequestra\u2019 Jesus Cristo. O realce aqui \u00e9 o movimento franciscano, que tomou o cuidado em n\u00e3o se indispor com a hierarquia, sob pena de ser considerado suspeito de heresia e desse modo exposto a procedimentos de repress\u00e3o. Os frades que acompanham Francisco se apresentam como auxiliares do clero e assim conseguem a b\u00ean\u00e7\u00e3o do Papa Inoc\u00eancio III em 1215. Mas nem todos os movimentos t\u00eam essa sorte. Os valdenses, por exemplo, se recusam a colaborar com o clero e logo ficam expostos \u00e0 crueldade da Inquisi\u00e7\u00e3o. Eram seguidores de Pedro Vald\u00e9s, um rico comerciante de Lyon que renunciou \u00e0 sua fortuna e se tornou pregador da pobreza evang\u00e9lica. Os valdenses s\u00e3o excomungados em 1182 e dois anos mais tarde formalmente declarados \u2018hereges\u2019.<\/p>\n<p>At\u00e9 hoje, o franciscanismo permanece um bom exemplo de um movimento que reage contra uma igreja \u2018ensimesmada\u2019. N\u00e3o \u00e9 por acaso que o atual papa escolheu o nome de Francisco.&nbsp; Claro, \u00e9 preciso adaptar o esp\u00edrito franciscano aos dias de hoje, pois n\u00e3o se pode esquecer que a \u2018vida religiosa\u2019, em geral, at\u00e9 bem recentemente, se organizava em torno do paradigma mon\u00e1stico (os \u2018votos evang\u00e9licos\u2019 de celibato, pobreza e obedi\u00eancia, a vida em casas separadas, como mosteiros, priorados, conventos e casas religiosas). Esse paradigma orientou praticamente todos os movimentos evang\u00e9licos por longos s\u00e9culos. Ser\u00e1 preciso repensar isso, pois fica patente, para quem observa o mundo de hoje, que o paradigma mon\u00e1stico n\u00e3o funciona mais. Oriundo de experi\u00eancias fortes, entre os s\u00e9culos VII e XII (os Padres do Deserto), esse paradigma est\u00e1 assentado sobre alguns princ\u00edpios: o isolamento, o \u2018desprezo pelo mundo\u2019 (contemptus mundi, como rezam os livros espirituais), o distanciamento diante da vida dos casados. Fica claro, para quem observa as coisas hoje, que esse paradigma n\u00e3o funciona mais. O princ\u00edpio mon\u00e1stico est\u00e1 em queda livre, embora permane\u00e7a muito respeitado. A \u2018vida religiosa\u2019 pode contar com a simpatia da popula\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tem mais a for\u00e7a de antes. Parece algo do passado, um tipo de vida que pode at\u00e9 suscitar saudades, mas carece de signific\u00e2ncia para os dias de hoje. O mesmo acontece, at\u00e9 certo ponto, com a igreja em geral. Fora dos limitados c\u00edrculos eclesi\u00e1sticos n\u00e3o se presta mais aten\u00e7\u00e3o ao que o papa ou o bispo dizem. N\u00e3o que exista um clima de hostilidade ou rejei\u00e7\u00e3o por parte da sociedade, mas n\u00e3o se pode fugir da impress\u00e3o que os modos eclesi\u00e1sticos, aos olhos de muitos, simplesmente est\u00e3o \u2018fora do tempo\u2019.<\/p>\n<p><strong>Um fato inesperado<\/strong><\/p>\n<p>Embora houvesse, desde a Idade M\u00e9dia, esses movimentos em prol da vida evang\u00e9lica que acabei de evocar, o papado n\u00e3o arredou p\u00e9. Durante todos esses s\u00e9culos, n\u00e3o se falava em pobreza nos altos escal\u00f5es da igreja. Era tabu. O papa n\u00e3o tomava posi\u00e7\u00e3o. \u00c9 dentro dessa hist\u00f3ria \u2018de longa dura\u00e7\u00e3o\u2019 que, inesperadamente, duas semanas antes da abertura do Conc\u00edlio Vaticano II (setembro 1962), numa emiss\u00e3o radiof\u00f4nica, foi pronunciada, pelo Papa Jo\u00e3o XXIII, a seguinte frase: A igreja \u00e9 de todos, mas \u00e9 antes de tudo uma igreja de pobres. Dita sem alarde e sem eleva\u00e7\u00e3o de voz, como se fosse a coisa mais normal do mundo, essa frase, na realidade, rompeu um sil\u00eancio de s\u00e9culos.