Primavera das mudanças

Pe. Alfredo J. Gonçalves, Cs

A estação da primavera está para o ano como a aurora para o dia. Após a noite escura e fria, propensa aos fantasmas, o sol do amanhecer remove as sombras e traz a esperança de um recomeço. Assim a primavera. Após o inverno gélido e prenhe de turbulências, raios e tempestades, a nova estação renova sonhos e expectativas. O céu azul e os campos floridos costumam ser a expressão plástica desse renascimento.

Não é sem razão que a primavera tornou-se, no imaginário popular, um dos símbolos mais expressivos na música, na literatura, na arte, na religião, enfim, na trajetória existencial das pessoas. Diz-se, por exemplo, que alguém está na primavera da vida, e isso nem sempre corresponde à idade medida de seus anos. Corresponde também ao rejuvenescimento após um outono nebuloso ou um inverso rígido, ou seja, após uma doença, uma crise pessoal, um fracasso inesperado.

O mesmo vale para determinada sociedade ou determinado país. Também aqui, passadas crises profundas, simbolicamente invernais, um povo pode reerguer-se das trevas, do frio e dos escombros, para construir uma alternativa mais promissora. As transformações, as mudanças e as revoluções normalmente são adjetivadas como primaveris. Afugentam os fantasmas do ódio e da violência e abrem espaço para um horizonte recriado. Que o diga quem experimentou na carne tensões, conflitos ou guerras declaradas.

Nesta perspectiva, seria correto afirmar que, passados os sintomas mais graves da crise financeira, a economia mundial encontra-se em estado de primavera? É difícil imprimir aqui um sim imediato e taxativo. Mais fácil é continuar em tom de interrogação. De fato, primavera tem a ver com cores e sabores, com flores e amores. Tem a ver com crianças brincado nas ruas e praças, com namorados se abraçando e beijando, com passeios e piqueniques. Tem a ver com o desabrochar vigoroso e virulento da vegetação castigada pelos ventos do inverno.

Ora, em geral, as propostas do G20 e dos políticos e economistas para a saída da crise do mercado é mais mercado. O que significa continuidade na devastação dos recursos naturais, ritmo acelerado de produção, maior número de carros individuais nas ruas e mais gás carbÿnico na atmosfera, aceleração do aquecimento global e mais consumo, sempre mais consumo. É o círculo de ferro do produtivismo consumista de nossa cultura ocidental. Tudo para favorecer uma porcentagem de privilegiados do planeta, em detrimento de bilhões de pessoas que vivem das migalhas do progresso científico e tecnológico. O remédio se converte em veneno cada vez mais letal.

Que pena! Nada de novo nesta primavera! Nenhuma flor, nenhuma cor, nenhum amor, nenhum sabor diferente do que já se conhece. A roda vida do capitalismo neoliberal aumenta sua velocidade, ignorando a nova estação. No caso da América Latina, a cobiça pela riqueza, pelo acúmulo e pelo poder vem ressuscitando até um começo de corrida armamentista, coisa que parecia execrada ao lixo da história.

Mas, espera um pouco, não sejamos tão pessimistas. Há sim algo novo debaixo do sol. Milhares e milhares de iniciativas populares, espalhadas por todo o Brasil e por outros países do planeta, vão forjando uma rede capilar de experiências de economia solidária. Ao invés do lucro, o objetivo é dar conta das necessidades básicas das populações mais carentes. Alternativas se multiplicam, formigas trabalham no silêncio, esperanças se renovam.

Mas como competir com a força, os estímulos, o marketing e o fascínio do mercado? Aqui é preciso ter a fé do camponês, acreditar na semente jogada na terra. Tempo de crise é sulco aberto na história para o lançamento de novas sementes. Sementes que não criam espetáculo, não fazem estardalhaço, mas maturam lentamente na umidade oculta do solo. Mergulham suas raízes no interior da terra, para depois, firmes no chão, erguer-se em direção ao céu, ao sol, ao ar livre. Como as sementes, também as mudanças não são feitas de espetáculos. Amadurecem passo a passo na consciência de um povo, até chegarem ao ponto de dar um salto qualitativo em direção à liberdade.

Da mesma forma que a espiga, a flor, o poema ou o edifício, as mudanças se levantam do chão. Primeiro crescem para baixo, buscando as dores e esperanças do povo, depois se projetam para o alto em forma de projetos, sonhos utopias. E então, sim, estaremos deixando o inverso da injustiça e da exclusão social e entrando na primavera de uma nova história.