Oração do Matuto

Dia desses minha amiga poeta Fátima Irene Pinto foi, ela e sua sensibilidade, rezar numa daquelas igrejas que tanto abençoam as Minas Gerais. Antes que se dirigisse a Deus, ela ouviu um matuto em sua prece. Fátima silenciou. Ouviu calada, ouvidos pregados em cada palavra daquele homem simples. Ele dizia assim:

“Ói Deus, / nóis tá sempre pedindo as coisas pro Sinhô. / Nóis pede dinhero / nóis pede trabaio / nóis pede pra chovê / e se chove demais / nóis pede pra pará / mode a coiêita num afetá. // Nóis pede amô / nóis pede pra casá / pede casa pra morá / nóis pede saúde / nóis pede proteção / nóis pede paiz / nóis pede pra dislindá os nó / quano as coisa cumprica, / mode a vida corrê mió. // Quano a coisa aperta nóis reza / pedindo tudo que farta / é uma pidição sem fim / e quano as coisa dá certo / nóis vai na igreja mais perto / e no pé de argum santo / que seja de devoção / nóis dexa sempre uns merréis / e lá nos cofre da frente / nóis coloca mais uns tostão. // Mais hoje Meu Sinhô / bateu uma coisa isquisita / e eu me puis a matutá / nóis pede, pede, pede / mas nóis nunca pregunta / comé que o Sinhô tá / se tá triste ou contente / se percisa darguma coisa / que a gente possa ajudá / e por esse esquecimento / o Sinhô há de adescurpá. // Ói Deus, nóis sempre pensa / que o Sinhô não percisa de nada / mais tarvêz não seja assim / tarvêz o Sinhô percisa de mim / Sim … o Sinhô percisa, sim / percisa da minha bondade / percisa da minha alegria / percisa da minha caridade / no trato c’os meus irmão. // Nóis semo o seu espêio / nóis semo a sua Criação / nóis num pode fazê feio / nem ficá fazendo rodeio / mode desapontá o Sinhô / nem amargá o seu sonho / que foi um sonho de amô / quano essa terra todinha criô. // Ói Deus, eu prometo / vo rezá de outro jeito / vo pará com a pidição / e trocá milagre por tostão / tarvez inté eu peça uma graça / mas antes eu vo vê direitinho / o que é que andei fazendo de bão / e se nada de bão encontrá / muito vo me envergonhá / e ainda vo pedí perdão”.

Para a minha amiga só restou manter o silêncio, quebrado por um “Amém” que lhe fugiu da garganta sem pedir licença nem fazer cerimônia.

Rubens Marchioni – rumarchioni@yahoo.com.br

2 Comentários

  1. carlos Alberto Beatriz
    jul 05, 2009 @ 15:47:31

    Somos todos filhos de Deus e também cada um de nós tem um pézinho na Roça. Foi bom ler as linhas acima, que são dedicadas aos nossos irmãos do campo. Que delicadeza o “matuto” e sua conversa com o Pai. Fiquei maravilhado com o desenrolar da oração, a conversa com Deus. Devíamos fazer o mesmo todo dia.
    Marchioni, Sonia, agradecido.
    Carlos

  2. Tatiana Capille Salles
    jul 06, 2009 @ 15:18:06

    Achei linda a oração. Vou espalhar para minhas amigos e amigos.

    OBG por compartilhar.