&nbsp; Era a primeira vez que a mais alta autoridade eclesi\u00e1stica declarava que a pobreza evang\u00e9lica era um desafio para a igreja. De repente, a fala de Jesus na sinagoga de Nazar\u00e9 ressoava no Vaticano:<\/p>\n<p><em>Um Sopro do Senhor est\u00e1 sobre mim:<\/em><br \/>\n<em> Por ele fui escolhido para anunciar uma boa not\u00edcia aos pobres.<\/em><br \/>\n<em> Enviado por ele, declaro aos prisioneiros sua liberta\u00e7\u00e3o,<\/em><br \/>\n<em> Aos cegos a recupera\u00e7\u00e3o da vista,<\/em><br \/>\n<em> Aos oprimidos a soltura (Lc 4, 18-19).<\/em><\/p>\n<p><strong>A rea\u00e7\u00e3o no Conc\u00edlio Vaticano II<\/strong><\/p>\n<p>Acontece que as palavras papais de setembro 1962 passam largamente despercebidas. N\u00e3o s\u00e3o comentadas nas dioceses e nas par\u00f3quias, n\u00e3o s\u00e3o divulgadas pela grande imprensa ou pela TV, n\u00e3o alcan\u00e7am o grande p\u00fablico cat\u00f3lico, Mesmo os Padres Conciliares, reunidos em Roma ao longo de tr\u00eas anos, entre 1962 e 1965, mostram pouco interesse. H\u00e1, decerto, a fala do Cardeal Lercaro que, num discurso na Assembleia, declara que o tema da pobreza mereceria ser o \u2018\u00fanico tema do Conc\u00edlio\u2019. O Cardeal \u00e9 profusamente aplaudido. Mas logo depois desce o manto do sil\u00eancio. N\u00e3o se fala mais em pobreza na Aula Conciliar. Os bispos continuam com os temas que lhes interessam: reforma lit\u00fargica, ecumenismo, modelo de igreja, dogma, luta contra o comunismo, semin\u00e1rios e casas de forma\u00e7\u00e3o, moral, perigo da seculariza\u00e7\u00e3o, do protestantismo e do espiritismo. A pobreza n\u00e3o \u00e9 um tema do Conc\u00edlio Vaticano II.<\/p>\n<p>Desse modo podemos dizer que o posicionamento do Papa Jo\u00e3o pertence \u00e0 \u2018hist\u00f3ria fraca\u2019 do cristianismo, a hist\u00f3ria da fragilidade evang\u00e9lica que, mesmo num Conc\u00edlio que re\u00fane os bispos do mundo inteiro, apenas forma uma corrente subterr\u00e2nea.<\/p>\n<p><strong>A op\u00e7\u00e3o pelo pobre<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 na Am\u00e9rica Latina que essa corrente subterr\u00e2nea que aflora \u00e0 superf\u00edcie. Se o Conc\u00edlio em Roma atribui pouca aten\u00e7\u00e3o \u00e0 quest\u00e3o da pobreza de largos setores da humanidade, n\u00e3o se pode dizer o mesmo da Confer\u00eancia Geral dos Bispos da Am\u00e9rica latina que se realiza em Medellin (na Col\u00f4mbia) no ano 1968. Os bispos latino-americanos n\u00e3o se deixam mais teleguiar pelo \u2018Primeiro Mundo\u2019 (principalmente Europa e Estados Unidos), mas assumem corajosamente uma postura de \u2018Terceiro Mundo\u2019. Enfrentam a realidade social, econ\u00f4mica e pol\u00edtica do continente sul-americano. Fazem uma \u2018op\u00e7\u00e3o pelo pobre\u2019. Esse slogan n\u00e3o \u00e9 puro palavreado, mas representa a\u00e7\u00f5es concretas: alguns dos bispos mais atuantes em Medellin passam efetivamente a manter uma vida em conson\u00e2ncia com o modo de viver comum dos povos de suas terras. Na Am\u00e9rica Latina, a op\u00e7\u00e3o pelo pobre continua sendo assumida pela mais alta autoridade eclesi\u00e1stica ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas, como se verifica em textos proferidos nas sucessivas Confer\u00eancias Episcopais: Puebla 1979; Santo Domingo 1992 e Aparecida 2007.