E se o Haiti fosse aqui?!

D. Odilo Pedro Scherer

A um mês do terremoto que arrasou Porto Príncipe, capital do Haiti, ainda não se acabou de contar e de enterrar os mortos, mas a notícia da catástrofe já passou para um plano bem secundário da mídia, se é que já não saiu de uma vez das páginas dos noticiários… Os mais de 150 mil mortos, as centenas de milhares de desabrigados, as crianças órfãs, as casas destruídas, as feridas que ainda não cicatrizaram, tudo isso já vai caindo no esquecimento, porque não tem mais o sabor da novidade.

Será que povo do Haiti vai ser abandonado a si mesmo daqui a um pouco? Certamente, é preciso reconhecer que houve grandes expressões de solidariedade para a prestação de socorros imediatos, como era preciso; e ainda continua havendo uma mobilização internacional para ajudar a reconstruir aquele país; que tudo isso vá além de discursos mas será preciso esperar para ver.

A Arquidiocese de São também lançou imediatamente um apelo para doações espontâneas, através de uma conta da Cáritas, em favor das vítimas do terremoto; e a primeira resposta do povo foi generosa. Agora, porém, decidimos lançar uma coleta especial e geral em toda a nossa arquidiocese em favor das vítimas do terremoto no Haiti: será no dia 17 de fevereiro, quarta-feira de cinzas, dia que marca o início da Quaresma. A coleta deverá ser feita em todas as igrejas católicas, paroquiais ou não, mediante uma explicação para o povo sobre o sentido do gesto e a motivação para a generosidade de todos. Também colégios, escolas católicas, faculdades, comunidades religiosas, associações de fiéis, movimentos, novas comunidades e outros grupos da Igreja são convidados a fazer a coleta. O fruto dessa coleta seja imediatamente encaminhado para a conta da Caritas indicada para receber as doações, conforme já divulgado.

Nós, brasileiros temos muito a agradecer a Deus por não termos terremotos em nosso país; acontecem alguns desastres naturais, como enchentes, deslizamentos de terra nas montanhas mas, nada que se compara com a destruição e a dor causada por um terremoto; ali, de um momento a outro, a casa cai, a igreja desaba, o hospital fica totalmente danificado, a ponto de não poder socorrer nem mesmo as vítimas que estão debaixo dos próprios escombros; mortos por todo lado, sob as casas, escolas e pontes em ruínas, até mesmo pelas ruas, sem que possam ser enterrados; feridos sem atendimento por falta absoluta de meios para fazê-lo… E as multidões de sobreviventes famintos, que logo aparecem, pois a fome espera, não havendo mais alimentos disponíveis, ou onde prepará-los… E das torneiras não sai água, a luz não acende, as estruturas para assegurar a higiene desaparecem, ou não funcionam… Ruas intransitáveis por muitos dias, por não haver meios para a remoção de escombros pesados…

Imaginemos um terremoto desses em São Paulo, como não seria? Nos nossos bairros de periferia, habitações muito precárias… nada ficaria em pé! E no centro, grandes edifícios desabados por toda parte, ou comprometidos em sua estrutura e condenados à demolição…. Dá para imaginar como ficaria São Paulo? Esse conjunto de reflexões não quer ser mero exercício de fantasia de terror; quer levar à conclusão de que somos muito privilegiados por não termos que lamentar terremotos em nosso país; e por isso, temos muito a agradecer a Deus! Esta reflexão nos leve a sermos generosos na ajuda às vítimas do terremoto do Haiti, um dos países mais pobres do mundo!

Nossa coleta, acontecendo logo na abertura da Quaresma, também é uma boa ocasião para um gesto concreto de conversão a Deus, oferecendo para o bem do próximo o fruto do jejum e da abstinência da quaresma. “Misericórdia eu quero, e não vítimas e holocaustos sobre os altares” – assim recordavam os profetas a vontade de Deus ao povo. Na quarta feira de cinzas, a Igreja nos recorda o apelo de Jesus, no início da sua vida pública: “convertei-vos e crede no Evangelho”. Nossa conversão ao Evangelho se traduza no gesto concreto de socorro do próximo aflito e necessitado do Haiti.

A coleta também será um belo modo de iniciar a Campanha da Fraternidade, cujo tema é “economia e vida” e o lema, “vós não podeis servir a Deus e ao dinheiro”. A economia, no fundo, é a gestão do trabalho, dos negócios e do dinheiro: ela deve estar a serviço das pessoas e da vida, e não do dinheiro pelo dinheiro; a idolatria pelo dinheiro pode tomar o lugar que é devido só a Deus em nossa vida. Ajudar o próximo é um ótimo jeito de empregar dinheiro! E Deus não deixará de fazer render esse investimento. Já dizia o poeta: “quem dá aos pobres empresta a Deus! Foi Jesus mesmo quem garantiu que, até mesmo um copo d’água, dado a um “pequenino de Deus” em seu nome, não ficará sem a sua recompensa.

Pensemos nisso: se o Haiti fosse aqui, quanta ajuda precisaríamos! E como seríamos agradecidos a quem nos ajudasse!