<\/p>\n<p><strong>O vocabul\u00e1rio do Papa Francisco<\/strong><\/p>\n<p>Ser\u00e1 que os cardeais reunidos em Roma para eleger um novo papa, em 2013, entenderam mesmo as palavras que o Cardeal Bergoglio tinha proferido poucos dias antes? Ser\u00e1 que eles se lembravam que ele j\u00e1 foi um ator importante na Confer\u00eancia do Episcopado Latino-americano em Aparecida, no ano 2007, quando era arcebispo de Buenos Aires? Naquela oportunidade, ele j\u00e1 se revelou adepto da linha de Medellin 1968. Seja como for, esses cardeais elegeram Bergoglio como novo papa.<\/p>\n<p>Logo depois de eleito, o Papa Francisco assumiu o posicionamento do Papa Jo\u00e3o XXIII em 1962. Exclamou, tr\u00eas dias depois de eleito: Ah! Como eu queria uma igreja pobre e para os pobres. As mesmas palavras voltam no documento Evangelii Gaudium (EG), um dos primeiros por ele assinados: uma igreja pobre e para os pobres, uma igreja que faz op\u00e7\u00e3o pelo pobre (EG, 198). Ao longo de sucessivas falas, em diversas ocasi\u00f5es, o papa vai criando um vocabul\u00e1rio todo pr\u00f3prio: igreja que se move, que faz op\u00e7\u00e3o pelos \u00faltimos, que vai \u00e0 periferia, que sai de si mesma (audi\u00eancia de 23\/03\/2013), que anda pela rua (os \u2018sacerdotes callejeros\u2019), igreja inclusiva, n\u00e3o excludente, n\u00e3o autocentrada, n\u00e3o narcisista, que n\u00e3o vive para si mesma, n\u00e3o \u00e9 cart\u00f3rio, igreja inteiramente mission\u00e1ria (EG 34), disc\u00edpula mission\u00e1ria (EG 40), hospital de campanha, campo de refugiados. Ainda se pode citar EG 195, 197, 198 ou 199.<\/p>\n<p>A express\u00e3o de maior realce, dentro desse novo vocabul\u00e1rio, \u00e9 \u2018igreja em sa\u00edda\u2019:<\/p>\n<p><em>Sonho com uma op\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria<\/em><br \/>\n<em> capaz de transformar tudo:<\/em><br \/>\n<em> os estilos, os hor\u00e1rios, a linguagem,<\/em><br \/>\n<em> numa atitude constante de sa\u00edda (EG 26-27).<\/em><\/p>\n<p>&#8216;Igreja em sa\u00edda\u2019, eis a express\u00e3o que resume o posicionamento do Papa Francisco frente \u00e0 ideologia \u2018auto-centrada\u2019 que predominou na igreja cat\u00f3lica durante s\u00e9culos e \u00e0s pr\u00e1ticas originadas por essa ideologia.<\/p>\n<p><strong>Um novo tipo de sacerdote<\/strong><\/p>\n<p>Tudo isso ainda \u00e9 muito fr\u00e1gil e corre o risco de ser levado pela poeira dos tempos, se n\u00e3o aparecer um novo tipo de padre. Ser\u00e1 que, nos dias que correm, esse tipo est\u00e1 se gestando? Depende largamente do futuro das comunidades de base, pois, como diz com arg\u00facia Carlos Mesters, \u2018n\u00e3o h\u00e1 comunidade de base sem padre\u2019. Ent\u00e3o o importante consiste em substituir aos poucos a imagem do sacerdote que aparece na comunidade para celebrar missa, administrar sacramentos, aben\u00e7oar casamentos, executar ritos e liturgias, pela imagem de um sacerdote que fica no c\u00edrculo, ao lado de leigos e leigas, escuta e interfere de vez em quando, como orientador ou mesmo como simples companheiro. Uma passagem dif\u00edcil, que exige lucidez e determina\u00e7\u00e3o, pois sempre \u00e9 mais f\u00e1cil voltar \u2018\u00e0s panelas do Egito\u2019. Para um sacerdote, entenda-se, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil viver essa experi\u00eancia, pois mesmo os sacerdotes de hoje ainda foram formados, nos semin\u00e1rios, para atuar numa Igreja \u2018auto-referencial\u2019. Muitos n\u00e3o conseguem mudar de vis\u00e3o, embora a situa\u00e7\u00e3o do mundo, das sociedades e das igrejas tenha mudado nos \u00faltimos 50 anos. Mesmo sabendo que a igreja cat\u00f3lica perde aos poucos uma posi\u00e7\u00e3o dominante na sociedade, os sacerdotes experimentam dificuldade em se engajar numa \u2018igreja em sa\u00edda\u2019. Eis o primeiro ponto.<\/p>\n<p><strong>Um novo tipo de leigo\/leiga<\/strong><\/p>\n<p>Ser\u00e1 que est\u00e1 aparecendo, na igreja cat\u00f3lica, um novo tipo de leigo\/leiga, que corresponda aos ditames de uma \u2018igreja em sa\u00edda\u2019? Nos \u00faltimos anos houve diversas iniciativas que visavam ativar a colabora\u00e7\u00e3o de leigos e leigas na qualidade de catequistas, professoras, animadores e animadoras, cantoras e cantores, secret\u00e1rios e secret\u00e1rias paroquiais, ministros da Eucaristia, di\u00e1conos, ministros do d\u00edzimo, legion\u00e1rios, etc. S\u00e3o iniciativas de valor, mas, para quem enxerga a perspectiva de uma \u2018igreja em sa\u00edda\u2019, fica claro que elas t\u00eam um car\u00e1ter passageiro. Constituem a passagem entre um laicato totalmente passivo e o laicato que a igreja mission\u00e1ria do Papa Francisco necessita. Cedo ou tarde, o(a) leigo(a) ter\u00e1 de sair de sua posi\u00e7\u00e3o de inferioridade e depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao clero. &nbsp;Para tanto, ele (ela) ter\u00e1 de questionar o car\u00e1ter corporativo da atual organiza\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>Aqui, de novo, um mergulho nas profundezas da mem\u00f3ria crist\u00e3 pode ajudar. Trabalhei esse tema amplamente em meu livro \u2018Origens do Cristianismo\u2019 (Paulus, S\u00e3o Paulo, 2016). J\u00e1 antes do surgimento do movimento de Jesus existia, no seio do juda\u00edsmo, uma tens\u00e3o entre a estrutura laical das sinagogas e a estrutura sacerdotal do Templo. O movimento de Jesus n\u00e3o adotou o sistema sacerdotal, mas optou resolutamente por um modelo leigo de organiza\u00e7\u00e3o. As primeiras lideran\u00e7as (bispo, presb\u00edtero, di\u00e1cono) eram leigas, assim como o pr\u00f3prio Jesus fora um leigo. Nos primeiros documentos crist\u00e3os encontramos casais, homens e mulheres que trabalham em solidariedade e se re\u00fanem em casas familiares. Para Paulo, um \u2018presb\u00edtero\u2019 \u00e9 um pai de fam\u00edlia que tem a confian\u00e7a da comunidade porque governa bem sua casa (Tit 1, 6-8).<\/p>\n<p>Hoje n\u00e3o verificamos, dentro da igreja cat\u00f3lica, sen\u00e3o poucas forma\u00e7\u00f5es leigas independentes e aut\u00f4nomas, capazes de atuar na sociedade como associa\u00e7\u00f5es de direito civil e de defender, dentro daquela sociedade, os valores crist\u00e3os. Nisso, igualmente, a colabora\u00e7\u00e3o daqueles sacerdotes que se mostram dispostos a reassumir a antiqu\u00edssima imagem do \u2018mestre\u2019, do \u2018profeta\u2019 ou do \u2018presb\u00edtero\u2019, dos primeiros tempos do cristianismo, \u00e9 preciosa. Mas o importante mesmo consiste em formar grupos fortes e coesos, alimentados por leituras b\u00edblicas e outras leituras espirituais (como as Cartas de Dom Helder ou de Mons. Romero, por exemplo), pois n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil enfrentar sociedades permeadas de valores capitalistas. No mundo em que vivemos, fica dif\u00edcil viver o evangelho sem o apoio de uma comunidade forte.<\/p>\n<div id=\"themify_builder_content-85945\" data-postid=\"85945\" class=\"themify_builder_content themify_builder_content-85945 themify_builder themify_builder_front\">\n\t<\/div>\n<!-- \/themify_builder_content -->","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eduardo Hoornaert O Papa Francisco sabe o que est\u00e1 dizendo. O Papa Francisco sabe o que est\u00e1 dizendo e \u00e9 exatamente isso que faz com que encontre oposi\u00e7\u00e3o em determinados setores da igreja. 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